cris2Nossa equipe de entrevistas foi recebida por Cristiano Chiocca, presidente do IMB, na nova sede do instituto e confirmou a fama de bons anfitriões da família. Cristiano, que sempre misturou a discrição com um senso de humor peculiar, não se furtou a responder nenhuma das perguntas e esclareceu todas as recentes polêmicas e boatos envolvendo o IMB.
O público, que vinha estranhando o desvirtuamento do instituto e o silêncio dos irmãos Chiocca diante dos fatos, agora tem tudo esclarecido. Acompanhe a esclarecedora entrevista na íntegra:

Olá Cristiano, obrigado por nos receber. O IMB acaba de lançar o site em um novo domínio e de publicar nota de saída de Helio Beltrão, além de eleger você como presidente. Conte-nos, o que aconteceu?

– Obrigado pela oportunidade. Começo respondendo pelo último item que é minha eleição para presidente; esse ato não foi mais que uma formalidade. O título de presidente dado ao Helio nunca foi mais que uma singela gratidão por ele ser o financiador do IMB que criei. A figura de um presidente sempre foi meramente honorífica até determinado momento, sendo oferecida ao Helio como deferência por ele ser nosso financiador. No dia a dia, ao longo dos 5 primeiros anos, a cara e a marca impressa no IMB sempre foi dos irmãos Chiocca e do Leandro Roque. Devido à confusão criada com as intervenções cada vez mais estabanadas do Helio e com o fato de ele ter se arrogado a um papel que não lhe cabia, agora a figura do presidente volta a ser relevante e vou colocar o IMB novamente em sua rota natural.

Mas o site está em domínio novo e o site que ocupa o domínio antigo permanece, e com o mesmo nome. Esse rompimento foi conflituoso?

– De nossa parte nunca. O IMB em novo domínio é por parte do conflito que o Instituto do Helio quer. De qualquer maneira, em nosso lançamento eu enviei mensagem ao Helio para que nos devolvesse o domínio e parasse de usar nosso logotipo em suas atividades. Outra solicitação foi que ele nos devolva a página no facebook que foi totalmente criada e administrada pelo meu irmão Roberto até alcançar o sucesso de mais de 100 mil seguidores.
Aguardamos essa devolução para que a confusão na cabeça do público se dissipe o mais rápido possível, possibilitando que tanto o IMB quanto o Helio Beltrão possam seguir seus caminhos.

Esses caminhos não são os mesmos?

– De forma nenhuma; e aqui aproveito a oportunidade para fazer um mea culpa a todo o movimento austrolibertário.
Ao criar o IMB, depois da ideia concebida, fui atrás de financiadores e o Helio se colocou totalmente a disposição de financiar tudo nos moldes do MI. Naquele momento tudo era bom demais para ser verdade: um bilionário financiando minha ideia a fundo perdido? Que maravilha!
Mas talvez por já ser austríaco o suficiente eu tenha ignorado a lição de Friedman de que não há almoço grátis! (risos)
Ao longo do tempo Helio foi dando demonstrações que não fazia aquilo de graça.

O que você quer dizer com isso? Helio lucra com o IMB?

– E muito! De uma forma que nem todo dinheiro que ele tem jamais daria a ele.
Os que são familiarizados com a Pirâmide de Maslow entenderão isso com facilidade; Helio já tem todo dinheiro que possa necessitar. Mais dinheiro é bom, mas não é o que vai fazer diferença. O importante para ele é prestígio e amplo reconhecimento
Ele era membro do traço de audiência e conteúdo Instituto Millenium (um instituto orgânico do establishment) e era uma nulidade intelectual completa, mas com dinheiro, como são os membros do tal instituto. O IMB veio dar a ele uma legião de seguidores e uma aura de conteúdo que ele, como membro do Millenium, jamais teria conseguido! O radicalismo e consistência ideológica que o IMB produz deram isso a ele.
Para Helio, e para o meio que ele frequenta, isso foi de grande importância e por isso ele deixava com que fizéssemos o trabalho no IMB com liberdade. Ele ganhava prestígio e eu via minha ideia florescer.

E por que esse equilíbrio se quebrou?

– Isso nunca foi um equilíbrio.
Foi uma ingenuidade minha mesmo e por isso o meu mea culpa.
Em todas as conferencias, palestras e exposições Helio sempre se assentou no cargo figurativo de presidente como se fosse oficial, nunca me citou como criador e nem a equipe como digna de mérito; isso de fato nunca me incomodou, eu realmente não dou a mínima para isso mas ali estavam se revelando suas intenções e eu não fui hábil de perceber.
A medida que o IMB crescia e chegava às portas do establishment, Helio foi revelando que não tinha quase nenhuma afinidade com as ideias ali defendidas. Os posts dele no facebook eram (e ainda são) verdadeiros circos de horrores, frutos de uma completa carência intelectual. Nós cansamos de rebater os posts dele com artigos do instituto que ele “presidia”.

