Desemprego e política monetária

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Palestra proferida em 1975 em um simpósio do Cato Institute

foto29opin-201-col_op1-a12Lições da Grande Inflação

A Grande Inflação da Áustria e da Alemanha chamou-nos a atenção para a estreita relação entre as alterações da quantidade de dinheiro e as variações do nível de emprego. Ficou especialmente claro não só que o nível de emprego criado pela inflação se ia reduzindo à medida que o ritmo da inflação era desacelerado, mas também que, com o término da inflação, surgia o que se passou a chamar de “crise de estabilização”, caracterizada por índices alarmantes de desemprego. Foi por perceber essa relação que, desde o início, juntamente com alguns dos meus contemporâneos, vi que deveria não apenas rejeitar o tipo de política de pleno emprego defendido por Lorde Keynes e por seus seguidores, como também colocar-me determinadamente em oposição a ele.

É preciso acrescentar, a respeito desta revisão da Grande Inflação, que o muito que aprendi não foi fruto somente de observação pessoal. Reconheço que me ensinaram a ver a total estupidez dos argumentos que eram, naquela época, apresentados, principalmente na Alemanha, para explicar e justificar os aumentos da quantidade de dinheiro. E estes ensinamentos devo-os principalmente a meu professor, o falecido Ludwig von Mises. Vejo agora a grande maioria desses argumentos defendidos nada mais nada menos do que em países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, países estes que, naquela época, pareciam muito bem preparados em relação à Economia: seus economistas viam, então, com desdém, as loucuras dos colegas alemães, nenhum desses defensores da política inflacionária foi capaz de propor ou de aplicar medidas que eliminassem a inflação, que foi, afinal, estancada por Hjalmar Schacht, homem que acreditava firmemente numa versão rude e primitiva da teoria quantitativa.

A política das décadas atuais — ou a teoria que a fundamenta — teve a sua origem, porém, nas experiências específicas da Grã-Bretanha, durante as décadas de 1920 e de 1930. Passada a inflação da Primeira Guerra Mundial — que, aliás, agora nos parece muito modesta — a Grã-Bretanha, em 1925, voltou ao padrão-ouro. Em minha opinião, esta volta, embora tenha sido efetuada de maneira honesta e sensata, baseou-se lamentável e equivocadamente na paridade anterior. A doutrina clássica, de modo algum, assim o teria exigido. David Ricardo escreveu a um amigo, em 1821: “Eu nunca aconselharia um governo a restaurar com paridade, uma moeda que estivesse depreciada em 30%.”[1]. Frequentemente me pergunto o que haveria de diferente na história econômica do mundo se, durante as discussões e debates dos anos anteriores a 1925, um economista inglês que fosse se tivesse lembrado desta opinião de Ricardo.

De qualquer forma, a decisão infeliz que se tomou em 1925 tornou inevitável um prolongado processo de deflação. Este processo poderia ter tido algum êxito quanto à manutenção do padrão-ouro, caso se houvesse prolongado até um ponto em que uma boa parte dos salários tivesse sofrido considerável redução. Parece-me mesmo que a tentativa já estava bem próxima do sucesso quando, na crise mundial de 1931, a Grã-Bretanha a deixou de lado, abandonando também o, de tal modo, desacreditado padrão-ouro.

A “cura” política de Keynes para o desemprego

Foi durante o período de amplo desemprego na Grã-Bretanha, período este que precedeu a crise econômica mundial de 1929-31, que John Maynard Keynes elaborou as suas ideias básicas. É importante notar que a evolução de seu pensamento econômico teve lugar num período em que seu país se encontrava numa posição muito excepcional, quase mesmo singular. Como resultado da grande valorização internacional da libra esterlina, os salários reais de praticamente todos os assalariados britânicos haviam se elevado substancialmente, em relação aos salários reais percebidos no resto do mundo. Como consequência, tornou-se impossível para a Grã-Bretanha concorrer, com sucesso, com outros países. Assim, para dar emprego aos desempregados, teria sido necessário ou reduzir praticamente todos os salários ou aumentar os preços em libra esterlina da maior parte dos produtos primários.

