As primeiras cinco conferências nesta série tratarão sobre filosofia, não sobre economia. A filosofia é importante porque todos nós, tenhamos ou não consciência desse fato, possuímos uma filosofia definida, e suas ideias filosóficas orientam suas ações.

A filosofia de hoje é a de Karl Marx [1818-1883]. Ele é a personalidade mais poderosa da nossa época. Karl Marx e as ideias de Karl Marx — ideias que ele não inventou, desenvolveu, ou melhorou, mas que ele combinou num sistema — são amplamente aceitas hoje, mesmo por muitos que enfaticamente se declaram anticomunistas e antimarxistas. Sem saber, muitas pessoas são filosoficamente Marxistas, embora utilizem nomes diferentes para suas ideias filosóficas.

Marxistas hoje falam de Marxismo-leninismo-estalinismo. Volumes são escritos hoje na Rússia sobre as contribuições de [Vladimir Ilyich] Lênin [1870-1924] e [Josef] Stalin [1879-1953]. No entanto, o sistema permanece o que era nos tempos de Karl Marx; o Marxismo está de fato petrificado. Lênin contribuiu somente com injúrias muito fortes contra seus adversários; Stalin não contribuiu nada. Assim, é duvidoso chamar quaisquer destas contribuições de “nova”, quando nós percebemos que a contribuição mais importante de Marx para sua filosofia foi publicada em 1859.[1]

Leva muito tempo para ideias conquistarem o mundo. Quando o Marx morreu em 1883, o nome dele era em geral desconhecido. Alguns jornais relataram em um par de linhas que Karl Marx, autor de vários livros, tinha morrido. Eugen von Böhm-Bawerk [1851-1914] publicou[2] uma crítica sobre as ideias econômicas de Marx em 1896, mas foi somente 20 anos depois que as pessoas começaram a considerar Marx um filósofo.

As ideias de Marx e de sua filosofia realmente dominam nossa época. A interpretação dos eventos atuais e a interpretação da história em livros populares, bem como nos escritos filosóficos, novelas, peças de teatro, e assim sucessivamente, são geralmente Marxistas. No centro está a filosofia Marxista da história. Desta filosofia é tomado emprestado o termo “dialético”, que é aplicado a todas suas ideias. Mas isso não é tão importante como é compreender o que materialismo marxista significa.

Materialismo tem dois sentidos diferentes. O primeiro refere-se exclusivamente aos problemas éticos. Um homem material só está interessado em coisas materiais — comida, bebida, abrigo — não em arte, cultura, e assim sucessivamente. Nesse sentido a maioria dos homens é materialista. O segundo sentido do materialismo refere-se a um grupo especial de soluções sugeridas para um problema básico da filosofia — a relação entre a mente humana ou espírito de um lado, e o corpo humano e suas funções fisiológicas do outro lado. Diversas respostas foram oferecidas a este problema — entre elas as respostas religiosas. Nós sabemos muito bem que existe uma conexão entre corpo e mente; a medicina provou que determinados danos ao cérebro provocam algumas mudanças no funcionamento da mente humana. Porém, os materialistas deste segundo grupo explicam todas as manifestações da mente humana como produtos do corpo.

Entre estes materialistas filosóficos, existem duas correntes de pensamento:

A. Uma escola que considera o homem como uma máquina. Este grupo diz que estes problemas são muito simples — a “máquina” humana funciona exatamente como qualquer outra máquina. Um Francês, Julien de La Mettrie [1709-1751], escreveu o livro que contém esta ideia, Man, the Machine; e hoje muitas pessoas ainda querem explicar todas as operações da mente humana, direta ou indiretamente, como se fossem operações mecânicas. Por exemplo, veja a Enciclopédia de Ciências Sociais. (Encyclopedia of the Social Sciences) Um dos colaboradores, professor na New School for Social Research, diz que a criança recém-nascida é como um carro Ford, pronto para funcionar. Talvez! Mas uma máquina, um Ford recém-fabricado, não funciona por si só. Uma máquina não realiza nada, não faz nada sozinha — sempre são os homens ou um certo número de homens que realizam algo através da máquina. Alguém precisa ativar a máquina. Se a atividade do homem cessar, a atividade da máquina também cessa. Nós temos que perguntar para este professor da New School for Social Research, “Quem ativa a máquina?”. A resposta destruiria a doutrina materialista da máquina.