Você está dizendo que Helio não é um austro-libertário?

– Nunca foi.
Teses como “imposto nem sempre é roubo”, “reserva fracionária não é fraude”, “livre mercado de ética”, “ciclos de kondratiev”, “banco central austríaco”, “legitimidade de o estado possuir propriedades”, “ser contra a secessão per se” são coisas que ele realmente acredita.
Isso é o oposto que o MI defende; alguém consegue imaginar Lew Rockwell, Mises ou Rothbard serem entusiastas de Ciclos de Kondratiev?
Para nós sempre foi muito constrangedor ter como presidente alguém que, além de não ser adepto da praxeologia misesiana, ainda por cima desconhece as fundamentações epistemológicas da escola austríaca.

Mas para muitos Helio é tido como um John Galt do movimento libertário brasileiro.

– Isso é um mito que deve ser desconstruído. Para começar, se ele fosse um empresário bem sucedido ele seria um Hank Rearden, mas também isso está muito longe de ser o caso. Helio é um herdeiro (obviamente não há problema algum com isso). Curioso é o fato de que ele é filho e neto de políticos. Seu pai foi presidente da Petrobras e, na vida privada, acionista de um grande grupo petroquímico. Colocar Helio como líder ou referência de um movimento libertário é como se daqui 20 anos o Lulinha (filho do presidente Lula) financiasse uma revolução liberal.
Helio é uma figura do establishment e tudo que faz é para ser aceito e ascender dentro do establishment, nunca contra ele. Contrariamente, Rothbard e Lew Rockwell são anti-establishment até a alma. É isso que o IMB is all about. Colocar uma figura do establishment como referência no meio libertário foi um grande erro.

E quando foi possível perceber tudo isso?

– A minha ideia original, que foi apresentada ao Helio e por ele financiada, era a de termos uma versão em língua portuguesa do Mises Institute, não só traduzindo seu conteúdo como também o usando como modelo de postura intelectual. Desde então, fomos capazes de manter a integridade do IMB e seu rígido comprometimento com os princípios libertários e com a Escola Austríaca de economia. Porém, de uns dois anos pra cá, começamos a sentir uma divergência na postura do Helio. Ele teve reações no mínimo estranhas a artigos polêmicos e tentou proibir o tópico “libertarianismo”. Percebemos que se dependesse dele, o instituto só trataria de “economia”, e mesmo assim, sem bater de frente contra outras escolas de pensamento econômico, mas sim destacando as semelhanças com essas escolas ao invés das disparidades – exatamente como faz o professor Peter Boettke na GMU. Foi por isso que o Helio insistiu em trazê-lo para nossa última conferência, apesar de ele ser praticamente desconhecido para nosso público. Ele insistiu na criação da Revista Mises, com o objetivo de fazer parte do mundo acadêmico e tentar influenciá-lo, o que para nós sempre foi um projeto ingênuo e um desperdício de recursos. O Helio também começou a apoiar o Partido Novo, e esse também foi um forte indício dessa incompatibilidade. Ele nos declarou que suas metas eram influenciar políticas públicas e sermos respeitados pela mídia e pela academia.

Mas houve algum estopim?

– A situação se tornou insustentável no final do ano passado, após as eleições. Com a divisão do Brasil nos estados “azuis e vermelhos”, o assunto “secessão” naturalmente veio à tona. Neste momento tão estratégico e do qual poderíamos tirar grande proveito, Helio declarou que não era a favor da secessão, e proibiu o IMB de falar sobre o assunto por ao menos um mês, dizendo-se preocupado sobre como a defesa da secessão poderia ser mal interpretada pela “opinião respeitável” da grande mídia.
Coincidentemente, o livro Real Dissent, do historiador Tom Woods, trata exatamente desse tema e de como os austrolibertários não são e jamais podem ser pautados pela opinião respeitável da mídia. Nós não aceitamos isso, e defendemos nossa posição ferrenhamente. Inclusive, nessa época o MI tinha como seu tema principal a secessão, e estava realizando um evento com este tema. Isto mostra claramente quem tinha razão e evidencia o que sempre soubemos: Helio não tem a menor ideia a respeito do que o MI defende.
Propusemos então a separação do patrocinador com qualquer cargo executivo no IMB, para que com isso o instituto voltasse ao seu caminho original, e para que o Helio voltasse ao seu papel de financiador e parasse de querer fazer o que ele não tinha capacidade e nem conhecimento para fazer. As poucas ideias que ele tinha dado no começo do instituto sempre foram solenemente ignoradas. Nós o tocamos como achávamos que deveria ser tocado e a isso se deve o sucesso do IMB.

