O que o governo fez com o nosso dinheiro?

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V. Posfácio – por Fernando Ulrich

 

O QUE TERIA ESCRITO MURRAY ROTHBARD caso tivesse podido presenciar os acontecimentos econômicos mundiais desde que a última edição desta obra foi publicada? As seguidas crises que se sucederam após sua prematura morte, no ano de 1995, vieram a confirmar suas prescientes análises e previsões acerca de um sistema monetário inerentemente instável e fadado à ruína. Entretanto, como um ferrenho defensor da liberdade individual, estaria certamente consternado com o avanço do estado interventor e, especialmente, com as soluções adotadas pelos governos mundo afora para remediar uma aguda crise econômica causada por esses mesmos governos. Em virtude dos acontecimentos das últimas décadas e, em especial, desde a crise financeira de 2007/08, no presente Posfácio, nos aventuramos a dar continuidade à narrativa de Rothbard sobre a evolução da ordem monetária mundial no último século.

 

Atualmente, não há dúvida quanto à gravidade da crise financeira, cujo início se deu em 2007[1] com a conhecida débâcle das hipotecas subprime americanas (hipotecas de alto risco). Hoje é consenso, inclusive entre economistas de escolas de pensamento fundamentalmente distintas, que essa é a pior crise financeira desde a Grande Depressão da década de 1930. Contudo, quando a atual crise estava apenas começando, muitos economistas nem sequer entendiam o que estava ocorrendo diante de seus olhos; seus “modelos” não haviam previsto nada. De fato, com raras exceções, somente os economistas da Escola Austríaca não só previram como também explicaram o porquê da crise financeira e de sua inevitabilidade. Estamos vivendo as consequências do sistema monetário de Moedas Fiduciárias Flutuantes, definido por Rothbard como a nona fase da história da ordem monetária mundial do século XX, iniciada em março de 1973.

 

Foram tantos os eventos econômicos desde que o mundo embarcou em um sistema de moedas puramente fiduciárias sem qualquer lastro, senão a confiança de governos, que seria pertinente discorrermos sobre o percurso da ordem monetária mundial nestas últimas quatro décadas.

 

 

Fase 9: Papéis-moedas Flutuantes (março de 1973-setembro de 2008)

 

 

 

Durante os anos 1970, os Estados Unidos e o mundo vivenciaram a mais intensa inflação em tempos de paz da história do mundo. Decidido a sanar essa situação, Paul Volcker (presidente do Federal Reserve de 1979 a 1987) elevou então as taxas de juros até 20% para combater a alta de preços que perturbava as economias americana e mundial. Mesmo com um banqueiro central americano bastante “rígido”, a década de 80 não foi livre de crises, como a da dívida externa dos países latino-americanos, da brusca queda da Bolsa de Nova York em 1987 e do colapso da indústria de poupança e crédito nos Estados Unidos (savings and loan, ou crise das “S&L Associations“).

 

A década seguinte foi igualmente turbulenta, a começar pelo estouro da gigantesca bolha imobiliária no Japão. Ainda no Oriente, eclodia a crise financeira asiática de 1997, desencadeada pela maxidesvalorização do baht tailandês, levando os mercados financeiros ao desespero. O mundo mal assimilava os efeitos da crise asiática quando, um ano depois, o governo russo jogava a toalha, desvalorizando o rublo e declarando a moratória de sua dívida. Alguns meses depois, com forte exposição aos mercados de títulos soberanos e altamente alavancado, era resgatado pelo Federal Reserve o famoso hedge-fund americano Long-Term Capital Management. Seria apenas mais uma quebra em Wall Street, salvo o fato de que sua falência poderia causar uma reação em cadeia e levar consigo seus maiores credores, grandes instituições financeiras globais.

 

Mas, a despeito das inúmeras crises cambiais no continente asiático durante a década de 90, moratórias de dívida e estouro de bolhas especulativas, a realidade é que o mundo desenvolvido ocidental experimentou uma relativa estabilidade nos preços de bens e serviços de consumo durante esse período[2]. Não que os bancos centrais e governos tivessem abdicados de suas posturas inflacionistas. Definitivamente, não. Na realidade, o que houve foi uma profunda intensificação da divisão internacional do trabalho em uma escala jamais vista; leia-se China.