É possível identificar três fases bem distintas no desenvolvimento do pensamento de Keynes. A princípio ele reconheceu a necessidade de reduzir os salários reais. A seguir, concluiu que tal medida seria politicamente inviável. Depois, convenceu-se de que esta redução seria inútil e até mesmo nociva. O Keynes de 1919 ainda entendia que: “não há meio mais sutil nem mais seguro de subverter a ordem social do que o aviltamento da moeda. Trata-se de um processo que mobiliza todas as forças ocultas da lei econômica a favor da destruição, e o faz de maneira tal que em um milhão de pessoas não há uma só que seja capaz de fazer um diagnóstico”.[2]

A avaliação política que Keynes fazia da situação o tornou o grande inflacionista, ou pelo menos o mais ávido antideflacionista dos anos 1930. Tenho, no entanto, boas razões para crer que ele desaprovaria o que fizeram os seus seguidores no período de pós-guerra. Se não tivesse morrido tão cedo, teria sido, certamente, um dos líderes na luta contra a inflação.

A “ideia fatal”

Foi durante aquele malfadado período da história monetária inglesa, período em que Keynes se tornou o líder intelectual, que a ideia fatal deste economista ganhou aceitação geral. Para Keynes, o desemprego é decorrente sobretudo de uma demanda agregada que se mostra insuficiente em relação ao total de salários que seriam pagos se todos os assalariados estivessem empregados recebendo os salários vigentes.

Essa fórmula que considera o emprego como função direta da demanda total provou ser extraordinariamente efetiva, uma vez que, de alguma forma, era confirmada empiricamente por resultados de dados quantitativos. Por outro lado, explicações alternativas para o desemprego — que, aliás, me parecem corretas — não desfrutavam desta mesma confirmação. Os perigosos efeitos exercidos pela visão “cientificista” preconcebida sobre essa interpretação dos fatos constituem o tema da conferência que proferi, em Estocolmo, quando recebi o Prêmio Nobel. Em suma, é extremamente curioso o fato de a teoria keynesiana ser falsa, muito embora — por ser a única passível de prova quantitativa —, possa ser confirmada pela estatística. No entanto, sua ampla aceitação decorre de uma explicação que antes era tida como verdadeira — e eu, aliás, ainda a aceito como verdadeira — mas que não pode, por sua própria natureza, ser avaliada estatisticamente.

A verdadeira teoria do desemprego

Uma explicação verdadeira, embora não comprovável, para o desemprego disseminado está na própria discrepância entre, de um lado, o modo como está distribuída a mão de obra, bem como os outros fatores de produção por entre as diferentes indústrias (e localidades) e, de outro, o modo como se distribui a demanda pelos bens originados por esta mão de obra. A discrepância, que é decorrente de uma distorção do sistema de preços relativos e de salários, somente poderá ser corrigida através da alteração das relações, ou seja, através do estabelecimento, em cada setor da economia, dos preços e dos salários que equalizarão oferta e demanda.

Em outras palavras, o desemprego é causado por um desvio do equilíbrio entre preços e salários. Por outro lado, o equilíbrio poderia existir caso houvesse um mercado livre e uma quantidade estável de dinheiro, no entanto, é impossível saber, de antemão, qual seria a estrutura de preços relativos e salários que tornaria possível o estabelecimento do equilíbrio. Por isso, é-nos também impossível dimensionar o desvio dos preços correntes em relação aos preços de equilíbrio que impossibilita o emprego de parte da oferta de mão de obra. Por outro lado, também não podemos demonstrar correlação estatística entre a distorção dos preços relativos e o volume de desemprego, no entanto, apesar de não nos ser possível medi-las, as causas do desemprego são evidentemente atuantes. A superstição corrente de que somente o mensurável é importante tem contribuído muito para desorientar os economistas e o mundo em geral.

A teoria de Keynes — uma tentação para os políticos

O fato de a teoria keynesiana ter dado aos políticos oportunidades tentadoras foi provavelmente ainda mais importante do que o seu aspecto, então muito em voga, de método científico, aspecto este que a fez parecer tão atraente para os economistas profissionais. Esta teoria representava para os políticos não apenas um método barato e rápido de eliminar uma importante fonte de sofrimento humano, mas também um meio de se libertarem das duras restrições que os cerceavam quando objetivavam alcançar popularidade. De repente, medidas como gastar dinheiro e gerar déficits orçamentários passaram a ter uma conotação extremamente positiva. Argumentava-se, com profunda convicção, que a expansão dos gastos públicos era totalmente meritória, uma vez, que propiciava a utilização de recursos até então ociosos, o que, além de nada custar à comunidade, trazia-lhe um ganho líquido.

