“Se as pessoas valorizam algo, ele tem valor; se as pessoas não valorizam algo, ele não tem valor; e não há nada de intrínseco a respeito disso.” Honorável J. Enoch Powell, Membro do Parlamento

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“Ideias são difíceis de morrer”, diz um velho provérbio. Mesmo numa era de rápida mudança, tal como a nossa, os slogans, clichês e erros de tempos passados parecem persistir; frequentemente parece que as verdades que uma vez trouxeram paz, estabilidade e constante progresso são as primeiras coisas a serem abandonadas, enquanto os erros persistem inabalados. Henry Hazlitt uma vez escreveu a respeito de John Maynard Keynes que as verdades que ele falou não eram novas e que as novidades que ele falou não eram verdadeiras. Contudo, é o novo aspecto da “Nova Economia” de Keynes que tem fascinado a atual guilda de economistas.

O triunfo do slogan é compreensível. Nós somos criaturas limitadas. Nós não podemos adquirir conhecimento exaustivo de algo, ainda menos de todas as coisas. Como resultado, nos encontramos à mercê do especialista; ao mesmo tempo, vivemos a nossa vida cotidiana em termos de ideias que não podemos reexaminar continuamente. Algumas coisas devem ser aceitas por fé ou por experiência; nós não temos tempo nem a capacidade de repensar tudo o que nós sabemos. Ainda assim, nenhuma pessoa inteligente ousaria negar a possibilidade de a sua opinião em uma área ou outra pode estar aberta a questionamentos. De vez em quando, é vital que reconsideremos um assunto, especialmente se ele é uma barreira ao pensamento claro ou ação efetiva. Se nosso erro está em uma esfera da vida em que afirmamos ser especialistas, ou pelo menos amadores qualificados, então a necessidade de raciocínio cuidadoso é excepcionalmente importante. A persistência de alguma linha de raciocínio errônea aqui, simplesmente por que essa cadeia de pensamento nos é familiar, pode ser desastrosa.

Tome, por exemplo, a teoria do valor-trabalho. A Economia Clássica – pela qual nós queremos dizer aquele corpo de pensamento econômico que estava em voga desde a época de Adam Smith (anos 1770) até que surgissem as escolas marginalistas-subjetivas (anos 1870) – estava confusa com o problema do valor. Ela propunha uma relação de causa e efeito entre trabalho humano e valor: trabalho humano abstrato (que era ele mesmo um conceito abstrato derivado mais da mecânica do que da experiência humana) era produzido pelos trabalhadores em seus empregos; esse trabalho humano abstrato era de alguma forma incorporado nos produtos desse trabalho, e essa seria a fonte de todo valor. Certos problemas inescapáveis surgiram sob essa pressuposição. Por que os preços de venda falhavam em corresponder ao total de pagamentos direcionados ao trabalho? Como apareceu o fenômeno do lucro? Qual seria a origem dos juros? Em um nível mais concreto, por que um diamante não lapidado tem um preço mais alto no mercado do que um intrincado mecanismo como um relógio? Eles podiam explicar a disparidade dos preços de venda das jóias e preços de venda dos relógios em termos de oferta e demanda, mas sua teoria do valor-trabalho nunca se adequou a essa explicação. Esse era um problema externo.

As contradições de Marx

Karl Marx foi o último importante economista a aderir à teoria do valor-trabalho. Nesse sentido, ele foi o último dos grandes economistas clássicos. Ele queria demonstrar que o capitalismo, por suas próprias contradições internas, estava fadado à destruição final. De forma infeliz para as previsões de Marx, o que ele considerava como um conjunto básico de contradições do capitalismo era meramente um conjunto de contradições no raciocínio dos economistas clássicos. Ele confundiu uma explicação defeituosa do processo capitalista com a real operação do sistema capitalista. Ironicamente, Marx caiu num buraco que ele sempre reservou aos seus inimigos: ele não olhou para dados empíricos como tais, mas para a uma interpretação dos dados – não para a “subestrutura” da sociedade, mas para a “superestrutura”. O Capital foi publicado em 1867; em 1871, o ataque marginalista tinha sido lançado por Carl Menger da Áustria e W. S. Jevons da Inglaterra. A teoria do valor-trabalho que havia suportado toda a análise marxista do capitalismo foi destruída. Quando Böhm-Bawerk, o economista austríaco que ganharia fama como o mais rigoroso discípulo de Menger, ofereceu sua crítica a Marx em 1884 (e novamente em 1896), se tornou claro (pelo menos para os não marxistas) que a abordagem marxista tinha afundado juntamente com o navio clássico.[1]