 

A maior abertura da China — não iniciada nos anos 90, mas intensificada nessa década — fez com que os ganhos de produtividade contrabalançassem o efeito das políticas inflacionistas dos governos ocidentais. Também contribuíram para esse fenômeno o ingresso dos países do Leste Europeu na economia mundial após a derrocada da União Soviética e a revolução tecnológica da internet. Aos olhos dos banqueiros centrais, liderados pelo então presidente do Fed, Alan Greenspan, o mundo moderno havia domado o dragão inflacionário. Pelo menos era isso o que diziam os índices de preços ao consumidor.

 

O fato é que, como explicou Rothbard no capítulo 3 (seção 2, Os Efeitos Econômicos da Inflação), a moeda nunca é neutra; uma política monetária expansionista afetará os preços relativos de forma não uniforme e em espaços de tempo distintos. E ela afeta não somente os preços de bens finais, os chamados bens de consumo, mas também os preços de bens intermediários, os fatores de produção e, não menos importante, os preços de ativos imobiliários e financeiros. Não obstante, o grande paradigma da política monetária moderna ao final do milênio — pelo menos até a eclosão da atual crise financeira — era que perseguir uma baixa taxa de inflação, medida por índices de preços ao consumidor, seria suficiente para garantir o desenvolvimento econômico e a estabilidade financeira. Em algumas nações, tal paradigma se plasmou em uma política chamada de “metas de inflação”, e o país pioneiro a adotá-la foi a Nova Zelândia, em 1990[3].

 

Nesse contexto da ordem monetária mundial, nascia o euro, a moeda única europeia compartilhada pela maioria dos países da União Europeia[4] (UE), cujo guardião seria o Banco Central Europeu (BCE). Sua principal tarefa: manter o poder de compra e a estabilidade de preços. Como os tratados da concepção da UE não ofereciam uma definição precisa de estabilidade de preços, restou ao BCE a tarefa de estabelecê-la qualitativa e quantitativamente em 2% ao ano, usando como medida o índice de preços ao consumidor harmonizado. Além disso, ao referir-se a um “aumento de 2% ao ano, a definição deixava claro que não somente inflação acima desse patamar, como também deflação (uma queda de preços, segundo o BCE), eram inconsistentes com estabilidade de preços[5]”.

 

Ainda que o banco central americano jamais tivesse definido estabilidade de preços em termos qualitativos e quantitativos, essa também era uma das duas metas principais do Federal Reserve, também chamadas de “mandato duplo”: preços estáveis e emprego máximo.

 

Em um entorno de moedas fiduciárias flutuantes, o mundo desenvolvido, em especial o Ocidente, ingressava então no novo milênio sob um novo cenário da ordem monetária mundial: baixa inflação de preços ao consumidor, baixa taxa de desemprego e forte crescimento econômico. Ainda que com eventuais crises financeiras, os banqueiros centrais pareciam ter descoberto o Santo Graal da política monetária. Como Keynes insinuara meio século antes, não só era possível atingir um eterno boom, como já era essa a realidade. A qualquer sinal de recessão, bastava reduzir as taxas de juros para colocar a economia de volta aos trilhos e a todo o vapor. Nas palavras de Alan Greenspan, era plenamente possível que estivéssemos diante de uma “Nova Economia”[6].

 

Ademais, outro importante indicador garantia a consciência tranquila dos banqueiros centrais de que suas ações conduziam a humanidade rumo a uma nova era; após atingir quase US$ 900 a onça troy em meados de 1980, o ouro chegou a ser cotado em US$ 250 em 1999, o menor patamar em quase 20 anos. Diante desses fatos, estaria o metal precioso prestes a ser completamente desmonetizado, conforme previram décadas antes keynesianos e friedmanianos? Estaria a “Nova Economia” imune às leis econômicas?

 

Não. Definitivamente, não.

 

Empiricamente, essa resposta veio em 2001: estourava a bolha da internet e, com ela, acabava a ilusão de que o mundo ingressava em uma nova economia, em que as velhas leis não mais se aplicavam. A recessão seria a consequência inevitável de um boom insustentável gerado por crédito abundante e barato. Entretanto, Greenspan não queria estragar a festa. Buscando evitar uma recessão, o chairman do banco central americano recorreu novamente a sucessivas rodadas de redução das taxas de juros, chegando ao incrível patamar de 1% em 2003[7].