Um resultado prático dessas crenças foi que, pouco a pouco, foram-se removendo todos os obstáculos que impediam as autoridades monetárias de emitirem cada vez maior quantidade de dinheiro. O acordo de Bretton Woods tentou colocar o ônus do ajustamento internacional exclusivamente sobre os países superavitários: obrigava-os à expansão, sem, todavia, exigir dos países deficitários a retratação. Lançou, assim, as bases de uma inflação mundial. Vale notar que, baseando esta iniciativa, havia um louvável propósito de assegurar taxas fixas de câmbio. Entretanto, quando a crítica da maioria dos economistas de espírito inflacionário conseguiu superar este último obstáculo à inflação nacional, nenhum freio efetivo sobrou, como ilustra, desde o final dos anos 1960, a experiência britânica.

Taxas de câmbio flexíveis, pleno emprego e moeda estável

Não se pode negar o fato de que a procura de taxas flexíveis de câmbio teve suas origens em países como a Grã-Bretanha, onde alguns economistas desejavam estabelecer uma margem mais larga para a expansão inflacionária, chamada “política de pleno emprego”. Mais tarde, eles, lamentavelmente, receberam apoio de outros economistas que, embora não fossem movidos pelo desejo de inflação, aparentemente minimizaram o argumento mais forte em favor das taxas fixas de câmbio, qual seja, o de que elas constituem um freio necessário e praticamente insubstituível para compelir os políticos, bem como as autoridades monetárias subordinadas a eles, a manterem estável a moeda.

A manutenção do valor do dinheiro e a decisão de evitar a inflação estão sempre exigindo que os políticos tomem medidas extremamente impopulares. Mostrar que o governo é compelido a tomar tais medidas é a única forma que os políticos encontram para justificá-las perante as pessoas que são negativamente afetadas por elas. Quando se tem a preservação do valor externo da moeda nacional como uma necessidade indiscutível — assim como são consideradas taxas fixas de câmbio —, os políticos podem resistir às constantes pressões em favor de créditos mais baratos, de maiores gastos em “obras públicas”, contra taxas de juros mais elevadas etc.. Quando se fixam as taxas cambiais, uma decorrente queda no valor internacional da moeda ou, então, uma saída de ouro ou de reservas internacionais representam sinais para que haja uma pronta ação por parte do governo. Com taxas cambiais flexíveis, as consequências do aumento da quantidade de dinheiro sobre o nível interno de preços são demasiadamente lentas, não aparecendo, por isso, ostensivamente, nem permitindo inculpar aqueles que, em última instância, são os responsáveis pela situação. Além do mais, a inflação é geralmente precedida de uma bem recebida elevação no nível de emprego, o que pode mesmo fazê-la parecer desejável: seus efeitos nefastos não são visíveis senão mais tarde.

Fica, então, bastante fácil entender por que nações como a Alemanha — ela mesma sofrendo de visível inflação importada — hesitaram, no período de pós-guerra, diante da decisão de se destruir completamente o sistema de taxas fixas de câmbio: havia uma esperança de restringir o número de países demasiadamente propensos a uma situação inflacionária. As taxas de câmbio fixas pareceram, por algum tempo, suficientes para que se detivesse uma aceleração ainda maior do processo inflacionário. Agora, no entanto, quando o sistema de taxas cambiais fixas parece ter entrado em colapso total, e há poucas esperanças no sentido de que a autodisciplina possa induzir alguns países a se conterem, restam precárias razões para se aderir a um sistema que já não surte efeitos. Olhando para trás, pode-se mesmo indagar se, baseados numa esperança infundada, o Bundesbank da Alemanha ou o Banco Central da Suíça não esperaram demais para depois aumentarem muito pouco o valor das suas moedas. Apesar de tudo, a longo prazo, não creio que possamos recuperar um sistema de estabilidade internacional sem voltar a um sistema de taxas fixas de câmbio que seja capaz de impor aos bancos centrais a contenção essencial a uma bem sucedida resistência às pressões daqueles que defendem a inflação em seus países — e geralmente entre estes estão os ministros das finanças.

A inflação acaba aumentando o desemprego

No entanto, por que todo esse medo da inflação? Não deveríamos tentar aprender a conviver com ela, como alguns países sul-americanos parecem ter feito, principalmente no caso de ela ser, como alguns acreditam, necessária para manter o pleno emprego? Se esta hipótese é verdadeira e se os danos decorrentes da inflação são apenas aqueles que muitos apregoam, é, então, o caso de considerarmos seriamente essa possibilidade de convívio.