O que a nova teoria fez foi reverter a relação de causa e efeito da escola clássica. O valor do trabalho é derivado: ele surge do valor do produto do trabalho. Isso, por sua vez, é o resultado da oferta e demanda. As pessoas desejam certos produtos; a oferta desses produtos não é ilimitada em relação à demanda. Ou, colocando de outra forma, com um preço zero, parte da demanda não é atendida. O valor do produto não é derivado do trabalho; o oposto é verdadeiro. Assim, o valor não é algo intrínseco ao trabalho ou ao produto; o valor é adicionado por agentes humanos. Valor não é uma substância metafisicamente existente; um objeto é simplesmente valorizado (passivo) por alguém que ativamente o valoriza. Marx sempre repreendeu pensadores capitalistas por fazerem um “fetichismo de commodities“, ou seja, atribuir a bens econômicos vida própria separada das relações humanas e sociais que tornavam possível a criação desses bens. Mas isso é precisamente a sua teoria do valor-trabalho. Ela supõe a existência de um “tempo de trabalho fixo” que supostamente dá valor às commodities. Se ele tivesse olhado para os indivíduos que ativamente participam em toda ação econômica, ele teria sido levado a abandonar o seu próprio tipo de “fetichismo de commodities“. Marx, o autoproclamado empiricista, foi confundido por sua própria teoria a priori.

Erros contemporâneos

Apesar disso, não devemos ser tão apressados em ridicularizar Marx em sua insistência em ver valor como algo intrínseco de um bem econômico. As pessoas estão tão acostumadas a pensar nesses termos que poucas delas estão livres de alguma variante desse erro básico. Casas são vistas como contendo algo chamado “valor real”; fábricas “possuem” investimentos, quase como se os investimentos fossem mantidos em algum tipo de suspensão dentro das paredes da fábrica.[2] O marxista, obviamente, tem um interesse pessoal nessa linha de raciocínio: o mestre ensinou. O porquê de outros continuarem a se satisfazer com tal especulação é um problema intrigante. Esse é um caso onde a economia do “senso comum” do cidadão ordinário está errada.

Conservadores não gostam do comunismo. Como resultado, eles estão dispostos a rejeitar os familiares dogmas da economia marxista. Aqueles que já leram ao menos trechos de O Capital e que estão cientes da teoria do valor-trabalho estão normalmente dispostos a abandonar essa ideia. Infelizmente, parece que eles a abandonam apenas de fachada, simplesmente por que Marx acreditava nela. Eles não abandonaram a abordagem econômica fundamental empregada por Marx, a saber, a falácia do valor intrínseco. A aplicação mais comum desse conceito errôneo, ao menos em círculos conservadores, é a ideia de que ouro e prata possuem valor intrínseco, enquanto a moeda impressa não. Esse erro merece atenção especial.

São várias as razões pelas quais conservadores cometem esse erro. Eles são guiados pela melhor das intenções. Eles veem que o dinheiro impresso e crédito bancário levaram no passado e estão levando atualmente a virulentas inflações. Eles temem os danos econômicos e sociais associados à inflação. Eles podem também ver que os modernos estados socialistas e intervencionistas têm usado políticas inflacionárias em relação às dívidas e gastos para aumentar seu poder às custas de associações privadas e voluntárias. Alguns dos observadores mais sofisticados podem até mesmo ter entendido a ligação entre políticas inflacionárias e depressões – crescimento e estouro das bolhas – eles podem ter concluído, muito corretamente, que esses ciclos de trocas não são endêmicos ao capitalismo como tal, mas apenas a sistemas econômicos que permitem políticas de inflação.[3] Eles associam inflação com políticas do estado ou monopólios licenciados pelo estado e bancos de reservas fracionárias ao invés da economia voluntária de mercado. Entretanto, eles persistem em defender o uso de metal em espécie como única moeda (em conjunto com notas promissórias totalmente resgatáveis em metal em espécie) em termos do valor intrínseco dos metais.

Valor: Histórico vs. Intrínseco

Há uma confusão básica aqui. A confusão se encontra na mistura de duas proposições bem diferentes: (1) ouro e prata são historicamente valiosos; e (2) ouro e prata têm valor intrínseco. A primeira proposição é inquestionavelmente correta; de fato, há muito poucas afirmações históricas ou econômicas que poderiam ser consideradas mais absolutas. O Professor Mises tem criado toda a sua teoria de dinheiro no fato de que ouro e prata (especialmente ouro) foram inicialmente valorizados devido a propriedades diferentes de suas funções monetárias: brilho, maleabilidade, prestígio social, e assim por diante. É precisamente por que as pessoas valorizavam tanto esses metais que eles se tornaram instrumentos de troca, i.e., dinheiro.[4] Uma vez que eles são tão prontamente comercializáveis, mais ainda do que outros bens, eles se tornaram dinheiro.

Hoje em dia nós valorizamos o ouro e a prata por muitas razões, e à primeira vista propósitos monetários não são os principais para a maioria das pessoas. Isso por que pouquíssimos povos têm permissão legal para usar ouro em trocas, e as políticas estatistas de inflação têm colocado a famosa lei de Gresham em operação: moedas de prata têm ido para reservas, uma vez que o valor do seu conteúdo de prata é maior do que o valor de face das moedas. Mas em mercados internacionais, o ouro ainda não foi destronado; governos e bancos centrais nem sempre confiam uns nos outros, mas eles confiam muito no valor histórico do ouro.