 

Mas em um mundo de moedas fiduciárias flutuantes, nenhum país quer ver sua moeda flutuar “demais”, apreciando a taxa de câmbio e penalizando o setor exportador; para as autoridades monetárias, a melhor moeda é aquela que flutua sem se mover. Dessa forma, e em plena consonância com a política expansionista do Federal Reserve, os principais bancos centrais do mundo recorreram à impressora de dinheiro, em uma ação conjunta de forte redução das taxas de juros. Nessa seleta lista, e como um dos grandes protagonistas, estava o recém-nascido banco central europeu.

 

O resultado foi uma renovada expansão monetária. Para remediar a bolha da internet, nada melhor que criar uma nova bolha. Dessa vez, juros artificialmente baixos somados a políticas públicas de fomento ao setor inflavam uma bolha imobiliária sem precedentes. Logicamente, não seria o primeiro episódio de bolha especulativa nesse setor. O ineditismo jaz no fato de que o boom imobiliário não foi um fenômeno restrito somente aos Estados Unidos. Nesse novo milênio, bolhas no setor da construção se formavam simultaneamente em várias partes do globo, como na Espanha, na Irlanda e, em menor medida, no Reino Unido.

 

Entretanto, quando a elevação de juros acabou com a farra da expansão monetária, o estrago já estava feito: empresas e famílias no limite do endividamento, bancos perigosamente alavancados e uma estrutura de produção completamente insustentável. Não restavam dúvidas de que a aparente prosperidade perpétua chegara a um trágico fim. A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos era vindicada[8]. A manipulação dos juros pelos bancos centrais, aliada a uma expansão artificial do crédito sem respaldo em poupança real, inevitavelmente geram uma miríade de investimentos errôneos que eventualmente se revelam equivocados. O mercado sempre se reafirma. Por mais doloroso que seja o processo, a única maneira de sanar a economia e expurgá-la dos excessos é liquidando os negócios inviáveis tão logo seja possível. Os anos de boomchegavam ao seu inescapável fim.

 

Cedo ou tarde, a expansão creditícia sem respaldo em poupança real vem a causar o seu extremo oposto: uma contração do crédito. Devido às perdas por empréstimos de recuperação duvidosa, primeiramente os bancos deixam de emprestar às empresas. Logo, os bancos cessam os financiamentos entre eles próprios no chamado mercado interbancário. A liquidez do sistema “congela”.

 

Em agosto de 2007, em uma nota oficial preocupante, o banco francês BNP Paribas anunciava que estava suspendendo os saques de três grandes fundos por problemas no mercado de hipotecas subprime americano. Segundo o banco, “a completa evaporação de liquidez em certos segmentos do mercado americano de securitização tornou impossível estimar o valor justo de certos ativos independentemente de sua qualidade ou classificação de risco”[9]. Iniciava o fenômeno que ficou internacionalmente conhecido como credit crunch, ou o “aperto do crédito”. Por mais que as autoridades norte-americanas assegurassem que o problema de liquidez estava restrito ao mercado subprime, a realidade era bem diferente. E dessa vez, os efeitos seriam sentidos em grande parte do mundo[10].

 

No ano seguinte, a crise seria intensificada. Bancos e fundos de investimento buscavam desesperadamente sacar seus depósitos de instituições problemáticas. Era a versão moderna da velha corrida bancária. Mas em um mercado em que quase todas as instituições financeiras carregavam algum tipo de ativo tóxico, quais eram realmente solventes? Quais eram apenas ilíquidas, mas potencialmente insolventes? Com o estouro de bolhas imobiliárias em diversas partes do mundo, mas, principalmente, nos Estados Unidos, outras perguntas pairavam no ar sem respostas satisfatórias. Qual o valor das hipotecas subprime que os bancos reconheciam em seus balanços? Se esse segmento de mercado estava definhando, como seriam impactados os demais segmentos? A interconectividade, a interdependência, a exposição mútua e os riscos de contraparte (o “counterparty risk“) eram de tal magnitude e complexa mensuração que o sistema financeiro estava simplesmente à beira do colapso.

