“Criar empregos” não é o objetivo de uma economia sólida

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economia-montadora-renault-sao-jose-dos-pinhais-20120802-01-size-598O assunto é aborrecidamente óbvio, mas infelizmente é necessário reprisá-lo constantemente, pois ele aparece na imprensa quase que diariamente.  Afinal, desemprego baixo é sinônimo de economia robusta?  Ou, colocando de outra maneira, pode uma economia fraca apresentar baixos índices de desemprego?

Ao contrário da crença da grande maioria das pessoas (leigos e até mesmo economistas), o objetivo de uma economia não é criar empregos.  O objetivo de uma economia saudável é ter uma produtividade crescente.  Empregos serão uma consequência positiva da produtividade

Empregos podem ser um sinal de saúde de uma economia, assim como um alto nível de energia pode ser um indicativo de um corpo saudável.  Mas assim como substâncias nocivas podem artificialmente dar ao viciado aquele impulso energético que nada tem a ver com saúde, empregos artificialmente criados e mantidos apenas exacerbam os problemas.

Você pode dar a alguém um “emprego” de cavar um buraco num dia e tapá-lo no dia seguinte — ou talvez o equivalente a isso, porém executado em uma escrivaninha.  Mas isso não trará benefício nenhum a ninguém.  Da mesma maneira, seria possível reduzir o desemprego a zero por meio de uma regressão compulsória na tecnologia: poderíamos abolir completamente o uso de caminhões e trens, e obrigar toda a carga a ser transportada de carro.  Isso criaria milhões de novos empregos.  Ou poderíamos também abolir o uso do carro e criar ainda mais empregos, pois agora as pessoas só poderiam transportar carga nas costas.

Em cada um desses casos, o número de empregos criados iria superar com ampla margem o número de empregos perdidos na indústria de caminhões e na automotiva.  Mas fica a pergunta: essa criação de empregos por acaso nos deixou mais ricos?  Por acaso aumentou o nosso bem-estar?  A resposta é óbvia.  Essa criação de empregos, na prática, gerou uma redução no padrão de vida de todas as pessoas.

Um exemplo

Um país de economia fechada pode ter — e certamente terá — um desemprego menor do que um país de economia aberta.  No entanto, a questão é: será que tais empregos estão realmente gerando valor e riqueza para esse país de economia fechada?

Vamos a um exemplo prático.  Suponha que uma economia tenha várias pessoas empregadas na indústria automotiva, desde as linhas de montagem até as cadeias de distribuição e de peças de reposição.  Isso é bom para a economia como um todo?  Depende.

Se a indústria automotiva deste país está sujeita à concorrência de carros estrangeiros, os quais podem ser livremente comprados pelos cidadãos deste país, sem tarifas de importação, então essa indústria automotiva é eficiente, e os empregos que ela consegue manter certamente são de alta produtividade e geram um produto de alta qualidade.  Afinal, se mesmo com a concorrência de carros estrangeiros a população nacional ainda assim segue comprando os carros fabricados nacionalmente, então é porque o produto é bom, a indústria é eficiente e os produtos fabricados por seus trabalhadores satisfaz os consumidores locais.

Porém, e se essa indústria automotiva emprega muita gente simplesmente porque ela é protegida por altas tarifas de importação, as quais impedem os consumidores nacionais de terem acesso barato aos carros estrangeiros?

Nesse caso, há uma grande chance de os empregos mantidos por essa indústria serem artificiais e ineficientes, pois ela agora está operando em um ambiente semelhante a uma “reserva de mercado”.  No mínimo, esses empregos não existiriam na quantidade que existem atualmente caso a aquisição de automóveis importados fosse mais fácil.

No primeiro exemplo, os trabalhadores da indústria automotiva de fato estão criando um produto valoroso para a sociedade, e isso é nitidamente demonstrado pela preferência voluntária dos consumidores.  Dado que eles têm a opção de comprar carros importados baratos, mas ainda assim optam por comprar maciçamente os carros nacionais, então isso é um sinal de que o produto é satisfatório aos preços a que estão sendo vendidos, o que significa que os trabalhadores dessa indústria estão sendo eficientes em criar um produto de valor para a sociedade.

