Quando me perguntavam qual era o escritor contemporâneo que eu mais admiro, costuma responder sem hesitação – até que ele faleceu em 2014 – Pierre Ryckmans, mais conhecido como Simon Leys.

Leys foi um belga que passou mais da metade de sua vida na Austrália. Ele era um sinologista, historiador da arte, romancista, ensaísta literário e tradutor: do chinês para o francês e inglês, do francês para o inglês, e do inglês para o francês. Ele era um artista talentoso (e sua caligrafia chinesa era admirada pelos entendedores de arte chinesa, o que é de fato um grande elogio); ele também foi um intrépido velejador e navegador.

Ele ficou famoso (fora do restrito círculo da sinologia ocidental) com uma série de quatro livros sobre a chamada Revolução Cultural na China e da ridícula veneração que Mao Tse-tung tinha por parte de uma porção considerável da intelligentsia americana e europeia, especialmente a francesa. Lembro-me de ter lido esses livros assim que eles foram lançados; seu estilo era tão brilhante, a sagacidade do autor tão fugaz, e o tema tão importante que eles continuam sendo publicados até hoje, mais de 40 anos depois, e possuem um mérito literário tão elevado (diferente da imensa maioria de livros sobre os temas atuais) que acho que ainda devem ser lidos, e serão lidos, daqui 100 anos.

Todos os seus livros seguintes foram igualmente brilhantes; se havia no mundo um ensaísta literário melhor que ele, eu não o conheci. De alguma forma ele conseguia expressar toda sua autoridade – tanto moral quanto literária – já na primeira frase de qualquer coisa que ele escrevia. Ele nunca caia em obscuridades e podia dizer as coisas mais sérias com a leveza da mais simples linguagem.

E lançaram agora uma excelente biografia dele, escrita pelo seu colega sinologista belga Philippe Paquet, que o admirava enormemente; mas só porque, penso eu, ele estava no mais alto grau de admiração que alguém poderia chegar. A vida pessoal de Leys era muito feliz, sem nenhum escândalo para ser relatado. A biografia (que é longa) é sobretudo, e corretamente, uma biografia intelectual e espiritual.

Há um episódio no livro contado em detalhes, que eu conhecia só superficialmente antes, que me tocou profundamente. Ele não afeta negativamente Leys, longe disto; mas ele me causou um sentimento profundo de melancolia.

Leys, que era um homem totalmente avesso a autopromoção, foi convidado em 1983 a participar de um programa de televisão francês sobre literatura chamado Apostrophes. Ele tinha uma audiência bem grande para um programa desse tipo, em torno de 3 milhões de espectadores. Quem também iria participar era uma italiana, Maria-Antonietta Macciocchi, que era uma fervorosa maoísta e que, depois de uma visita à China durante a Revolução Cultural, publicou um livro intitulado De la Chine, sobre a China, cheio de sentimentos efusivos sobre aquele terrível episódio. Por causa da ideologia que ela aderia, ela era totalmente crédula e ingênua. Ela acreditava que estava testemunhando um sonho se tornando realidade quando na verdade ela estava no meio de um pesadelo envolvendo muitos milhões de pessoas e a destruição total de muitos valores preciosos. Em termos de mortes, não foi tão ruim quanto o Grande Salto Adiante, dez anos antes da Revolução Cultural ter sido desencadeada, mas foi ruim o bastante.

Leys se indignava com pessoas como Macciocchi porque ele amava tanto as pessoas como a civilização da China. Ele considerava ela e gente da laia dela como absolutamente leviana e ignorante, fundamentalmente desinteressada naquilo sobre o que ele escreveu e usando a China meramente como uma ferramenta conveniente para redimir seus psicodramas pessoais banais.

Macciocchi nasceu em 1922, em uma família burguesa italiana antifascista. Em 1942, ela entrou para o Partido Comunista Italiano e depois se tornou uma jornalista a seu serviço, sendo entre outras coisas uma correspondente em Argel durante a guerra lá. Ela rompeu com o partido para se tornar uma maoísta depois do rompimento chinês-soviético. Ela escreveu seu livro depois de uma visita à China, sem falar uma palavra em chinês e conduzida pela mão por guias oficiais.

Leys já tinha publicado críticas severas a ela, mas parece que ela tinha esquecido disso. Ela foi a primeira a falar:

Eu não preciso nem dizer que minha vida tem sido muito modesta, uma vida de pura devoção. Os santos casaram com Deus, eu casei com o povo, e me ocupei da redenção dele. Eu me sacrifiquei noite e dia.

Isso foi demais para Leys (por sinal, um católico fervoroso). Quando chegou sua vez de falar, um homem normalmente cordial e controlado, disse o seguinte:

Idiotas falam idiotices. Assim como macieiras dão maçãs. . . . A coisa mais generosa que alguém pode dizer sobre o livro dela é que ele é uma estupidez total, porque se alguém deixasse de classificar isso como uma estupidez teria que dizer que ele se tata de uma fraude deliberada.

Ele continuou seu feroz ataque, embora estivesse deixando claro que seu ataque não era pessoal e sim contra todas as idiotices levianas que foram escritas sobre Mao e o maoísmo por intelectuais ocidentais. E é realmente verdade que qualquer chinês que tenha vivenciado e sofrido naqueles anos terríveis sofreria mais uma vez se lesse os elogios tecidos aos seus algozes por aqueles que foram tão facilmente ludibriados pela máquina de bajulação do regime. Não há duvidas de que Macciocchi mereceu o que tomou.

E mesmo assim. . . tem uma fotografia no livro dela junto com Leys. Ela estava com uma cara amigável. Não existe uma arte para conhecer sua mente através de sua face, mas meu palpite é que Maria-Antonietta (em certo sentido, um nome bem apropriado) era uma boa pessoa. E, de acordo com o livro, ela nunca se recuperou totalmente da humilhação que sofreu naquela noite porque Leys era patentemente um homem tão íntegro, qualificado intelectualmente e comprometido com a verdade que ela devia saber que o que ele disse era legítimo e verdadeiro. E ela viveu sabendo disso por mais 24 anos, falecendo aos 85 anos.

Você pode suportar uma humilhação dessas se você é jovem (embora possa deformar seu caráter se você tiver tendência para ser deformado), mas você ainda tem tempo de superar com algum sucesso posterior. Mas viver o último quarto de uma longa vida na sombra de tal humilhação (sendo merecida ou não), uma que nada irá apagar, é um destino triste sem dúvida, que merece alguma compaixão.

Talvez eu sinta essa pena de uma pessoa como Macciocchi, cujas ideias eu normalmente abominaria, por uma questão de algo parecido com solidariedade. Se alguém pesquisar a fundo tudo que eu já escrevi na vida poderia facilmente encontrar algo equivalente a acusação de Leys sobre Macciocchi. Leys pode ter ocasionalmente feito julgamentos errados (quem nunca?), mas o que ele disse ou escreveu nunca foi uma idiotice. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre mim, e portanto sinto pena de Maria-Antonietta Macciocchi, sem que isso diminua nem um pouco minha veneração por Leys.

 

Tradução de Fernando Chiocca

Artigo original aqui.

Imprimir