trabalhadoresA economia de mercado — também chamada de capitalismo —, quando operando sem intervenções do governo em seu mecanismo de preços e sem obstáculos à livre entrada e livre atuação da concorrência, é um sistema em que a supremacia é do consumidor.  O consumidor é soberano.  Como diz um popular slogan, ele “tem sempre razão”.

Neste arranjo, empreendedores estão sob a constante necessidade de ofertar aquilo que os consumidores querem, e devem fazer isso a preços que os consumidores podem e estão preparados para pagar.  Um empreendimento retumbará em um estrondoso fracasso caso as receitas de vendas não restituam o empreendedor por tudo aquilo que ele gastou produzindo seus bens e serviços.  E é assim que os consumidores, ao consumirem bens e serviços a um dado preço, determinam também o nível dos salários que serão pagos àqueles envolvidos nestes empreendimentos.

Os salários são, em última instância, pagos pelos consumidores

Deste raciocínio, segue-se que um empregador não pode pagar ao seu empregado um valor maior do que aquele que o empregado, por meio do seu trabalho, acrescenta à mercadoria.  E quem, em última instância, irá valorizar adequadamente a mercadoria é o público consumidor.  (É por isso que as estrelas de cinema ganham muito mais do que a faxineira da sala de cinema).

Se o empregador fosse pagar um salário maior, ele não iria conseguir recuperar suas despesas por meio das receitas obtidas das compras do público consumidor; ele teria seguidos prejuízos e finalmente iria à falência.  Ao pagar salários, o empregador age como um representante dos consumidores, por assim dizer.  É sobre os consumidores que recai a incidência dos salários que um empregador paga a seus empregados.  Dado que a esmagadora maioria dos bens produzidos é comprada e consumida por pessoas que são elas próprias assalariadas, torna-se óbvio que, ao gastar seus ordenados, os assalariados e empregados são eles próprios os principais determinadores do nível de compensação que eles e outros assalariados como eles irão receber.

O que faz os salários subirem

Os consumidores não pagam pelo trabalho árduo e pelas dificuldades que o trabalhador enfrentou em sua jornada, tampouco pelo tempo que ele gastou trabalhando.  Eles pagam pelos produtos.  Quanto melhores forem as máquinas, as ferramentas e os equipamentos — isto é, o capital — que os trabalhadores utilizam em seu trabalho, mais bens e serviços eles podem produzir em uma hora e, consequentemente, maior será a sua remuneração.

O que faz os salários subirem e o que torna as condições materiais dos assalariados mais satisfatórias é o aprimoramento dos equipamentos e materiais que eles utilizam.  Os salários serão mais altos naqueles países em que o capital investido por trabalhador seja maior, o que fará com que empresas e indústrias possam utilizar as mais eficientes máquinas e ferramentas.  E para que este capital seja alto, o governo deve retirar todos os obstáculos que impedem a poupança e a acumulação de capital, como impostos sobre a renda, tarifas de importação, regulamentações e burocracia.

Os países mais economicamente atrasados serão justamente aqueles cujas políticas de seus respectivos governos impeçam tanto a acumulação de capital doméstico quanto o investimento de capital estrangeiro.  Sem este capital, as empresas não conseguirão empregar quantidades suficientes de equipamentos modernos.  Consequentemente, irão produzir muito menos por hora trabalhada e só poderão pagar salários que, em comparação aos dos países mais ricos, parecerão escandalosamente baixos.

Há apenas uma maneira de aprimorar o padrão de vida dos assalariados: aumentar a quantidade de capital investida.  Todos os outros métodos, por mais populares que possam ser, não apenas são fúteis, como na realidade são perniciosos para o bem-estar justamente daqueles que supostamente devem ser os beneficiados.

O que causa do desemprego

A questão fundamental é: seria possível aumentar os salários, para todas aquelas pessoas ansiosas para trabalhar, acima daquele valor que seria o obtido em um mercado de trabalho livre e desimpedido?

A opinião pública acredita que a melhoria nas condições de vida dos assalariados é uma conquista dos sindicatos e das várias medidas legislativas.  Ela concede ao sindicalismo e ao legislativo o crédito pelo aumento dos salários, pela diminuição das horas de trabalho, pelo desaparecimento do trabalho infantil e por várias outras mudanças.  O predomínio dessa crença tornou o sindicalismo algo popular e foi responsável pela solidificação de várias legislações trabalhistas.  Como as pessoas creem que devem aos sindicatos seu alto padrão de vida, elas toleram toda a intimidação, coerção e violência praticadas pelos movimentos sindicais, e se tornam indiferentes às restrições às liberdades pessoais geradas por aquelas cláusulas que estabelecem que determinadas empresas só podem admitir empregados sindicalizados e que todos os operários devem obrigatoriamente se filiar a um sindicato.  Enquanto essas falácias predominarem na mente dos eleitores, será em vão esperar um abandono resoluto daquelas políticas que são erroneamente chamadas de progressistas.

E o fato é que essa doutrina popular falsifica cada aspecto da realidade econômica.  O nível dos salários em que todos aqueles que estão ansiosos por trabalho poderão ser empregados depende da produtividade marginal do trabalho.  Quanto mais capital for investido — tudo o mais constante —, mais os salários subirão em um mercado de trabalho livre, isto é, em um mercado de trabalho que não seja manipulado pelo governo e nem por sindicatos.  Sob o predomínio destes salários de mercado, todos aqueles ansiosos para empregar trabalhadores podem contratar quantos quiserem.  Sob o predomínio destes salários de mercado, todos aqueles que querem estar empregados podem conseguir um emprego.

