highclere1Sêneca, o filósofo romano, relata a estória do assassinato de Calístenes por Alexandre, o Grande como sendo o “crime eterno” do líder macedônio.  Escreveu Sêneca em sua enciclopédiaNaturales Quaestiones:

Sempre que alguém disser que ‘Alexandre matou vários milhares de persas’, a contra-resposta será: “E matou Calístenes também”.  Quando alguém disser que ‘Alexandre matou Dario, que possuía o maior reinado da época’, a resposta será: “E ele matou Calístenes também”.  Quando alguém disser que ‘Ele conquistou tudo o que havia sobre a terra até o oceano… e estendeu seu império desde uma esquina de Trácia até as fronteiras mais longínquas do Oriente’, a resposta será: ‘Mas ele matou Calístenes’.  Embora ele tenha ido muito além das façanhas de todos os generais e reis que o precederam, dentre todas as coisas que ele fez nada será tão grande quanto esse seu crime.

Essa anedota resume dramaticamente aquilo que já foi considerado a mais sublime criação da Civilização Ocidental: o indivíduo aristocrata, celebrado desde os filósofos romanos, passando pelos ingleses do século XVIII, como Gibbon, até chegar aos americanos do século XIX, como Emerson.

Desde o apogeu daquela visão prometéica sobre o imensurável potencial do indivíduo — que fez de um Calístenes alguém mais importante do que todo um exército — até chegarmos à visão degenerada do indivíduo como um ser inevitavelmente fraco, cujo interesse próprio é quase sempre malévolo e cuja dignidade é inevitavelmente desvalida, poucas ideias ocidentais foram mais aviltadas e sujeitadas a uma implacável destruição do que a noção de indivíduo.

Com efeito, nada é mais banal e clichê do que vituperar contra a noção de individualismo, e caluniá-la como sendo algo inerentemente pecaminoso e moralmente errado.  O “si próprio” passou a ser visto como um repositório de vergonha viva, culpa, ganância e atitudes anti-sociais.

É essa moderna e deturpada noção de “individual” que fez com que os problemas maciços enfrentados por todas as democracias ocidentais deixassem de ser fundamentalmente políticos e se tornassem majoritariamente filosóficos.

E tal realidade, por sua vez, resultou de uma confusão acerca de dois conceitos completamente distintos de democracia: há a democracia aristocrática — que foi aquela que os Pais Fundadores dos EUA tinham em mente — e há a democracia igualitária, que é justamente essa que criamos e na qual vivemos, e que está nos colocando em perigo.

Foi o próprio Thomas Jefferson quem disse que os cargos públicos deveriam ser exercidos por “aristoi naturais” e que a educação em uma República deveria ser “democrática e aristocrática”.  Também é válido relembrar os receios quase obsessivos de James Madison e Alexander Hamilton sobre uma “oclocracia“, bem como a repulsa de ambos à ideia de democracia direta. (Escreveu John Randolph: “Quando falo em povo, tenho em mente apenas a parte racional dele.  Os ignorantes e vulgares são incapazes tanto de julgar as modalidades de governo quanto de controlar suas rédeas”).

Para ficar bem claro: “igualitário” não significa igualdade; significa o menor denominador comum tendo a maior influência política e cultural possível, seja essa influência impulsionada pela elite ou pelas massas.  E o termo “aristocrático” é aqui utilizado não no sentido de baronatos, linhagens e fortificações muradas, mas sim em seu original sentido filosófico, o qual foi muito bem resumido por ninguém menos que o poeta Lord Tennyson como significando “auto-respeito, auto-suficiência e auto-perpetuação”.

É essa qualidade de pensar no longo prazo, algo inerente à perspectiva aristocrática, que é o seu mais importante aspecto.  É isso o que faz com que a liberdade do indivíduo em uma sociedade democrática seja duradoura e esteja ligada àquilo que o torna capaz de se sustentar e se manter vivo: seus meios de produção, ou o capitalismo.