Por que não podemos viver com inflação

Há dois motivos por que não podemos conviver com a inflação. O primeiro reside no fato de que tal inflação, para atingir a meta desejada, teria que acelerar-se constantemente; ora, uma inflação em aceleração constante mais cedo ou mais tarde há de atingir um grau que tornará impossível qualquer ordem efetiva de uma economia de mercado. O segundo — e o mais importante — está na certeza de que, a longo prazo, essa inflação criará, inevitavelmente, um volume de desemprego muito maior do que aquele que pretendeu evitar.

O argumento, frequentemente apresentado, de que a inflação simplesmente gera uma redistribuição do produto social, enquanto o desemprego reduz este produto, representando, portanto, um mal maior, é falso porque é a inflação que, na verdade, se torna causa de aumento do desemprego.

Efeitos nocivos da inflação

Não é, com certeza, meu intuito, subestimar os outros efeitos danosos da inflação. São muito piores do que podem imaginar aqueles que não passaram por um período de grande inflação: depois dos meus primeiros oito meses num emprego, meu salário era 200 vezes mais alto que o inicial. Estou realmente convencido de que uma administração tão incompetente da moeda só é tolerada porque ninguém dispõe de tempo ou energia, durante o período inflacionário, para organizar uma rebelião popular.

É preciso, no entanto, deixar claro que os efeitos experimentados por qualquer cidadão ainda não representam as piores consequências da inflação. Frequentemente as pessoas não se dão conta deste fato, porque as piores consequências somente aparecem quando a inflação acaba. Faz-se necessário mostrar isto especialmente aos economistas, políticos e a outras pessoas que sempre citam como exemplo os países da América do Sul que, tendo vivido sob um regime inflacionário durante várias gerações, parecem ter aprendido a conviver com ele. Quando estes países são predominantemente agrícolas, os efeitos da inflação se limitam principalmente aos já mencionados. As consequências mais graves geradas pela inflação em mercados de trabalho de países industrializados são de menor importância na América do Sul.

Medidas tomadas em alguns desses países, particularmente no Brasil, no sentido de tentar, através de algum tipo de indexação, enfrentar os problemas da inflação, podem, na melhor das hipóteses, amenizar algumas de suas consequências, mas certamente não vão chegar a alterar suas principais causas ou seus efeitos mais nocivos. Estas medidas são inoperantes quanto à prevenção do maior dos danos que a inflação produz — a alocação inadequada da mão de obra, assunto, de que, agora, passo a tratar com maior profundidade.

Alocação inadequada de mão de obra

A inflação torna certos empregos temporariamente atraentes. Estes empregos, no entanto, certamente desaparecerão quando a inflação cessar ou mesmo quando deixar de acelerar-se tão rapidamente. Esta é uma consequência de a inflação (a) alterar o fluxo monetário entre os vários setores e estágios do processo produtivo e (b) criar a expectativa de um aumento ainda maior de preços.

Os que defendem uma política monetária de pleno emprego frequentemente o fazem como se um único aumento da demanda total pudesse ser suficiente para assegurar que se conseguirá manter o pleno emprego durante um período indefinido, mas razoavelmente longo. Este tipo de visão deixa de lado os efeitos inevitáveis dessa política, tanto sobre a distribuição da mão de obra entre as diferentes indústrias, como sobre a política salarial dos sindicatos.

Assim que o governo assume a responsabilidade pela manutenção do pleno emprego, respeitando quaisquer salários que os sindicatos tenham conseguido obter, não há mais por que levar em conta o desemprego, possivelmente causado pelas próprias reivindicações salariais sindicalistas. Neste tipo de situação, qualquer aumento de salário que exceda o aumento da produtividade tornará necessária, para que não redunde em desemprego, uma elevação na demanda total. Assim, o aumento da quantidade de dinheiro que se fez necessário em função da alta dos salários torna-se um processo contínuo, que provoca constantes injeções de quantidades adicionais de dinheiro.

A oferta monetária adicional certamente acarretará alterações na intensidade da demanda por diversos tipos de bens e serviços. Estas alterações na demanda relativa, por sua vez, devem redundar em variações adicionais nos preços relativos, com as consequentes mudanças nas diretivas da produção e na alocação dos fatores de produção, inclusive da mão de obra. Não vou deter-me, aqui, nos outros fatores que levam os preços de diferentes bens — assim como as quantidades em que são produzidos — a reagirem de modos diferentes às alterações da demanda (como as elasticidades — a velocidade com a qual a oferta responde à demanda).

