Como Mises destruiu Marx

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Mises não apenas refutou Marx. Ele expôs suas contradições de modo tão devastador que todo o sistema marxista colapsou.

No século XIX, o dito filósofo e economista alemão Karl Marx acreditava ter descoberto as leis científicas que governavam a história humana. Em sua visão, o “materialismo histórico” revelava que toda a evolução das sociedades seguia um caminho inflexível e predeterminado, impulsionado não por idéias ou escolhas individuais, mas por forças materiais impessoais. O capitalismo desmoronaria – e o socialismo triunfaria “com a inexorabilidade de uma lei da natureza”. A ação humana, o argumento moral, a persuasão e a criatividade intelectual seriam ilusões – meros reflexos de estruturas econômicas muito mais profundas. Marx apresentava a sua teoria não como uma filosofia, mas sim como uma ciência, capaz de prever o futuro com acurácia e precisão.

Pois bem, no século seguinte, o grande economista austríaco Ludwig von Mises percebeu logo de cara que esse sistema não se sustentava. Não, ele não era apenas falho em um detalhe ou outro; sua lógica inteira repousava sobre contradições tão profundas que, uma vez notadas, derrubavam todo o edifício teórico. Embora Mises seja mais lembrado como o economista que demonstrou a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo, ele também deve ser reconhecido como o filósofo que desmontou os fundamentos intelectuais do marxismo antes mesmo de chegar à análise econômica. Ele mostra como a estrutura marxista se autodestrói. O método de Marx contradiz as suas conclusões – e as suas conclusões contradizem o modo de vida do próprio Marx.

A primeira fissura no sistema marxista aparece em sua doutrina do determinismo histórico. Ora, se apenas as forças materiais determinam o curso da história, e se o socialismo triunfa inevitavelmente, independentemente das intenções humanas, então nada do que Marx fez em vida faz sentido. Por que escrever um manifesto? Por que organizar trabalhadores? Por que agitar uma revolução que viria de qualquer forma? Mises insistiu nessa pergunta, porque a resposta revela uma contradição devastadora: Marx viveu como se as idéias importassem ao mesmo tempo em que proclamava que elas eram impotentes. Dedicou décadas ao esforço de influenciar a história por meio da ação humana, propaganda, agitação e persuasão, enquanto a sua teoria afirmava que a ação humana era irrelevante diante das forças materiais.

Para Mises, isso não era um simples descuido, mas sim uma demonstração de que Marx não acreditava de fato em sua própria doutrina. Se ele acreditasse, todo ativismo seria inútil. O marxismo não consegue explicar o comportamento de seu próprio fundador sem abandonar seu princípio central. O determinismo histórico, uma vez abraçado, torna o ativismo absurdo. Porém, esse determinismo histórico foi defendido por um homem intensamente ativista. Essa contradição mostra que a teoria de Marx falha até mesmo no padrão da consistência vivida. Uma segunda contradição igualmente devastadora aparece na noção marxista de polilogismo – a idéia de que diferentes classes sociais possuem diferentes “lógicas”. Segundo Marx, a mente burguesa é incapaz de compreender o mundo objetivamente; ela só pode produzir ideologia.

Os proletários é que deteriam a lógica da verdade histórica. Marx usava esse expediente sempre que críticos apontavam falhas em seu sistema: as objeções destes eram descartadas como “lógica burguesa”. A crítica não precisava ser respondida porque vinha da classe errada. Mises percebeu que esse artifício, se levado a sério, destrói o marxismo por dentro. Se todas as idéias são produtos das condições de classe, então as idéias de Marx – produzidas por um homem que nunca trabalhou em uma fábrica e viveu graças aos lucros capitalistas de Engels –  também são ideologia burguesa. O marxista não pode isentar a sua própria teoria do princípio que aplica às demais. Ou idéias podem ser avaliadas racionalmente, ou não podem. Se podem, o polilogismo é falso; se não podem, o marxismo não tem qualquer reivindicação de verdade.