 

Depois de seguidos resgates de bancos em dificuldades, fusões forçadas pelo Federal Reserve, acordos de “troca de liquidez” entre os principais bancos centrais do mundo (“liquidity swap”), legislações apressadas e desesperadas, o impensável ocorria: no dia 15 de setembro de 2008, um banco considerado “grande demais para quebrar” viria a falir. O Lehman Brothers entrava para a história como a maior falência dos Estados Unidos até então.

 

 

 

 

Fase 10: Desvalorizações Competitivas e Infinitas (setembro de 2008 – ?)

 

 

À beira do colapso, o sistema monetário já não responderia somente à ortodoxia então reinante; manipulações das taxas de juros seriam insuficientes para combater o problema, tal a sua magnitude e falta de precedentes. Ben Bernanke, sucessor de Alan Greenspan na presidência do Federal Reserve, empossado em 2006, estava finalmente diante da complexidade prática, cuja teoria ele supostamente dominava. Estudioso da Grande Depressão do século anterior, o grande erro de Banco Central americano, segundo sua ótica, havia sido a parca provisão de liquidez ao sistema bancário de seu país. Atribuindo a falta de determinação em injetar dinheiro no sistema à causa do prolongamento da crise de 1929, Bernanke sempre deixou claro que esse ato falho jamais seria repetido. Certamente não enquanto ele estivesse segurando as rédeas do Federal Reserve.

 

Era chegada a hora de descarregar a munição pesada da qual um Banco Central dispõe: imprimir dinheiro tanto quanto fosse necessário. Da quebra do Lehman Brothers, em meados de setembro, ao final de outubro, Bernanke perpetrou a façanha de duplicar o balanço do Federal Reserve, adquirindo ativos tóxicos de bancos ilíquidos e insolventes e provendo liquidez emergencial a diversas instituições. Nem mesmo em períodos de guerra ocorrera uma expansão similar da oferta monetária.

 

Não havia precedentes para essa política extraordinária. Tampouco havia teoria que substanciasse duplicar a base monetária em questão de semanas. Nada na teoria keynesiana poderia justificar tal ação. Nem mesmo as Escolas de Chicago e das Expectativas Racionais seriam capazes de prover teorias como justificativa às políticas do Federal Reserve naquele curto período. Em realidade, nenhuma escola de pensamento econômico, até então, disporia de teorias para fundamentar tais medidas. O embasamento era pragmático e implorava para “fazer alguma coisa rápido, qualquer coisa, o barco estava afundando”[11].

 

Sem embargo, apesar de carecer de qualquer teoria justificando duplicar a base monetária e comprar ativos de qualidade duvidosa, a capacidade para tal empreitada o Federal Reserve de fato tinha. Sem as amarras de um padrão-ouro, em um ambiente de papel-moeda fiduciário, Bernanke tinha, e ainda tem, a capacidade de imprimir dinheiro a seu bel-prazer. Injetar liquidez, para usar o economês dos dias atuais, nem mais requer tinta e papel; bastam algumas teclas e cliques de computador para que o dinheiro eletrônico seja materializado em questão de segundos.

 

O rol de ações extraordinárias sem precedentes, no entanto, não havia acabado. Em questão de meses, o Fed levaria a sua taxa básica de juros a zero. E como reagiriam os demais bancos centrais face a uma crescente oferta de dólares? Como advertiu Rothbard, moeda flutuante só funciona se os países inflacionam com relativa igual intensidade; quem abdicar de usar a impressora verá sua moeda se apreciar e tenderá a agir para reverter a tendência. Nesse sentido, e em consonância com o banco central americano, os principais bancos centrais do mundo desenvolvido embarcaram  na mesma política de juros próximos a zero, acompanhada de rodadas esporádicas de injeção de liquidez. Algumas autoridades monetárias, por necessidade de resgatar bancos e empresas grandes demais para falir, como o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu; outras puramente por temerem uma apreciação repentina e intensa de suas moedas, como o Banco Nacional da Suíça.

 

Findas as inéditas políticas adotadas pelas autoridades monetárias, banqueiros centrais, economistas e políticos nos garantiam que a recuperação econômica logo viria. O setor privado se recuperaria e voltaríamos a crescer de forma sustentável. Doce ilusão.