E como ele reagiu?

– Foi aí que caiu mais um mito: a imagem do Helio como uma pessoa equilibrada. Helio deu um verdadeiro chilique que deixou a todos os presentes corados de vergonha. Incapaz de contra argumentar, deu um escândalo vexatório. Helio não está acostumado a lidar com homens de verdade e nem a ser contrariado, o que formou uma figura patética e mimada. Acostumado com um séquito de puxa-sacos, ele não sabia que com os irmãos Chiocca a banda toca em ritmo diferente; nunca demos a mínima para os bilhões que ele tem na conta. Embora o tratássemos de forma respeitosa, até por ele ser o doador, sempre batemos de frente com ele nos assuntos que importavam. Ao longo dos anos o que prevalecia no IMB era a opinião dos Chioccas. Apenas quando isso começou a atrapalhar os planos pessoais do Helio que entramos em rota de colisão.

E por que a coisa mudou nesse episódio?

– Porque nossa postura estava incomodando os planos que ele tinha para si mesmo e para o instituto. Ele estava sedento por “respeitabilidade”, e já não era mais interessante o instituto defender ideias radicais e que confrontassem abertamente o establishment.
A leitura dele é que o esfacelamento do PT e a destruição do PSDB acarretará um vácuo de poder, e ele acredita que boa parte desse vácuo vai ser ocupado pelo NOVO e correligionários. Ele se imagina como grande líder desse movimento e não quer um IMB radical “queimando o filme”. Por isso nos tirou (ou melhor, pensa que nos tirou) e se cercou de nulidades. (bem representadas na figura perfeita da fraude, Rodrigo Marinho).

E então vocês saíram do Instituto, como foi isso? Vocês não eram maioria lá dentro?

– Nós nunca saímos! Tomamos um “passa moleque” num esquema pilantra de quinta categoria do Helio. É mais um exemplo de como ter bilhões não enobrece ninguém. Pode dar uma camada de verniz, mas a índole de pilantra não sai da pessoa.
Por causa de detalhes burocráticos (pelos quais o Helio sempre foi obcecado), o patrocinador do instituto teria a autoridade legal sobre ele, e por isso fomos sumariamente desligados. Como nosso acordo sempre foi de confiança entre cavalheiros e nunca demos a mínima importância para burocracia estatutária, desconsideramos esse golpe e afastamos agora quem queria mudar o que começamos no IMB.

Vocês afastaram o Helio?

– Sim. Veja que o Helio não se deu conta de que tudo que ele tem é um CNPJ, algo de que nunca vimos a menor necessidade. O IMB é um instituto feito em casa: eu criei a ideia e desenvolvi o projeto. A carta do MI autorizando as traduções está em meu nome, o Fernando fez o logo que hoje é um sucesso mundial e encantou o próprio Lew Rockwell, a página no facebook com mais de 100 mil pessoas foi obra do Roberto e o modelo do site sempre ficou sob nossa batuta. Até mesmo o Dia da Liberdade de Impostos é feito no posto de uma amiga minha e eu arrumei tudo. O IMB precisa de dinheiro para manter o site; a verba a fundo perdido do Helio ajudou isso tudo, é claro, mas agora vamos procurar outros financiadores para continuar as atividades do IMB.

Mas como fica o Helio e essas atividades que ele tem anunciado, não ficam sem sentido?

– De forma nenhuma. Vejo imediatamente duas oportunidades incríveis para o próprio Helio; tem espaço para todo mundo.

Que oportunidades?

– A primeira é para que o Helio coloque à prova a sua esdrúxula tese de Estrela do Mar. E digo esdrúxula pois o austrolibertarianismo não é um movimento sem cabeça e que se multiplica independente de uma hierarquia. O austrolibertarianismo segue uma linha intelectual muito clara que vem de Mises, Rothbard e hoje Hoppe; o centro irradiador disso é o Mises Institute do Alabama e não as ideias sem nexo da cabeça do Helio. Chamar de IMB qualquer coisa que seja anti-MI é nonsense e é isso que Helio tentou fazer, mas foi impedido pela nossa iniciativa.

E a segunda oportunidade?

