tsiprasO atual governo grego, sob o comando do partido de extrema-esquerda Syriza, deixou vazar um plano de implantar um profundo corte das aposentadorias: em alguns casos, os cortes chegam a 35%.

Os novos aposentados que iriam receber mais de 750 euros mensais terão uma redução de 15%.  Pensões acima de 2.000 euros serão reduzidas em 30%.  E quaisquer pensões acima de 3.000 euros serão reduzidas para 2.200 euros. Trata-se de uma notável tesourada que também irá afetar os atuais aposentados que recebem uma pensão inferior a 1.000 euros mensais.

Até o momento, o governo grego já elevou a idade de aposentadoria e já extinguiu vários benefícios conseguidos por aposentadorias precoces.

Deixando de lado as várias críticas à incoerência entre o discurso de Alexis Tsipras quando chegou ao poder há exatamente um ano e sua atuação nos dias de hoje, o certo é que estes cortes de gastos tão impopulares apenas ressaltam que, na política, nem tudo é possível.

Assim, e ao contrário do que gostam de afirmar as mais variadas formações populistas, nem tudo é uma questão de “vontade política”.  Empregos não são criados por mera vontade política; salários não aumentam por mera vontade política; a Previdência não se torna sustentável por mera vontade política; o déficit orçamentário do governo não desaparece por mera vontade política; e as crises não são superadas por mera vontade política.

Uma economia não é uma massa de modelagem que o onipotente político do momento pode moldar de acordo com sua imaginação e seus caprichos.  Por isso, por maior e por mais genuíno que fosse o desejo de Tsipras de interromper os cortes de gastos, o fato é que ele acabou se convertendo no maior “cortador” de gastos dentre todos os recentes governos gregos.

Eis uma lição: desconfie sempre de todos aqueles que, com palavras emotivas e brilhos nos olhos, prometem reinventar a roda em matéria econômica, quase sempre recorrendo a meras frases de efeito.

E o problema nem está no fato de que altas expectativas acerca de promessas impossíveis acabarão se degenerando em profundas frustrações — como ocorreu entre vários eleitores do Syriza [e do PT no Brasil]; o real problema está no fato de que a políticos intervencionistas e suas suicidas intenções de revogar as leis da gravidade econômica podem acabar provocando um resultado exatamente oposto ao almejado — como também ocorreu com o Syriza quando quebrou o sistema bancário do país [e como também ocorreu no Brasil com as reduções artificiais dos preços da eletricidade e com o congelamento do preço da gasolina].

Como sempre afirmou Ludwig von Mises, “os políticos não podem enriquecer as sociedades; mas podem, facilmente, empobrecê-las”.  Ou, dito de outra maneira, um político não consegue, por meio de decretos e regulamentações, multiplicar os pães e os peixes; o que um político de fato consegue, por meio de decretos e regulamentações, é paralisar a produção de pães e peixes dentro de um país.

Por isso, em vez de aplaudir aqueles que querem impor fanaticamente sua “vontade política” populista sobre a mais elementar racionalidade econômica, deveríamos escarnecê-los em público.  O próprio Tsipras acabou se rebelando contra o seu antigo eu.

___________________________________

Leia também:

A capitulação do arrogante populismo do Syriza – e por que a extrema-esquerda europeia está acabada

Os maiores descalabros gregos que servem de lição ao mundo – e por que não lamentar a situação

A verdadeira tragédia grega foi o seu gasto público 

O sonho do governo grego: espoliar permanentemente os pagadores de impostos da União Europeia 

Imprimir