 

A assunção de prejuízos de empresas privadas — especialmente do setor bancário — pelos governos exerceu enorme pressão nas finanças públicas dos países ocidentais. Uma crise que inicialmente parecia restrita ao setor privado logo se tornou uma séria crise fiscal. Estados endividados, grandes rombos fiscais e uma frágil recuperação da economia privada contribuíram para a eventual crise de dívida soberana desencadeada pela Grécia em 2009. Fragilizados também estavam os demais países na periferia da zona do euro, como Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Desprovidas de sua própria impressora de dinheiro — agora todos estavam sob a “camisa de força” do euro —, essas nações se viram obrigadas a tomar medidas de contenção fiscal, ainda que a retórica tenha sido maior do que ações realmente concretas.

 

O déficit fiscal mais preocupante, entretanto, prosseguia diligentemente seu curso, inabalado e intocado. Naquele ano de 2009, os Estados Unidos alcançariam o assombroso rombo de US$1,4 trilhões nas contas públicas. Para o ano seguinte, o quadro não seria menos temerário. Projetava-se um déficit fiscal de dimensão equivalente. Ciente do enorme desafio que o governo americano enfrentaria para tapar o buraco fiscal e rolar sua dívida, o Federal Reserve lançava mão de mais uma medida extraordinária. Borrando a linha divisória entre política monetária e fiscal, Bernanke anunciava, em novembro de 2010, despudoradamente, a segunda rodada de afrouxamento quantitativo (Quantitative Easing 2, ou QE2), pela qual, em seis meses, seriam adquiridos US$ 600 bilhões em títulos do tesouro norte-americano. Cunhando eufemisticamente “impressão de dinheiro” de “afrouxamento quantitativo”, o termo acabou sendo empregado em todas as ações de natureza similar. Aos leigos e incautos, era apenas mais uma medida puramente técnica por parte de uma autoridade monetária. Mas a sua verdadeira natureza era inegável: imprimir dinheiro, desvalorizando o dólar, para resgatar o próprio governo do Tio Sam. Em retrospecto, a primeira rodada de impressão de dinheiro em 2008 viria a ser chamada de QE1. Esta resgatou os bancos; QE2 resgatou o Tio Sam.

 

Na Europa, o Banco da Inglaterra adotaria políticas praticamente idênticas: sucessivas rodadas de QE, injetando liquidez no sistema para a compra de títulos do governo britânico[12]. Em menor grau, mas compartilhando da mesma essência e contrariando a ala germânica fiel ao conservadorismo do famosoBundesbank, o Banco Central Europeu usaria a impressora de dinheiro para comprar títulos soberanos dos países problemáticos.

 

Em questão de dois anos, a experiência de décadas de ortodoxia dos modernos bancos centrais era jogada pela janela. A posteriori, vários economistas defenderiam as políticas extraordinárias tomadas pelas autoridades monetárias. Com  parco embasamento teórico, mas repleto de retórica, estes diriam que “situações extremas requerem medidas extremas”. E, na dúvida, que se imprima um zilhão a mais.

 

Chegara a era das políticas monetárias não convencionais. Essa era a dura realidade. Talvez com a exceção do episódio japonês[13], os bancos centrais dos países desenvolvidos se encontravam em “águas desconhecidas”. Quiçá a melhor descrição seja do próprio presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, ao afirmar que, desde o início da crise de 2008, “os banqueiros centrais estão no processo de ‘aprendendo com a prática'”[14].

 

Ao invés de confiança, banqueiros centrais têm inspirado inquietude. Quem aprende com a prática é porque carece de uma sólida teoria fundamentando suas ações. Na era do padrão-PhD[15], o sistema monetário internacional está à mercê das arbitrariedades e discricionariedades de doutores em economia que creem cegamente em suas teorias, mas questionam a realidade, negando esta quando aquelas parecem não funcionar.

 

Desde o início da nona fase, em 1973, vivemos em um ambiente em que as principais moedas de reserva flutuam entre si. Contudo, o fato é que flutuam somente enquanto os desvios nas taxas de câmbio e de inflação se dão de forma muito dilatada no tempo, quase que despercebidamente. No momento em que há oscilações repentinas e intensas nas taxas de câmbio, os bancos centrais de países desenvolvidos são instigados a intervir. Na prática, moeda flutuante é somente aceita quando flutua sem se mover muito, seja qual for a direção. Se o câmbio se deprecia demais, aumentarão os preços dos bens importados, minando os índices de inflação. Quando, no entanto, o câmbio se aprecia muito, o lobby exportador fará enorme pressão para que o governo intervenha, desvalorizando o câmbio e devolvendo a competitividade aos exportadores.