Às vezes as pessoas falam sobre “alimentar” a máquina, como se estivesse viva. Mas, evidentemente, não está. Em seguida, às vezes as pessoas também afirmam que a máquina sofreu um “colapso nervoso”. Mas como um objeto sem nervos pode sofrer um colapso nervoso? Está teoria “maquinista” foi repetida várias vezes, mas não é muito realista. Nós não temos que lidar com isto porque nenhum homem sério realmente acredita nisto.

B. A teoria fisiológica proposta pela segunda classe dos materialistas é mais importante. Esta teoria foi formulada originalmente por Ludwig Feuerbach [1804-1872] e Karl Vogt [1817-1895] nos primeiros dias de Karl Marx. Esta ideia dizia que os pensamentos e as ideias são “simplesmente” secreções do cérebro. (Nenhum filósofo materialista nunca deixou de usar a palavra “simplesmente”. Que significa, “eu sei, mas eu não posso explicar”). Hoje os cientistas sabem que determinadas condições patológicas causam certas secreções, e que essas secreções causam determinadas atividades no cérebro. Mas estas secreções são quimicamente as mesmas para todas as pessoas na mesma situação e condição. Contudo, ideias e pensamentos não são as mesmas para todas as pessoas na mesma situação e condição; elas são diferentes.

Primeiro, ideias e pensamentos não são tangíveis. E segundo, os mesmos fatores externos não produzem a mesma reação em todo mundo. Uma maçã caiu uma vez de uma árvore e bateu num certo jovem [Isaac Newton]. Isto pode ter acontecido a muitos outros jovens antes, mas este acontecimento particular desafiou este jovem particularmente e ele desenvolveu algumas ideias disto.

Mas as pessoas nem sempre têm os mesmos pensamentos quando elas presenciam os mesmos fatos. Por exemplo, na escola alguns aprendem; outros não. Há diferenças nos homens.

Bertrand Russell [1872-1970] perguntou, “Qual é a diferença entre os homens e as pedras?” Ele disse que não havia nenhuma diferença, a não ser que os homens reagem a mais estímulos que as pedras. Mas na verdade há uma diferença. Pedras reagem de acordo com um padrão definido que nós podemos conhecer; podemos prever o que acontecerá a uma pedra se ela for tratada de uma determinada forma. Mas nem todos os homens reagem da mesma forma quando são tratados de determinada maneira; nós não podemos estabelecer tais categorias de ações para homens. Assim, embora muitas pessoas pensem que materialismo fisiológico é uma solução, na verdade conduz a um beco sem saída. Se realmente fosse a solução para este problema, isso significaria que, em qualquer caso, nós poderíamos saber como todos reagiriam. Não podemos sequer imaginar quais seriam as consequências se todo mundo soubesse o que todos os outros iriam fazer.

Karl Marx não era um materialista no primeiro sentido — o sentido “maquinista”. Mas a ideia fisiológica era muito popular na sua época. Não é fácil saber exatamente o que influenciou Marx porque ele odiava algumas pessoas e de outras tinha inveja. Karl Marx odiava Vogt, o representante do materialismo fisiológico. Assim que materialistas como Vogt começaram a falar de política, Karl Marx disse que eles tinham ideias ruins; isso significava que Marx não gostava delas.

Marx desenvolveu o que ele pensava ser um novo sistema. De acordo com sua interpretação materialista da história, as “forças produtivas materiais” (esta é uma tradução exata do Alemão) são as bases de tudo. Cada etapa das forças produtivas materiais corresponde a uma fase definida de relações de produção. As forças produtivas materiais determinam as relações de produção, isto é, o tipo de possessão e propriedade que existem no mundo. E as relações de produção determinam a superestrutura. Na terminologia de Marx, capitalismo ou feudalismo são relações de produção. Cada um destes foi necessariamente produzido por uma fase particular das forças produtivas materiais. Em 1859, Karl Marx disse que uma nova fase das forças produtivas materiais produziria o socialismo.

