no-countryNa Suíça de hoje, parece que os relógios são os únicos que se portam previsivelmente.  Ao longo dos últimos quatro anos, políticos suíços e seu Banco Central passaram a comprar reservas internacionais a um ritmo sem precedentes.  Em 2012, as reservas internacionais do país, formadas por várias moedas, já totalizavam US$420 bilhões.  A moeda mais volumosa em suas reservas é o euro.  Este montante é sete vezes maior do que o de 2008, e equivale a 70% do PIB anual do país.  Tal soma equivale a US$200.000 para cada família suíça de quatro pessoas.

As autoridades suíças alegarão que o dinheiro foi “investido” visando ao futuro, mas o que elas de fato fizeram foi empobrecer todo o país no presente.  Embora tal decisão pareça perversa, ela faz perfeito sentido quando vista através da lente daquilo que hoje passou a ser o pensamento econômico dominante.

Durantes suas últimas gerações, a Suíça desfrutou um dos mais robustos fundamentos econômicos do mundo.  O país ostenta uma alta taxa de poupança, baixos impostos, um vibrante setor exportador, uma baixa razão dívida/PIB, e um orçamento governamental equilibrado.  E, antes dos últimos dois anos, uma das mais responsáveis políticas monetárias do mundo.  Estes atributos tornaram o franco suíço um dos poucos “portos seguros” do mundo.  Porém, na economia global atual, os sensatos não têm vez.

Os principais bancos centrais do mundo, particularmente aqueles localizados em Washington, Frankfurt, Londres e Tóquio, se entregaram gostosamente a uma maciça e coordenada campanha de desvalorização de suas moedas para combater a recessão.  No entanto, por alguns anos os suíços se recusaram a se juntar a essa marcha da insensatez.  Como consequência, os investidores ao redor do mundo sabiamente decidiram proteger sua poupança comprando o confiável franco suíço.  De dezembro de 2008 a agosto de 2011, o franco suíço se apreciou assombrosos 59% em relação ao dólar americano e aproximadamente 30% em relação ao iene japonês.  Ainda mais importante, o franco ganhou 42% em relação ao euro.  Dado que a zona do euro literalmente cerca toda a Suíça, seu comércio com estes países representa a esmagadora maioria de suas transações internacionais.

Durante este acentuado processo de apreciação de sua moeda, a economia suíça continuou prosperando.  Os salários e o poder de compra dos suíços aumentaram, e o PIB do país cresceu consistentemente mais do que o de outros países da Europa ocidental.  Adicionalmente, a apreciação de sua moeda ajudou a conter a inflação de preços, dando à Suíça uma taxa de inflação consistentemente baixa, com ocorrências ocasionais de deflação de preços.

No entanto, não obstante as majoritariamente positivas estatísticas do setor exportador, alguns exportadores suíços começaram a reclamar que, em determinados momentos, um franco suíço robusto os colocava em desvantagem em relação aos concorrentes internacionais.  E, como em qualquer outro país do mundo, o setor exportador possui um lobby poderoso.  E o Banco Central suíço, assim como os principais bancos centrais do mundo, possui seu ranço mercantilista.  Logo, embora a Suíça fosse uma ilha de saúde em meio a um mar de problemas, a nova ortodoxia econômica dominante convenceu as autoridades suíças de que sua moeda forte era não uma benção mas sim um fardo.  Mais especificamente, a apreciação do franco era vista como um repúdio às políticas monetárias expansionistas que estavam ocorrendo em todos os outros países.  E então, repentinamente, o governo suíço decidiu se juntar à farra da destruição da moeda.

No início de agosto de 2011, o Banco Central suíço adotou uma série de medidas para reverter a apreciação do franco.  Em termos simples, ele começou a imprimir francos para comprar moedas estrangeiras, mais notavelmente o euro.  O anúncio incluía a promessa de comprar quantias ilimitadas de moeda estrangeira com o intuito de manter um piso de 1,20 francos por euro.  Em outras palavras, o Banco Central suíço estava dizendo que faria a política monetária que fosse necessária para impedir que sua moeda continuasse se valorizando.  Ao fazer isso, os suíços essencialmente terceirizaram sua política monetária para a zona do euro.  Qualquer medida expansionista feita pelo Banco Central Europeu teria de ser imitada pelo Banco Central suíço.  Ironicamente, era justamente o medo desta perda de soberania monetária que fez com que os suíços se recusassem a adotar o euro.  Não obstante a milenar tradição de independência e neutralidade do país, os suíços acabaram, em vias indiretas, adotando o euro.

Desde aquela data, o franco suíço já se desvalorizou 16% em relação ao dólar, as reservas suíças explodiram, e os investidores estrangeiros que compraram francos como meio de fugir da desvalorização de suas moedas foram traídos.

Nações de economia robusta e mão-de-obra produtiva geram bens e serviços em excesso em relação ao volume que é demandado pela população nacional, o que permite que este excedente seja exportado sem prejudicar a qualidade de vida da população.  Esta robustez e estabilidade econômica atrai investimentos estrangeiros.  Tais fundamentos econômicos tendem a aumentar a demanda pela moeda deste país, o que significa uma apreciação de sua taxa de câmbio.  Uma moeda forte mantém baixos os custos dos insumos e dos bens de capital, o que permite que os trabalhadores produtivos ganhem salários reais cada vez maiores.