 

Ao estourar a crise em 2008, as políticas monetárias tradicionais não seriam mais suficientes. A era das políticas não convencionais marcou o início da décima fase do Colapso Monetário do Ocidente. O apuro em que nos encontramos é resultado direto de quatro décadas de papel-moeda puramente fiduciário, sem qualquer lastro além da “confiança” dos governos. Crises financeiras não intencionadas, mas geradas por governos, impeliram as autoridades monetárias a adotar políticas jamais pensadas, nem mesmo dias antes de serem aplicadas. Desde a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, até o final de 2012, o Federal Reserve mais que triplicou o seu balanço — assim como o fez o Banco da Inglaterra —, comprando de ativos tóxicos (leia-se de nenhum valor) a títulos do tesouro americano.

 

Pressionado a acudir os países em dificuldades na rolagem de dívida, o Banco Central Europeu tampouco ficou para trás. Dobrou seu balanço por meio de diversas medidas de “liquidez” direcionadas ao setor bancário e compras diretas de títulos soberanos.

 

Logicamente, a maior oferta de euros depreciou a moeda única europeia, levando investidores à busca de portos seguros alhures. A desvalorização do euro repercutiu diretamente no franco suíço. Servindo de refúgio em um ambiente altamente volátil e imprevisível, a moeda suíça valorizou-se fortemente, instigando o conservador Banco Nacional da Suíça (BNS) a anunciar algo até então impensável para uma autoridade monetária com a reputação e o histórico do BNS: em setembro de 2011, quebrando um paradigma de décadas, o BNS abandonaria o câmbio flutuante, estabelecendo um piso para a cotação do euro. E, seguindo fielmente sua promessa, o BNS tem de fato expandido o seu balanço de forma assustadora e sem precedentes.

 

Quando não podem servir de refúgio nem mesmo as moedas nacionais consideradas fortes e seguras, resta aos investidores recorrer ao ativo que não é passivo de ninguém, o ouro. Repercutindo a brusca depreciação das principais moedas globais, a cotação do metal sofreu uma forte alta durante o novo milênio, sendo cotado no final de 2012 em cerca de US$1.650 a onça troy. Em questão de três anos desde as medidas extraordinárias dos bancos centrais em 2008, a cotação do ouro mais que dobrou. O ativo que serviu de reserva às autoridades monetárias por séculos está longe de ser desmonetizado, ao contrário das previsões de keynesianos e friedmanianos.

 

A inflação de preços, todavia, ainda não se tornou rampante porque grande parte do dinheiro criado pelas autoridades monetárias está sendo represada pelo sistema bancário nos próprios bancos centrais. Porém, a inflação monetária já está consumada, e o potencial de aumento generalizado nos preços está latente no sistema.

 

Fica claro que o atual arranjo monetário está longe de ser estável e seguro. Desde o estouro da última crise, o sistema monetário tornou-se ainda mais sujeito às arbitrariedades dos banqueiros centrais. Presenciamos uma renovada “guerra cambial”, embora diferentes países inflem suas moedas por distintas razões; uns para salvar o sistema bancário, outros para monetizar a dívida de soberanos, e alguns para evitar uma sobrevalorização repentina de suas moedas. Nesse ambiente, o comércio internacional é prejudicado, quando não impossibilitado, aumentando as tensões e os possíveis conflitos entre estados. Não sofremos de crise de balança de pagamentos. Sendo as taxas flutuantes, ainda que com muita intervenção, os déficits e superávits jamais são corrigidos. Os Estados Unidos seguem acumulando sucessivos déficits em sua balança comercial, e o mundo aceita dólares em troca, reinvestindo-os na própria dívida do Tio Sam. O economista francês Jacques Rueff, ao prever a ruptura do sistema de Bretton Woods na década de 60, dizia que um dia os países se rebelariam e poriam um fim ao acúmulo indiscriminado de dólares.

