É um fato surpreendente que uma filosofia como o Marxismo, que ataca todo o sistema social, tenha permanecido durante muitas décadas mais ou menos sem ser atacada e incontestada. Durante seu tempo de vida Karl Marx não era muito conhecido e suas obras permaneceram praticamente desconhecidas para a maior parte dos seus contemporâneos. Os grandes socialistas de sua época eram outros homens – por exemplo, Ferdinand Lassalle. As agitações públicas de Lassalle duraram somente um ano porque ele morreu num duelo resultante de um assunto particular, mas ele foi considerado um grande homem em sua época. Marx, por outro lado, era mais ou menos desconhecido. As pessoas nem aprovaram e nem criticaram seus ensinamentos. Ele morreu em 1883. Após sua morte apareceu a primeira parte da crítica de Böhm-Bawerk às doutrinas econômicas de Karl Marx[1]. Mais tarde, na década de 1890, quando o último volume de O Capital foi publicado, apareceu a segunda parte desta crítica que destruiu completamente as doutrinas econômicas de Marx.[2]

Os marxistas mais ortodoxos tentaram reavivar e reformular suas doutrinas. Mas praticamente não havia nenhuma crítica sensata às doutrinas filosóficas de Karl Marx.

As doutrinas filosóficas de Marx se tornaram populares quando as pessoas familiarizaram-se com alguns de seus termos, slogans, etc., embora elas os tenham usado de um modo diferente da forma como foram utilizados no sistema de Karl Marx. Esta simplificação acontece com muitas doutrinas. Por exemplo, o darwinismo se tornou conhecido como a teoria baseada na ideia de que o homem é neto de um macaco. O que resta de Nietzsche não é muito mais do que o seu termo “super-homem”, que mais tarde adquiriu popularidade nos Estados Unidos, sem qualquer conexão com Nietzsche. Relativamente a Marx, as pessoas conhecem seus termos, mas utilizam de forma vaga. Mas em geral, as ideias marxistas têm pouca ou nenhuma oposição.

Uma das razões por que a doutrina de Marx foi tão diluída na mente da opinião pública, foi a maneira que Engels tentou explicar a teoria marxista. Veja a declaração dele no sepultamento de Marx: “Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o fato tão simples, mas oculto até ele sob a malícia ideológica, de que o homem necessita em primeiro lugar comer, beber, ter um teto e vestir-se antes de poder fazer política, ciência, arte, religião, etc.”.[3] Ninguém jamais negou isto. Mas agora, se alguém diz algo contra a doutrina marxista, então eles podem perguntar: “Como você pode ser tão estúpido para negar que uma pessoa primeiro deve comer antes de torna-se um filósofo?”

Novamente, há a teoria das forças produtivas materiais. Mas nenhuma explicação é oferecida para a sua formação. O Materialismo dialético afirma que as forças produtivas materiais vêm ao mundo – não se sabe como elas vêm, nem de onde vêm – e são essas forças produtivas materiais que criam todo o resto, ou seja, a superestrutura.

Às vezes as pessoas acreditam que houve um forte conflito entre as diferentes igrejas e o marxismo. Elas consideram o marxismo e o socialismo incompatíveis com os ensinamentos de todas as igrejas cristãs e seitas. As primeiras seitas comunistas e as primeiras comunidades monásticas eram baseadas numa peculiar interpretação da Bíblia em geral, e do livro de Atos especialmente. Nós não sabemos muito sobre essas primeiras seitas comunistas, mas elas existiram na Idade Média e também nos primeiros anos da Reforma. Todas essas seitas estavam em conflito com as doutrinas estabelecidas de suas igrejas ou denominações. Portanto, seria absolutamente errado tornar a Igreja Cristã responsável por eles. Digo isto para mostrar que, pelo menos na mente de alguns grupos – grupos em grande parte considerados heréticos pela Igreja -, não existe qualquer conflito absoluto entre o socialismo e os ensinamentos da Igreja. As tendências anticristãs dos precursores socialistas de Karl Marx, do próprio Karl Marx, e mais tarde dos seus seguidores, os marxistas, antes de tudo devem ser compreendidas dentro de todo o quadro que mais tarde deu origem ao socialismo moderno.