Mas o que são estas forças produtivas materiais? Da mesma forma que Marx nunca disse o que era uma “classe”, ele nunca disse exatamente o que são as “forças produtivas materiais”. Após analisar suas obras nós descobrimos que as forças produtivas materiais são as ferramentas e as máquinas. Num de seus livros [Misère de la philosophie – A miséria da Filosofia], escrito em Francês em 1847, Marx afirma que “a fábrica manual produz o feudalismo – a fábrica a vapor produz o capitalismo.”[3] Ele não disse isto neste livro, mas em outras obras ele escreveu que surgiriam outras máquinas que iriam produzir o socialismo.

Marx tentou arduamente evitar a interpretação geográfica do progresso, porque isso já havia caído em descrédito. O que ele disse foi que as “ferramentas” eram a base de progresso. Marx e [Friedrich] Engels [1820-1895] acreditavam que novas máquinas seriam desenvolvidas e que elas conduziriam ao socialismo. Eles alegravam-se com as novas máquinas, pensando que isso significava que o socialismo estava próximo. No livro Francês de 1847, ele criticou aqueles que davam importância à divisão do trabalho; ele afirmou que as ferramentas eram importantes.

Nós não devemos esquecer que ferramentas não caem do céu. Elas são produto de ideias. Para explicar as ideias, Marx disse que as ferramentas, as máquinas — as forças produtivas materiais — se refletem nos cérebros dos homens e assim as ideias surgem. Mas as ferramentas e as máquinas são, elas mesmas, o produto das ideias. Além disso, antes de existir máquinas, deve existir a divisão do trabalho. E antes de existir a divisão do trabalho, ideias definidas precisam ser desenvolvidas. A origem destas ideias não pode ser explicada por algo que só é possível numa sociedade, que é, ela mesma, produto de ideias.

O termo “materiais” fascinou as pessoas. Para explicar mudanças em ideias, mudanças em pensamentos, mudanças em todas essas coisas que são os produtos de ideias, Marx os reduziu a mudanças em ideias tecnológicas. Nisto ele não era original. Por exemplo, Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz [1821-1894] e Leopold von Ranke [1795-1886] interpretaram a história como a história da tecnologia.

É tarefa da história explicar por que determinadas invenções não foram postas em prática por pessoas que tiveram todo o conhecimento físico requerido para sua construção. Por que, por exemplo, os antigos gregos, que tiveram o conhecimento técnico, não desenvolveram estradas de ferro?

Assim que uma doutrina se torna popular, ela é simplificada de tal forma que permita a compreensão das massas. Marx dizia que tudo depende das condições econômicas. Como declarou em seu livro Francês [A miséria da Filosofia] de 1847, ele entende que a história das fábricas e ferramentas desenvolveram-se independentemente. Segundo Marx, todo o movimento da história humana aparece como consequência natural do desenvolvimento das forças produtivas materiais, as ferramentas. Com o desenvolvimento das ferramentas, a estrutura da sociedade muda e, consequentemente, tudo o mais muda também. Por tudo o mais, ele quis dizer a superestrutura. Autores Marxistas, escrevendo depois de Marx, explicaram tudo na superestrutura como resultado de mudanças definitivas nas relações da produção. E eles explicaram tudo nas relações de produção como resultado das mudanças nas ferramentas e máquinas. Isto foi uma vulgarização, uma simplificação, da teoria marxista. Marx e Engels não foram completamente responsáveis por isso. Eles criaram muitas tolices, mas eles não são responsáveis por toda a tolice de hoje.

Qual é a influência desta teoria marxista sobre as ideias? O filósofo René Descartes [1596-1650], que viveu no início do século XVII, acreditava que o homem tinha uma mente e que o homem pensa, mas que os animais eram simplesmente máquinas. Marx afirmou, naturalmente, que Descartes viveu numa época em que a “Manufakturperioden”, as ferramentas e máquinas, eram tais que ele foi forçado a explicar sua teoria afirmando que os animais eram máquinas. Albrecht von Hailer [1708-1777], um Suíço, afirmou a mesma coisa no século XVIII (ele não gostava da igualdade perante a lei dos governos liberais). Entre estes dois homens, viveu La Mettrie, que também explicou homem como uma máquina. Portanto, o conceito de Marx, de que as ideias eram um produto das ferramentas e máquinas de uma determinada época, é facilmente refutado.

