consumerChamar de “deflação” o fenômeno da redução de preços é um dos erros mais sérios que uma pessoa pode cometer na ciência econômica.  É o equivalente a confundir enriquecer com empobrecer.  Tal erro leva as pessoas a acreditarem que um aumento na produção de bens e serviços — algo que, em si, é a base do enriquecimento, mas que também faz com que haja queda nos preços — é ao mesmo tempo a causa de uma contração econômica e do empobrecimento que ela gera.

Para entender corretamente o ponto, é preciso esclarecer algumas coisas.

Os preços podem cair tanto em decorrência de uma maior oferta (isto é, mais bens e serviços sendo produzidos e vendidos) quanto em decorrência de uma menor demanda (isto é, menos dinheiro em existência e/ou um menor volume de gastos com a compra de bens e serviços).

Ou seja, há duas causas distintas para uma queda generalizada nos preços.  Uma é o aumento na produção e na oferta, algo que nunca, de modo algum, deve ser confundido com deflação, depressão ou empobrecimento.  A outra é uma diminuição na quantidade de dinheiro e/ou no volume de gastos no sistema econômico.  Uma diminuição nos preços é o único efeito que elas têm em comum.  Elas diferem profundamente em relação aos seus outros efeitos.

O termo deflação está intimamente associado ao fenômeno da queda nos lucros empresariais e da repentina e substancialmente maior dificuldade em se quitar dívidas, cuja consequência direta é a propagação das insolvências e das falências.  A queda dos lucros e o agudo e repentino aumento no fardo das dívidas são, obviamente, os principais sintomas de uma depressão.

Uma depressão, vale a pena enfatizar, é caracterizada não apenas por uma queda nos preços, mas também por uma forte redução nos lucros (os quais podem até se tornar negativos no agregado) e por um aumento acentuado nas dificuldades em se quitar as dívidas.  Um desemprego em massa também é característica inequívoca de uma depressão.

Por causa de um grande desconhecimento econômico, as causas imediatas da prosperidade — a saber, aumentos na produção e na oferta — passam a ser vistas como geradoras de depressões e do amplo empobrecimento que acompanha as depressões.

Logo de início, o essencial a ser entendido é que uma queda nos preços decorrente de um aumento na produção não gera reduções na taxa média geral de lucros no sistema econômico, e não faz com que a quitação das dívidas fique mais difícil.  Mais ainda: se a redução de preços ocorrer em um ambiente em que esteja havendo um aumento da quantidade de dinheiro e um aumento do volume de gastos — de modo que tal redução de preços seja meramente resultado do fato de que o aumento da produção e da oferta foi maior do que o aumento da quantidade de dinheiro e dos gastos —, então essa redução de preços será acompanhada de uma elevação da taxa de lucros e de uma maior facilidade na quitação de dívidas.

Esse seria exatamente o cenário em um padrão-ouro, na medida em que a oferta de ouro cresce modestamente de um ano para o outro em decorrência de minerações contínuas e expandidas, e o volume de gastos em termos de ouro cresce proporcionalmente.  Nessas circunstâncias, um vendedor comum estaria em condições de vender seus bens a preços menores e, ao mesmo tempo, a um volume maior.

Por exemplo, se a redução de preços decorre do fato de que a quantidade de dinheiro e de volume de gastos está aumentando a uma taxa anual de 2% enquanto que a produção e a oferta de bens estão aumentando a uma taxa anual de 3%, então um vendedor nesse sistema econômico poderá vender 3% mais bens a preços apenas 1% menores.  Assim, suas receitas de venda serão 2% maiores, e é isso o que importa para seus lucros nominais e para sua capacidade de quitar dívidas.  Seus lucros serão maiores e sua capacidade de quitar dívidas, também.  Houve queda de preços, mas de modo algum houve deflação.

O que de fato destrói os lucros e dificulta a quitação de dívidas não é uma queda nos preços, mas uma contração monetária — isto é, uma redução na quantidade de dinheiro e/ou no volume de gastos no sistema econômico.  É isso o que provoca redução nas receitas de venda.  Mais ainda: como os custos são determinados tendo por base as despesas ocorridas em um período de tempo anterior, a contração monetária provoca uma correspondente redução nos lucros.  É essa contração também que torna o pagamento das dívidas mais difícil: como agora há menos dinheiro disponível na economia, torna-se mais difícil obter a mesma quantia nominal necessária para ser usada na quitação das dívidas.  É a contração monetária, e a contração monetária apenas, que deveria ser chamada de deflação.

