krakow2Quando vemos os líderes mundiais completamente atrapalhados e confusos com a atual crise econômica, é inevitável termos a sensação de que sucesso político e compreensão econômica são coisas mutuamente excludentes.  Mesmo os chineses – que ao longo da última geração foram capazes de engendrar uma dramática reversão de seu pesadelo econômico maoísta – vêm demonstrando uma incrível disposição em seguir uma política monetária (um câmbio fixo em relação ao dólar) que não gera benefício algum para seus cidadãos.  Em meio a esse lamaçal de charlatanismo econômico, é reanimador ver um raio de sanidade emanando de um país: a Polônia.

Em meados de 2009, fui convidado para palestrar no Fórum Econômico realizado em Krynica-Zdrój, uma cidade de veraneio no sul da Polônia.  Fiquei impressionado com o nível de atividade econômica e com espírito cívico exibido por todo o país.  Também fiquei sinceramente surpreso com o fato de que minhas visões econômicas – que são rotineiramente ridicularizadas em minha terra natal, os EUA – tiveram uma aceitação bastante ampla entre os membros do governo polonês que estavam presentes à conferência.

Esse bom senso das autoridades polonesas foi demonstrado em uma coluna escrita pelo ministro da fazenda polonês Jacek Rostowski e publicada semana passada pelo Financial Times.  Contrariamente ao açoitamento que os governos atuais ignorantemente infligem ao livre mercado, Rostowski explicou como foram os próprios governos que causaram o crash de 2008 ao aplicarem políticas que removeram o importante e necessário fator ‘medo’ dos mercados.  Em seu artigo, ele declara que o ocorrido foi uma consequência típica do “grande projeto keynesiano”, no qual os governos, ao longo dos últimos 50 anos, frequentemente tentaram suavizar os ciclos econômicos por meio de maciças e periódicas expansões monetárias em conjunto com aumentos desmesurados dos gastos governamentais.  Eu mesmo não conseguiria ter colocado de forma mais clara.

Produto do movimento Solidariedade que se opôs ao Partido Comunista polonês nos anos 1980, o senhor Rostowski, assim como muitos de seus colegas no atual governo polonês, está intimamente familiarizado com os perigos do planejamento econômico centralizado.  Ele já viu esse filme antes, e sabe muito bem como ele termina.

Por isso, a Polônia pôs em prática políticas econômicas moldadas por uma crença na Escola Austríaca de economia (leia-se ‘livre mercado’).  Após o colapso do comunismo em 1989, Rostowski integrou um grupo que preconizava um “tratamento de choque”: a rápida privatização de empresas estatais e o desmantelamento total dos controles de preço e cambial.

Em 2007, o partido Plataforma Cívica, de inclinações econômicas libertárias, foi alçado ao poder, tendo Rostowski como ministro da fazenda.  Junto com o primeiro-ministro Donald Tusk, ele deu continuidade ao processo de transformação da Polônia em um paraíso laissez-faire.  Não coincidentemente, a Polônia foi o único país membro da União Européia a apresentar crescimento do PIB em 2009, de 1,7%.  Além disso, sua dívida pública de aproximadamente 50% do PIB, baixa para os padrões europeus, lhe posiciona vantajosamente em relação aos vizinhos – e principalmente em relação aos EUA.

Uma das prioridades máximas da atual administração foi reduzir o imposto de renda.  O sistema anterior de três alíquotas – 19%, 30% e 40% – foi reduzido para duas alíquotas: 18% e 32%.  Ademais, o uso mínimo que o sistema faz de deduções e créditos tributários torna-o radicalmente mais simples do que, por exemplo, o sistema tributário dos EUA.

Enquanto isso, a Plataforma Cívica continua seu programa de privatizações.  Recentemente, a Polônia fez umaIPO para sua empresa estatal de energia elétrica, Polska Grupa Energetyczna.  De acordo com a imprensa, “A venda gerou $2,1 bilhões, atingindo o teto da precificação demarcada pelos bancos e se tornando a maior IPO da Europa no ano passado”.  O governo utilizou essas receitas para financiar seu orçamento e manter os impostos sob controle.  Ainda mais importante: ao vender esse ativo, ele devolveu capital ao mercado, possibilitando seu uso da maneira mais eficiente possível.

A Plataforma Cívica também compreendeu que regulamentações afetam desproporcionalmente as pequenas empresas, pois criam barreiras à entrada no mercado.  Felizmente para a Polônia, um já implementado programa plurianual de desregulamentação revelou-se uma dádiva para as pequenas empresas, o que deu ao país o maior número de empreendedores dentre todos os países da Europa.  Isso ajuda a explicar a resiliência do país perante a crise econômica global.

O atual crescimento da Polônia também é aditivado por um grande influxo de investimento estrangeiro.  Para estimular essa afluência, Rostowski apresentou um plano específico para a adoção do euro como moeda do país até 2015.  Embora eu nunca tenha sido um grande admirador do formato do euro – pois sempre fiz apologia do padrão-ouro -, esse esforço demonstra aos investidores estrangeiros um desejo de se controlar a inflação.  Supondo-se que o bloco econômico consiga permanecer unificado, pode-se confiar que o Banco Central Europeu irá manter uma política monetária rígida.  A moeda da Polônia, o zloty, desvalorizou-se rapidamente após o câmbio flutuante ter sido adotado, e embora a taxa de inflação esteja declinando, ela ainda permanece alta.  O ingresso na eurozona irá impor disciplina externa no governo polonês, mesmo que a Plataforma Cívica venha a sair do poder.

Anedoticamente, posso atestar que esse povo está faminto por um livre mercado.  Minha visita a Krynica-Zdrój foi um sopro de ar fresco, e um lembrete alarmante de como o mundo – e principalmente os EUA – se extraviou.  Se o povo polonês conseguir ater-se às traumáticas lições trazidas pelo comunismo, e seguir destemidamente o seu atual caminho, então esse país que simbolizou o campo de batalha do século XX poderá se tornar o paradigma do século XXI.

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