A tentativa de Karl Marx de blindar sua teoria ao atribuir a verdade a uma classe específica acaba apenas invalidando-a por completo. Entretanto, uma contradição ainda mais profunda aparece quando Marx afirma que toda a sociedade – suas leis, suas instituições, seus códigos morais e suas tradições intelectuais – se origina das chamadas “forças produtivas materiais”, isto é, das ferramentas, máquinas e tecnologias. Nessa visão, as idéias são apenas reflexos das condições materiais, não suas causas. Mudam-se as ferramentas, e a sociedade muda; as idéias seguiriam passivamente. Mises notou que isso inverte causa e efeito. Ferramentas, máquinas e tecnologias não criam a si mesmas. Não emergem automaticamente das condições materiais.  Ao contrário, são concebidas, projetadas e produzidas por mentes humanas.

Por exemplo, antes de uma máquina a vapor moldar a indústria, alguém precisa pensar na máquina a vapor. Antes de ferramentas existirem, as idéias devem existir. Marx tentou explicar idéias por meio de ferramentas, mas ferramentas só existem porque idéias as precedem, não é mesmo? Logo, o desenvolvimento social não pode ser explicado apontando para artefatos que pressupõem a criatividade intelectual que Marx nega. Sendo assim, o marxismo cai em uma circularidade: as idéias vêm das ferramentas, mas as ferramentas vêm das ideias. Ao negar a primazia da ação e do pensamento humano, Marx torna impossível explicar a origem das próprias forças que ele afirma governar a história. O fracasso final – e talvez o mais profundo – identificado por Mises diz respeito ao conteúdo do socialismo em si.

Marx dedicou milhares de páginas a atacar o capitalismo, prever o seu colapso e prometer um futuro socialista. Contudo, recusou-se a descrever de maneira concreta como o socialismo funcionaria. Ele chamou tal análise de “utópica”, como se o planejamento detalhado estivesse abaixo da dignidade do socialismo científico. Marx propôs derrubar o capitalismo, mas não ofereceu qualquer estrutura para substituí-lo. Mises demonstrou mais tarde que a ausência desse plano não era um acidente, mas conseqüência de uma impossibilidade fundamental. Uma economia socialista não pode realizar o cálculo econômico racional porque, ao abolir a propriedade privada dos meios de produção, acaba eliminando os preços de mercado dos bens de capital. Certo, mas e qual é o problema disso?

Ora, sem um sistema fidedigno de preços, vários problemas surgem: não há como comparar alternativas, não há como alocar recursos de maneira eficiente e não há como determinar se um certo plano de produção faz sentido. O planejamento central se torna puro palpite. E, como Mises explicou, socialismo é sinônimo de planejamento central. Marx nunca enfrentou esse problema, porque nunca se perguntou como o socialismo operaria na prática. Ele prometeu prosperidade sem oferecer mecanismos reais para alcançá-la. Criticou um sistema funcional, enquanto oferecia apenas abstrações em seu lugar. A conseqüência, argumentou Mises, é que o marxismo não é uma teoria científica da sociedade, mas sim um conjunto de enunciados que se refutam mutuamente.

Senão, vejamos. Primeiro, o marxismo proclama uma ‘inevitabilidade histórica’, ao mesmo tempo que depende de ativismo. Segundo, denuncia a ideologia, enquanto assume que a sua própria teoria é imune à ideologização. Terceiro, fundamenta idéias em condições materiais, enquanto depende de idéias para explicar o surgimento dessas mesmas condições materiais. Quarto, clama por revolução, enquanto se recusa a descrever a sociedade que essa revolução deveria construir. Dessa forma, o marxismo desmorona não nas bordas, mas em seu núcleo. As universidades continuam ensinando Marx como se essas refutações jamais tivessem ocorrido. Mas até aí, o importante para a academia é a militância e o ativismo, não a verdade. Ao menos para a grande maioria delas.

Compreender a crítica de Ludwig von Mises nos permite ver através das contradições que sustentam o pensamento marxista. O debate não é apenas econômico, mas filosófico, lógico e epistemológico. A partir do momento em que compreendemos essas falhas, percebemos que o marxismo não é uma grande teoria da história, mas um conjunto de afirmações contraditórias, mantidas pela força retórica, não pela razão. Mises, freqúentemente lembrado apenas como o defensor do cálculo econômico, deve ser igualmente lembrado como o pensador que revelou a falência intelectual do marxismo, fornecendo-nos as ferramentas para desmontar a ideologia mais influente e nefasta da era moderna – não com falácias, mas com razão e lógica. Portanto, mais do que nunca é necessário dizermos: “Menos Marx, mais Mises”.

 

 

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