Em um mercado de trabalho livre e desimpedido, sempre prevalecerá uma tendência de pleno emprego.  Com efeito, a política de permitir que o livre mercado determine o nível dos salários é a única política de pleno emprego sensata e bem sucedida.  Se os salários — seja por pressão ou coerção sindicalista, seja por decreto governamental — forem elevados acima deste nível de livre mercado, uma fatia da força de trabalho, aquela fatia não sindicalizada e com poucas habilidades, e justamente por isso a mais necessitada de qualquer tipo de emprego, será relegada a um permanente desemprego.

A expansão do crédito não substitui o capital

As opiniões acima são veementemente rejeitadas pelos líderes sindicais e por seus sectários, dentre estes políticos e pretensos intelectuais.  A panacéia por eles recomendada para combater o desemprego é a inflação monetária e a consequente expansão do crédito, eufemisticamente chamada de “política monetária expansionista”.

Como explicado acima, um acréscimo ao estoque do capital existente e que foi previamente acumulado possibilita que haja um aprimoramento adicional dos equipamentos das indústrias, elevando assim a produtividade marginal do trabalho e, consequentemente, também os salários.

Porém, a expansão do crédito, seja por meio da simples criação de mais cédulas ou moedas metálicas, seja por meio da expansão contas-correntes, não acrescenta nada à riqueza de uma economia.  A expansão do crédito não gera novos bens de capital; ela meramente cria a ilusão de um aumento na quantidade de fundos disponíveis para uma expansão da produção.  Como agora podem obter crédito mais barato, as pessoas erroneamente passam a crer que a riqueza do país foi aumentada e que, por isso, determinados projetos e investimentos que antes não poderiam ser executados agora se tornam viáveis.  O empreendimento desses projetos aumenta a demanda por mão-de-obra e por matéria-prima, e eleva os salários e os preços das mercadorias.  Uma expansão econômica artificial é iniciada.

Sob esse cenário de expansão econômica artificial, os salários nominais — que antes da expansão do crédito eram altos demais para as condições de mercado que predominavam naquele momento e que, por isso, haviam criado desemprego para uma fatia da mão-de-obra — deixam de ser considerados muito elevados, e os desempregados voltam a conseguir empregos.  Entretanto, isso ocorre somente porque, sob as atuais condições de inflação monetária e crédito fácil, os preços estão subindo; ou, falando o mesmo em outras palavras, o poder de compra da moeda está caindo.

Desta forma, o mesmo valor de salário nominal, isto é, o salário expresso em termos de dinheiro, passa a valer menos em termos reais, ou seja, em termos das mercadorias que podem ser compradas pela unidade monetária.  A inflação pode curar o desemprego apenas reduzindo os salários reais dos trabalhadores.  Mas então os sindicatos entram em cena e exigem novos aumentos salariais a fim de repor as perdas e acompanhar o ritmo do aumento do custo de vida.  Isso faz com que tudo volte à situação anterior, isto é, a uma situação em que o aumento do desemprego só poderá ser evitado caso haja novas expansões creditícias.

Tal política ocorre rotineiramente em vários países ao redor do mundo.  Os sindicatos, apoiados pelos governos, obrigam as empresas a pagar salários que estão muito além dos salários que prevaleceriam em um mercado livre — isto é, aqueles valores que o público estaria disposto a restituir os empregadores ao comprar seus produtos.  Já o governo, por sua vez, estabelece inúmeras regulamentações trabalhistas e sociais, onerando a folha de pagamento da empresa, fazendo com que o valor total pago pela mão de obra esteja muito acima daquele valor que prevaleceria em um livre mercado.  Isso tudo inevitavelmente geraria um desemprego crescente.  Porém, o governo impede que isso ocorra ao colocar em prática a política de expansão do crédito, isto é, inflação.  O resultado é o aumento dos preços, novas demandas por maiores salários e reiteradas expansões creditícias — em suma, inflação prolongada.

A inflação não pode continuar eternamente

Entretanto, chega um momento em que as autoridades se tornam receosas.  Elas sabem que a inflação não pode prosseguir continuamente.  Se não for interrompida a tempo, essa perniciosa política de expansão da quantidade de dinheiro e dos meios fiduciários fará com que, no extremo, o sistema monetário do país entre em total colapso.  O poder de compra da unidade monetária cai para um valor que, para todos os propósitos práticos, não está acima de zero.  Isso aconteceu recorrentemente na história mundial, sendo os casos mais famosos o da moeda Continental, nos EUA, em 1781, o assignat, na França, em 1796, o marco alemão, em 1923, e o pengõ húngaro, em 1946.

Nunca é cedo demais para uma nação finalmente perceber que a inflação não pode ser considerada um meio de vida, e que é imperativo o retorno a políticas monetárias mais sólidas e sensatas.

Não é o escopo deste pequeno artigo abordar todas as consequências que serão geradas pelo fim das políticas inflacionárias.  É necessário apenas enfatizar que o fim da expansão do crédito — e o consequente retorno à estabilidade monetária — não gera uma crise, ao contrário do que diz o senso comum.  O fim desse período de expansão creditícia, que gerou uma expansão econômica artificial, irá apenas revelar todos os investimentos insustentáveis e todos os vários outros erros que foram cometidos sob a alucinação da prosperidade ilusória criada pelo crédito fácil.  As pessoas finalmente se tornam cientes dos erros cometidos e, não mais enganadas pelo espectro do crédito fácil, começam a reajustar suas atividades, adequando-as ao real estado do mercado, à real estrutura de produção da economia, à real oferta de fatores de produção, de bens de capital e de mão-de-obra.

É esse — certamente doloroso, porém inevitável — ajuste que constitui a recessão.

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