Já no segundo exemplo, os trabalhadores da indústria automotiva estão operando dentro de um mercado protegido pelo estado.  Isso é uma receita certa para a ineficiência.  Devido às altas tarifas de importação, que praticamente proíbem a compra de carros importados, os carros nacionais poderão ser de pior qualidade e vendidos a preços mais altos — e ainda assim serão comprados, pois a população não tem muita escolha.

Consequentemente, ao ter de desembolsar valores mais altos para adquirir esses carros, a população terá um renda disponível menor para adquirir outros bens de consumo.

Os trabalhadores dessa indústria automotiva terão salários acima dos de mercado, ao passo que o restante da população ficará com um poder aquisitivo menor do que teria caso pudesse comprar carros mais baratos do exterior.

O exemplo acima abordou apenas um setor da economia.  Se você expandir esse raciocínio para todos os outros setores — eletroeletrônicos, utensílios domésticos, produtos tecnológicos, vestuário, siderurgia etc. —, começará a ter uma noção de como o seu poder de compra pode ser afetado apenas para garantir que estes setores tenham mais emprego do que o normal.

O raciocínio econômico só é completo quando ele é capaz de contemplar não apenas o que está ocorrendo com um determinado grupo (desempregados e indústrias), mas sim o que está ocorrendo com todos os grupos da sociedade.  E não apenas no curto prazo, mas também no longo prazo.

Baixo desemprego, por si só, não quer dizer nada

Por tudo isso, um país ter uma baixa taxa de desemprego não quer dizer nada.  O que tem de ser olhado é o quão produtivo são esses empregos e se eles realmente estão produzindo aquilo que o consumidor quer.  Você ter um canteiro de obras repleto de peões que fazem o mesmo serviço que apenas um homem com uma máquina seria capaz de fazer não é um exemplo de economia pujante ou rica, mas sim de desperdício de recursos.  Você terá uma baixa taxa de desemprego, mas não estará criando riqueza de forma eficiente.

Consequentemente, o objetivo de se alcançar uma baixa taxa de desemprego não deve ser apenas a criação de empregos per se; o objetivo tem de ser a criação de empregos produtivos e economicamente viáveis.

Empregos só são valiosos quando as pessoas trabalham com o intuito de fornecer bens e serviços que são genuinamente valorizados e demandados pelos consumidores.  Se não há uma real demanda pelos produtos fabricados, ou se a demanda é artificialmente criada por barreiras à importação ou por outras regulações governamentais, tais empregos representam um grande desperdício de recursos escassos.

Ao contrário do que alegou Keynes, se todos os desempregados atuais fossem compulsoriamente empregados na construção de pirâmides, isso não traria benefício nenhum para a sociedade.  No entanto, seria ótimo para as empresas que ganhassem os contratos do governo para fornecer os tijolos e o cimento.  E seria péssimo para os reais empreendedores, que agora teriam de lidar com preços mais altos para o tijolo, para o cimento e para a mão-de-obra, o que poderia inviabilizar vários outros empreendimentos mais demandados pelos consumidores.

Conclusão

A única maneira de criar e manter empregos que não produzem realmente aquilo que o consumidor quer é utilizando o governo.

Seja por meio de subsídios diretos, seja por meio de regulações que criam um cartel e proíbem a concorrência, seja por meio de tarifas de importação que criam um reserva de mercado — apenas o governo pode manter operante empresas que produzem algo que não é genuinamente demandado pelo consumidor.

E, ao fazer isso, empregos são gerados.  E eles podem custar muito caro.

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Participaram deste artigo:

Lew Rockwell, chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Ron Paul, médico e ex-congressista republicano do Texas. Foi candidato à presidente dos Estados Unidos em 1988 pelo partido libertário e candidato à nomeação para as eleições presidenciais de 2008 e 2012 pelo partido republicano.

É autor de diversos livros sobre a Escola Austríaca de economia e a filosofia política libertária como Mises e a Escola Austríaca: uma visão pessoal, Definindo a liberdade, O Fim do Fed – por que acabar com o Banco Central (2009), The Case for Gold (1982), The Revolution: A Manifesto (2008), Pillars of Prosperity (2008) e A Foreign Policy of Freedom(2007).

O doutor Paul foi um dos fundadores do Ludwig von Mises Institute, em 1982, e no ano de 2013 fundou o Ron Paul Institute for Peace and Prosperity e o The Ron Paul Channel.

Leandro Roque, editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

 

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