– A segunda é a mais importante para ele. É se desvencilhar do radicalismo intrínseco que o IMB/MI carregam.
Na Première ficou muito claro que o objetivo dele é “academizar” o instituto, ainda que não haja material humano para isso, já que praticamente nenhum dos professores apontados para esse projeto se enquadra na linha praxeológica misesiana/rothbardiana.
O MI nunca se arrogou a ser uma universidade e quem primeiro pensou nisso fui eu num artigo chamado UMB – Universidade Mises Brasil – mais uma ideia minha que o trapaceiro tenta surrupiar – onde eu digo que qualquer modelo de cursos e aulas tem que seguir o modelo do Mises Institute e não essa sanha acadêmica que o Helio tem, sanha essa que ele nutre apenas para adquirir respeitabilidade, já que na realidade ele não dá a mínima importância para o conteúdo austrolibertário.
Helio também pode estar vendo isso como negócio já que o site tem um alcance incrível.
Mas ele estará vendendo gato por lebre, pois está aproveitando-se do poder das ideias do IMB/MI ao mesmo tempo em que o reduz a mera roupagem e entrega uma miscelânea completamente desconexa dessas ideias. Veja só que disparate: a pós graduação anunciada tem nomes como Bruno Garschagen, na cadeira de ciências políticas, e Alberto Oliva, na cadeira filosófica, mas ambos não têm absolutamente nada a ver com as ideias do austrolibertarianismo. Na cadeira econômica há Bira e Barbieri, que são hayekianos.
Agora, com a distinção que conferimos ao Helio ao retirá-lo do IMB, ele está livre para seguir seus planos e emular cursos como CATO e GMU, pretensão anunciada por ele na première e que o Ordem Livre já faz por aqui. Nenhum desses think tanks está preso ao austrolibertarianismo e estão muito mais alinhados com o modelo que ele quer seguir. Fizemos, afinal, mais um favor ao Helio, que agora não precisa mais mentir para um público ávido por rigidez metodológica e comprometimento com princípios. O IMB não é, não foi e nunca será uma instituição acadêmica.

Isso coaduna com seu texto anunciando a nova direção do IMB onde você destaca que o IMB não é uma instituição acadêmica e ressalta sua separação da Revista Acadêmica Mises. Poderia explicar melhor? O IMB não é dedicado ao ensino?

– Excelente e muito oportuna pergunta, principalmente neste momento em que o Instituto do Helio Beltrão, ou IHB como chamamos (risos), apregoa inverdades na tal “Première” cujo texto de apresentação é na sua totalidade uma mentira deslavada, afirmando que o IMB foi fundado para contribuir com a academia. O IMB sempre foi destinado a ignorar o mundo acadêmico e atingir diretamente o público de ideias (leigos esclarecidos), conforme Hoppe nos ensinou textualmente em diversas oportunidades, inclusive reconhecendo a tentativa de influenciar o mundo acadêmico como uma ingenuidade e completo desperdício de tempo e recursos. A Revista Acadêmica tem este objetivo ingênuo e por isso está totalmente desconectada do IMB. Ela representa também uma desesperada busca de reconhecimento acadêmico mainstream, e tenta obter com isso uma impressão de respeitabilidade, valorizada apenas por aqueles que se importam com títulos e diplomas ao invés de ideias. Outra função da Revista é dar “pontuações” na própria academia aos poucos professores austríacos brasileiros, professores estes que possuem outra incompatibilidade com IMB: eles são fundamentalmente hayekianos e não misesianos/rothbardianos (com a exceção de Mueller, que é mais influenciado por Rothbard e é um Associated Scholars do Mises Institute). O IMB, assim como o Mises Institute, sempre seguiu a corrente econômica da praxeologia de Mises e Rothbard, na sua essência divergente da corrente de Hayek, vertente esta que despreza a praxeologia. O professor Salerno, que é o diretor acadêmico do MI (cargo que já foi de Rothbard) foi quem mais brilhantemente apontou a diferença entre as duas correntes, e considera uma inútil perda de tempo os esforços de Iorio e Barbieri de unificar Hayek e Mises. O IMB seguirá defendendo firmemente a corrente praxeológica misesiana/rothbardiana, hoje representada pelo MI e seus Scholars como Hoppe, Salerno, Murphy, Herbener, Gordon, Woods e muitos outros.

Então as tentativas de influenciar a academia sempre irão fracassar?

– Devido à própria estrutura do mundo acadêmico, as ideias austrolibertárias nunca vingarão em seu seio. Mises e Rothbard nunca foram reconhecidos pelo mainstream acadêmico, sendo relegados a posições menores e condenados a ver suas ideias serem sempre ignoradas e menosprezadas.
Isso não quer dizer que o projeto do Helio não vá dar certo; pelo contrário, pois seu modelo é um condensador de ideias liberais isento de conteúdo austrolibertário. Isso nos levou a retirá-lo do IMB, algo que só irá ajudá-lo.

Mas vocês não são liberais?