Isso significa que uma democracia adequada — na qual o “auto-respeito e a auto-perpetuação” necessários ao cidadão são preponderantes — tem necessariamente de ser “devidamente” capitalista, pois apenas esse arranjo permitirá ao cidadão sua “auto-perpetuação” no longo prazo.

O futuro da democracia será decidido pela disputa entre visões de curto e de longo prazo.  Nas décadas vindouras, é isso o que determinará se o Ocidente conseguirá ou não sair do seu declínio.

Em suma: se as modernas democracias capitalistas ocidentais quiserem sobreviver, elas terão de incorporar aquilo que sempre consideraram ser seu completo oposto: características aristocráticas (a visão de longo prazo).  Se, por outro lado, as coisas continuarem como estão, a democracia irá cada vez mais assumir características totalitárias e culminar naquilo que Thomas Jefferson rotulou de “despotismo eletivo”, em que uma suposta vontade popular será incorporada em um governante que, por sua vez, irá subjugar completamente uma população impotente, indefesa e desarmada.

Uma notável tendência intelectual e social que ilustra bem todos esses fatores — a deturpação do conceito de indivíduos; a preferência maciça pelos apetites e impulsos do presente; o moderno desprezo da sociedade pelo futuro e pelo planejamento para o futuro — pode ser vista no relativamente recente modismo de querer “transformar” o capitalismo em algo que ele não é e que jamais deveria se tornar.  A subversão está ocorrendo justamente naquele ponto em que subversões tendem a ocorrer primeiro: na linguagem.

Alterações sutis na terminologia começaram a ganhar força desde o início da crise financeira, e só se intensificaram de lá para cá.  Hoje, é corriqueiro vermos filósofos, sociólogos e até mesmo economistas clamando por um “socialismo de mercado”, ou por um “mercado socialmente regulado”, ou por um “capitalismo comunitário”, ou por um “capitalismo social”, ou por um “empreendedorismo mais includente”.  Igualmente comuns são os apelos para se acabar com algo que chamam de “capitalismo excludente” ou “capitalismo selvagem”.

Superficialmente, tudo isso parece inofensivo, até mesmo positivo.  Com efeito, para muitas pessoas, inclusive líderes empresariais, essas novas categorias de pensamento representam um passo inteligentemente progressista na direção correta, em que as finalidades produtivas do capitalismo são respeitadas ao mesmo tempo em que alguns elementos de fiscalização social são incluídos no arranjo.  Como benefício adicional, dizem seus defensores, a palavra ‘capitalismo’ fica purificada de suas conotações depreciativas.

Mas é aí que jaz o perigo.  Na raiz deste linguajar sutil está a filosofia de que o cerne do sistema capitalista — o indivíduo e seus ganhos individuais, sua busca pelo lucro, seu interesse próprio, sua distinção pessoal e até mesmo a sua glória — é algo na melhor das hipóteses reprovável; na pior, inerentemente e irremediavelmente criminoso e corrupto.

Simultaneamente, de acordo com tal pensamento, somente uma mentalidade grupal/comunal/social possui um objetivo econômico legítimo e, por extensão, moralmente superior.  Esse modismo recorre ao truque baixo de equiparar o genuíno capitalismo ao atual arranjo corporativista em que uma pequena elite que tem boas relações com políticos é beneficiada com subsídios, com políticas protecionistas e com regulações específicas que lhe garantem reservas de mercado.  Recorre também ao truque baixo de equiparar capitalismo com o gangsterismo de alguns bancos que, justamente por saberem que serão socorridos pelo estado caso façam apostas mal sucedidas, fazem lambança, se tornam insolventes e derrubam economias inteiras.  O objetivo é solapar e difamar oconceito de capitalismo.

