RobinsonCrusoePolítica econômica hoje em dia é sempre medida pelo padrão da eficiência econômica, isto é, eficiência estática. Uma política econômica concreta é considerada boa se ela melhorar a eficiência estática do mercado. A política econômica ideal deveria poder levar o mercado ao nirvana da competição perfeita, na qual a eficiência estática é maximizada, assim como o bem-estar social.

O conceito de estado de perfeita competição foi bastante criticado pelos maiores expoentes da Escola Austríaca, incluindo Mises, Hayek, e Rothbard. No entanto, membros de governo e economistas em geral parecem impenetráveis em seu raciocínio. Logo, eles continuam analisando e estudando as alternativas de política econômica de acordo com este padrão absurdo.

O que eu proponho fazer nas próximas linhas é chamar a atenção para o exemplo clássico de Robinson Crusoé, como foi usado por Murray N. Rothbard em Man, Economy, & State, [1] para tentar descobrir como teria sido a vida de nosso herói caso ele tivesse tentado maximizar sua eficiência estática.

Com nosso foco na maximização da utilidade de apenas um indivíduo, nós podemos nos livrar das complexidades relacionadas ao uso simultâneo de diferentes escalas de valores que cada indivíduo apresenta no mercado. Claro, as gigantescas dificuldades de tentar obter um ‘ótimo social’, dadas as desconhecidas e diferentes escalas de valores para o político, já foi exposta de forma brilhante anteriormente. [2]

Antes de irmos ao conto, precisamos de uma breve introdução às duas naturezas do homem econômico.

O Indivíduo maximizador e o Indivíduo Empreendedor [3]

A visão comum do indivíduo sob o ponto de vista econômico é a de “maximizador”. O problema econômico consiste em selecionar o curso de ações, com respeito aos meios dados, que irão assegurar atingir o máximo de objetivos possíveis (em ordem de significância). O indivíduo que maximiza é passivo, automático, e mecânico: uma calculadora humana, capaz de achar a solução implícita na configuração de recursos e objetivos dados. Esses são os indivíduos que habitam a economia na sua generalidade.

Junto a essa natureza, existe o lado empreendedor do indivíduo. Esse lado possibilita ao indivíduo a própria percepção da estrutra de fins-meios, que constitui no ponto de partida do processo de economizar referido acima. O propósito da ação humana é mais ambicioso do que apenas maximização de vários recursos; ele busca remover o desconforto e colocar o indivíduo numa melhor posição. O lado empreendedor do indivíduo é ativo, criativo – humano.

Se o mundo fosse livre de incertezas, a natureza do ser humano de maximizar seria a única necessária. Mas esse não é o caso: o mundo muda constantemente, assim como o ambiente e os outros indivíduos. Não há nenhum grupo de dados com uma solução implícita que pode ser calculado pelo mercado. Na verdade, o que é preciso é o alerta a mudanças nos fins e meios, para que a cada momento estas possam ser resolvidas da melhor maneira possível.

Vamos voltar agora a Robinson Crusoé, cuja aventura está prestes a começar.

Chegada na Ilha

Recém chegado à ilha, Crusoé está encharcado, faminto, com sede, e cansado. Como sabemos, a ação humana é propositada. No caso do nosso náufrago, provavelmente também é urgente. Ele está ciente de seus objetivos e tem sua escala de valores: primeiro, ele precisa beber, depois comer alguma coisa, tentar fazer fogo, e finalmente dormir.

Como que o indivíduo maximizador progride nesta situação? Como ele irá otimizar o uso dos recursos dados para obter seus objetivos? Claro, isso nos traz outra pergunta: quais exatamente são seus recursos, seus meios?

Nenhuma resposta pode ser dada pelo indivíduo maximizador. Tampouco pode ser dada pelas correntes principais de economia, que procuram a eficiência estática ótima.

A não ser que Robinson Crusoé use seus instintos básicos, ele irá morrer de fome ou de sede. Ele ficará lá tentando maximizar… nada. Não há nenhum recurso dado. Fim de história para o otimizador.

É claro que nós sabemos que isso não irá acontecer. E isso não pode ser negado pela corrente principal de economia, nem por membros de governo, nem mesmo pelos árduos defensores da eficiência estática e da competição perfeita como paradigma de mercado.

Robinson Crusoé irá começar a procurar por comida, água e madeira para conseguir solucionar suas necessidades mais urgentes. Isso é, o lado empreendedor de Robinson Crusoé começará a trabalhar.

Em outras palavras, o lado maximizador de Robinson Crusoé precisa como ponto de partida de uma série de objetivos e meios. Objetivos são conhecidos, mas e quanto aos meios? A economia popularizada é incapaz de explicar como seres humanos em um mercado de perfeita competição irão decidir quais são os meios apropriados para atingir seus objetivos.

Primeiro Equilíbrio

Vamos aceitar, pelo bem do argumento, que esse olhar do Robinson empreendedor se esvazie, porém deixe ele ciente de dois recursos à sua disposição: “terra” (na forma de uma árvore com frutas) e “trabalho”. Para o uso de ambos os recursos, ele é capaz de coletar frutas a, vamos dizer, uma taxa de 20 frutas por hora.

Conseqüentemente, se ele trabalha por 1 hora, ele terá 20 frutas, 40 se trabalhar 2, e por aí vai. Como foi demonstrado empiricamente, homens gostam de trabalhar até certo ponto, a partir do qual eles preferem um tempo para lazer.

