Gostaria de analisar duas palavras que o estado e seus parasitas empregaram com muito sucesso obtendo aumentos no poder do governo. Uma é racismo. A outra é igualdade.

O que exatamente é “racismo”? Quase nunca ouvimos uma definição. Duvido que alguém realmente saiba o que é. Se não acredita, pergunte a si mesmo por que, se racismo é algo realmente claro e determinado, há esta incessante discordância sobre quais pensamentos e comportamentos são “racistas” e quais não são?

Se pressionada, uma pessoa comum provavelmente definiria racismo nos termos que Murray N. Rothbard definiu antissemitismo, envolvendo ódio e/ou a intenção de usar violência, seja conduzida pelo estado ou de outra forma, contra o grupo desprezado:

Me parece que existem apenas duas definições defensáveis e sustentáveis de antissemitismo: uma, se concentrando no estado mental subjetivo da pessoa, e a outra, “objetivamente”, nas ações que ela desempenha ou as medidas que ela defende. Para a primeira, a melhor definição de antissemitismo é simples e conclusiva: uma pessoa que odeia todos os judeus. . . .

Como, a menos que sejamos um amigo íntimo, ou seu psiquiatra, podemos saber o que está dentro do coração da pessoa? Então, talvez, o foco deveria ser, não no subjetivo estado mental ou emocional da pessoa, mas em uma proposição que possa ser checada pelos observadores que não a conhecem pessoalmente. Neste caso, deveríamos focar no objetivo, ao invés do subjetivo, que são as ações e opiniões da pessoa. Bem, neste caso, a única definição racional de um antissemita seria alguém que defende que desvantagens políticas, legais, econômicas e sociais sejam impostas aos judeus (ou, claro, tenha participado dessas imposições).

Então, o que parece ser razoável é: (1) alguém é racista se ele odeia um grupo racial específico, mas (2) já que não conseguimos ler a mente das pessoas, e já que acusar alguém de odiar todo um grupo de pessoas é uma acusação muito grave, ao invés de tentar ler a mente do suspeito devemos ver se ele defende que desvantagens sejam impostas contra o grupo em questão.

De volta a Rothbard:

Mas dessa forma não estou fazendo a definição de antissemitismo perder o sentido? Claro que não. Na definição subjetiva, pela própria natureza da situação, eu não conheço nenhuma pessoa assim, e duvido que Smear Bund conheça. Na definição objetiva, onde observadores podem obter mais conhecimento, e deixando de lado os evidentes antissemitas do passado, temos nos EUA moderno antissemitas autênticos: grupos como o movimento Christian Identity, ou a Aryan Resistance, ou o autor do romance Turner’s Diaries. Mas estes são grupos marginais, você diria, sem importância q que não valha a pena se preocupar? Sim, companheiro, e este é exatamente o ponto.

Por outro lado, talvez um “racista” seja alguém que acredite que grupos diferentes tendem a ter características comuns, mesmo concordando com o ponto axiomático de que cada indivíduo é único. Mas seja estrutura familiar, uma inclinação ao alcoolismo, uma reputação de trabalhador dedicado, ou uma variedade de outras qualidades, Thomas Sowell reuniu uma vasta quantidade de estudos que mostram que essas características não estão nem perto de serem distribuídas igualmente nas populações.

Os chineses, por exemplo, ficaram conhecidos em países pelo mundo todo por trabalharem muito duro, geralmente sob condições particularmente difíceis. (Na verdade esta é uma das razões porque os sindicatos trabalhistas americanos desprezaram os trabalhadores chineses no século XIX.) Na metade do século XX, a minoria chinesa dominou os mais importantes setores da economia malaia mesmo sendo oficialmente discriminados na constituição malaia, e tinham o dobro do rendimento do malaio médio. Eles eram donos da grande maioria dos moinhos de arroz na Tailândia e nas Filipinas. Eles conduziam mais de 70% do comércio de varejo na Tailândia, Indonésia, Camboja, Filipinas e Malásia.

