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Entre os intelectuais, o modismo de sempre é culpar todas as mazelas da sociedade no mercado.  Basta dar uma olhada no conteúdo dos cursos universitários, nas palavras dos professores, nas publicações acadêmicas e mesmo nos jornais dos grêmios universitários.  Todos eles concordam entre si nesse quesito.

O desprezo popular pelo mercado é angustiante.  Poucas instituições são tão universalmente vilipendiadas, e talvez poucas instituições sejam tão universalmente incompreendidas.  E essa desinformação é perigosa: os radicais que protestam tão veementemente contra o funcionamento do livre mercado raramente percebem que estão defendendo o fim da única instituição que pode aprimorar o padrão de vida das pessoas.

Parodiando o poeta Robert Frost, deveríamos primeiro examinar como funciona o paraíso para, só então, tentarmos mudar o mundo.  Em outras palavras, devemos entender como algo realmente funciona antes de começarmos a falar como ele deveria ser.  Cabe a nós, antes de tudo, definir aquilo sobre o que estamos falando.

Muitas discordâncias têm suas origens na incompreensão e no equívoco.  Sendo assim, vamos definir o “livre mercado”: o site dictionary.com define um “mercado” como “uma oportunidade de comprar ou vender” e um “livre mercado” como “um mercado econômico no qual a oferta e a demanda não são reguladas ou são reguladas com restrições mínimas”.

“Livre mercado” e “capitalismo” são praticamente sinônimos, e é George Reisman quem define o capitalismo de maneira eloquente:

O capitalismo é um sistema social baseado na propriedade privada dos meios de produção.  É caracterizado pela busca do interesse próprio em termos materiais — em um ambiente livre da iniciação de força física —, e seus alicerces são culturalmente influenciados pela razão.

Baseado em suas fundamentações e em sua natureza essencial, o capitalismo é mais detalhadamente caracterizado pela poupança e pela acumulação de capital, pelas trocas voluntárias intermediadas pelo dinheiro, pelo interesse próprio financeiro e pela busca do lucro, pela livre concorrência e pela desigualdade econômica, pelo sistema de preços, pelo progresso econômico, e por uma harmonia da busca pelo interesse próprio material de todos os indivíduos que dele participam.

Assim, podemos definir o “livre mercado” como um sistema social baseado na troca voluntária de propriedade.

O livre mercado é simplesmente uma matriz na qual os indivíduos praticam trocas livres e voluntárias.  No livre mercado, as decisões relativas a (1) o que produzir, (2) em quais quantidades, (3) utilizando quais métodos e (4) em quais locais, são tomadas visando satisfazer às mais urgentes demandas dos consumidores.

As empresas, desde que operando em um ambiente livre de coerção e de privilégios — ou seja, em um ambiente no qual não há subsídios, não há tarifas protecionistas e não há barreiras governamentais à entrada de concorrentes(como ocorre em setores regulados por agências reguladoras) — descobrem rapidamente o que os consumidores querem e o que eles não querem — e elas ajustam suas decisões de produção em conformidade com esses desejos manifestados pelos consumidores.

Portanto, o livre mercado é um termo conciso para um arranjo de trocas que ocorrem na sociedade. Cada troca acontece como um acordo voluntário entre duas pessoas ou entre grupos de pessoas. Esses dois indivíduos (ou grupo de pessoas) trocam dois bens econômicos: serviços ou bens (tangíveis ou intangíveis) e dinheiro.

Ambas as partes empreendem a troca porque cada parte espera ganhar com ela. Em toda e qualquer transação comercial, cada lado atribui àquele bem que está recebendo um valor subjetivo maior do que àquele bem que está dando em troca.  Afinal, se não fosse assim — se você não valorizasse mais aquilo que está recebendo do que aquilo que está dando em troca —, a transação simplesmente não ocorreria.

Por exemplo, estou caminhando pela rua com dinheiro no bolso e estou a fim de um cachorro-quente; já o vendedor de cachorro-quente tem vários cachorros-quentes, mas está ansioso para conseguir dinheiro. E assim, ao nos encontrarmos, fazemos um acordo.

Em decorrência deste fato, conclui-se que os indivíduos geram riqueza ao simplesmente trocarem bens econômicos.  Ao fazerem isso, eles estão recorrendo a um meio (trocas comerciais) para chegar àqueles fins que lhes são mais valiosos.

Isso é um livre mercado.  É esse o arranjo universalmente vilipendiado dentro da academia.

Moralidade e o papa

O mercado é um arranjo moral?  Esta pergunta, que é tão frequentemente feita, provavelmente será mais uma vez pronunciada quando o Papa Francisco visitar os EUA nesta semana.

Uma coisa é você concluir que o mercado é imoral após você aprender o que realmente é o mercado, como ele realmente funciona e como seria a nossa vida na ausência dele.  Tal conclusão — embora bizarra — ao menos seria intelectualmente defensável, pois refletiria um juízo de valor informado.

Porém, a conclusão de que o mercado é imoral tipicamente reflete — como certamente é o caso do papa Francisco— uma completa ignorância sobre a lógica e a história do mercado (e, mais ainda, sobre a lógica e história dos governos).

