SpatterSwedishFlagA Suécia está em uma fase próspera.  Pelo menos em relação a outros países, a Suécia tem se saído muito bem durante a crise financeira.  Algumas pessoas, como Paul Krugman, parecem crer que isso se deve aos amplos pacotes de socorro e de estatizações de empresas privadas que ocorreram no início da década de 1990, medidas essas que supostamente “salvaram” a Suécia do desastre imposto pelo mercado.  Embora seja verdade que um banco tenha sido estatizado e que bilhões de dólares tenham sido injetados no mercado para manter a coroa sueca artificialmente sobrevalorizada em 1992, essa medida fracassou por completo, e a um alto custo para os suecos pagadores de impostos.

Após um curto período de caos total, quando o banco central sueco elevou as taxas de juros para 500% (sim, quinhentos por cento), a moeda entrou em colapso.  É óbvio, uma vez que sua valorização superficial em relação ao dólar não tinha como ser “defendida” contra a valorização muito mais correta exigida pelo mercado, não obstante as várias tentativas sérias feitas pelo governo sueco para tentar manter essa sobrevalorização.  A conseqüência foi um pânico político, logo seguido pela finalmente compreendida necessidade de se colocar as finanças públicas em ordem.

Desde aquela época, como explico em maiores detalhes no livro Back on the Road to Serfdom (editado por Tom Woods), o governo sueco — independente de qual partido estava no poder — vem consistentemente mantendo o orçamento equilibrado.  O resultado foi uma queda expressiva na dívida nacional.  Com efeito, desde 1992 a dívida nacional caiu de 80% do PIB para menos de 40%, de acordo com um recente relatório do Gabinete da Dívida Nacional Sueca.  E isso incluindo as medidas antirrecessão adotadas em 2009.

Tais medidas de austeridade dificilmente seriam aprovadas por Krugman e demais keynesianos, mesmo quando eles defendem que os EUA deveriam imitar o caminho exitoso adotado pelos suecos.  Ao contrário: eles obstinadamente se recusam a ver as medidas evidentemente malsucedidas implantadas pelo governo sueco antes de o país ser finalmente forçado a adotar medidas mais sensatas, que o levaram para o caminho da recuperação.

Entretanto, Krugman não está sozinho.  A crença no grande mito de que a Suécia é algum tipo de experimento socialista exitoso ainda é amplamente difundida.  Os próprios suecos em geral creem nesse mito, assim como o fazem várias pessoas em todo o mundo.  Frequentemente sou abordado por alguém que vem me dizer o quão extraordinário é o meu país, fazendo ilações sobre como deve ser bom ter tudo “gratuito”.  E eu sempre fico imaginando sobre o que essas pessoas estão falando e, principalmente, o que as fez crer que essas ideias malucas que elas têm são verdadeiras.  Krugman, por exemplo, deveria ser mais bem informado, mas não é.

Porém, talvez o desempenho da Suécia nessa crise recente seja exatamente o tipo de “mito dos sonhos” que os keynesianos sempre estiveram procurando.  Afinal, a criação de riqueza sueca durante o século XX se parece muito com uma criação keynesiana: um crescimento artificial continuamente alimentado, e que foi automaticamente estimulado e socorrido várias vezes por circunstâncias que, por acaso, terminaram dando incrivelmente certo para um país localizado no extremo norte do globo.

Após um período de “extremo” livre comércio na segunda metade do século XIX, o estado assistencialista foi criado pouco antes de meados do século XX e, em seguida, enormemente expandido.  Não ter participado de nenhuma das guerras mundiais certamente ajudou o país, de modo que sustentar o estado assistencialista foi algo fácil na década de 1960 — afinal, havia uma abundância de riqueza pronta para ser expropriada e “investida” em grandes experimentos de engenharia social.

A saga, entretanto, acabou na década de 1970 — porém, ao que parece, o mito resiste.  A crise internacional do petróleo forçou o governo sueco a adotar o keynesianismo puro, e a moeda, como consequência, foi amplamente e frequentemente desvalorizada, por mais de uma década.  Os “felizes anos 80” não ofereceram solução alguma para o estado que então já se encontrava falido; foi a bolha imobiliária da época, estimulada justamente pelo crédito fácil, que manteve a aparência de prosperidade.