John Locke [1632-1704], o conhecido filósofo do empirismo, declarou que tudo na mente do homem provém da experiência dos sentidos. Marx afirmou que John Locke era um porta-voz da doutrina classista da burguesia. Isto conduz a duas deduções diferentes das obras de Karl Marx: (a) A interpretação que ele deu a respeito de Descartes é que ele vivia numa época em que as máquinas foram introduzidas e, portanto, Descartes explicou o animal como uma máquina; e (b) A interpretação que ele deu a respeito da inspiração de John Locke — que ela veio do fato de que ele era um representante dos interesses classistas dos burgueses. Aqui estão duas explicações incompatíveis para a origem das ideias. A primeira destas duas explicações, no sentido de que as ideias são baseadas em forças produtivas materiais, as ferramentas e máquinas, é inconciliável com a segunda, a saber, que os interesses de classe determinam as ideias.

Segundo Marx, todos são forçados — pelas forças produtivas materiais — a pensar de tal maneira que o resultado mostre seus interesses de classe. Você pensa da forma que seus “interesses” forçam você pensar; você pensa de acordo com seus “interesses” de classe. Seus “interesses” são algo independente da sua mente e suas ideias. Seus “interesses” existem no mundo além de das suas ideias. Consequentemente, a produção de suas ideias não é nenhuma verdade. Antes da aparição de Karl Marx, a noção de verdade não tinha qualquer significado para todo o período histórico. O que o pensamento das pessoas produziu no passado sempre foi “ideologia”, não verdade.

“Les idéologues” na França foram bem advertidos por Napoleão [1769-1821], que disse que tudo ficaria bem na França exceto para os “idéologues”. Em 1812, Napoleão foi derrotado. Ele deixou o exército na Rússia, retornou só, incógnito, e apareceu em de dezembro de 1812 em Paris. Ele jogou a culpa dos males que aconteceram ao seu país sobre os maus “idéologues”, que influenciaram o país.

Marx usou ideologia num sentido diferente. Segundo Marx, ideologia era um pensamento doutrinário produzido por membros de uma classe. Estas doutrinas necessariamente não eram verdades, mas somente as expressões dos interesses classistas. Naturalmente, um dia haverá uma sociedade sem classes. Uma classe — a classe proletária — prepara o caminho para a sociedade sem classes. A verdade de hoje é a ideia dos proletários. Os proletários abolirão todas as classes e então virá a Idade Dourada, a sociedade sem classes.

Marx chamava Joseph Dietzgen [1828-1888] de proletário, mas Marx o teria chamado de pequeno-burguês se soubesse mais sobre ele. Oficialmente Marx aprovou todas as ideias de Dietzgen, mas em sua correspondência privada com Ferdinand Lassalle [1825-1864] ele expressou alguma discordância. Não existe lógica universal. Cada classe possui sua própria lógica. Mas, evidentemente, a lógica do proletariado é a verdadeira lógica do futuro. (Estas pessoas ficaram ofendidas quando os racistas assumiram as mesmas ideias, alegando que as diferentes raças possuem diferentes lógicas, mas a lógica dos Arianos é a verdadeira lógica)

A sociologia do conhecimento de Karl Mannheim [1893-1947] se desenvolveu das ideias de Hitler. Todo o mundo pensa em ideologias — i.e., falsas doutrinas. Mas há uma classe de homens que desfruta de um privilégio especial — Marx os denominou “intelectuais não-engajados”. Estes “intelectuais não-engajados” possuem o privilégio de descobrir verdades que não são ideologias.

A influência dessa ideia de “interesses” é enorme. Em primeiro lugar, é importante lembrar que esta doutrina não afirma que os homens agem e pensam de acordo com o que eles consideram ser seus próprios interesses. Em segundo lugar, recorde que ela considera os “interesses” como independentes dos pensamentos e ideias dos homens. Estes interesses independentes obrigam os homens a pensar e agir de uma forma definida. Como um exemplo da influência que esta ideia possui sobre nosso pensamento hoje, eu poderia mencionar um Senador Americano — não é um Democrata — que afirmou que as pessoas votam de acordo com seus “interesses”; ele não disse de acordo com o que eles pensam ser seus interesses. Esta é a ideia de Marx — assumindo que “interesses” são algo definido e além das ideias de uma pessoa. Esta ideia de doutrina de classe foi primeiramente desenvolvida por Karl Marx no Manifesto Comunista.