– Nunca fomos. Claro que como indivíduo já fui um liberal, mas depois que descobri o Mises Institute, aprendi que liberalismo é uma ideologia fracassada em suas próprias contradições, e que foi corrigida, superada e substituída pelo libertarianismo. Somos libertários, posição esta que já defendíamos quando da fundação do IMB, época em que decidimos fazer com outras pessoas o que o Mises Institute fez comigo: corrigir as falhas intelectuais incutidas pelos liberais. Após estudar o austrolibertarianismo difundido pelo MI/IMB, não tem como alguém honesto intelectualmente continuar sendo liberal. Mises foi o último cavaleiro do liberalismo (The Last Knight of Liberalism), e seu aluno Rothbard uniu a ciência econômica misesiana e a tradição anarquista desenvolvendo o austrolibertarianismo que suplantou o liberalismo de seu mentor. Somos, portanto, grandes críticos dos liberais e não seus aliados.
Esse ressurgimento de Institutos Liberais é um grande erro. Uma breve análise histórica nos mostra a falta de compromisso deles com a liberdade. Nos anos 1980 eles surgiram com força, mas quando vieram as privatizações (paliativas, incompletas e muitas vezes de fachada) dos anos 1990 eles desapareceram, pois a agenda deles tinha sido alcançada. O liberalismo carece de uma repulsa à tirania democrática e ao estado, que são as raízes do problema

Você disse que tem espaço para todos…

– (interrompendo) Veja bem: com todo o crescimento do movimento austrolibertário e com a difusão das ideias era inevitável que certas figuras quisessem surfar nesse sucesso; por isso vemos ignorantes como o Marinho atuando como papagaio de pirata e querendo estar em todos os lugares a todo o tempo. Inevitável, mas eu consigo até ver um lado bom. Ideias como projetos acadêmicos, projetos políticos também seriam inevitáveis. O grande problema é querer misturar isso com o IMB, contaminando-o. Mas agora, com a nova direção, esse risco está afastado.
Situações semelhantes ocorreram nos EUA com CATO, Atlas Foundation, Reason etc., cada qual no seu campo de atuação. A megalomania e projeto pessoal do Helio de ser “líder” quis envolver o IMB nesse tipo de coisa. Essa forma de conflito entre institutos e correntes de pensamento era esperada, analogamente ao que ocorreu e ainda ocorre nos EUA. Para demonstrar isso publicaremos em breve um artigo de David Gordon sobre o conflito entre Rothbard e os irmãos Koch, e já adianto aos leitores que qualquer semelhança não é mera coincidência! (risos)

Você citou várias vezes o professor Peter Boettke e o Helio o citou também na Première do instituto dele. Além disso, ele foi uma das estrelas da quarta Conferência de EA ano passado.

cris1Por que?

– Porque ele é emblemático e mostra com clareza a distinção entre os dois institutos: o nosso IMB e o instituto do Helio. Aliás a quarta conferência já foi um desvio muito grande do que o IMB defende.
Helio disse na Première que entre os livros prioritários que quer traduzir está o de Boettke, um fusionista acadêmico que rejeita a praxeologia e que não está ligado ao MI
Salvo as palestras do André Ramos , Ron Paul e Leandro as outras palestras foram totalmente heterodoxas. A própria palestra do Helio foi um fiasco total, onde o publico ficou olhando bestificado um ceteris paribus de T0-T1.

Algo mais na Première que marque essa diferença?


– Sim, a Première foi um marco e antecipou nossas medidas. Como citei em outra resposta, tudo se iniciou pela mentira deslavada no anúncio da Première de que o IMB teria sido fundado por gente preocupada com a situação acadêmica.
Um ponto digno de nota foi quando o C.O. disse que agora eles começam um novo instituto, e ele foi totalmente correto nisso. O IHB é um novo instituto totalmente distinto do IMB. Aqui continuaremos com o velho e bom IMB, na mesma toada do MI e da tradição austrolibertária.
Percebo que eles também estão a mudar o logotipo, reagindo talvez às solicitações que fiz, o que ajuda o público a desfazer a confusão que eles causaram.
Alias, essa mudança do logo é simbólica por outro sentido; a presença de Rothbard no logo sempre foi um incômodo para o Helio, pois o radicalismo das ideias rothbardianas não combinam com a imagem de líder liberal que ele quer passar.
Outro ponto que distancia bem o IMB do IHB está exatamente na abertura do evento. Ela foi conduzida por um membro do IFL e isso por si já basta para mostrar a diferença.

Como assim?