A premissa do capitalismo é dessa maneira revertida: os fins passam a ser a coletividade, e a redistribuição passa a ser uma ética suprema, mais importante do que a proteção aos meios fundamentais de produção, que são o indivíduo, sua mente e sua capacidade.  O igualitário se torna o objetivo a ser almejado ao passo que o aristocrático — os tradicionais padrões éticos e morais, o planejamento de longo prazo e a perpetuação da geração — se torna o objeto de desprezo.

Eric Hoffer, em seu clássico The True Believer, escreveu:

A razão por que elementos inferiores de uma nação conseguem exercer uma grande influência sobre seu destino é que eles são completamente destituídos de respeito e reverência pelo presente e pelo futuro.  Eles veem tanto suas vidas quanto o mundo atual como tragédias sem solução, e, por isso, estão permanentemente dispostos a desperdiçar e destruir ambos.  Daí sua propensão ao caos e à desordem.

Este é o caminho da autodestruição de um igualitário.  Ele pensa apenas no curto prazo, pois o presente é um martírio a ser superado, o passado é invariavelmente uma fonte de tormentos, e o futuro está fora do seu controle e além de suas preocupações.  O curto prazo é o conveniente, é o instantâneo, é o estimulador do apetite.  Rapidamente, o curto prazo se torna não apenas a mentalidade econômica escolhida, mas também a política, cultural e social.

E então tudo passa a ter um horizonte temporal curtíssimo.  Todos visam apenas ao curto prazo em termos financeiros, políticos, educacionais, amorosos, de relações humanas, de durabilidade de um produto ou serviço, de comprometimentos, de concentração, de esforço.  Até mesmo a arte sofre uma forte degradação: filmes, músicas e pinturas são reciclados, descartáveis e esquecíveis.  Tudo isso gerou a atual safra de capital humano que temos hoje.  E então, a vox populi e seus representantes políticos passam a deplorar esse capital humano como sendo composto de indivíduos desgraçados, vorazes e exploradores, que fazem maquinações e trapaças para conseguir o que querem da maneira mais rápida possível.  Ora, eles deveriam ter previsto isso.  Foram eles que criaram esse “indivíduo”.

Por mais dramático que pareça, há um fim direto para tudo isso.  Uma sociedade democrática que não exige padrões éticos e morais mais elevados de seus indivíduos irá se tornar, por total falta de opção, totalitária.  Ou seja, se nada for exigido do indivíduo, então nada poderá ser exigido das massas, pois aquilo que não é exigido de uma pessoa não pode ser exigido de uma manada.  Com o tempo, surgirá um indivíduo que incorporará a “vontade popular”, e ele será investido da responsabilidade de cuidar de todos, transformando-se em um déspota esclarecido — o “déspota eleito”, nas palavras de Thomas Jefferson.

No mundo ocidental atual, há um capital humano que não está muito apto para uma democracia aristocrática — certamente, não economicamente.  O elemento aristocrático presente em uma democracia é o que garantirá sua qualidade no longo prazo.  A aristocracia é o instinto necessário que a democracia terá de adquirir novamente se quiser sobreviver.  E, para isso, o capitalismo — que fornece o apoio prático a esse tipo de democracia — terá de se livrar de seus pretensos modificadores (que vivem mortificados por uma espécie de culpa inconsciente) e de rótulos apologéticos que lhe foram pregados.

Houve uma época na Europa em que essa visão de mundo gerou grandes fortunas que foram acumuladas com o intuito de sustentar gerações com um mesmo sobrenome.  Nos EUA, esse arranjo europeu se tornou uma inspiração para James Madison, John Adams e Thomas Jefferson, que seguidamente enfatizavam a necessidade de “cidadãos valentes e nobres” para preservar seu vasto e incrível experimento.

Essa é a concepção do tipo de indivíduo que nenhuma grande força — imperadores, exércitos, governos — é capaz de substituir.  É desse tipo de aristocracia que necessitamos urgentemente no mundo ocidental.

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