Entretanto, de acordo com a maioria dos economistas, ter uma moeda forte é algo trágico para uma economia porque irá destruir a competitividade internacional deste país e poderá — pavor dos pavores — gerar uma deflação de preços, algo que eles veem como uma areia movediça.  Foram estes temores que deram início à “guerra cambial global”, em que os países estão destruindo suas poupanças para garantir que suas moedas se mantenham baratas, para deleite dos exportadores.  Na lógica econômica atual, temos de fracassar para sermos bem-sucedidos.

Mas é muito fácil ter uma moeda fraca.  Basta uma ilimitada disposição para imprimir dinheiro.  Já uma moeda forte requer uma grande disciplina fiscal e uma genuína capacidade produtiva.  No entanto, como naqueles programas de TV em que as pessoas têm de perder peso, economistas acreditam que o vencedor de uma guerra cambial é o maior perdedor.  Você vence não por ter eliminado seus concorrentes, mas por ter se suicidado!  É como um estudante convencendo seus pais de que tirar 3 é melhor do que tirar 10.  E se um boletim escolar repleto de notas baixas começa a gerar elogios paternos em vez de reprimendas, os estudantes perderão qualquer incentivo para melhorar seus desempenhos.  Similarmente, se nações aplicadas como a Suíça começam a se esforçar para reduzir suas próprias notas, as outras nações mais relaxadas terão ainda menos incentivos para alterar seus hábitos de estudo.  Se as nações mais disciplinadas não entrassem nessa guerra cambial e não depreciassem suas moedas, aquelas nações que estão destruindo suas moedas veriam uma enorme escalada nos preços de seus bens de consumo.  A resultante queda no padrão de vida obrigaria várias reformas estruturais e produtivas.

Estou naquela posição minoritária que acredita que, assim como é melhor ser rico a ser pobre, uma moeda forte é preferível a uma moeda fraca.  Embora vários economistas renomados estejam se empenhando para criar confusão nesta discussão, o fato é que a falácia de um argumento pode ser vista quando sua lógica é levada a extremos.  Se uma moeda mais fraca é preferível a uma mais forte, então a lógica nos levaria a concluir que uma moeda sem valor nenhum será preferível a uma moeda de valor infinito.  Seria preferível, por exemplo, ter uma cédula de $1.000.000 que não compra absolutamente nada a ter uma moedinha de $0,01 que compra um automóvel.

E como funcionariam economias com moedas tão drasticamente diferentes assim?

É verdade que o país com a moeda de valor zero tenderia a apresentar pleno emprego e robustas exportações.  Óbvio.  Com o custo da mão-de-obra relativamente baixo, a população poderia ser facilmente empregada até mesmo nas mais inúteis atividades.  E pelo fato de a população não possuir poder de compra nenhum, todo e qualquer produto seria exportado para aqueles países cuja população possui uma moeda com maior poder de compra.  Adicionalmente, as importações seriam nulas, pois a população local seria incapaz de adquirir qualquer coisa produzida em outros países de moeda mais forte.  Como consequência, o nível de consumo neste país seria extremamente baixo e o padrão de vida desta população seria lamentável.  Essencialmente, essa economia seria parecida com aquelas economias pobres que funcionam em nível de subsistência, como as da Bolívia, do Zimbábue e do Haiti.

Por outro lado, um país com uma moeda de valor infinito vivenciaria o melhor dos mundos possíveis.  Mesmo a mais ínfima quantidade de dinheiro permitiria a seus cidadãos comprarem volumosas quantias de bens estrangeiros.  O dinheiro ganhado em um bico qualquer, como trabalhar de babá por apenas uma tarde, daria mais poder de compra do que meses de trabalho duro em países mais pobres.  A moeda forte permitiria que o consumo aumentasse ao mesmo tempo em que as horas de trabalho diminuíssem.  A poupança aumentaria continuamente de valor, as pessoas poderiam viajar com cada vez mais frequência e dedicar muito mais tempo ao lazer.  Essencialmente, é assim que funciona uma economia rica.

Quando vista sob esta perspectiva, é fácil entender por que os defensores da ortodoxia dominante fogem ao debate.  Aqueles que acreditam nos benefícios de uma moeda fraca nunca especificam quando uma moeda em depreciação se torna algo ruim.  É óbvio que tem de haver um ponto de virada, um ponto em que a perda do poder de compra passa a sobrepujar os supostos ganhos em crescimento econômico e emprego.  No entanto, há apenas silêncio em relação a isso.  já a minha posição é que uma moeda em contínua apreciação sempre será algo bom.  Neste quesito, nenhum ponto de virada precisa ser identificado.

O problema é que os economistas politicamente corretos de hoje acreditam que o objetivo de uma economia é fornecer emprego a todos, e não produzir bens e serviços de qualidade e em abundância.  Eles veem um emprego como o objetivo final de tudo, e não como um meio que possibilita às pessoas produzir coisas genuinamente demandadas, e cuja remuneração por este serviço genuíno permitirá que elas possam obter o que querem.  Ademais, se podemos conseguir tudo o que queremos sem ter de trabalhar muito, por que se importar com empregos?  Uma moeda forte nos leva para o mais próximo possível deste ideal.  O fato de este objetivo ter sido amplamente esquecido mostra com perfeição a miséria intelectual da atual “ciência” econômica.

E é justamente esse tipo de ciência tosca que está aniquilando o crescimento real do mundo.  Enquanto essa ideologia do “preto é branco” continuar prosperando, os maiores depreciadores continuarão a ser os maiores perdedores reais.

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