– O Helio sempre teve uma fixação pelo IFL/IEE e seu sonho sempre foi ter um IFL e não um IMB. Sendo uma figura do establishment, Helio sempre quis macaquear seus pares e entendeu como o Gerdau procedeu. Isso é comum. Salim Mattar reproduziu esse modus operandi em BH, mas São Paulo era carente disso. Logo, Helio se empenhou em usar seu prestigio para fomentar o IFL em São Paulo.
O grupo social de Helio sempre foi composto por grupos de empresários (bem estabelecidos) e herdeiros, diante dos quais ele quer representar uma figura intelectual. E grupos de empresários destoam completamente de um instituto de fruição intelectual como o IMB. Empresários não podem ser considerados referência intelectual per se. Esse papel deve ser ocupado por intelectuais sérios e abnegados, independentemente da atividade que exerçam, e jamais por causa delas.
Aliás, referindo-se novamente à Première, um episódio deixou esse fato bem claro: Quando Helio interrompe a apresentação de Marinho e esse diz que “manda quem pode obedece quem tem juízo”. É exatamente isso que Helio quer de seus membros: bajulação e obediência.

Mas empresários são financiadores de institutos, inclusive do MI?

– Sim, e esse é o papel que lhes cabe. Se remontarmos à história não tão distante do Instituto Liberal de São Paulo, veremos que ele era um instituto criado e dirigido por empresários; o IL-SP já chegou a fazer eventos com mais de duas mil pessoas nos anos 80.
Não é ironia que um dos grandes expoentes e líderes do IL-SP era Eugenio Staub, da Gradiente, que foi um dos primeiros empresários a embarcar na campanha de Lula para presidente. Tampouco o é o fato de que Afif Domingos seja ministro do governo Dilma. O próprio Gerdau foi conselheiro da Petrobras nesse momento sinistro.
Para ser financiador do IMB o empresário deve entender nosso propósito e deixar que os intelectuais exerçam seu papel. Deve cuidar bem da sua empresa e acreditar no poder das ideias para uma sociedade mais livre e próspera.

E você se considera um intelectual?

– Claro que não, nunca tive essa ilusão. Sempre deixamos claro que não havia no Brasil ninguém que pudesse ser um intelectual como há no MI. Nossas fontes sempre foram Tom Woods, Hoppe, Gordon, Rothbard, Salerno, dentre outros. Ainda tem muito caminho pela frente para que formemos essa elite intelectual. Já o Helio quer arrogar para si esse papel sendo que ele nem remotamente entende como se dá esse processo.

Quem financia vocês?

– Estamos de portas abertas (risos).
Com a saída do Helio perdemos uma fonte de dinheiro fácil, mas que estava saindo muito caro. No momento estamos contando com doações de vários amigos que estão ao nosso lado desde o princípio e estavam indignados com os rumos que o Helio estava dando ao IMB. As incoerências já eram incompatíveis com a seriedade requerida. E as pessoas perguntavam a mim e aos meus irmãos o que estava se passando com o IMB.
Alias, a questão do financiamento foi outra pista que eu deveria ter percebido. Desde o início do IMB, qualquer tentativa nossa de trazer novos financiadores causava arrepio ao Helio, que bloqueava qualquer iniciativa nesse sentido. Era sinal claro de que ele não queria mais ninguém para reduzir a importância dele no instituto.
Posso citar o episódio envolvendo nosso projeto para traduzir livros relevantes do MI. Na época, queríamos pedir apoio ao Salim Mattar. Helio tremeu diante dessa hipótese e boicotou sistematicamente essa iniciativa.
De qualquer forma, voltando a sua pergunta e aproveitando a oportunidade, estamos abertos a receber doadores. Mas aprendemos a lição: Doadores não fazem parte da equipe, ainda que tenham uma importância vital.

E por que novos doadores seriam ruins na ótica do Helio?

– Pois é assim que ele obteria o controle. Sempre tivemos uma relação de confiança pautada por acordos de cavalheiros. Mesmo assim ele insistiu em redigir um burocrático estatuto e nos enviava rotineiramente alterações para que assinássemos. Em uma delas havia uma mudança com uma cláusula que dava mais votos para quem colocava mais dinheiro. Assinamos sem nos preocupar, pois imaginamos ser uma mera questão fiscal pessoal para justificar as doações. Dessa forma, ele aplicou um “passa moleque” achando que ganhou alguma coisa. De fato ganhou: um CNPJ só pra ele. Mas o IMB não é um CNPJ.

Você falou em “passa moleque” e recentemente circulou pelas redes sociais o episódio Barricelli (onde Roberto Barricelli foi acusado de roubar dinheiro do IMB). Poderia falar sobre isso?

– Falo com tranquilidade sobre esse assunto, pois foi o primeiro ato do Instituto Helio Beltrão (ou do CNPJ que ele tem) sem nossa presença. Assim que Helio nos retirou do seu CNPJ e decidiu seguir seu caminho longe do IMB (acreditando que ainda o controlava) contratou o Barricelli, um escroque desprezível no meio libertário. Naquela mesma reunião onde Helio teve um chilique, nós nos opusemos radicalmente contra esse ato, explicando que isso iria queimar o filme do Instituto. Dito e feito! O IHB começou mal, mas espero que com o investimento que o Helio está fazendo em seus projetos acadêmicos ele supere esse episódio.
O importante é que comparado ao Helio Beltrão, o Barricelli é um aprendiz.

