6565No início deste mês, o principal jornal conservador da Argentina, o La Nación, publicou um editorial no qual comparava a economia da Argentina à da Venezuela.  O editorial concluiu que, à medida que a liberdade econômica vai encolhendo na Argentina, e à medida que a Argentina vai adotando, em doses cada vez mais cavalares, aquilo que Hugo Chávez rotulou de “socialismo do século XXI”, o país vai se tornando cada vez mais parecido com a Venezuela.  A questão é: irá a Argentina vivenciar o mesmo destino trágico da Venezuela, onde a pobreza está aumentando e itens básicos como papel higiênico se tornaram artigos de luxo?

A semelhança entre as regulamentações e os problemas econômicos que assolam ambos os países é de fato notável, não obstante as óbvias diferenças entre os dois países.  E, ainda assim, quando os argentinos são questionados a respeito destas similaridades, é comum ouvir respostas do tipo “mas a Argentina não é a Venezuela; temos mais infraestrutura e mais recursos”.

O problema é que mudanças institucionais definem o destino de um país apenas no longo prazo.  Elas não definem sua prosperidade no curto prazo.

Imagine que Cuba e Coréia do Norte se tornassem, da noite para o dia, os países mais economicamente livres do mundo, com mercados plenamente livres e liberdades civis totais.  Isso bastaria?  Embora os dois países houvessem adquirido liberdades civis e econômicas imediatas, o fato é que eles ainda teriam de acumular riqueza e desenvolver suas economias.  A mudança institucional afeta a situação política imediatamente, mas uma nova economia requer tempo para adquirir forma.  Por exemplo, quando a China abriu parte de sua economia para os mercados internacionais, o país começou a crescer economicamente.  Hoje, estamos todos vendo os efeitos destas décadas de relativa liberalização econômica.  É verdade que várias áreas da China ainda sofrem uma ausência de liberdades significativas, mas o país seria muito diferente hoje caso houvesse se recusado a mudar suas instituições décadas atrás.

O mesmo ocorreria caso um dos mais ricos e desenvolvidos países do mundo adotasse, da noite para o dia, instituições cubanas ou norte-coreanas.  Sua riqueza e todo o seu capital acumulado não desapareceriam em 24 horas.  A dilapidação do capital, embora seja um processo bem mais rápido do que sua acumulação, não se dá de imediato.  O país deixaria de continuar acumulando capital e passaria meramente a consumir seu capital, mas poderia demorar décadas para dilapidar toda a riqueza já construída.  Enquanto ainda houver riqueza, o governo terá recursos para brincar de bolivarianismo — que é o modelo de socialismo populista criado pelo governo da Venezuela — ao mesmo tempo em que continua usufruindo a riqueza, as rodovias, a infraestrutura elétrica e as redes de comunicação já existentes, as quais foram resultado das instituições mais pró-mercado que existiram no passado.

Com o tempo, no entanto, as rodovias começam a se deteriorar por falta de manutenção e investimentos (ou os trens começam a se acidentar gravemente, matando dezenas de passageiros), o setor energético começa a apresentar falhas contínuas e graves, a importação de energia se torna inevitável, e as redes de comunicação ficam obsoletas.  Em outras palavras, todo o populismo econômico é financiado por recursos acumulados por instituições não-populistas, e ele irá durar enquanto houver riqueza a ser dilapidada.

De acordo com o ranking de liberdade econômica do Fraser Institute, a Argentina estava na 32º posição no ano 2000.  Em 2011, no entanto, a Argentina já havia despencado para a 137ª posição, próxima a países como Equador, Mali, China, Nepal, Gabão e Moçambique.  Não há dúvidas de que a Argentina usufrui uma taxa de desenvolvimento e de riqueza maior que a desses outros países.  Mas será que tal situação perdurará pelos próximos 20 ou 30 anos?  A presidente argentina já afirmou que gostaria que a Argentina fosse um país como a Suíça ou a Alemanha, mas o problema é que o caminho para se tornar parecido com a Suíça ou com a Alemanha envolve a adoção de instituições iguais às suíças e alemãs, e não a adoção de instituições venezuelanas, que é o que a Argentina está fazendo.

O grande problema — que ajudou a perpetuar o atual modelo — foi o fato de que, quando as instituições venezuelanas foram inicialmente adotadas na Argentina, isso coincidiu com uma alta taxa de crescimento econômico.  Mas estas taxas de crescimento, no entanto, são bastante enganosas.

Em primeiro lugar, “crescimento econômico”, quando corretamente entendido, não é um aumento na “produção”, mas sim um aumento na “capacidade produtiva”.  O alto crescimento observado no PIB após uma grande crise é meramente uma ‘recuperação econômica’, e não necessariamente representam um crescimento na capacidade produtiva, que é o que realmente interessa.

Em segundo lugar, é possível você aumentar sua capacidade produtiva investindo em atividades econômicas erradas, para as quais não há uma genuína demanda.  Uma pesada regulamentação de preços, como a que ocorre na Argentina (agora acompanhada de uma alta taxa de inflação), gera uma alocação errônea de recursos, pois os preços relativos — isto é, os preços de um determinado setor da economia em relação aos preços dos outros setores — são afetados, fazendo com que os preços de um setor se tornam artificialmente maiores do que os de outros, o que atrai investimentos para este setor.  Embora seja perfeitamente possível ver e até mesmo sentir estes novos investimentos nestes setores, a realidade é que este capital resultou de uma ilusão monetária.  O conceito econômico de capital não depende da tangibilidade ou do tamanho do investimento (isto é, de suas propriedades físicas), mas sim de seu valor econômico.  Quando chegar o momento de os preços relativos se ajustarem de modo a refletir as reais preferências dos consumidores, o valor de mercado deste capital irá cair e ele então será consumido ou destruído em termos econômicos — mesmo que suas qualidades físicas permaneçam inalteradas.  Um bom exemplo disso são os imóveis que foram construídos excessivamente na Espanha — e que hoje totalizam um milhão de casas vazias —, cujo valor atual é metade do que foi no auge da bolha imobiliária.

Em terceiro lugar, a produção pode aumentar não por causa de um aumento nos investimentos, mas sim porque as pessoas estão consumindo o capital investido — como ocorre quando há um aumento na taxa de desgaste das máquinas e da infraestrutura.

Não estou dizendo que não houve nenhum crescimento genuíno na Argentina, mas sim que uma fatia não-trivial do crescimento do PIB argentino pode ser explicada por: (1) recuperação, (2) alocação errônea de investimentos, e (3) consumo de capital.  Afinal, se todo o crescimento do PIB fosse de fato um crescimento genuíno, a criação de empregos não estaria estagnada e a infraestrutura do país estaria excelente, e não em frangalhos.

A maioria dos economistas e dos analistas de políticas públicas tende a fazer uma leitura superficial das variáveis econômicas.  Para eles, se algumas variáveis econômicas estiverem robustas, o PIB estiver crescendo e a inflação se mantiver sob controle, então a economia está saudável.  O problema é que o fato de estarmos observando bons indicadores econômicos não significa que a economia esteja realmente saudável.  Há uma razão pela qual um médico pede a um paciente aparentemente saudável que faça alguns exames.  Sentir-se bem não significa que não possa existir uma doença que ainda não tenha demonstrado nenhum sintoma óbvio no momento.

O economista que se recusa a examinar mais detidamente a real situação de uma economia é como um médico que se recusa a examinar mais minuciosamente seu paciente.  O paciente argentino contraiu a doença bolivariana, mas a maior parte de seus sintomas dolorosos ainda está para se manifestar.

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Leia também: Cambalache – a história do colapso econômico da Argentina

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