Os estados, os governos, os partidos conservadores, não foram sempre opostos ao socialismo. Pelo contrário, o pessoal do governo tem uma tendência ou um viés em favor da expansão do poder governamental; alguém poderia mesmo dizer que existe uma “doença profissional” por parte do pessoal do governo para estar a favor de mais e mais atividades governamentais. Foi precisamente este fato, esta propensão dos governos a adotarem o socialismo – e muitos governos realmente adotaram o socialismo – que pôs o marxismo em conflito com os vários governos.

Tenho dito que a pior coisa que pode acontecer a um socialista é ter o seu país governado por socialistas que não são seus amigos. Este foi o caso no que diz respeito a Karl Marx e o governo Prussiano. O governo Prussiano não era contra o socialismo. Ferdinand Lassalle atacou os partidos liberais da Prússia, que estavam naquela época num grande combate constitucional contra os reis Hohenzollern, liderados por Bismarck. A maioria na Prússia naquela época era contra o governo; o governo não poderia obter uma maioria no Parlamento Prussiano. O governo prussiano não estava muito forte naquele momento. O Rei e o primeiro-ministro governavam o país sem consentimento, sem a cooperação do Parlamento. Este era o caso no início dos anos 1860. Como uma ilustração da debilidade do governo Prussiano, Bismarck, em suas memórias, relatou uma conversa que ele teve com o Rei. Bismarck disse que iria derrotar o Parlamento e os liberais. O Rei respondeu: “Sim, eu sei como isso vai acabar. Aqui na praça em frente ao palácio. Primeiro eles vão executá-lo e, em seguida, eles vão me executar“.

A Rainha Vitória [1819-1901], cuja filha mais velha [Vitória, 1840-1901] tinha se casado o príncipe real da Prússia, não estava muito contente com esta situação; ela estava convencida de que os Hohenzollerns seriam derrotados. Neste momento crítico, Ferdinand Lassalle, que esteva à frente de um movimento operário que era, até então, ainda muito modesto, muito pequeno, veio ajudar o governo Hohenzollern. Lassalle teve reuniões com Bismarck e eles “planejaram” o socialismo. Eles introduziram um auxílio estatal, a produção cooperativa, a nacionalização e o sufrágio universal. Mais tarde Bismarck realmente embarcou num programa de legislação social. O maior rival dos marxistas foi o governo prussiano, e eles lutaram com todos os movimentos possíveis.

Agora você precisa compreender que a Igreja Prussiana na Prússia, a Igreja Protestante, era simplesmente um departamento do governo, administrado por um membro do gabinete, o ministro da Educação e dos Assuntos da Cultura. Um dos vereadores dos níveis mais baixos da administração tratou dos problemas da igreja. A igreja neste sentido era uma igreja estatal; era uma igreja estatal até mesmo em sua origem. Até 1817, havia luteranos e calvinistas na Prússia. Os Hohenzollerns não gostavam desta situação. Os luteranos estavam em maioria no antigo território prussiano, mas nos territórios recém-adquiridos, havia dois grupos. Apesar do fato de que a maioria do povo prussiano era luterano, o eleitorado do estado de Brandeburgo tinha mudado de luteranos para calvinistas. Os Hohenzollerns eram calvinistas, mas eles eram os chefes da Igreja Luterana no seu país. Depois, em 1817, sob Frederico Guilherme III da Prússia, as duas igrejas foram fundidas para formar a Igreja da União Prussiana. A Igreja era subordinada ao governo do país.

A partir do século XVII na Rússia, a igreja era simplesmente um departamento do governo. A igreja não era independente. A dependência da Igreja do poder secular foi uma das características da Igreja Oriental em Constantinopla. O chefe do Império Oriental foi, de fato, o Patriarca Superior. Esse mesmo sistema foi em certa medida levado para a Rússia, mas lá a Igreja era apenas uma parte do governo. Portanto, se você atacou a igreja, você também atacou o governo.