O porquê desse valor histórico? Eu não quero me envolver em um questionável debate filosófico envolvendo metafísica, mas acho que é seguro dizer que o ouro de fato possui certas qualidades intrínsecas. É altamente resistente, facilmente divisível, transportável e, o mais importante, é escasso. O dinheiro tem que ser tudo isso, em um grau ou outro, se é esperado funcionar como meio de troca. É vital que tenhamos nossas categorias claras em nossas mentes: não é o valor que é intrínseco ao ouro, mas apenas suas propriedades físicas que são valorizadas por agentes humanos. As propriedades físicas do ouro são produto da natureza; seu valor é produto de agentes humanos.

Uma defesa do ouro

Seria um erro terrível, entretanto, tirar a ênfase do valor histórico do ouro e da prata meramente por que eles não possuem valor intrínseco. Esse erro é o que os oponentes do ouro gostariam que cometêssemos. Eles são igualmente culpados por misturar as categorias de valor intrínseco e valor histórico, apenas argumentando em uma direção diferente. Conservadores apreciam o fato do valor histórico do ouro, mas eles erroneamente defendem seu ponto de vista em termos do valor intrínseco do ouro. Seus oponentes não apreciam o argumento da história, mas perdem tempo refutando a apresentação errônea dos conservadores. Eles assumem que, porque o ouro não tem valor intrínseco (verdadeiro), o valor histórico do ouro como meio de troca é de alguma forma invalidado. As duas posições são diametralmente opostas, contudo eles focam em um ponto comum que é irrelevante para ambas as posições; os conservadores não ajudam a sua causa do ouro ao apelarem ao seu valor intrínseco, e os oponentes do ouro não refutam a causa do ouro ao demonstrar o erro dessa afirmação.

A dominante aceitação histórica do ouro pela maioria dos homens na maioria das sociedades é um testemunho duradouro do seu valor como meio de troca. Ele não deve ser indicado como um “depósito de valor” como em muitos livros. O que nós devemos dizer é que o ouro é prontamente comercializável e por essa razão algo valioso de se armazenar. Essa posição do ouro na história é um fenômeno que se auto-perpetua: as pessoas tendem a aceitar o ouro por que eles e outros o fizeram no passado; eles assumem que outros estarão dispostos a aceitar o ouro em troca de bens no futuro. Essa premissa de continuidade é básica a todos os bens que funcionam como dinheiro. Continuidade é, portanto, uma função das propriedades físicas do ouro e das estimativas dos homens a respeito das valorizações de outros homens. Em resumo, isso envolve a natureza, o homem e o tempo. Ao estimar a importância do ouro para o funcionamento adequado de um sistema econômico, nós devemos levar em consideração todos os três fatores, mantendo cada um de forma clara em nossas mentes. É por isso que precisamos de análise econômica; sem isso, nós vagamos cegamente.

Ignorância raramente é lucrativa no curto prazo; no longo prazo, é invariavelmente desastrosa. A argumentação falaciosa pode muito facilmente ser usada contra alguém por seus inimigos. Assim como Marx usou a falaciosa teoria do valor-trabalho contra aqueles economistas clássicos que tentaram defender o livre comércio em termos dessa teoria, os oponentes do ouro podem usar a teoria do valor intrínseco contra aqueles que tentam defender o padrão-ouro com ela. Isso não é dizer que a lógica sozinha irá convencer os homens da validade de um total padrão de moeda-ouro; a lógica é sempre uma ferramenta usada por homens de variados pressupostos e esses são por sua vez o produto de valorizações pré-teóricas. Nós não devemos acreditar na lógica para salvar o mundo. Mas ignorância é muito pior: ela não sabe seus pressupostos nem os prováveis resultados de seus argumentos. Ela carece de consistência, carece de clareza e pode ser usada contra o seu usuário pelo inimigo. Portanto, deixemos os defensores do padrão-ouro reconhecerem o advento do raciocínio econômico moderno e subjetivista. Encaremos o fato de que se a refutação da teoria do valor-trabalho de Marx por Böhm-Bawerk é válida, então todas as outras aplicações da falácia do valor intrínseco são igualmente inválidas.

Se não podemos aprender a pensar consistentemente sobre esse ponto, então estaremos contribuindo com os inflacionistas. O monstro inflacionista pode lembrar um elefante correndo ao ataque em nossa era. Pode ser tarde demais para pará-lo com um fuzil de pequeno calibre, mas nós sabemos que ele não pode ser parado com uma arma de pressão.

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Tradução de Daniel Chaves Claudino | Artigo original aqui.

Notas

 

[1] Cf. Gary North, Marx’s Religion of Revolution (Nutley, New Jersey: Craig Press, 1968), cap. 5, especialmente p. 155-70.

[2] Cf. Gary North, “Urban Renewal and the Doctrine of Sunk Costs”, THE FREE­MAN (Maio, 1969).

[3] Eu resumi essa teoria neo-austríaca do ciclo de troca no meu ensaio, “Repressed Depression”, THE FREEMAN (Abril 1969).

[4]  Ludwig von Mises, The Theory of Money and Credit (New Haven, Conn.: Yale University Press, [1912] 1953), p. 109 ff.

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