A conclusão mais importante que pretendo demonstrar é a de que quanto mais tempo durar a inflação, maior será o número de trabalhadores com empregos que dependerão de sua continuação, ou, muitas vezes até, de haver uma aceleração constante da taxa inflacionária. E isto não acontece porque estes trabalhadores não teriam encontrado emprego sem a inflação, mas porque a inflação os leva a empregos temporariamente atraentes, que tendem a desaparecer assim que haja a desaceleração ou o término do processo inflacionário.

As consequências são inevitáveis

Não podemos alimentar a ilusão de que é possível fugir às consequências dos erros cometidos. Qualquer esforço de preservar os empregos que a inflação tornou lucrativos redundaria numa completa destruição da ordem do mercado. Mais uma vez perdemos a oportunidade, no período posterior à guerra, de evitar, enquanto havia tempo, uma depressão, na verdade, o que temos feito é usar a emancipação que possuímos em relação a restrições institucionais, tais como, o padrão-ouro e as taxas fixas de câmbio, para agir de uma maneira nunca antes tão insensata.

No entanto, a impossibilidade de evitar o ressurgimento do desemprego em volume considerável não é decorrente de uma falha do “capitalismo” ou da economia de mercado, mas sim uma consequência exclusiva de nossos próprios erros — erros que poderiam ter sido evitados se tivéssemos recorrido à experiência passada e a todo o conhecimento que temos disponível. É preciso reconhecer que, lamentavelmente, as frustrações decorrentes de expectativas fundamentadas nestes erros podem levar a um grave estado de inquietação social. Não está, porém, ao nosso alcance evitar que as coisas sejam assim. O perigo mais sério, agora, é o de que ainda ocorram tentativas — tão atraentes para os políticos — de postergar o malfadado dia, tornando, com isso, a longo prazo, a situação ainda pior. Confesso que há algum tempo venho querendo que a inevitável crise chegue logo. E espero, agora, o insucesso de todo e qualquer esforço no sentido de que o processo de expansão monetária tenha um pronto reinicio, a fim de que sejamos forçados a optar por uma nova política.

Desemprego temporário, mas não em massa

É necessário frisar que, embora eu veja como inevitável um período de alguns meses — talvez mesmo de mais de um ano — de desemprego em nível considerável, não acho que devamos esperar um outro longo período de desemprego em massa, como o que ocorreu na Grande Depressão dos anos 1930. Mas é preciso que não cometamos erros muito grosseiros em termo de política. Uma política sensata, que não repita os erros responsáveis pelo tanto que durou a Grande Depressão, pode estancar um processo em que nos encontramos.

Antes de tratar de qual deverá ser, futuramente, a política a ser adotada, é meu intuito colocar-me firmemente contra a interpretação distorcida que se faz a respeito do meu ponto de vista. Não que eu recomende o desemprego como meio de combate à inflação: meu aconselhamento parte do princípio de que só temos, no momento, duas alternativas — ou algum desemprego em um futuro próximo ou um desemprego muito maior em um futuro mais distante. São atitudes do tipo après moi, le dèluge — tomadas por políticos que, preocupados com as próximas eleições, bem podem optar por maior desemprego mais tarde — que inspiram muito medo. Lamentavelmente, mesmo alguns comentaristas, como é o caso de redatores do The Economist, fazem uma argumentação neste sentido e sugerem “reflação”, quando o aumento na quantidade de dinheiro ainda prossegue.

O que pode ser feito agora?

O primeiro passo

Atualmente, a necessidade mais premente é parar o aumento da quantidade de moeda — ou pelo menos reduzi-lo à taxa de crescimento real de produção — e isso dificilmente acontece em tempo útil. Não há, além do mais, vantagens decorrentes de uma desaceleração gradual — e, por motivos exclusivamente técnicos, é somente esta medida que nos resta.

Não é o caso, também, de concluir que não deveríamos procurar estancar uma real deflação que ameace instalar-se. A deflação não deve ser considerada como causa primeira de um declínio da atividade econômica. Apesar disso, é certo que a frustração das expectativas tende a provocar o processo deflacionário ? fenômeno que, há mais de quarenta anos, chamei de “deflação secundária”. Os efeitos deste processo deflacionário podem ser ainda piores — e nos anos 1930 foram, de fato, piores — do que os atribuíveis à causa primeira da reação. A deflação, além do mais, não leva ninguém a parte alguma.