O terceiro país em que o problema estava muito crítico foi a Itália, onde a unificação nacionalista implicava a abolição do governo secular do Papa. Até a segunda parte do século XIX a parte central da Itália era governada pelo Papa independente. Em 1860, o rei da Sardenha conquistou esses estados. O Papa manteve apenas Roma, sob a proteção de um destacamento do Exército Francês até 1860, quando os franceses tiveram que se retirar para lutar com a Prússia. Portanto, houve uma contenda muito violenta entre a Igreja Católica e do estado laico Italiano. A luta da Igreja contra as ideias marxistas relativas à religião é algo diferente da sua luta contra o programa socialista. Hoje [1952] é ainda mais complicado pelo fato de que a Igreja Russa, a Igreja Ortodoxa Oriental, entrou, ao que parece, em algum acordo com os bolcheviques. A luta no Oriente é, em grande medida, uma luta entre a Igreja Oriental e a Igreja Ocidental: a continuação da luta que se originou a mais de mil anos atrás entre as duas igrejas. Por isso, os conflitos nestes países, entre a Rússia e as fronteiras ocidentais da cortina de ferro, são muito complicados. Não é apenas uma luta contra métodos de totalitarismo econômico pela liberdade econômica; também é uma luta de várias nacionalidades, de diferentes grupos linguísticos. Consideremos, por exemplo, as tentativas do atual governo russo tornar as diferentes nacionalidades bálticas em russas — uma continuação de algo que havia sido iniciado pelos Czares — e as lutas na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, etc., contra as tentativas da Igreja Russa para trazê-los de volta, como eles costumam dizer, ao credo Oriental. Para compreender todas estas lutas é preciso ter uma familiaridade especial com estas nacionalidades e com as histórias religiosas destas partes do mundo.

Nos séculos XVI e XVII, houve mudanças que ampliaram a dimensão do território em que a supremacia do Papa era reconhecida. Portanto, existia uma Igreja Russa, a Igreja Ortodoxa, e uma Igreja Católica Ucraniana ou Russa, que reconheceram a supremacia do Papa. Todas estas coisas juntas constituíram as grandes lutas religiosas do Oriente. No entanto, é preciso não confundir os eventos que aconteciam nestas lutas nacionalistas e religiosas com a luta contra o comunismo. Por exemplo, os políticos que lutam contra os Russos hoje não estão, ou pelo menos na maioria dos casos, lutando em favor de um sistema econômico livre. Eles são marxistas, socialistas. Eles provavelmente gostariam de ter um Estado policial totalitário, mas eles não querem que esse estado seja governado pelos Russos.

Deste ponto de vista, não se pode dizer que existe uma real oposição aos ensinamentos sociais e aos programas sociais do marxismo. Por outro lado, é importante perceber que não existe sempre e necessariamente uma ligação entre o anti-marxismo, uma filosofia ideológica, e a liberdade econômica.

Um dos notáveis contemporâneos de Karl Marx na Alemanha foi um filósofo, Albert Friedrich Lange [1828-1875]. Ele escreveu um famoso livro, A História do Marxismo, considerado por muitos anos, não só na Alemanha, mas também em países de língua inglesa, uma das melhores introduções à filosofia. Lange era socialista; ele escreveu outro livro sobre socialismo. Em seu livro ele não criticou Marx, mas o materialismo. O materialismo marxista é um materialismo muito imperfeito. Ele descreve todas as alterações anteriores em apenas algo que já é, por si só, produto da mente humana. [Nota do Tradutor: Sobre o assunto ver o Capítulo I – Mente, Materialismo e o Destino do Homem]

É importante salientar o fato de que as críticas ao marxismo eram muitas vezes incorretas. Quero apenas apontar um exemplo típico. É a propensão popular dos anti-marxistas considerarem o materialismo dialético e o marxismo como algo pertencente ao mesmo grupo de ideias da psicanálise freudiana. Eu não sou psicólogo, mas tenho que mostrar como as pessoas se confundem ao acreditar que o materialismo, em geral, e o materialismo marxista, em particular, têm alguma ligação com a psicanálise freudiana.

Antes de Sigmund Freud [1856-1939] e Josef Breuer [1842-1925], que estrearam todo este modo de pensar, começarem a desenvolver as suas doutrinas a suposição de que as deficiências mentais eram causadas por alterações patológicas no corpo humano era geralmente incontestada entre todos os médicos. Se um homem tinha algo que fosse chamado de uma doença mental ou nervosa, eles buscariam por fatores corporais que o deixaram neste estado. Do ponto de vista do médico, que lida com o corpo humano, esta é a única interpretação possível. Porém, às vezes eles estavam absolutamente corretos quando eles diziam: “Nós não sabemos a causa.” O único método era procurar uma causa física. Poderia citar muitos exemplos. Quero citar apenas um. Isto aconteceu em 1889, poucos anos antes do primeiro livro de Freud e Breuer ser publicado. Um homem famoso cometeu suicídio na França. Por razões políticas e por causa de sua religião, foi levantada a questão se ele era ou não mentalmente equilibrado. Sua família queria provar que era uma doença mental. A fim de provar sua doença mental para a Igreja, eles tinham que descobrir alguma causa física. Houve uma autópsia por eminentes médicos, e o relatório foi publicado. “Nós descobrimos determinadas coisas no cérebro”, eles disseram, “há algo que não é regular.”