Padrão-ouro e a deflação

Ao passo que um padrão-ouro definitivamente pode e provavelmente irá gerar uma queda nos preços, ele não gera uma queda nos lucros, tampouco uma maior dificuldade para a quitação das dívidas ou um desemprego em massa.  A conjunção dessas três últimas situações com o fenômeno da queda dos preços é resultado de umadiminuição na quantidade de dinheiro e no volume dos gastos.  Uma redução na quantidade de dinheiro e no volume de gastos é resultado não de um padrão-ouro, mas da adoção incompleta de um padrão-ouro.  É resultado de um padrão-ouro operando sob um sistema bancário de reservas fracionárias, no qual o ouro representa apenas uma fração da oferta monetária, sendo que o resto é composto por meios fiduciários (dinheiro eletrônico ou certificados monetários para os quais não há o correspondente lastro em ouro).  Nessas circunstâncias, se os agentes econômicos derem um calote em suas dívidas, isso poderá causar uma sucessão de quebras bancárias, as quais farão reduzir a quantidade de dinheiro e o volume de gastos na economia.

Sob um padrão-ouro operando com reservas de 100% — isto é, sem reservas fracionárias —, o ouro continuará sendo escavado a uma taxa maior do que aquela em que ele é fisicamente perdido — por exemplo, quando um navio naufraga ou quando defuntos são enterrados com próteses dentárias de ouro.  Consequentemente, a quantidade de dinheiro e o volume de gastos sob um padrão-ouro 100% estarão sempre aumentando.  Entretanto, isso ocorrerá a uma taxa modesta.  Os preços caem na medida em que o aumento na produção e na oferta de bens e serviços é maior do que o aumento na quantidade de ouro e nos gastos.

Como explicado no início, não obstante essa queda nos preços, o aumento na quantidade de ouro monetário e nos gastos faz com que, sob um padrão-ouro 100%, a taxa média de lucros de todo o sistema econômico aumente.  Isso vai ocorrer pelo simples motivo de que, nesse cenário, a tendência é que haja mais dinheiro e mais gastos na economia no momento em que os bens são vendidos do que havia no período de tempo anterior, quando o dinheiro foi gasto nos fatores de produção desses bens.  Ou seja: no período de tempo t2 (quando os bens são vendidos) haverá mais dinheiro na economia do que no período de tempo t1 (quando os bens foram produzidos).  Consequentemente, a margem em que as receitas de venda superam os custos de produção é correspondentemente aumentada.

Ademais, não obstante a correspondente queda nos preços causada pelo aumento mais rápido na produção e na oferta de bens e serviços, o aumento na quantidade de ouro e no volume de gastos em termos de ouro faz com que o pagamento das dívidas seja um tanto mais fácil.  Por exemplo, suponha que as receitas de vendas no sistema econômico estejam aumentando a uma taxa de 2% — por causa de aumentos na oferta de ouro e no volume de gastos —, mas que os preços estejam caindo a uma taxa de 3%, porque a oferta de bens e serviços aumentou 5% no ano.

Nesse caso, um vendedor comum terá 5% mais bens para vender a preços apenas 3% menores.  Suas receitas de venda aumentarão 2%.  Ele poderá auferir receitas progressivamente crescentes, não obstante a queda nos preços, pois o aumento na oferta de bens e serviços que ele pode vender é maior do que a queda em seus preços de venda.  Isso ocorreu porque a produção da economia foi maior do que o aumento da oferta monetária (ouro) e dos gastos.

A modesta elevação da taxa de lucro decorrente do aumento na quantidade de ouro é o oposto do que ocorre em uma depressão.  O mesmo é válido para a maior facilidade (e não maior dificuldade) em se quitar dívidas.

Assim, a verdade é que um padrão-ouro 100%, com seus preços em queda, é um inimigo tão grande da deflação quanto da inflação.

Por fim, em relação ao desemprego em massa: se houver uma deflação — no sentido correto do termo, ou seja, uma redução na quantidade de dinheiro e no volume de gastos —, então uma queda nos preços, longe de ser a causa da deflação/depressão, será a solução.  Em tais circunstâncias, uma redução nos salários e nos preços é exatamente aquilo de que se precisa para permitir que uma reduzida quantidade de dinheiro e de volume de gastos possa comprar tudo o que uma quantidade anteriormente maior de dinheiro e de volume de gastos podia comprar.  Se, por exemplo, como ocorreu nos EUA em 1929, houvesse originalmente $50 bilhões em gastos salariais empregando 50 milhões de trabalhadores a um salário médio anual de $1.000, e agora, por causa da deflação, há apenas $40 bilhões em gastos com 40 milhões de trabalhadores, o pleno emprego poderia ser restaurado se o salário médio caísse de $1.000 para $800 por ano.  Nesse caso, $40 bilhões poderiam empregar o mesmo tanto de trabalhadores que $50 bilhões empregavam.

Crer que uma queda nos salários e nos preços — algo necessário para se recuperar de uma deflação como — é em si uma deflação e, com isso, querer impedir essa queda, como ocorreu durante o governo Hoover e todo o New Deal nos EUA, é uma atitude que irá apenas perpetuar o desemprego e a depressão.

Conceitos confusos resultam em consequências catastróficas.

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