Há 40 anos, é preciso dizer, minha argumentação era outra. Mudei, desde então, a minha opinião — não em relação à explicação teórica dos fatos, mas no que concerne às possibilidades práticas de se removerem os obstáculos ao funcionamento do sistema através da aceitação da deflação por algum tempo.

Naquela época, eu acreditava que, com um curto período de deflação, se pudesse modificar a rigidez dos salários — fenômeno que os economistas têm chamado, desde então, de “rigidez para baixo” —, ou a resistência à diminuição de alguns salários específicos. Isto abriria uma possibilidade de se restaurarem os salários relativos determinados pelo mercado, além de, aparentemente, ser uma condição indispensável ao funcionamento satisfatório do mecanismo de mercado. No entanto, já não me parece possível conseguir efeitos positivos a partir desta medida. Da época em que eu a defendia, já deveria ter-me conscientizado de que se perdera a última oportunidade quando o governo britânico abandonou, em 1931, exatamente quando parecia estar perto do sucesso, o esforço de diminuir os custos por meio da deflação.

Evitar que a recessão degenere em depressão

Se eu fosse, hoje, responsável pela política monetária de um país, certamente tentaria de todas as maneiras possíveis evitar uma deflação iminente, ou seja, uma queda absoluta nos fluxos de renda. Além disso, deixaria bem claro o meu propósito de assim proceder. Por si só, esta medida provavelmente seria suficiente para evitar que a recessão se degenerasse numa depressão de longa duração.

A recuperação de um mercado no sentido de que ele volte a funcionar adequadamente, porém, ainda exige a reestruturação do complexo representado pelo sistema de preços relativos e salários, bem como uma readaptação à expectativa de preços estáveis, o que pressupõe muito maior flexibilidade em relação aos salários do que a que hoje existe, não ouso fazer uma previsão das probabilidades de que o mercado chegue à fixação dos salários relativos, nem mesmo posso prever quanto tempo este processo consumiria. Embora eu reconheça que uma redução geral de salários em moeda é politicamente inviável, tenho certeza de que o necessário ajustamento da estrutura de salários relativos pode e deve ser conseguido sem inflação, através, simplesmente, da redução do salário em moeda de alguns grupos de trabalhadores.

Se não quisermos ter uma visão imediatista da questão, não podemos, obviamente, tão logo ultrapassemos as primeiras dificuldades, nos deixar de novo levar por aquele método aparentemente barato e fácil de obter pleno emprego, qual seja, o de usar a pressão monetária para atingir a meta de ter o máximo de emprego que se pode conseguir a curto prazo.

O sonho keynesiano

O sonho keynesiano findou, muito embora seus fantasmas estejam, há várias décadas, como que dominando os políticos. Seria excelente — embora isto certamente signifique desejar demais — que a expressão “pleno emprego”, agora tão intimamente associada à política inflacionária, pudesse ser deixada de lado, ou que pelo menos estivesse sempre presente a lembrança de que ela foi o objetivo de economistas clássicos muito anteriores a Keynes. John Stuart Mill fala, em sua autobiografia, sobre como “o pleno emprego com altos salários”, na sua juventude, era tido como a principal aspiração da política econômica.[3]

Objetivo fundamental: dinheiro estável, e não “pleno emprego” instável

É preciso ficar bem claro que nosso objetivo deve ser não o de chegar, em curto prazo, ao máximo de emprego que se possa atingir, mas sim o de um “elevado e estável (ou seja, continuado) nível de emprego”. É possível chegarmos a este objetivo, no entanto, simplesmente com o restabelecimento de um mercado capaz de funcionar de maneira apropriada: a livre ação dos preços e dos salários estabelecendo, para cada setor, a correspondência entre a oferta e a demanda.

A política monetária pode evitar consideráveis flutuações na quantidade de dinheiro ou no volume do fluxo de renda, mas o efeito que ela exerce sobre o emprego não deve constituir-se no fator predominante para seu estabelecimento: seu principal objetivo deve ser, ainda, a estabilidade do valor da moeda. As autoridades monetárias devem, portanto, estar efetivamente protegidas contra as pressões políticas que muitas vezes as têm, hoje em dia, forçado a tomar medidas que, sendo politicamente vantajosas a curto prazo, se mostram, a longo prazo, extremamente nocivas à comunidade.