Naquele tempo, as pessoas pensavam que se um homem não se comportasse como as outras pessoas e não tivesse qualquer sinal de anormalidade física no seu corpo, ele estava fingindo. Às vezes isso é lamentável, porque só podemos saber se uma pessoa está ou não fingindo depois que ela está morta. A este respeito, a psicanálise foi responsável por uma grande mudança. O caso do Príncipe Rudolf da Áustria [1858-1889], que cometeu suicídio em Mayerling, levantou questões semelhantes.[4]

O primeiro caso famoso foi o de uma mulher que estava paralítica. Nada ainda poderia ser descoberto em seu corpo para explicar a sua situação. O caso foi descrito por um homem que seguiu o conselho de um poeta latino: espere nove anos com o seu manuscrito antes de publicá-lo. Breuer teve a ideia de que a origem desta deficiência corporal não era física, mas que isso estava na mente. Essa foi uma mudança radical no campo das ciências naturais; uma coisa dessas nunca havia acontecido antes — uma descoberta de que fatores mentais, ideias, superstições, fábulas, ideias erradas, o que um homem pensa, o que ele acredita, pode provocar mudanças no corpo. Isto era algo que todas as ciências naturais tinham negado e contestado antes.

Freud era um homem muito consciente e prudente. Ele não disse, “Eu desacreditei totalmente as velhas doutrinas.” Ele disse: “Talvez um dia, depois de muito tempo, os médicos que estudam patologias irão descobrir que as ideias são o produto de algum fator corpóreo físico externo. Então a psicanálise deixará de ser necessária ou útil. Mas, por enquanto, você tem que admitir pelo menos que existe um valor temporário na descoberta de Breuer e na minha e que, do ponto de vista da ciência dos dias de hoje, não há nada que confirma a tese materialista de que todas as ideias ou cada pensamento é o produto de algum fator externo, assim como a urina é um produto do corpo.” Psicanálise é o oposto do materialismo; é a única contribuição para o problema do materialismo versus idealismo que veio de uma investigação empírica do corpo humano.

Temos de lidar com as formas de abuso que algumas pessoas fizeram da psicanálise. Eu não defendo os psicanalistas que tentam explicar tudo a partir do ponto de vista de determinadas impulsos, entre os quais o impulso sexual é considerado o mais importante. Existia um livro de um francês tratando sobre Baudelaire [Charles Baudelaire, 1821-1867]. Baudelaire gostava de gastar dinheiro, mas ele não ganhou dinheiro porque os editores não compraram seus poemas enquanto ele viveu. Mas sua mãe tinha dinheiro; ela tinha casado por dinheiro, seu marido morreu e deixou tudo para ela. Baudelaire escreveu para sua mãe um monte de cartas. Este escritor encontrou todo tipo de explicações subconscientes para suas cartas. Não defendo essa tentativa. Mas suas cartas não precisam de mais explicações do que: Baudelaire queria dinheiro.

Freud disse que ele não sabia nada sobre socialismo. Neste aspecto ele foi muito diferente de Einstein [1879-1955], que disse: “Eu não sei nada sobre economia, mas o socialismo é muito bom.”

Se observarmos como o marxismo se tornou a principal filosofia de nossa época, nós temos que mencionar o Positivismo e a escola de Auguste Comte. Comte era um socialista semelhante a Karl Marx. Em sua juventude, Auguste Comte tinha sido o secretário de Saint-Simon. Saint-Simon era um totalitário que queria dominar todo o mundo através de um conselho mundial e, obviamente, ele acreditou que ele seria o presidente deste conselho mundial. Segundo a ideia de Comte sobre a história do mundo, era necessário buscar pela verdade no passado. “Mas agora, eu, Auguste Comte, descobri a verdade. Portanto, já não há qualquer necessidade de liberdade de pensamento ou liberdade de imprensa. Eu gostaria de governar e de organizar todo o país.”

