A filosofia realista tomista aristotélica talvez seja o fundamento mais forte para disciplinas como a praxeologia. Como David Gordon pontua no seu livro The Philosophical Origins of Austrian Economics, a Escola Austríaca e a filosofia realista parecem terem sido feitas uma para a outra. A Escola Austríaca defende o individualismo metodológico, uma visão individual da ação humana que já tinha sido articulada na Ética a Nicômaco. Já nos Analíticos Posteriores, Aristóteles também defende uma segunda característica fundamental da Escola Austríaca: a dedução de conhecimento científico de um axioma autoevidente. Nesse sentido, Michel Accad argumenta que:
“Nós podemos identificar princípios aristotélicos distintos no pensamento econômico da Escola Austríaca. Os Austríacos — se não explicitamente, pelo menos implicitamente — parecem concordar com Aristóteles que existe uma realidade independente da mente humana. Para os Austríacos, assim como para Aristóteles, as relações de causa e efeito são reais e são passíveis de descobrimento pelo uso adequado da razão. Tal qual Aristóteles, os Austríacos confiam na fiabilidade geral do conhecimento sensível e na conformidade da razão com a realidade. Por causa disso, eles conseguiram elaborar uma ciência econômica de maneira sistemática, partindo de princípios primeiros.
Em segundo lugar, não hesitando em interpretar a ação humana como teleológica, a Escola Austríaca distanciou-se da corrente principal da filosofia e da ciência modernas e foi criticada por ser um retrocesso ao escolasticismo. É fácil ver por quê: a ideia de Mises de que os seres humanos agem para “satisfazer uma inquietação sentida” remete ao ditame escolástico de que todo agente age em vista de um fim e, mais geralmente, à noção aristotélica de que os seres humanos são agentes que se aperfeiçoam a si mesmos ao atualizarem suas potências ativas. O realismo teleológico é um princípio aristotélico de importância crítica e também um conceito fundamental na economia austríaca.”
O primeiro parágrafo trata do status metodológico da Escola Austríaca. Gordon explica que Mises adota uma terminologia kantiana: as proposições da Escola Austríaca são verdades sintéticas a priori, o que significa que não se pode descartar a possibilidade de que o determinismo possa um dia vir a ser verdade. Isso é argumentavelmente uma concessão desnecessária por parte de Mises, vindo do seu ponto de partida em Kant. Murray Rothbard rejeita a ideia de Mises de que a ação é anterior a toda experiência, porque existem “leis da estrutura da lógica” que a mente humana impõe na estrutura caótica da realidade — isto é, dualismo metodológico. Accad argumenta que:
“Para Aristóteles, porém, tal separação metodológica pareceria desnecessária e contraproducente, pois arranca o homem de seu contexto cosmológico mais amplo: um mundo natural também permeado de teleologia e governado por princípios fundamentais que igualmente se aplicam à ação humana. (p. 295)”
Rothbard argumenta que essas leis são “leis da realidade” que a mente assimila ao investigar os fatos do mundo real. Portanto, tanto o axioma fundamental quanto os axiomas subsidiários derivam da experiência e são empíricos — mas não no sentido pós-humeano. Os axiomas da praxeologia são radicalmente empíricos e autoevidentes e, assim, não exigem o critério de falsificabilidade. A única evidência de que precisam é não violarem as leis da lógica. O empirismo moderno é irrelevante aqui, pois “provar” significa tornar evidente aquilo que antes não era evidente; mas, se uma verdade é autoevidente, tentar prová-la é inútil.
O segundo parágrafo trata da teleologia. A Escola Austríaca é teleológica porque entende a ação humana como um comportamento orientado para fins. Economistas não estudam meramente reações mecânicas, mas sim os meios pelos quais os indivíduos procuram saciar suas necessidades. Carl Menger ilustra essa teleologia em sua teoria do capital: bens de ordem superior não têm valor em si mesmos, mas apenas na medida em que contribuem para a produção de bens de consumo. O capital não é uma mera coleção de coisas, mas uma estrutura ordenada moldada por planos empreendedores, pelos quais os recursos são combinados com o propósito de atingir um fim superior. A produção é, portanto, um processo dirigido no qual os meios adquirem significado apenas em relação ao fim que procuram alcançar.
Uma das críticas positivistas à Escola Austríaca de economia é a de que afirmações como “um ator sempre age em seu fim mais valorizado” são tautológicas. De acordo com essa objeção, se “mais valorizado” significa simplesmente “aquilo que o ator escolhe”, então a afirmação não fornece nenhum novo conhecimento sobre a realidade e está apenas reformulando a mesma ideia com palavras diferentes. Accad, contudo, refuta essa crítica a partir de uma perspectiva realista. Ele demonstra que a acusação de tautologia só se sustentaria se o valor de um bem fosse puramente subjetivo — isto é, se não existisse em uma realidade extramental e dependesse exclusivamente da decisão do ator. Contra essa visão, ele argumenta que o valor não é meramente subjetivo, mas está fundamentado nas próprias coisas, ainda que cada ator as perceba e as hierarquize de acordo com sua situação particular.
A praxeologia, portanto, não é uma tautologia vazia, mas uma disciplina que descreve a relação entre o conhecimento do ator e a estrutura objetiva do mundo, permitindo o desenvolvimento de um sistema teórico baseado em princípios dedutivos, sem recorrer ao método estatístico positivista.
Tradução/Adaptação Breno Lima
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