O livre mercado é um arranjo profundamente moral, pois, quando comparado a todas as suas alternativas factíveis, somente ele

1) é guiado por escolhas voluntárias e não por decretos;

2) concentra os custos e os benefícios de cada escolha o mais restritamente possível no indivíduo que fez tal escolha;

3) permite uma grande diversidade de escolhas e de estilos de vida;

4) cria uma prosperidade em massa; o livre mercado eleva o padrão de vida dos pobres de uma maneira muito mais intensa do que eleva o padrão de vida dos ricos (veja a teoria aqui e alguns exemplos práticos aqui, aqui eaqui);

5) faz com que, na pior das hipóteses, adversidades econômicas extremas não se transformem em morte por inanição, mas sim em dificuldades financeiras, algo muito menos severo (perder seu emprego, por mais agonizante que seja, é muito melhor do que perder a sua vida e a vida de seus filhos);

6) permite mobilidade social, fazendo com que um pobre possa ascender de classe, podendo inclusive se tornar rico.  A riqueza dinástica, embora ainda exista nos mercados, é muito menos comum do que supõem as pessoas desinformadas em termos históricos (riquezas dinásticas eram a regra antes do surgimento do capitalismo), e mesmo tal riqueza sempre está exposta às forças da destruição criativa [N. do E.: prova disso é que todos os bilionários que apareceram no primeiro ranking da revista Forbes, em 1987, não mais estão lá hoje];

7) reúne centenas de milhões de estranhos ao redor do mundo, das mais diferentes culturas e religiões, e os permite interagir, cooperar e produzir de maneira voluntária e pacífica.

Esse último ponto foi brilhantemente ilustrado pelo ensaio “Eu, o lápis”, escrito por Leonard Read.  Veja a versão em vídeo:

Recentemente, o designer britânico Thomas Thwaites tentou construir uma torradeira do zero, tendo ele próprio de escavar o minério de ferro para fabricar o aço e derivar o plástico do petróleo.  Neste vídeo, ele narra até onde conseguiu chegar.

Enquanto isso, um típico trabalhador britânico consegue, com apenas 21 minutos de trabalho, ganhar o suficiente para comprar uma torradeira muito mais sofisticada do que aquela que o senhor Thwaites levou nove meses para fabricar.

Outra ilustração perfeita dessa profundamente importante constatação é a deste homem que resolveu fabricar, também do zero, um simples sanduíche.  Ele plantou o trigo para fazer o pão, retirou o sal da água do mar, ordenhou uma vaca para fazer o queijo e a manteiga, matou uma galinha para retirar o filé de frango, fez o próprio picles e teve até de extrair o mel do favo.  Além de demorado, o processo custou cerca de US$ 1.500 dólares. (E, a julgar pela reação dele próprio, a qualidade do produto final foi medíocre).

Nesse sentido, a produção e a distribuição das próprias encíclicas nas quais Francisco critica o capitalismo são façanhas capitalistas.

Para serem produzidas, elas requerem os esforços integrados de plantadores de árvores e de madeireiros (talvez na Alemanha), de trabalhadores das fábricas de papeis (talvez na Eslovênia), de produtores de tinta (talvez no Canadá), e de impressoras (talvez na Itália).

E cada um desses fornecedores depende de inúmeros veículos para transporte (talvez construídos no Japão), de investidores (talvez em Nova York), de seguradoras (talvez em Londres), e de criadores de hardware (talvez na China) e de software (talvez em Seattle).

O capitalismo fornece até mesmo os meios e os instrumentos para se criticá-lo.

Conclusão

Uma grande maravilha do capitalismo é a maneira como ele consegue fazer uma contínua integração dos esforços de bilhões de indivíduos de todo o mundo, transformando-os em uma economia global unificada.  Nesse arranjo, cada pessoa — tanto na condição de produtor quanto de consumidor — não apenas é mais livre do que estaria sob qualquer outro sistema econômico, como também ela pode escolher como quer participar.

Esse processo é pacífico, estupendamente produtivo, e não requer nenhum decreto expedido por um comitê centralizado comandado por burocratas truculentos.

Muitos professores, intelectuais, políticos, palpiteiros, padres, pastores e papas gritam e pregam sobre assuntos a respeito dos quais são profundamente ignorantes.  Em vez de agir assim, eles deveriam ter uma mente mais aberta para perceber o grande sistema de cooperação social que é a economia de mercado global.

Caso façam isso, eles perceberão essa maravilhosa e voluntária cooperação de centenas de milhões de estrangeiros, que estão trabalhando pacífica e produtivamente, e cuja produção enriquece enormemente a vida de terceiros.

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Leia também:

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Donald Boudreaux foi presidente da Foudation for Economic Education, leciona economia na George Mason University e é o autor do livro Hypocrites and Half-Wits.

Art Carden é professor-assistente de economia e finanças no Rhode Island College em Memphis, Tenessee, além de ser membro adjunto do Independent Institute, localizado. Seus papers podem ser encontrados na sua página noSocial Science Research Network.

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