Recentemente mencionei a crítica que Simon Leys fez de um livro de Maria-Antonietta Macciocchi. Ele disse que a coisa mais generosa que alguém poderia dizer sobre o livro é que ele é o produto de uma estupidez; qualquer outra interpretação deve envolver uma fraude deliberada por parte da autora.

Uma vez eu mesmo usei um argumento similar, num contexto diferente e antes de saber da crítica que Leys fez sobre Macciocchi. Eu tinha escrito um artigo logo depois que a OTAN tinha acabado de bombardear a Sérvia sugerindo que seus mísseis balísticos deveriam ser apontados para os milhares de prédios modernos horrorosos do Reino Unido. Eu tinha certeza que os leitores britânicos teriam suas próprias sugestões sobre quais seriam as demolições mais urgentes, mas eu sugeri (pra começar) alguns prédios modernos da – se não fosse por estes prédios – linda cidade de Shrewsbury, construídos sem dúvida a mando ou com a conivência de vereadores corruptos.

Os vereadores, ou alguns deles, se sentiram ofendidos, e eu fui convidado para participar de um programa de radio local com um deles.

“Você está dizendo que os vereadores de Shrewsbury são corruptos?” ele perguntou.

“Você não entendeu”, eu disse (embora após tanto tempo eu possa estar parafraseando), “que esta é a interpretação caridosa? Todos nós gostamos de dinheiro, então todos nós podemos entender se a câmara permitiu estes edifícios por dinheiro. Mas se foi por outra razão . . .  Não, não, eu não consigo pensar algo assim tão mal de vocês.”

Outro alvo oportuno para destruição que eu sugeri em meu pequeno artigo, o Hotel Giffard em Worcester, deveria na verdade ser chamado de Hotel Elena Ceausescu. Esta única edificação conseguiu arruinar de uma vez toda uma cidade; casas geminadas do século XVIII vizinhas da antiga catedral foram demolidas para abrir espaço para uma laje de concreto enorme e cinza que se encaixaria perfeitamente nos subúrbios de Moscou. (Conheci um cara que resgatou os lambris das casas demolidas, que simplesmente seriam jogados fora.)

Um jornal local estampou a manchete:

‘Espectador’ diz para bombardear Worcester!

E mais uma vez fui convidado por uma radio local para falar sobre o assunto com o infeliz gerente do Hotel Giffard.

“Você tem que levar em conta”, disse ele, “que ele foi construído nos anos 1960”.

“Sim”, respondi, “é disso que eu estou reclamando”.

“Você já entrou alguma vez no hotel?” ele perguntou.

“Não preciso entrar”, eu respondi. “Posso ver sua feiura e deve ser demolido”.

“E se eu te desse um almoço?”

“Não sei o que um almoço tem a ver com isso”, eu disse.

E se eu te desse um almoço?: Estas sete palavras traduzem o cerne do espírito do Reino Unido moderno, hoje o líder mundial daquilo que podemos chamar de corrupção-sem-corrupção-de-verdade, um produto típico da impostura e da hipocrisia anglo-saxã. O gerente (pobre rapaz) achou que um almoço grátis – grátis para mim – bastaria pra eu escrever que acho que o Hotel Giffard é bonito no final das contas, e não a monstruosidade arquitetônica que havia descrito antes. E ele provavelmente achou isso porque sua experiência de vida havia mostrado que todo mundo tem um preço, a saber, o preço de um almoço grátis.

Freud falou sobre o narcisismo das pequenas diferenças (quando as pessoas se tornam muito parecidas, as mínimas coisas que as distinguem tomam uma importância marginal exagerada); mas ele poderia ter falado do mesmo jeito sobre o narcisismo das pequenas gratificações. Um homem que aceita um almoço grátis – grátis para ele – sente-se durante a refeição como um conquistador, uma pessoa que astutamente obteve uma recompensa imerecida de um mundo miserável. Um pequeno triunfo na luta pela existência.

Na verdade, acredito que a corrupção pode desempenhar um papel positivo em certas circunstâncias. Quando as regulamentações públicas são absurdas, onerosas e impeditivas, a corrupção corta caminhos e assim aumenta a eficiência beneficiando muita gente. Talvez fosse melhor se as circunstâncias fossem diferentes, mas não podemos sempre ficar esperando para agir até que as circunstâncias estejam como desejamos.

Pousando pela primeira vez na vida no aeroporto de Lagos, o agente da alfândega me pergunta se eu estava trazendo algum presente.

“Eu não conheço ninguém na Nigéria”, eu respondi.

“Para mim”, ele disse.

Dei a ele um pouco de dinheiro, enquanto ria de minha própria ingenuidade, e passei pela alfândega muito mais rápido do que se tivesse seguido os procedimentos alfandegários a risca. Muitas vezes é melhor um policial corrupto do que um meticuloso.

Mas nós britânicos nos especializamos na corrupção legalizada, um gênero inventado, sem dúvida sem querer, por Thatcher, e levada ao ápice da perfeição por Blair. Este é o tipo de corrupção em que você finge que entidades financiadas com dinheiro público (que também proliferaram com o pretexto de supostas caridades ou outras organizações de fachada) são negócios, administrados por empresários, que por isso são livres para recompensarem a si próprios com enormes salários como uma justa recompensa pelo seu tino comercial. Tino eles têm, logicamente, mas não comercial. E sim um burocrático; e em certo sentido eles merecem seus enormes salários porque é um tremendo tédio ascender em uma burocracia. Eles fizeram grandes sacrifícios e resistiram a algo que para eles deve ter sido como uma era geológica de tédio, a não ser que tenham caído de paraquedas ali vindos de uma carreira mais interessante, mas menos lucrativa. Tiveram que aprender novos e estranhos vocabulários, línguas e sintaxes. Quando atingiram a marca de um milhão de reuniões, das urgentes às super-urgentes, eles devem sentir que merecem um enorme salário e (ainda mais importante) uma enorme aposentadoria. E mesmo assim, em alguma parte de seus corpos moribundos, eles sabem que eles são, efetivamente, ladrões, e é por isso que a maioria deles não consegue te olhar nos olhos, e por isso que a maioria deles é meticulosa na obediência as regulações. Dinheiro é apenas um bálsamo para suas almas doentes, e eles se esforçam bastante para tentar esconder deles mesmos a atmosfera de corrupção generalizada que eles tiram vantagens e ajudaram a criar.

Há um toque de ressentimento no que escrevi. Com exceção do gerente do Hotel Giffard (que por acaso está sendo demolido, mas para ser substituído por algo tão ruim quanto, mas ruim num outro sentido), ninguém nunca achou que valesse a pena me subornar.

E aposto que a comida do Giffard deveria ser boa.

 

Tradução de Fernando Chiocca

Artigo original aqui

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