Foi só no início da década de 1990 que a situação financeira do governo implodiu-se por completo, quando os mercados internacionais finalmente deixaram de ficar embriagados com essa bolha imobiliária e reduziram a entrada de divisas no país.  Foi nesse momento que o governo foi forçado, em termos econômicos, a cortar seus gastos e a impor limites nos benefícios oferecidos por meio de uma multiplicidade de sistemas assistencialistas.

Porém, há uma outra verdade sobre a economia sueca, uma verdade que apenas recentemente foi exposta.  Agora existem provas de que a Suécia, mesmo em termos das estatísticas do próprio governo, não é tudo o que se imagina; e que, na realidade, não vivenciou nenhum crescimento econômico real (ao menos em termos de empregos reais, os quais deveriam ser de óbvio interesse para os keynesianos) ao longo de mais de 50 anos.

Em um artigo (infelizmente disponível apenas em sueco) publicado em 2009 no periódico Ekonomisk Debatt, da Associação de Economia Sueca, os economistas Bjuggren e Johansson, do Ratio Institute, mostram a triste verdade.  Baseando-se em dados públicos divulgados pela agência governamental Estatísticas Suecas (“SCB” em sueco, um acrônimo para Bureau Central de Estatísticas) e utilizando um novo sistema de classificação para designar o tipo de propriedade das empresas, eles descobriram que não houve absolutamente nenhum emprego criado no setor privado de 1950 a 2005.

Sim, você leu corretamente: não houve nenhum aumento líquido no número de empregos no setor privado na Suécia durante um período de 55 anos.  Em outras palavras, em um período que começou cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia sueca ficou completamente estagnada.

Os crentes no mito sueco podem querer atacar o sistema de classificação utilizado por Bjuggren e Johansson, porém ele é baseado em um padrão internacional que simplesmente fornece uma visão mais acurada dos setores público e privado, identificando quem é o proprietário real de uma empresa — ao invés de olhar apenas qual o tipo de administração ou qual é a declaração oficial.

Em outras palavras, as classificações utilizadas por esses economistas mostram os efeitos da intromissão do governo nas empresas, identificando quais empresas são de propriedade do governo — e, portanto, consideradas como empresas geridas pelo governo, parte do setor público.  Os dados também levam em conta as pessoas autônomas e as empresas de propriedade estrangeira, ambas as quais estão na categoria de “setor privado” (não importa se a empresa estrangeira seja de algum governo estrangeiro).

Enquanto o setor privado teve zero de criação líquida de empregos, o setor público passou por um monstruoso crescimento durante esse período (veja o gráfico fornecido por esse artigo: a linha azul representa os empregos no setor privado; a marrom, no setor público; a vermelha, a população).  E a população cresceu bastante, o que explica tanto as altas taxas de desemprego como o fato de grande parte das pessoas adultas terem voltado para as universidades públicas com o objetivo de “aprofundar sua educação”.

Isso, por sua vez, explica por que o governo sueco não foi capaz de estimular continuamente o estado assistencialista desde a década de 1970 até o início da década de 1990.  Como não houve guerras internacionais nesse período — algo que estimula, ao menos temporariamente, as exportações de um país que não foi afetado —, o setor exportador encolheu; e como não houve um genuíno crescimento global no qual pegar carona, o blefe não se sustentou e a realidade logo se impôs.

O relativo sucesso da Suécia durante a recente crise financeira não tem nada a ver com estímulos governamentais, aumentos nos benefícios assistencialistas ou estatizações do setor privado.  Trata-se do resultado direto de um resoluto e politicamente doloroso programa implementado durante um período de mais de 15 anos, com o objetivo de limpar a bagunça de quase 50 anos de políticas keynesianas que chegaram perto de quebrar uma nação de mil anos de idade.

Krugman pode estar certo ao dizer que os EUA podem aprender com o exemplo sueco — mas isso vale somente para o período após a crise de 1992.

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