 

É inegável que a situação atual é igualmente insustentável. Mas é difícil prever qual caminho os burocratas decidirão tomar. Durante o ano de 2012, o FED anunciou novas rodadas de QE3[16] e QE4 sem limites quanto a prazo e tamanho das injeções monetárias. Na mesma linha, o presidente do BCE, Mario Draghi, prometeu “fazer o que fosse necessário” para segurar o euro, dirimindo quaisquer dúvidas que ainda permanecessem quanto à sua determinação em imprimir dinheiro. E a verdade é que a “necessidade” de impressão de dinheiro não deve arrefecer tão cedo, uma vez que os desequilíbrios orçamentários dos principais governos do mundo, em conjunto com seus níveis de endividamento estratosféricos, exercerão enorme pressão para que banqueiros centrais monetizem dívida soberana. Depois do estouro de todas as bolhas possíveis, resta agora estourar a mãe de todas as bolhas, a de dívida soberana e das promessas de governos[17].

 

Mas nem tudo é notícia negativa. Em virtude do aparente fracasso da moeda única europeia, o ideal de Keynes, a unidade mundial de papel-moeda e o Banco Central mundial, parece um pouco mais distante do que quando Rothbard escreveu a última edição desta obra. Pelo menos essa nefasta alternativa permanece, por ora, longe de se concretizar.

 

Não obstante, tampouco estamos próximos de uma solução definitiva e duradoura para a ordem monetária internacional. Embora a Escola Austríaca de Economia tenha-se fortalecido após o estouro da recente crise, os ideais de moeda-mercadoria e privada seguem marginalizados. O que dizer da reinstituição do ouro como padrão monetário? É preciso muito otimismo para acreditar que os políticos atuais se sujeitariam livremente à camisa de força imposta pelo metal.

 

A despeito de todos os inerentes problemas de um sistema de papel-moeda puramente fiduciário, aperfeiçoá-lo seria inútil, mas livrar-se dele não será tarefa fácil. Enquanto uma verdadeira reforma não ocorrer, presenciaremos todos os efeitos gerados pelas medidas inflacionistas dos governos. E, independentemente da forma ou tecnologia empregada na impressão de dinheiro, a verdade é que a humanidade já experimentou episódios similares. Nunca foi diferente, e desta vez tampouco o será. Bernanke argumenta que, desde o estouro da crise em 2008, banqueiros centrais estão “fazendo e aprendendo”. Infelizmente, a lição já foi dada, e a história está repleta de episódios desastrosos na tentativa de ingerência estatal no âmbito monetário. Mas as escolas de pensamento às quais banqueiros centrais recorrem nada aprenderam com ela. O prognóstico do sistema monetário internacional, em consequência, segue na mesma direção antecipada por Murray Rothbard na última edição da presente obra:

 

 

Até e a menos que retornemos ao padrão-ouro clássico num preço de ouro realista, o sistema monetário internacional está fadado a ficar alternando entre taxas de câmbio fixas e flutuantes, com cada sistema apresentando problemas não resolvidos, funcionando mal e, por fim, se desintegrando. E estimulando essa desintegração estará a contínua inflação da oferta de dólares e, portanto, dos preços norte-americanos, que não mostram sinais de diminuição. A perspectiva para o futuro é uma inflação acelerada, e depois, desembestada nos Estados Unidos, acompanhada de uma quebra monetária e uma guerra econômica no exterior. Esse prognóstico só poderá ser mudado por uma drástica alteração no sistema monetário internacional e norte-americano: pelo retorno a um livre mercado de moeda-mercadoria tal como o ouro e pela total remoção do governo da cena monetária.

 

 



[1] Para um excelente estudo sobre o início e as causas da crise financeira de 2007, ver Meltdown, de Thomas Woods Jr (Washington: Regnery Publishing Inc, 2009).

[2] Para uma análise mais detalhada sobre as causas desse efeito, ver artigo de Leandro Roque “A inflação de preços veio para ficar?”, de 21 de julho de 2011 http://mises.org.br/Article.aspx?id=1051.

[3] Em 1999, ao abandonar a âncora cambial, o Brasil incorporou-a ao seu famoso “tripé econômico”, um conjunto de três políticas monetárias e fiscais adotadas pelo governo brasileiro: i) metas de inflação, ii) câmbio flutuante e iii) superávit primário.