Já que você está colocando tudo em pratos limpos, esse episódio tem alguma semelhança com o caso do Constantino? O que aconteceu naquela ocasião?

– Há semelhanças e diferenças. Constantino também queria que o IMB fosse algo que ele não é; porém, diferentemente da situação atual, Constantino saiu e, com o tempo, viu que seu caminho era atingir um público muito mais vasto a curto prazo, dando vazão a seu talento. Helio é desprovido de talento e, sem o IMB, está preso à sua limitação. Logo, ao invés de reconhecer que o IMB não é o que ele busca ele preferiu modificar a natureza e o propósito do instituto. De qualquer maneira, o episódio Constantino serve para que o Helio possa compreender que ele pode ter êxito sem o IMB.

Você citou anteriormente conflitos ideológicos entre institutos nos EUA. Recentemente Helio deu uma entrevista ao MI e homenageou Lew Rockwell. Os estrangeiros do MI sabem o que se passa por aqui?

– Não sabem e essa sua pergunta abre a oportunidade de esclarecer a situação. Aproveito para dizer que iremos passar para o inglês esse texto, para que todos tomem conhecimento.
Na referida entrevista, Helio mente e coloca Kim Kataguiri como um libertário, “100% libertarian”, como Helio gosta de apregoar a respeito dos movimentos aqui no Brasil. Kim já reiterou inúmeras vezes suas divergências com o libertarianismo e hoje isso nem é mais ponto de discussão. Ele não é libertário, não se diz libertário, e convivemos bem com isso. O motivo de Helio ter mentido na entrevista é que me intriga.
Quanto à homenagem ao Lew, ela é apenas estratégica. Se o Helio quisesse de fato homenagear o fundador do MI ele poderia começar escutando um de seus podcasts ou lendo seu blog. , coisas que ele nunca fez. Duvido mesmo que tenha acessado esses sites alguma vez na vida sequer. A propósito, nenhum dos novos membros do IHB acompanha, escuta ou lê Woods, Lew, Hoppe, etc. O C.O. e o Helio foram até mesmo repetitivos ao se referir ao IMB como um “think tank”, provando que eles não tem a menor ideia do significado de nenhuma das duas coisas.

Agora faremos uma bateria de perguntas sobre as pessoas que fizeram parte do IMB ou fazem parte do Instituto do Helio:

Bruno Garschagen?

– Eu o considero um amigo, mas ele nunca foi um austrolibertário. Bruno está mais para um intelectual aristocrata no melhor sentido. Respeito sua posição, mas não é afinado com o IMB.
Tiramos o podcast, pois infelizmente não há material humano para se manter um programa assim. Bruno deve ter entrevistado uns 6 ou 8 austrolibertários em quase 200 programas. Os outros eram todos liberais, conservadores ou nem isso.

Alex Catharino?

– Alex é o que eu chamo de profissional de instituto; mas com um mínimo de decência para não se autoproclamar austrolibertário. Nunca foi e nunca será membro do IMB. Somente a mentalidade confusa do Helio poderia um dia ter considerado seriamente essa hipótese. Alex frequenta o Mises University, mas é um kirkiano (linha de pensamento do filósofo Russel Kirk). Desdenha de Hoppe, mas obviamente não se atreve a expor isso no MI, pois seria vexatório demais. Ele vai lá apenas para tirar fotos e depois lotar os grupos do Facebook com spam. (recentemente ele parou com isso; imagino que alguém de bom senso deve tê-lo aconselhado).
Mas o modus operandi do Alex é conhecido: ele migra de instituto em instituto enquanto houver financiamento. ILs, Acton, Kirk Center e outros. Agora encontrou um bilionário como o Helio, um homem dependente de bajuladores, colocando dinheiro a fundo perdido em seu instituto. Seu faro aguçado percebeu esta oportunidade.
Devo acrescentar que nada disso impede que Alex seja uma pessoa erudita e muito capaz, mas em nada comprometido com os princípios do IMB.

Marcia Xavier de Brito?

– Não a recomendo como tradutora.

Rodrigo Marinho?

– Um caso completamente perdido. Encaixa-se perfeitamente no que o Helio precisa para o Instituto Helio Beltrão. Marinho é uma nulidade intelectual. Nunca foi e nunca será membro do IMB, simplesmente por que não tem a menor ideia do que um instituto como este significa. É um agitador liberal e nada mais. Sinto-me, porém impelido a tentar aconselhá-lo em um aspecto e recomendar que ele não mais chame desconhecidos de “querido amigo”. Isso expõe ainda mais sua falsidade. Eu sei que não dá para cobrar decência de um oportunista desses, mas se ele tivesse a mínima noção dos ideais do IMB, pediria para retirar aquele “livro” do rol de publicações do instituto do Helio. Você consegue imaginar o Mises Institute publicando algo como aquilo?

