asian manufacturingNo mundo globalizado, poucos assuntos despertam tanta paixão quanto a transferência de setores industriais de um país para outros — transferência essa que é feita com o intuito de se aproveitar os baixos salários vigentes nesses outros países, particularmente os da Ásia.  O termo técnico utilizado para essa realocação é offshoring ou “terceirização estrangeira”.  Além das lamúrias típicas sobre a perda de postos de trabalho, tal fenômeno provoca também queixas quanto ao aumento das importações em relação às exportações, isto é, o agravamento da chamada balança comercial “desfavorável”.

Aqui vai um exemplo que vai ajudar a dar uma perspectiva adequada a ambas as questões.

Imagine que uma determinada empresa do país X esteja contemplando um investimento de capital da ordem de $10 milhões para construir uma fábrica.  Desses $10 milhões, $5 milhões serão utilizados para materiais de construção, equipamentos de construção e, principalmente, para todo o maquinário a ser instalado na fábrica.  Os outros $5 milhões terão de ser utilizados para cobrir os salários e os benefícios trabalhistas dos 100 operários que trabalharão nas obras durante um ano, a um custo de $50.000 por homem.

Entretanto, em um país pobre da Ásia o custo de operários igualmente capazes é de apenas $1.000 por homem.  Em outras palavras, o custo trabalhista total será de $100 mil ao invés de $5 milhões.  Os materiais de construção, os equipamentos de construção e o maquinário para a fábrica podem todos ser enviados para lá.  Para simplificar as coisas, vamos ignorar os custos de transporte e quaisquer outros custos associados à burocracia de se construir no exterior.  Assim, o custo total de se construir essa planta na Ásia seria de apenas $5,1 milhões, ao invés de $10 milhões.  Trata-se, obviamente, de um poderoso incentivo para se construir a planta na Ásia.  Consequentemente, assim que essa planta estiver pronta, qualquer que seja o número de trabalhadores necessário para sua operação, estes poderão ser encontrados localmente a uma fração comparativamente menor do custo de se empregar trabalhadores do país X.

São exatamente essas considerações que explicam, por exemplo, por que várias indústrias americanas deixaram os EUA e foram para outros países, principalmente pra a Ásia.  É simplesmente bem mais barato.

Os comentaristas econômicos, que quase sempre são críticos, enxergam apenas esse movimento de capitais para o estrangeiro; eles estranhamente não percebem que tal processo é muito mais do que apenas um movimento de uma dada quantia de capital de um lugar para outro.  Em termos monetários, o valor chega a ser desprezível quando comparado à real riqueza física — no caso, capital físico — em jogo.  Quando colocado nesses termos, é possível perceber que há um aumento substancial na riqueza de todos.  Afinal, o fato de se poder obter por $5,1 milhões algo que de outra forma requereria $10 milhões, faz com que seja possível comprar praticamente duas vezes o mesmo tanto pelos mesmos $10 milhões.  Essa empresa em questão pode construir praticamente duas fábricas na Ásia pelo preço de uma no país X.

Uma empresa do país X que investisse dessa forma poderia oferecer aos seus clientes aproximadamente dois produtos pelo preço de apenas um, pois ela transferiu suas operações de manufatura para Ásia ao invés de ficar em X.  Mesmo sendo verdade — como é frequentemente alegado — que os trabalhadores dessa fábrica que saiu do país X terão agora de se contentar com trabalhos mais insatisfatórios — como, por exemplo, no McDonald’s —, o sistema econômico de X ainda assim terá dobrado a sua produção.  Com o benefício adicional de todos os hambúrgueres extras que esses trabalhadores deslocados agora produzirão.

Para mim, parece ter havido um ganho geral para todo o sistema econômico do país X.

Entendendo mais especificamente, o ganho entra na economia do país X na forma de importações.  Basicamente, os cidadãos de X poderão usufruir os bens produzidos por duas fábricas na Ásia ao invés de apenas uma fábrica em X, e esses bens duplicados estão entrando na economia de X na forma de importações.  Absurdamente, esse ganho de riqueza para X é chamado de “desfavorável”.  Certamente não é desfavorável para os consumidores de X.  A única coisa que eu poderia imaginar como sendo mais favorável — e que, ao mesmo tempo, seria estupidamente denunciada como ainda mais desfavorável — seria se essas importações simplesmente surgissem do nada e de graça no litoral de X, porém sendo computadas pela alfândega como tendo um valor substancial.

O offshoring não gera o declínio do sistema econômico de um país; na realidade, ocorre exatamente o oposto.  Ele fornece às pessoas do país que fez essa terceirização estrangeira acesso a uma capacidade de fabricação amplamente mais ampla, a qual é capaz de fornecer uma quantia muito maior de bens a preços muito menores.  E caso o país X não esteja inflando sua moeda, tal benefício será ainda mais perceptível.

Graças ao offshoring, o país X poderá ser suprido com sapatos e roupas, aparelhos de televisão, computadores, laptops, tocadores de CD e DVD, fornos microondas, e vários outros bens em quantidades sem precedentes e a preços extremamente baixos.  O fato de que essa abundância virá ao país X na forma de importados é simplesmente uma decorrência da natureza do arranjo.  E mais ainda: a mão-de-obra de X poderá ser liberada para exercer outras atividades mais produtivas, com o benefício de que agora os preços de seus bens de consumo estarão muito menores, o que faz com que seus salários reais sejam maiores.

Mas qual o real problema econômico de tudo isso?

Eu digo problema “econômico” porque posso imaginar o surgimento de algo que poderia causar problemas: a perda dessas fábricas offshore e das importações que elas proporcionam.  Isso poderia acontecer em decorrência de confiscos realizados por governos estrangeiros, de uma burocracia caótica e inepta imposta pelos governos de ambos os lados, ou simplesmente pela adoção de medidas protecionistas pelo país que justamente mais se beneficia com tal arranjo.  Isso sim seria uma catástrofe.

Portanto, nunca é demais enfatizar: o problema não está na terceirização estrangeira ou nas importações; o problema está em qualquer coisa que venha a ameaçar esse fenômeno e as importações que ele proporciona.

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