Até agora, dificilmente pode ser alegado para os resultados da investigação sobre o problema acima citado, que eles são proporcionados, quer com o grande desenvolvimento em pesquisa histórica em geral, quer com a despesa de tempo e intelecto gastos nos esforços na solução. O fenômeno enigmático do dinheiro esta até hoje sem uma explicação que satisfaça; nem tampouco há concordância quanto as questões mais fundamentais de sua natureza e funções. Ainda hoje, não temos uma teoria do dinheiro satisfatória.

A ideia que primeiro veio à tona para explicar a função específica do dinheiro como um meio de troca corrente universal, foi de referir-se a ele como uma convenção geral ou uma isenção jurídica. O problema, que a ciência tem para resolver aqui, consiste em dar uma explicação de uma conduta de ação geral e homogênea seguida pelos seres humanos quando envolvidos em intercâmbio comercial, que, de forma concreta, fazem incontestavelmente pelo interesse comum e, no entanto, que parece conflitar com os interesses mais próximos e imediatos de indivíduos contratantes. Sob tais circunstâncias, o que poderia ser mais contíguo do que a noção de referir-se ao procedimento acima citado a causas situadas fora da esfera de considerações individuais? Assumir que certas comódites, em particular os metais preciosos, foram exaltados no meio de troca por convenção geral ou lei, no interesse do bem comum, resolveu a dificuldade, e resolveu aparentemente de forma mais fácil e natural visto que o formato de moeda parecia ser um símbolo da regulamentação estatal. Tal é, de fato, a opinião de Platão, Aristóteles e dos juristas romanos, seguidos de perto pelos escritores medievais. Mesmo os desenvolvimentos mais modernos na teoria do dinheiro não foram, em substância, além deste ponto de vista.[1]

Examinado mais de perto, a suposição subjacente a esta teoria deu espaço a dúvidas sérias. Um evento de tal tamanho, significado universal e notoriedade tão inevitável, como o estabelecimento por lei ou convenção de um meio de troca universal, certamente teria sido retido na memória do homem, mais certamente visto que teria que ser realizado em um grande número de lugares. No entanto, nenhum documento escrito histórico nos da notícias confiáveis de quaisquer transações que conferem um reconhecimento distinto sobre os meios de troca já em uso, ou que se referem a sua adoção por povos de cultura relativamente recente, muito menos testemunhando uma iniciação das primeiras eras da civilização econômica no uso do dinheiro.

E, na verdade, a maioria dos teóricos sobre este assunto não param na explicação do dinheiro como o indicado acima. A peculiar adaptabilidade dos metais preciosos para propósitos de moeda e cunho foram notadas por Aristóteles, Xenofonte, e Plínio, e em uma maior medida por John Law, Adam Smith e seus discípulos, que procuraram todos por uma explicação adicional  sobre a escolha feita deles como meio de troca, em suas qualificações especiais. No entanto, é claro que a escolha dos metais preciosos por lei e convenção, mesmo que feita em conseqüência de sua peculiar adaptabilidade para fins monetários, pressupõe a origem pragmática do dinheiro e a seleção desses metais, e esse pressuposto não é histórico. Nem mesmo os teóricos acima mencionados encaram honestamente o problema que deve ser resolvido, isto é, a explicação de como aconteceu que certas comódites (os metais preciosos em certos estágios da cultura), deveriam ser promovidas entre a massa de todas as outras comódites e aceitas como os meios de troca comumente reconhecidos. Trata-se de uma questão que diz respeito não somente à origem, mas também à natureza do dinheiro e à sua posição em relação a todas as outras comódites.

 

__________________________________

Notas:

[1] Cf. Roscher, System Der Volkswirthscaft, I sec. 116; meu Grunsatze der Volkswirischaftslehre, 1871, p. 255, et seq.; M. Block, Les Progres de la Science economique depuis A. Smith, 1890, II. p. 59, et seq.

Imprimir