Nem Engels, nem Marx eram do proletariado. Engels era muito rico. Ele caçava raposas em um casaco vermelho — este era o passatempo dos ricos. Teve uma namorada que ele considerava demasiado abaixo dele para pensar em se casar. Ela morreu, e a irmã dela se tornou sua sucessora. Casou-se finalmente com a irmã, mas somente quando ela estava morrendo — somente dois dias antes de sua morte.

Karl Marx nunca ganhou muito dinheiro por si mesmo. Ele recebeu algum dinheiro como colaborador regular do jornal The New York Tribune. Mas ele foi sustentado quase completamente por seu amigo Engels. Marx não era um proletário; ele era o filho de um próspero advogado. Sua esposa, a Sra. Karl Marx [Jenny von Westphalen, 1814-1881], era a filha de um alto Junker prussiano. E o cunhado de Marx era o chefe da polícia prussiana.

Assim, estes dois homens, Marx e Engels, que reivindicaram que a mente proletária era diferente da mente da burguesia, estavam numa posição embaraçosa. Então eles incluíram uma passagem no Manifesto Comunista para explicar: “Quando o tempo chegar, alguns membros da burguesia se unirão às classes emergentes”. Porém, se alguns homens conseguem se livrar da lei de interesses de classe, então a lei não é mais uma lei geral.

A ideia de Marx era que as forças produtivas materiais conduzem os homens de uma fase para outra, até eles alcançarem o socialismo, que é o fim e o ápice de tudo. Marx disse que o socialismo não pode ser planejado com antecedência; a história cuidará dele. Na visão de Marx, esses que afirmam como o socialismo funcionará são apenas “utópicos”.

O Socialismo já estava intelectualmente derrotado no tempo que Marx escreveu. Marx contestava seus críticos afirmando que aqueles que estavam em oposição eram somente “burgueses”. Ele afirmou que não era necessário derrotar os argumentos dos seus oponentes, mas somente desmascarar sua origem burguesa. E como sua doutrina não passava de ideologia burguesa, não era necessário lidar com isto. Isto deveria significar que nenhum burguês pudesse escrever alguma coisa a favor do socialismo. Assim, todos escritores estavam ansiosos para provar que eles eram proletários. Também seria oportuno mencionar neste momento que o precursor do socialismo francês, Saint-Simon[4], era descendente de uma famosa família de duques e condes.

Simplesmente não é verdade que as invenções se desenvolvem porque as pessoas procuram finalidades práticas e não por verdades.

Quando Marx publicou suas obras, o pensamento alemão era dominado por George Wilhelm Friedrich Hegel [1770-1831], professor na Universidade de Berlim. Hegel tinha desenvolvido a teoria da evolução filosófica da história. Em alguns aspectos suas ideias eram diferentes, até mesmo opostas, das ideias de Marx. Hegel foi o homem que destruiu o pensamento Alemão e a filosofia Alemã por mais de um século, pelo menos. Ele encontrou uma advertência em Immanuel Kant [1724-1804], que havia dito que a filosofia da história só poderia ser escrita por um homem que tivesse a coragem de fingir que vê o mundo com os olhos de Deus. Hegel acreditou que ele tinha os “olhos de Deus”, que ele conhecia o fim de história, que ele conhecia os planos de Deus. Ele disse que o Geist (Mente ou Espírito) se desenvolve e se manifesta no curso da evolução histórica. Então, o curso da história é inevitavelmente o progresso do menos satisfatório para condições mais satisfatórias.

