Nick Hoppe[1]
Essa é uma pergunta que amigos e fãs do meu pai me fazem desde que me lembro: “Como é ser filho de Hans-Hermann Hoppe?” Lembro-me de um ex-aluno do meu pai me fazendo essa pergunta em uma festa de Natal na nossa casa em Las Vegas, onde os alunos eram frequentemente convidados para diversos encontros, jantares etc. Eu devia estar no início da adolescência e me lembro de ter pensado: “Que pergunta idiota! Ele é meu pai. Por que alguém perguntaria isso?” Para mim, parecia uma pergunta para os filhos de Paul McCartney ou Michael Jordan, não para mim.
A pergunta surgiu novamente quando, no meu terceiro ano da faculdade, cursei a disciplina de microeconomia do meu pai, depois do comentário dele de que cursar a disciplina de qualquer outro professor era uma completa perda de tempo. Dessa vez, a pergunta veio de um amigo meu que também estava na disciplina e era fã do meu pai. E embora a essa altura eu já tivesse uma noção um pouco melhor de quem era meu pai, por tê-lo visto dominar o palco com humor e intelecto sentado em um grande auditório, ainda achava a pergunta estranha, pois, na minha cabeça, ele ainda era apenas meu pai, que por acaso também era um professor universitário bastante hilário e que cativava a plateia. Eu sabia, é claro, que ele havia escrito um ou dois livros. Sabia que ele era convidado para palestrar aqui e ali de vez em quando. Sabia que Murray Rothbard, que havia sido uma figura constante em nossa casa até seu falecimento, também era importante de alguma forma. Mas o papel do meu pai em tudo isso ainda não estava totalmente claro. Eu ainda não entendia completamente a gravidade da situação… o peso de quem ele era e do que estava fazendo. Eu não havia compreendido a marca que ele estava tentando deixar no mundo e o nível de notoriedade que ele já havia alcançado.
Para falar a verdade, ser filho do meu pai nem sempre foi fácil. Para alguém ser tão dedicado à sua ideologia e tão prolífico em seu trabalho como meu pai foi ao longo de sua carreira, naturalmente outras coisas geralmente ficam em segundo plano. Isso significava que ele nem sempre estava tão presente quanto eu talvez precisasse. E mesmo quando ele estava fisicamente por perto, em seu escritório, etc., ele nem sempre estava “presente”. Ele estava focado em seu trabalho. E, como um menino tentando encontrar seu caminho, isso não era fácil de entender; aliás, às vezes era motivo de conflito. E, à medida que cresci e comecei a me rebelar, isso só aumentou as complicações da dinâmica pai-filho. Mas as crianças nem sempre entendem quem são seus pais e, sejamos honestos, a maioria dos pais não são economistas e acadêmicos austríacos prolíficos. Estatisticamente falando, acho que somos um grupo bastante exclusivo. A maioria dos pais não dedicou suas vidas exclusivamente e com todas as suas forças a tentar não apenas explicar o mundo e como ele funciona em um nível fundamental, mas também a transformá-lo. A maioria dos pais não é movida por uma compulsão moral tão grande que pedir-lhes que se desviem da missão de suas vidas seria como pedir-lhes que simplesmente deixassem de existir. Seria como tirar-lhes o ar que respiram.
Infelizmente, o tempo passa e décadas se sucedem. E o que antes era incompreensível de repente torna-se cada vez mais claro. Estou na casa dos 40 e tenho minha própria família: minha esposa, Rebecca, com quem sou casado há quase 10 anos, e minhas duas filhas, Evie e Isa. E, tendo retornado à Europa em 2019, estou mais próximo do meu pai do que nunca. E embora ele seja o primeiro a dizer que já era hora, finalmente encontrei meu caminho para o seu trabalho e para a escola de pensamento austríaca por conta própria. Onde antes as teorias política e econômica não me interessavam muito na minha juventude, agora elas passaram a ocupar cada vez mais espaço na minha mente. Onde antes eu só me importava com esportes e música, agora consumo vorazmente obras libertárias de inspiração misesiana, na esperança de expandir minha compreensão do mundo e dar sentido ao que não faz sentido. Onde antes minhas preocupações com a política eram limitadas, agora entendo que o trabalho do meu pai, e o de seus antecessores, existe para ajudar as gerações atuais e futuras a enxergarem a verdade por trás da política e das decisões econômicas. São os princípios fundamentais que guiam a maneira como devemos ver o mundo.
Infelizmente, e de certa forma poeticamente, as coisas sobre as quais meu pai vinha alertando estão se tornando cada vez mais evidentes a cada dia. E percebo o quão isolado meu pai deve ter se sentido por tantos anos, o estresse e a frustração avassaladores que deve ter sentido ao ser ignorado e descartado por tantos pensadores “mainstream”. Eu me solidarizo com o que ele deve ter sentido e admiro sua dedicação e determinação em seguir em frente e não se deixar abater, não importa o custo. Afinal, esse é o propósito de sua vida. E com a vantagem da retrospectiva, sei que ele não tinha escolha.
Posso afirmar, sem dúvida alguma, que ser filho de Hans-Hermann Hoppe é algo que me enche de orgulho e me deixa extremamente honrado. Tenho orgulho da contribuição do meu pai para o mundo. Tenho orgulho de que ele tenha se mantido fiel aos seus princípios. Ele defendeu suas crenças e se recusou a fazer concessões em nome do politicamente correto ou do pensamento de grupo. Tenho orgulho que ele nunca tenha se vendido ou escolhido o caminho mais fácil, mesmo à custa de sua carreira acadêmica.
E, à medida que o mundo continua a mudar drasticamente, tenho orgulho de que sua convicção e determinação permaneçam tão firmes como sempre. Tenho orgulho de que ele não seja comunista. Quando a maioria de nós for esquecida nas décadas e gerações vindouras, suas palavras permanecerão nas salas de aula, nas estantes de livros e em todo o mundo digital. Quando a curiosidade levar as futuras gerações a buscar a verdade, a querer fazer mudanças, a se rebelar contra o sistema, espero que elas sejam conduzidas às obras do meu pai, de seus antecessores e de seus contemporâneos. E quando encontrarem suas palavras, espero que as usem como uma causa para o bem. Todos nós devemos ao meu pai uma dívida de gratidão e, nesse sentido, gostaria de dizer do fundo do meu coração: obrigado e feliz 75º aniversário. Que você continue a desafiar os limites por muitos anos mais.
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Notas
[1] Nick Hoppe mora com sua família na Áustria.