É muito interessante seguir a origem de alguns termos que são hoje tão familiares que nós presumimos que ele deve ter sido assim na língua desde os tempos imemoriais. Em francês, as palavras “organizar” e “organizador” não eram conhecidas antes do final do século XVIII ou do início do século XIX. No que se refere a este termo, “organizar”, observou Balzac[5], “este é um novo termo da moda Napoleônica. Isto significa que você sozinho é o ditador e você lida com o indivíduo como o construtor trabalha com pedras.”

Outro novo termo, “engenharia social”, lida com a estrutura social. O engenheiro social trabalha com a estrutura social ou com o seu próximo como o mestre construtor lida com seus tijolos. Raciocinando desta forma, os bolcheviques eliminaram aqueles indivíduos que eram inúteis. No conceito de “engenharia social” você tem a ideia de planejamento, a ideia do socialismo. Hoje temos muitos nomes para o socialismo. Se uma coisa é popular, então o idioma tem muitas expressões para ele. Estes planejadores dizem em defesa de suas ideias que você deve planejar as coisas; você não pode deixar as coisas agirem “automaticamente”.

Às vezes, “automaticamente” é uma metáfora usada no sentido de significar as coisas que acontecem no mercado. Se o fornecimento de um produto diminui, eles dizem que os preços sobem “automaticamente.” Mas isso não significa que isso seja feito sem a consciência humana, sem algumas pessoas ofertando e oferecendo. Os preços sobem, precisamente porque as pessoas estão ansiosas para adquirir essas coisas. Nada acontece no sistema econômico “automaticamente.” Tudo acontece porque algumas pessoas comportam-se de uma forma definida.

Também os planejadores dizem: “Como você pode ser tão estúpido para defender a falta de planejamento?” Mas ninguém defende a ausência de plano. A questão não é “Planejar, ou não planejar.” A questão é “Plano de quem? O plano de apenas um ditador? Ou o plano de muitas pessoas?” Todos planejam. Planejamos ir ao trabalho, ir para casa, ler um livro; planejamos mil outras coisas. Um “grande” plano elimina os planos de todo os outros; então somente um plano pode ser supremo. Se o “grande” plano e os planos dos indivíduos entram em conflito, qual plano deve ser supremo? Quem decide? A polícia decide!

E eles decidem em favor da “grande” plano.

Nos início do socialismo, alguns críticos culpavam os socialistas por sua ignorância da natureza humana. Um homem que tem de executar o plano de alguém deixaria de ser um homem do tipo que chamamos humano. Esta objeção foi respondida pelos socialistas que disseram: “Se a natureza humana é contra o socialismo, então a natureza humana terá de ser mudada.” Karl Kautsky afirmou isto muitos anos atrás, mas ele não deu quaisquer detalhes.

Os detalhes foram fornecidos pelo Behaviorismo e por [Ivan] Pavlov [1849-1936], o psicólogo mencionado em qualquer livro por marxistas. A explicação foi oferecida pelo reflexo condicionado de Pavlov. Pavlov foi um czarista, ele fez seus experimentos, nos dias do Czar. Em vez de direitos humanos, o cachorro de Pavlov tinha direitos caninos. Este é o futuro da educação.

A filosofia behaviorista pretende lidar com seres humanos como se não existissem ideias ou falhas nos homens. O Behaviorismo considera cada ação humana como uma reação a um estímulo. Tudo na natureza física e fisiológica responde a alguns reflexos. Eles dizem, “o homem pertence ao mesmo domínio dos animais. Porque ele deve ser diferente? Há certos e determinados reflexos e certos instintos que guiam os homens para certos fins. Certos estímulos provocam certas reações.”

O que os Behavioristas e os Marxistas não enxergaram foi que você não pode sequer desacreditar esta teoria dos estímulos sem entrar no sentido que o indivíduo atribui a esses estímulos. A dona de casa, quando calcula o preço de um objeto que ela está considerando comprar, reage de maneira diferente a US $5 do que a US $6. Você não pode determinar o estímulo sem entrar no significado. E o significado em si é uma ideia.

