Quando as comódites relativamente mais vendáveis se tornaram “dinheiro”, o grande evento tem, em primeiro lugar, o efeito de aumentar substancialmente sua vendabilidade originalmente alta. Todo agente econômico trazendo mercadorias menos vendáveis para o mercado, para adquirir bens de outro tipo, tem, então, um forte interesse em converter o que ele tem em primeira instância nas mercadorias que se tornaram dinheiro. Para essas pessoas, pela troca de suas mercadorias menos vendáveis por aquelas que, como o dinheiro, são mais vendáveis, não alcançam apenas, como até agora, uma maior probabilidade, mas a certeza de poder adquirir imediatamente quantidades equivalentes de todo tipo de comódite tida no mercado. E seu controle sobre isso depende simplesmente de seu prazer e sua escolha. Pecuniam habens, habet omnem rem quem vult habere.

Por outro lado, aquele que traz outras mercadorias ao mercado que não seja o dinheiro, encontra-se mais ou menos em desvantagem. Para ganhar o mesmo domínio sobre o que o mercado oferece, ele deve primeiro converter seus bens trocáveis em dinheiro. A natureza de sua deficiência econômica é demonstrada pelo fato dele ser forçado a superar uma dificuldade antes que ele possa atingir seu propósito, cuja dificuldade não existe, ou seja, já foi superada pelo homem que possui um estoque de dinheiro.

Isso tem todo o significado maior para a vida prática, na medida em que superar essa dificuldade não se encontra incondicionalmente ao alcance de quem traz bens menos vendáveis para o mercado, mas depende em parte de circunstâncias sobre as quais o negociador individual não tem controle. Quanto menos vendáveis são os seus produtos, mais certamente ele terá que sofrer a penalidade no preço econômico, ou se contentar em aguardar o momento, quando será possível efetuar uma conversão a preços econômicos. Aquele que é desejoso por, numa era de economia monetária, trocar bens de qualquer tipo que seja, que não seja dinheiro, por outros bens fornecidos no mercado, não podem estar certos de alcançar esse resultado de uma só vez ou dentro de algum intervalo de tempo predeterminado, a preços econômicos. E o quão menos vendável for os bens trazidos por um agente econômico ao mercado, menos favorável, para os seus próprios propósitos, será sua posição econômica comparada com a posição daqueles que trazem dinheiro ao mercado. Considere, por exemplo, o proprietário de um estoque de instrumentos cirúrgicos, que é obrigado através de uma súbita dificuldade, ou através da pressão dos credores, a convertê-lo em dinheiro. Os preços que irá alcançar serão altamente acidentais, mais que isso, os bens sendo de tal vendabilidade limitada, serão bastante incalculáveis. E isso serve para todos os tipos de conversões que em relação ao tempo são vendas compulsórias.[1] Outro é o caso daquele que quer em um mercado converter a comódite, que se tornou dinheiro, imediatamente em outros bens fornecidos nesse mercado. Ele alcançará seu objetivo, não apenas com certeza, mas geralmente também a um preço correspondente à situação econômica geral. Não só, mas também o hábito da ação econômica nos tornou tão seguros de poder obter em troca de dinheiro qualquer mercadoria no mercado, sempre que desejarmos, a preços correspondentes à situação econômica, que nós estamos na maior parte do tempo inconscientes de quantas compras nós propomos fazer diariamente, que, em relação aos nossos desejos e o tempo de concluí-las, são compras compulsórias. As vendas compulsórias, por outro lado, em conseqüência da desvantagem econômica que elas comumente envolvem, forçam-se sobre a atenção das partes implicadas de forma inconfundível. O que, portanto, constitui a peculiaridade de uma comódite que se tornou dinheiro é que a posse dela nos procura a qualquer hora, isto é, a qualquer momento que achamos adequado, asseguramos o controle de todas as comódites a serem tidas no mercado, e isso geralmente a preços ajustados à situação econômica do momento; O controle, por outro lado, conferido por outros tipos de comódites sobre os bens de mercado é, em relação ao tempo, e em parte ao preço também, incerto, relativamente se não absolutamente.

Assim, o efeito produzido por tais bens, que são relativamente mais vendáveis, é uma crescente diferenciação entre seu grau de vendabilidade e o de todos os outros bens. E essa diferença na vendabilidade deixa de ser completamente gradual, e deve ser considerada em certo aspecto como algo absoluto. A prática da vida cotidiana, bem como a jurisprudência, que se aprofunda em grande parte com as noções prevalecentes na vida cotidiana, distinguem duas categorias nos meios comerciais — bens que se tornaram dinheiro e bens que não se tornaram. E o fundamento dessa distinção, achamos, reside essencialmente naquela diferença na vendabilidade de comódites acima descrita — uma diferença tão significativa para a vida prática e que é mais enfatizada pela intervenção do estado. Esta distinção, além disso, encontra expressão na linguagem na diferença de significado associada a “dinheiro” e “mercadorias”, “compra” e “troca”. Mas também oferece a explicação principal daquela superioridade do comprador sobre o vendedor, que encontrou múltiplas considerações, mas até agora foi explicado de forma inadequada.

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Notas:

[1] Aqui está a explicação das circunstâncias pelas quais as vendas compulsórias e os casos de distração em particular, envolvem, em geral, a ruína econômica da pessoa em cuja propriedade são realizadas e que, em maior grau, menos os bens em questão são vendáveis. O discernimento correto do caráter não econômico desses processos irão necessariamente conduzir para uma reforma no mecanismo legal disponível.

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