[4] O euro foi introduzido de forma eletrônica somente em 1999, passando a circular em cédulas e moedas a partir de 2002. Para entender os motivos por trás da introdução do euro, suas falhas e a crise que se sucedeu, ver “A Tragédia do Euro”, de Philipp Bagus (São Paulo: Vide Editorial, 2012).

[5] Banco Central Europeu, www.ecb.europa.eu/mopo/strategy/pricestab/html/index.

en.html.

[6] Discurso de Alan Greenspan na Universidade da Califórnia, em 4 de setembro de 2008.

[7] Além disso, em virtude dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 na cidade de Nova York, houve grande pressão política para que o Federal Reserve não mantivesse uma postura austera, evitando que a recessão tomasse seu curso natural.

[8] Assim como antes do estouro da bolha da internet, quando se acreditava que o mundo entrara em uma “Nova Economia”, o período da década de 80 até a débâcle das hipotecas de alto risco em 2007 foi taxado por alguns economistas e banqueiros centrais como a era da “Grande Moderação”.  Supostamente devido à maior independência das autoridades monetárias, as baixas taxas de inflação aliadas ao robusto crescimento econômico lhes cegaram os olhos, fazendo-os crer que o ciclo econômico havia sido domado. Mas a realidade logo viria a acordá-los.

[9] Revista The Economist, “CSI: credit crunch”, edição de 18 de outubro de 2007.

[10] Além dos efeitos da própria globalização, por meio das chamadas “securitizações”, bancos e investidores do mundo todo investiram em ativos de qualidade questionável, tornando global um problema gerado no sistema financeiro norte-americano.

[11] Gary North, em discurso no Mises Institute Supporter’s Summit de outubro de 2010, em Auburn, Alabama. http://www.youtube.com/watch?v=q7bhbyUhPoo.

[12] Sendo confrontado por críticas e questionamentos sobre qual era a real natureza da medida e suas consequências, pouco tempo após o anúncio da iniciativa, o Banco da Inglaterra publicou um panfleto explicativo sobre “Afrouxamento Quantitativo” Quantitative Easing Explainedhttp://www.bankofengland.co.uk/monetarypolicy/Documents/pdf/qe-pamphlet.pdf. Talvez o melhor resumo da crise e das ações sem precedentes adotadas pelos bancos centrais tenha sido a de um leitor do Financial Times de Londres, cuja carta foi publicada no periódico britânico e comentada por James Grant, editor doGrant’s Interest Rate Observer. A carta dizia: “Finalmente eu entendo, acho que eu sei o que é afrouxamento quantitativo. O que eu não mais entendo é o significado da palavra ‘dinheiro'”.

[13] Desde o estouro da bolha imobiliária japonesa, a autoridade monetária do país, o Banco do Japão, adotou medidas extremamente frouxas para evitar o colapso de bancos e empresas; reduziu as taxas de juros próximo a zero em meados da década de 90, patamar que segue sendo mantido.

[14] Discurso de Ben Bernanke em Jackson Hole, Wyoming, EUA, “Monetary Policy since the Onset of the Crisis“, agosto de 2012.

[15] Termo empregado por James Grant ao criticar o sistema monetário vigente, no qual o padrão-ouro faz parte de um passado remoto e quem determina a oferta monetária de uma economia são economistas com seus doutorados e o auxílio de modelos econométricos.

[16] O anúncio foi dado em setembro de 2012, mas o seu efetivo início somente se deu em janeiro de 2013, quando o balanço do Federal Reserve finalmente ultrapassou a marca de US$ 3 trilhões. O BCE, no entanto, reduziu levemente seu balanço durante o período de setembro de 2012 a janeiro de 2013.

[17] Como escreveu o famoso investidor John Mauldin em sua carta semanal, no dia 14 de janeiro de 2013, “A insustentabilidade a que me refiro é aquela da maior bolha da história da humanidade: a de dívida soberana aliada às promessas de governos que não podem ser cumpridas. E ao contrário de 1993, quando apenas países desenvolvidos como Canadá e Suécia tiveram que lidar com dívida insustentável, orçamentos inchados, e promessas irrealistas, desta vez os países “bolha” englobam as maiores economias e a maior parte do PIB mundial.”