dilma-aecio-marinaAs pessoas adoram o elemento competitivo das eleições, assim como gostamos da competição no esporte e na economia.

Porém, há uma diferença importante na substância e no resultado da competição política: em vez de aprimorar a performance e estimular as equipes a uma constante melhoria, a competição política parece gerar o resultado oposto.  Os partidos recorrem ao mais sórdido denominador comum entre eles, e parecem dispostos a reproduzir as piores peculiaridades de cada oponente.  Em vez de excelência, ficamos com mediocridade — e com um agravante: a tendência é sempre declinante.

O espetáculo dos debates é uma desgraça.  Fossem os candidatos apenas ligeiramente mais honestos, eles diriam: meus oponentes são tão oportunistas quanto eu, e, caso fossem eles no poder, seriam tão igualmente cúmplices da corrupção e do populismo quanto o atual governo.

O mesmo parâmetro se repete para as outras questões mais específicas.  O candidato A, cujo partido busca a reeleição, foi pavorosamente protecionista.  Os candidatos B e C, embora utilizem palavras aparentemente críticas, prometem ser iguais, só que de uma maneira mais “eficiente” e mais condizente com o “interesse do povo”.  O candidato A aumentou os gastos de forma ultrajante;  B e C não prometem nenhum corte de gastos; dizem apenas que A gastou mal.  A expandiu o assistencialismo de forma catastrófica; B e C dizem que “dá pra fazer melhor”.  A regulou a economia ao máximo; B e C dizem que é possível regular de uma maneira mais “dinâmica”.

Trata-se de uma forma bastante atípica de competição: uma disputa para ver como um pode superar o outro em termos de ideias ruins e de comportamento estupidificante.  Sob uma concorrência genuína, todos esses partidos já estariam exalando odores mefíticos e com urubus rodeando suas carniças.

A mídia, por sua vez, deixa implícito que nós não podemos acusar um político de algo do qual seu oponente também é tão culpado quanto.  Consequentemente, todos ganham um salvo-conduto, e na prática se tornam intocáveis.

Já a competição no mercado é de um tipo diferente.  Ela gera contínuos e inexoráveis aprimoramentos na qualidade.  A empresa que executa seu trabalho com excelência em relação aos concorrentes — que prometem bens e serviços similares — prospera e se expande.  O mercado, quando funcionando sem amarras governamentais, está sempre aberto a novos entrantes que podem mostrar aos atuais produtores como fazer a mesma coisa de maneira melhor e mais eficientemente — ou, no extremo, como fazer algo inteiramente novo.  O preço dos bens e serviços está sempre caindo em termos reais, não obstante a inflação da oferta monetária praticada pelo governo (pense em todos os produtos tecnológicos, como celulares, tablets, televisores e computadores).  Linhas e métodos de produção obsoletos são forçosamente abandonados.  Os consumidores premiam os empreendedores perspicazes e punem os tolos e banais, de modo que apenas os melhores podem crescer.  Existe prestação de contas, qualquer erro gera uma chamada à responsabilidade e há punições para comportamentos indolentes e fraudulentos.

Na política, as pressões competitivas geram resultados exatamente opostos.  A qualidade está sempre em constante declínio.  As únicas melhorias ocorrem nos procedimentos que envolvem más ações: mentir, fraudar, iludir, manipular, trapacear, roubar e até matar.  Os preços dos serviços políticos estão constantemente aumentando, seja nos impostos que pagamos ou nas propinas dadas em troca de proteção (também conhecidas como ‘contribuições de campanha’).  Não há obsolescência, planejada ou espontânea.  E, como Hayek famosamente argumentou, na política, os piores sempre chegam ao topo.  E, o que é pior, não há prestação de contas e nem imputabilidade: quanto mais alto o cargo, maior a transgressão criminosa da qual o sujeito pode se safar.

O que faz a diferença entre esses dois arranjos é a instituição da propriedade privada, pré-requisito estrutural para qualquer competição produtiva.

Sob o socialismo, a competição leva a constantes declínios na qualidade, na moralidade e no desempenho.  No final de tudo, essa tendência destrói a própria civilização.  Já sob o capitalismo, a competição leva a aprimoramentos na qualidade, na moralidade e no desempenho.  É a base absoluta da civilização moderna.