Disciplinando as autoridades monetárias

Seria bom poder dividir com meu amigo Milton Friedman a confiança que tem no fato de que se poderiam evitar abusos de poder, por parte das autoridades monetárias para fins políticos, se se destituíssem estas autoridades de todo e qualquer poder discricionário, prescrevendo a soma de dinheiro que elas poderiam e deveriam, a cada ano, acrescentar ao meio circulante. Talvez ele considerasse isto viável porque, para efeitos estatísticos, ele acostumou-se a distinguir com precisão a linha divisória entre o que é e o que não é considerado dinheiro. Essa distinção, no entanto, não existe no mundo real.

Para garantir que tudo o que é quase-dinheiro possa ser convertido em dinheiro propriamente dito — o que se faz necessário para evitar pânico ou graves crises de liquidez —, estou certo de que é preciso que as autoridades monetárias tenham um certo grau de arbítrio. Concordo com Friedman, no entanto, quando diz que temos de tentar voltar a um sistema mais ou menos automático, se quisermos regular a quantidade de dinheiro dos tempos normais. As autoridades monetárias deveriam ter neste princípio um objetivo, e não estar a ele amarradas por lei.

Embora eu não seja tão otimista quanto o editor do Times de Londres, Mr. William Rees-Mogg, que em sensacional artigo[4] propõe a volta ao padrão-ouro, tal sugestão, vinda de fonte tão influente, faz-me sentir mais confiante no futuro. Aliás, eu até concordo com a ideia de que, entre os sistemas monetários viáveis, o padrão-ouro internacional seria o melhor, se fosse possível acreditar que os países mais importantes obedeceriam de fato às regras do jogo que se fazem necessárias para a preservação do sistema. No entanto, isso me parece muito pouco provável. Por outro lado, nenhum país pode, isoladamente, por si próprio, ter um padrão-ouro efetivo. O padrão-ouro, por ser, por sua própria natureza, um sistema internacional, somente pode funcionar como um sistema internacional.

É um grande passo, entretanto, em direção a uma o volta à razão a afirmação que faz Mister Rees-Mogg no fim de seu livro:

Deveríamos acabar com o compromisso de pleno emprego do White Paper de 1944, numa grande revolução política e econômica. Isso, até bem pouco tempo, parecia ser um preço muito alto a ser pago. Agora, sob nenhum aspecto mais parece sê-lo. Há pouca ou nenhuma possibilidade de que se consiga, na Grã-Bretanha ou no mundo, manter o pleno emprego com a atual inflação. A política inflacionária comprometia-se em chegar a um padrão de pleno emprego, mas a inflação acelerou-se a um ponto tal que se tornou impossível sua compatibilidade com o pleno emprego[5].

Igualmente encorajadoras são as palavras do ministro da Fazenda da Grã-Bretanha, Mister Denis Healey, quando afirma:

É muito melhor que mais gente esteja trabalhando, mesmo que isso signifique uma aceitação de salários em média mais baixos, do que apenas aqueles que tiveram bastante sorte para manter seus empregos nadem em dinheiro, enquanto milhões de pessoas são obrigadas a viver da pensão estatal para desempregados.[6]

Parece que, justamente na Grã-Bretanha, país onde tantas doutrinas nocivas tiveram origem, está começando a haver uma guinada nas opiniões. Esperemos que isto se espalhe bem depressa pelo resto do mundo.


[1] Ricardo to Wheatley, 18 de setembro de 1821, reproduzido no livro The Works of David Ricardo, ed. Piero Sraffa, vol. 9, Cambridge, University Press, 1952, p. 73.

[2] “The Economic Consequences of Peace”, in The Collected Writings of John Maynard Keynes, vol. 2, Londres, MacMillan for the Royal Economic Society, 1971, p. 144.

[3] J. S. Mill, Autobiography and Other Writings, ed. J. Stillinger, Boston, Houghton Mifflin, 1969.

[4] Crisis of Paper Currencies: Has the Time Come for Britain to Retorn to the Gold Stander?” Times, Londres, 1 de maio de 1974.

[5] William Rees-Mogg, The Reigning Error: The Crisis of World Inflation, Londres, Hannish Hamilton, 1974, p. 112.

[6] Discurso pronunciado no East Leeds Labour Club, segundo notícia publicada no Times, Londres, 11 de janeiro de 1975.

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