Em 1825, Hegel disse que havíamos alcançado um estado de coisas maravilhosas. Ele considerou o reino da Prússia de Friedrich Wilhelm III [1770-1840] e a Igreja da União Prussiana (Prussian Union Church) como a perfeição do governo secular e espiritual. Marx afirmou, como Hegel, que havia história no passado, mas que não haverá mais nenhuma história quando nós alcançarmos um estado que é satisfatório. Assim, Marx adotou o sistema Hegeliano, embora usasse forças produtivas materiais em vez de Geist. As forças produtivas materiais passam por várias fases. A fase presente é muito ruim, mas há uma coisa em seu favor — ela é a fase preliminar necessária para o aparecimento do estado perfeito do socialismo. E o socialismo está próximo.

Hegel foi chamado de filósofo do absolutismo prussiano. Ele morreu em 1831. Sua escola de pensamento se dividiu entre esquerda e direita. (A esquerda não gostava do governo prussiano e da Igreja da União Prussiana). Esta distinção entre a esquerda e a direita existiu desde então. No Parlamento Francês, aqueles que não gostavam do governo do rei estavam sentados no lado esquerdo do plenário da assembleia. Hoje ninguém quer sentar à direita.

Originalmente, isto é, antes de Karl Marx, o termo “direita” referia-se aos partidários do governo representativo e liberdades civis, como o oposto da “esquerda” que favorecia ao absolutismo real e a ausência de direitos civis. O aparecimento das ideias socialistas alterou o significado destes termos. Alguns da “esquerda” foram sinceros ao expressar suas opiniões. Por exemplo, Platão [427-347 AC] era honesto ao declarar que um filósofo deveria governar. E Augusto Comte [1798-1857] dizia que a liberdade foi necessária no passado, uma vez que tornou possível para ele publicar seus livros, mas agora que os livros foram publicados não há qualquer necessidade de liberdade. E da mesma forma Etienne Cabet [1788-1856] falava de três categorias de livros — os maus livros, que deveriam ser queimados; os livros intermediários, que deveriam ser corrigidos; e os “bons” livros restantes. Portanto, houve uma grande confusão quanto às liberdades civis que seriam concedidas aos cidadãos no estado socialista. Isto aconteceu porque as ideias marxistas não progrediram em países que possuíam liberdades civis, mas em países onde as pessoas não possuíam tais liberdades.

Nikolai Bukharin [1888?1938], um autor comunista que viveu em um país comunista, escreveu um panfleto em 1917[5], no qual ele disse: nós pedimos as liberdades de imprensa, de pensamento e liberdades civis no passado porque nós estávamos na oposição e necessitávamos destas liberdades para conquistar. Agora que nós conquistamos, não existe qualquer necessidade de tais liberdades civis. [Bukharin foi julgado e condenado à morte nos expurgos dos processos Moscou em março de 1938] Se o sr. Bukharin fosse um comunista Americano, ele provavelmente ainda estaria vivo e livre para escrever mais panfletos sobre o porquê da liberdade não ser mais necessária.

Estas peculiaridades da filosofia marxista só podem ser explicadas pelo fato que Marx, embora vivesse na Grã-bretanha, não estava tratando das condições da Grã-bretanha, onde, ele acreditava, as liberdades civis já não eram necessárias, mas com as condições da Alemanha, França, Itália, e assim por diante, locais onde as liberdades civis ainda eram necessárias. Desta forma nós vemos que a distinção entre direita e esquerda, que tiveram significado na época da Revolução Francesa, já não tem qualquer significado.

 

Tradução de Wellington Moraes

_______________________________

Notas

[1] A Contribution to the Critique of Political Economy (Moscow: Progress Publishers, 1859).

[2]The Unresolved Contradiction in the Economic Marxian System” in Shorter Classics of Eugen von Böhm-Bawerk (South Holland, Ill.: Libertarian Press, 1962 [1896; Eng.Trans. 1898]), pp. 201?302.

[3]Le moulin à bras vous donnera la société avec le souzerain; le moulin à vapeur, la société avec le capitaliste industriel.” Karl Marx, Misère de la philosophie (Paris and Brussels, 1847), p. 100.?Ed.

[4] Claude Henri de Rouvroy, Comte de Saint-Simon [1760-1825] – Ed.

[5]The Russian Revolution and Its Significance,” The Class Struggle, Vol. I, No. 1, May – June,1917. – Ed.

Imprimir