875Em uma coluna publicada no The New York Times, o renomado economista Hal Varian [no Brasil, seus livros-texto de microeconomia são amplamente utilizados nas universidades], citando o economista Prêmio Nobel Ronald Coase, argumenta,

Aquilo que os economistas chamam de empresas . . . são essencialmente grupos de atividades para as quais, para realizar o que querem, é mais eficaz e menos custoso utilizar um sistema de controle centralizado em vez do mercado.

Esta noção de empresa o leva a crer que

paradoxalmente, se analisarmos bem, esta unidade essencial do capitalismo, a empresa, se parece muito com um esquema de planejamento centralizado.

Pode isso realmente ser verdade?  Será que este elemento essencial da cooperação social e da divisão do trabalho, tão essencial para o bem-estar material do ser humano, é, em sua essência, uma entidade socialista?  A resposta é: somente se você não for capaz de distinguir corretamente entre a genuína cooperação social baseada em interações voluntárias e a interação social baseada na violência, na ameaça de violência e na fraude — isto é, o verdadeiro ambiente do planejamento e do controle centralizado.

Talvez tenha havido essa confusão porque há tendência de nos referirmos ao livre mercado ou ao mercado como sendo o componente primordial daquilo que deveria ser mais corretamente chamado de economia livre ou sociedade livre.  Embora as trocas de mercado sejam um elemento-chave das possíveis interações econômicas entre os indivíduos de tal sociedade, elas não são a única forma de cooperação social.  Uma economia livre é caracterizada pelo uso dos meios econômicos e pela ausência do uso dos meios políticos — ou do intervencionismo — para satisfazer os desejos humanos.

Os desejos são satisfeitos pela combinação entre o trabalho dos indivíduos e a utilização de outros recursos.  O produto desta associação, por sua vez, será utilizado em cooperação com terceiros para a produção de bens e serviços que podem ser usados (1) para proveito próprio, (2) para trocas comerciais com outros produtores/consumidores, ou (3) para a oferta voluntária e gratuita de bens e serviços valiosos para outros indivíduos — a verdadeira compaixão ou caridade.

Em tal sistema, os indivíduos tomam suas decisões baseando-se nos preços de mercado, os quais servem de guia para avaliar e calcular os melhores métodos em potencial para se alcançar vários fins e objetivos.  Tais escolhas, em uma economia livre, não estão limitadas a escolhas puramente de mercado — devo comprar da pessoa/empresa A ou da pessoa/empresa B, devo comprar ao preço X ou ao preço Y, qual deve ser a qualidade etc. —, pois sempre há a opção da produção autônoma em vez da compra direta de terceiros.

A formação de uma empresa, portanto, não é um exemplo de um planejamento centralizado propriamente entendido.  Uma empresa “se parece muito com um esquema de planejamento centralizado” somente se alguém for incapaz de entender a real diferença entre planejamento central e planejamento feito por indivíduos baseando-se no cálculo de preços e na avaliação de métodos possibilitados por uma economia livre.

Em uma economia livre, ninguém estabelece e expande uma empresa adquirindo recursos para ela por meio de ameaças a terceiros; ninguém cria uma empresa apontando uma arma para outros indivíduos.  Da mesma maneira, ninguém se torna empregado de uma empresa em decorrência de recrutamento compulsório ou trabalho forçado.  Empresas são formadas e as pessoas se juntam a elas em decorrência de um processo de cooperação voluntária, o qual nós normalmente chamamos de mercado.  São as condições de mercado (inclusive a avaliação dos custos de transação) que levam os indivíduos a acreditar que seus fins são mais bem servidos pela criação de uma empresa ou por sua associação a uma empresa já estabelecida, assim como famílias normalmente optam pela produção autônoma de certos serviços — como criação de filhos, preparo de alimentação, conservação do jardim — em vez de adquiri-los no mercado.

Empresas, portanto, são um elemento primordial do processo de planejamento feito por indivíduos, processo este o qual normalmente chamamos de “mercado”, que gera prosperidade e paz.  Elas não são um elemento do caos e da pobreza gerados por este intervencionismo chamado planejamento central.

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