O comportamento ótimo para Robinson Crusoé será qualquer um que proveja o máximo de utilidade de frutas e lazer. A lei da utilidade marginal nos diz que quanto mais um indivíduo tem um bem específico, menor valor ele irá dar a próxima unidade.

Quanto mais frutas ele catar, menor será seu tempo de lazer. Assim, ele irá dar menos valor a cada nova fruta e valorizará cada vez mais a hora de lazer perdida. É claro, existe um ponto de equilíbrio no qual a utilidade global de Robinson Crusoé é maximizada: o momento no qual, de acordo com sua específica escala de valores, uma hora a mais de lazer é valorizada mais do que as próximas 20 frutas. Ao chegar neste momento, ele irá parar de trabalhar e descansar (possivelmente comer as frutas após o grande esforço que teve em catá-las).

Vamos supor que, para ele, é ótimo catar frutas por 10 horas e descansar no resto do tempo, aproveitando o lazer do mar e da areia. O preço de 200 frutas é de 10 horas de lazer. Aqui ele está no ponto de eficiência estática ótima.

E lá ele ficará para sempre. A não ser que, por alguma razão, sua escala de valores mude, ele acordará todos os dias, trabalhará por 10 horas, comerá suas frutas, observará o oceano, e dormirá. Se sua escala de valores mudar, ele talvez trabalhe mais horas e descanse menos, ou descansará mais e trabalhará menos, mas nós podemos ter certeza que o Robinson Crusoé maximizador-de-utilidade, perseguidor-do-equilíbrio, jamais irá fazer como Rothbard sugere: criar uma ferramenta rudimentar de catar frutas para melhorar sua produtividade.

Em outras palavras, o indivíduo maximizador não é capaz de progredir. Ele vive num mundo fechado de meios. Dados aqueles meios, ele, como um computador, é capaz de determinar o jeito de usá-los de forma mais satisfatória para atingir seus objetivos. E este é o papel que os economistas da corrente dominante dão ao ser humano econômico.

Interferência de Terceiros: Conseqüências de Antitruste ou Regulamentação de Setor

Por piores que as coisas pareçam nesta versão de Robinson Crusoé, não precisamos nos preocupar. Qualquer ser humano real em sua situação eventualmente irá apresentar seu lado empreendedor, e ele irá descobrir como usar uma ferramenta de catar frutas e eventualmente construir uma casa de madeira.

Mas o que iria acontecer se houvesse um regulador assegurando o perfeito funcionamento deste peculiar mercado? Esse regulador sabe, baseado nas correntes principais de teoria econômica, que o melhor resultado para o bem estar de Robinson Crusoé é precisamente 200 frutas e 14 horas de lazer. Esta é, afinal, a combinação ótima demonstrada por Crusoé em seu próprio comportamento anterior.

O bem-intencionado regulador irá decidir agir como um regulador antitruste e punir quaisquer desvios em relação ao ideal eficiente, ou ele talvez decida agir como um regulador de setor (e.g., tabelando preços), impondo o ideal eficiente diretamente. Em qualquer caso, o mesmo resultado é obtido: o lado empreendedor de Robinson Crusoé é inibido, tornando bem menor a possibilidade de ocorrerem quaisquer inovações que melhorem a produção. Mesmo se Crusoé tivesse descoberto como usar uma ferramenta que aumentasse a taxa de 20 para 50 frutas por hora de trabalho, o regulador antitruste não permitiria que ocorresse esse desvio em relação ao produto da eficiência estática. (Estaria Crusoé erguendo barreiras à entrada no mercado? Ou talvez fazendo concorrência predatória?)

O problema não é que o modelo de economia estática não reflete a realidade, como foi demonstrada na descrição da chegada de Robinson Crusoé à ilha e em sua primeira tentativa de equilíbrio. O verdadeiro problema está no fato de este modelo ser utilizado por reguladores para a tomada de decisões – decisões que são aparentemente mais complexas do que a que foi explicada, mas em essência as mesmas, e com similares conseqüências. Graças ao antitruste e à regulamentação de setor, ainda existem diversas atividades econômicas nas quais a taxa de catar frutas continua 20 por hora.

A conclusão pode ser tirada de Hayek:

O verdadeiro problema econômico em tudo isso não é se vamos ter certos bens ou serviços a um dado custo marginal, mas essencialmente quais bens e serviços irão satisfazer as necessidades das pessoas de forma mais barata. A solução sempre será uma jornada de exploração ao desconhecido, uma tentativa de descobrir de novas maneiras de fazer as coisas de um jeito melhor do que todos que já foram tentados. [4]

Essa jornada, é claro, só pode ser feita pelo lado empreendedor do indivíduo, livre de quaisquer regulamentações antitruste e de setor.


Notas

[1] Rothbard, Murray N., Man, Economy, and State. Ver capítulo 1.

[2] Por exemplo: Rothbard, Murray N.: “Toward a reconstruction of Utility and Welfare Economics,” 1956.

Também: Huerta de Soto, J.: “La teoría de la eficiencia dinámica,” Procesos de Mercado: Revista Europea de Economía Política, vol. I, no. 1, Primavera 2004.

[3] Ver Kirzner, Israel M., Competition and Entrepreneurship, chapter 2.

[4] Hayek, F.A.: “The Meaning of Competition,” em Individualism and Economic Order. Ver páginas 100-101.

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