A abordagem Behaviorista diz: “Nós vamos condicionar a outras pessoas.” Mas quem são o “nós”? E quem são as “outras pessoas”? “Hoje”, dizem eles, “as pessoas estão condicionadas para o capitalismo por muitas coisas, pela história, pelas boas pessoas, por más pessoas, pela igreja, etc., etc.”

Esta filosofia não nos dá qualquer resposta diferente da resposta que nós já vimos. A ideia geral desta filosofia é que temos de aceitar o que Karl Marx disse-nos, porque ele tinha o grande dom, ele foi certificado pela Providência, pelas forças produtivas materiais, com a descoberta da lei da evolução histórica. Ele sabe o fim para o qual a história conduz a humanidade. Isto conduz finalmente ao ponto onde nós temos que aceitar a ideia de que o partido, o grupo, a facção exclusiva que derrotou os outros pela força das armas é o governante certo, [temos que aceitar] que ele é chamado pelas forças produtivas materiais para “condicionar” todas as outras pessoas. A coisa fantástica é que a escola que desenvolve esta filosofia [nos EUA] se chama “liberal” e denomina seu sistema “democracia popular”, “democracia real”, e assim por diante. Também é fantástico que o vice-presidente dos Estados Unidos [Henry Wallace, 1888-1965] um dia declarou, “nós nos Estados Unidos temos apenas uma democracia dos direitos civis – mas na Rússia há democracia econômica.”

Houve um autor socialista, altamente valorizado pelos bolcheviques no início, que afirmou que o homem mais poderoso do mundo é o homem sobre o qual as maiores mentiras são contadas e acreditadas. (Algo parecido foi dito por Adolf Hitler.) Aqui está o poder desta filosofia. Os russos têm o poder para dizer, “Nós somos uma democracia e nosso povo está feliz e desfruta de uma vida plena em nosso sistema”. E as outras nações parecem ser incapazes de encontrar a resposta certa para esta ideia. Se tivessem encontrado a resposta certa, essa filosofia não seria tão popular.

Há pessoas que vivem aqui nos Estados Unidos, no padrão de vida americano, que acham que são infelizes porque não vivem na Rússia Soviética, onde, dizem, existe uma sociedade sem classes e tudo é melhor do que é aqui. Mas parece que não é muito divertido viver na Rússia, não só do ponto de vista material, mas do ponto de vista da liberdade individual. Se você perguntar, “Como é possível as pessoas dizerem que tudo é maravilhoso em um país, Rússia, em que provavelmente tudo não é muito maravilhoso”, então temos de responder, “Porque as nossas últimas três gerações foram incapazes de provar a falsidade, as contradições e os fracassos desta filosofia do materialismo dialético”.

A maior filosofia no mundo hoje é o materialismo dialético — a ideia de que é inevitável que nós estamos sendo levados para o socialismo. Os livros que foram escritos até agora não tiveram sucesso em se opor a esta tese. Vocês têm que escrever livros novos. Vocês têm que pensar nestes problemas. São as ideias que distinguem os homens dos animais. Esta é a qualidade humana do homem. Mas de acordo com as ideias dos socialistas a oportunidade de ter ideias deve ser reservada somente para o Politburo; todas as outras pessoas só devem executar aquilo que o Politburo lhes diz para fazer.

É impossível derrotar uma filosofia se você não luta no campo filosófico. Uma das grandes deficiências do pensamento americano – e a América é o país mais importante do mundo porque é aqui, não em Moscou, que este problema será solucionado – a grande deficiência, é que as pessoas pensam que todas estas filosofias e tudo o que está escrito nos livros é de menor importância, que não contam. Assim, eles subestimam a importância e o poder das ideias. Mas não há nada mais importante no mundo do que ideias. Ideias e nada mais determinam o desfecho desta grande luta. É um grande erro acreditar que o resultado da batalha será determinado por outras coisas que não sejam ideias.

Marxistas russos, como todos os outros marxistas, tiveram a ideia de que eles queriam nacionalizar agricultura. Quer dizer, os teóricos queriam – o trabalhador individual não quis nacionalizar as fazendas; eles queriam tomar as grandes fazendas, dividi-las, e distribuir a terra entre os pequenos agricultores. Isto foi chamado de “reforma agrária”. Os revolucionários sociais pretendiam entregar as fazendas para os camponeses pobres. Em 1917, Lênin cunhou um novo slogan, “Você faz a revolução com o slogan do dia.” Portanto, eles aceitaram algo que era contra o marxismo. Depois eles começaram a nacionalização das terras agrícolas. Então eles adaptaram esta ideia nos novos países que assumiram; disseram a todos homens que eles iriam receber a sua própria fazenda.