Fernando Ulrich?

Um bom membro do IEE, e alguém que teve a curiosidade e a sagacidade intelectual de ir além das reuniões do Gerdau, indo estudar o que realmente tem valor. O IEE só cresce devido à sua presença.

Leandro Roque?

– Um ótimo funcionário. Falando à luz da escola austríaca, digo que ele pode usar tranquilamente a alcunha de economista.

Ubiratan Iorio?

– Bira é um professor universitário. É importante aqui deixar claro que há uma grande diferença entre ser um intelectual e ser um professor universitário. Ser professor universitário é um ganha pão. Ainda que haja professores que se aproximam da escola austríaca, não significa que eles façam parte do movimento cultural e intelectual despontado por Rothbard. O professor Muller é quem mais tende a essa linha.
Hoje acredito que Bira fará parte dos planos de Helio de influenciar a academia. Mas para o IMB, a ligação que uma pessoa mantém com a academia sempre foi irrelevante.

E o Professor Barbieri?

– O Barbieri é o típico exemplo de quão longe esse instituto acadêmico do Helio está do IMB/MI. Barbieri considera Peter Boettke (que não é do MI) o melhor economista austríaco, ao mesmo tempo em que considera Hoppe (aclamado no MI) o pior. Mais um sintoma emblemático de que nós somos o IMB e não Helio ou Barbieri. Eles não têm ideia do que é IMB ou MI.


Gianluca Lorenzon?

– O C.O.? Nada, ele não é do meio austrolibertário. É apenas um funcionário do qual Helio talvez necessite para seu instituto. Seria ridículo o IMB ter um C.O. ou coisa que o valha. Nem o MI, muito maior, tem cargo com essa pompa. Isso é um devaneio da mente desarranjada do Helio, que acha que o IMB é um think tank de Washington.
Tive certa vergonha alheia ao ouvi-lo anunciar as categorias de associados ao instituto. Bruno Garschagen, espirituoso como é, até fez chacota disso, como se fossem categorias da Amway.

Helio Beltrão?

– Acho que já falei praticamente tudo o que eu tinha a dizer sobre ele, mas há um fato que eu devo evidenciar. Ouvi dizer, incrédulo, que o livro Ação Humana, de Mises, é entregue ao comprador, com um autógrafo dele. Quero acreditar que entendi errado e que esse sujeito não esteja possesso de tal megalomania.

Como segue a vida do IMB agora? Quais são as novidades e medidas?

– A primeira coisa que fiz foi solicitar aos membros do IHB que nos devolvam o site, a página no facebook e que parem de utilizar nosso logotipo. Pedi ao Bruno que mudasse o nome do podcast e solicitei a alteração do nome da revista acadêmica.
É evidente que, sem as verbas das quais dispúnhamos, nossas atividades diminuem até que consigamos doadores que nos permitam manter um tradutor dedicado e exclusivo. É importante frisar que todos os Institutos Mises pelo mundo, inspirados em nosso modelo, têm atividades muito mais esparsas que eu atribuía o fato ao azar de não terem encontrado o bilionário certo, mas hoje vejo que eles estão em muito maior conformidade com a realidade do que nós estávamos.
Os livros continuam da mesma forma e logo iremos disponibilizar a venda via print on demand. Sem autógrafos! (risos)
A questão editorial é significativa, Helio sempre ambicionou uma editora, contrariando o modelo do MI disponibilizada de forma online e gratuita quase a totalidade das suas centenas de livros. O plano de Helio de ter uma editora serve aos seus anseios de controle e lhe permite frear a livre disseminação dos livros.
Não há dúvidas de que nosso público será menor, mas isso não nos incomoda. Enquanto o Helio sempre quis quantidade, nós prezamos pela qualidade e isso não vai faltar.
Continuaremos com a biblioteca aberta e o creative commons de todo conteúdo do site.

E caso eles não devolvam o site, a página no facebook e não atendam às solicitações?

– Isso apenas irá gerar mais confusão no público, dificultando o trabalho de disseminação do austrolibertarianismo. Mas estamos no Brasil! Eu nunca achei que seria fácil, e uma dificuldade a mais não vai nos desmotivar. Seguiremos em frente, e creio que rapidamente o público fiel do austrolibertarianismo já saberá distinguir a verdade com clareza.

E por que você se dedica a isso?

– O que me motiva hoje é o mesmo que me motivou quando fundei o instituto: o dever de consciência. Faço por que é o que deve ser feito.

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