As eleições para cargos públicos reproduzem todos os piores aspectos do socialismo.  Os candidatos tornam-se livres e desimpedidos para mentir abertamente ao público, com o propósito de adquirir poder sobre uma instituição da qual eles não são os proprietários, mas que irão gerenciar por quatro anos, tempo durante o qual a quadrilha vencedora irá implementar medidas econômicas destrutivas que irão beneficiar apenas a si própria e a seus auxiliares (públicos e privados) nesse esquema de extorsão.

Eles não arriscam virtualmente nada que seja deles nesse jogo.  A pior consequência que podem vir a encarar é não serem reeleitos daqui a quatro anos, sendo que sairão de seus mandatos espantosamente enriquecidos pelo dinheiro doado por grupos de interesse que eles financiaram durante o mandato com o dinheiro que você pagou de impostos.

Na iniciativa privada, cada decisão de gerência é testada pelo mercado, a cada minuto de cada dia de trabalho.  Os proprietários dos negócios estão constantemente vigilantes e os consumidores determinam o rumo de toda a produção.  As pessoas no topo têm poder apenas no sentido mais superficial do termo: esse poder pode ser retirado imediatamente pelos consumidores, sendo que, para tal, basta que estes se recusem a continuar consumindo seus produtos.  No livre mercado, são os consumidores que voluntariamente determinam a quem conceder o poder.

Enquanto o mercado garante a liberdade, o governo é a negação da liberdade.  Nenhum governo, em nenhum lugar, pode ser creditado pela existência da liberdade.  Como disse Mises, um governo liberal é uma contradicto in adjecto: duas ideias que não podem se combinar, um oximoro, uma frase impensável.

Há uma tendência inerente a todo poder governamental em não reconhecer nenhuma restrição às suas operações e a ampliar a esfera de seu domínio o máximo possível.  Controlar tudo, não deixar nenhum espaço para que nada aconteça livremente fora da interferência das autoridades — esse é o objetivo que todo governante secretamente se esforça em alcançar.

Mises está chamando a atenção para algo em que as pessoas raramente prestam atenção.  Todos os governos, em todos os lugares, querem ser totalitários.  Só não conseguem atingir tal meta devido à própria incapacidade do estado em fazer as coisas corretamente, ou mesmo por causa da relutância das pessoas em aceitar tal descalabro.

Para entender melhor esse fenômeno, pense em uma organização criminosa.  Ela sem dúvida gostaria de usufruir o livre direito de saquear, extorquir, matar e acumular poder.  Por outro lado, ela também sabe que está se arriscando mais a cada crime cometido.  Se suas atividades enfurecerem muitos, ela corre o risco de perder o poder que já possui.  O mesmo ocorre com os governos: eles desejam o poder total, mas muitas vezes se limitam a ficar apenas com aquilo que lhes permita escapar livremente.

Como vivemos em tempos de declínio cultural e moral acelerado, parece ser indelével o fato de que as pessoas estão mais propensas a tolerar déspotas.  A maioria hoje só reconheceria um tirano na presidência caso ele tivesse um bigode da mesma largura das fossas nasais.

Praticamente todas as pessoas com as quais conversamos hoje em dia admitem um sério desgosto com as opções eleitorais.  Entretanto, ainda assim a maioria das pessoas irá optar nas urnas pelo “menor dos males” — seja lá o que isso signifique, e provavelmente não há como saber antecipadamente —, já sabendo que nenhuma opção real e viável irá surgir.

Na iniciativa privada, desejos ainda não satisfeitos representam oportunidades de lucro.  Nas eleições, eles representam oportunidades para o suborno, a corrupção e a politicagem.

Todo o processo é o bastante para deixar qualquer um cético em relação a campanhas e eleições.  Mas essa é a reação errada.  Não há nada de errado com campanhas e eleições.  Eleições são coisas corriqueiras no ambiente corporativo e em várias outras instituições privadas, inclusive religiosas.  A verdadeira questão está no problema fundamental da “propriedade” pública.  O que não tem dono, não tem racionalismo no uso.  Não tem prestação de contas.  Não tem punição.  Dê-me uma chance de votar contra esse arranjo e eu prometo voltar a comparecer às urnas.

Imprimir