Começaram este programa na China. Na China eles tomaram as grandes fazendas e aboliram os direitos dos bancos de crédito hipotecário e senhorios. Também liberaram os inquilinos de efetuar qualquer pagamento aos proprietários. Portanto, não foi a filosofia que tornou os camponeses chineses comunistas, mas a promessa de uma vida melhor, as pessoas pensaram que iriam melhorar suas condições se eles pudessem obter alguns terrenos agrícolas até então sob propriedade das pessoas abastadas. Mas esta não é a solução para o problema chinês. Os defensores deste programa foram chamados de reformadores agrícolas; eles não eram marxistas. A ideia de distribuição de terra é totalmente não-marxista.

Nota do tradutor: Segundo “O Livro Negro do Comunismo”, a reforma agrária chinesa extinguiu de 2 a 5 milhões de vidas, sem contar aqueles que nunca voltaram entre os 4 a 6 milhões enviados aos campos de concentração. Em 1959, Mao propôs o “grande salto para a frente”, que consistiu em reagrupar os chineses em comunas populares, sob pretexto de um acelerado progresso. Resultado: a fome mais mortífera da História da humanidade. Ceifou 43 milhões de vidas.

* * * *

[Comentários adicionais por Mises durante o período de perguntas e respostas]

Maiorias também não são divinas. “A voz do povo é a voz de Deus” é um velho ditado alemão, mas não é verdade. A base da ideia que fala sobre agradar a maioria é que, a longo prazo, a maioria não irá tolerar ser governada por uma minoria; se a maioria não estiver satisfeita, haverá uma revolução violenta para mudar o governo. O sistema de governo representativo, não é radical; ele é precisamente uma forma possível de realizar uma mudança de governo sem violência; muitos pensam que, com a aprovação do povo, eles podem mudar o governo na próxima eleição. A regra da maioria não é um bom sistema, mas é um sistema que assegura condições pacíficas dentro do país. Jornais, revistas, livros, etc., são os formadores de opinião.

O grande avanço da era moderna é que ela levou ao governo representativo. O grande pioneiro desta ideia foi o filósofo britânico David Hume [1711-1776][6], que assinalou que, a longo prazo o governo não é, como as pessoas acreditavam, baseado no poder militar, mas na opinião, na opinião da maioria . É preciso convencer a maioria. Não é porque a maioria tem sempre razão. Pelo contrário, eu diria que a maioria está muito frequentemente errada. Mas se você não quiser recorrer a uma derrubada violenta do governo, e isso é impossível, se você é a minoria, porque se você for a minoria eles vão derrubar você, você tem apenas um método: falar com as pessoas, escrever e falar novamente.

Tradução de Wellington Moraes

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Notas

[1] [Eugen von Böhm-Bawerk,”The Exploitation Theory” in Capital and Interest,Vol.1, History and Critique of Interest Theories (South Holland, Ill: Libertarian Press, 1959 [1884]), pp. 241-321, Ed.]

[2] Eugen von Böhm-Bawerk, “The Unresolved Contradiction in the Economic Marxian System” in Shorter Classics of Eugen von Böhm-Bawerk, (South Holland, Ill.: Libertarian Press,1962 [1896;Eng.Trans.1898]),pp.201-302, Ed.]

[3] [Friedrich Engels, “Speech at the Grave of Karl Marx”, Highgate Cemetery, London. March 17, 1883 (a version of this eulogy was published in the newspaper La Justice, March 20, 1883), Ed.]

[4] [Carl Menger, founder of the Austrian School of Economics served as one of Rudolf’s tutors. See Erich W. Streissler and Monika Streissler, eds., Carl Menger’s Lectures to Crown Prince Rudolf of Austria (Brookfield, Vt.: Edward Elgar, 1994). Ed.]

[5] [Honoré de Balzac (1799-1850)]

[6] [David Hume, “Of the First Principles of Government”, Chapter 4,in Eugene F.Miller, ed., Essays, Moral, Political, and Literary, (Indianapolis: Liberty Fund, 1987), Ed.]

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