Podemos contar uma história semelhante sobre os armênios em várias partes do mundo, assim como os judeus e os indianos ocidentais. Americanos-japoneses, uma vez discriminados severamente a ponto de serem confinados em campos durante a Segunda Guerra Mundial, chegaram a se igualar com os brancos em rendimentos no ano de 1959, e ultrapassaram em 1/3 o rendimento dos brancos uma década depois.

Da mesma forma os alemães, cuja reputação e feitos em artesanatos, ciência e tecnologia foram evidentes não apenas na Alemanha, mas também entre alemães nos EUA, Brasil, Austrália, Tchecoslováquia e Chile. Eles tiveram mais fazendas prósperas que os fazendeiros irlandeses na Irlanda do século XVIII, que fazendeiros brasileiros no Brasil, fazendeiros russos na Rússia e fazendeiros chilenos no Chile.

Judeus têm rendimentos maiores que hispânicos nos EUA; isto, nos dizem solenemente, é resultado da “discriminação”. Sério? Como Sowell aponta, então como explicamos por que judeus têm rendimento superiores que hispânicos em países hispânicos?

De acordo com as regras ilógicas em vigor na sociedade Americana, Sowell, sendo negro, tem permissão de discutir estes fenômenos, enquanto o resto de nós é demonizado, tem a carreira destruída e a reputação arruinada se mencionamos qualquer um destes indícios proibidos.

Portanto, para não levantar suspeitas de “racismo”, deve-se evitar riscos pelo menos fingindo acreditar nas seguintes proposições:

– disparidades de rendimentos entre grupos são totalmente ou em grande parte explicáveis pela “discriminação”;

– se uma minoria é “subrepresentada” em uma profissão específica, a causa tem que ser “racismo”;

– se estudantes de alguma minoria são desproporcionalmente castigados na escola, a causa tem que ser “racismo”, mesmo se os próprios professores envolvidos pertençam a mesma minoria;

– se resultados de testes – tanto nas escolas como no setor privado – são diferentes por grupos raciais, é evidência que os testes são culturalmente tendenciosos, mesmo que as questões com as maiores disparidades sejam as com menos conteúdo cultural.

Não é preciso dizer que nenhuma dessas declarações é defensável, mas é preciso acreditar em todas elas. Céticos, logicamente, são “racistas”.

As seguintes opiniões ou proposições foram todas declaradas “racistas” em um momento ou outro,or uma fonte ou outra:

– ação afirmativa é indesejável;

– leis antidiscriminação são uma violação dos direitos de propriedade privada e da liberdade de contrato;

Brown vs. Board of Education foi baseado em falhas de raciocínio;

– a extensão do racismo na sociedade americana é exagerada.

Alguém poderia desenvolver estas declarações sob as mais variadas bases. Porém, já que de acordo com websites esquerdistas bem populares como Daily Kos, ThinkProgress e Media Matters, é “racista” acreditar em qualquer uma delas, não importa quais sejam seus argumentos. Você é um “racista”. Proteste o quanto quiser, mas quanto mais tentar, mais os comissários te difamam e ridicularizam. Você pode fazer parecer que tenha razões logicamente consistentes e moralmente impecáveis para justificar suas opiniões, mas tudo isso não passa de cortina de fumaça para o “racismo”, no que tange aos comissários. A única maneira de satisfaze-los é abandonando suas opiniões (e mesmo assim eles ainda irão por em dúvida sua sinceridade), mesmo que  você não tenha vergonha delas.

Então, acusações de “racismo” quase sempre envolvem tentativas de leitura de mentes – e.g., aquela pessoa alega ser contra leis antidiscriminação por causa de algum tipo de princípio, mas sabemos que é porque ele é um racista.

Ver libertários, que deveriam ter uma maior noção das coisas, embarcando no trem do controle de pensamento, ou fingindo que todo esse tema é sobre a liberdade de ser um imbecil, é extremamente tacanho e lastimável. O estado usa a fraude do “racismo” como justificação para mais crescimento do seu poder sobre a educação, o emprego, a distribuição de riqueza e muitas outras coisas. Enquanto isso, ele silencia os críticos da violência estatal com a palavra mágica e nunca definida “racismo”, uma acusação que o crítico tem que passar o resto da sua vida tentando contestar, apenas para descobrir que os vigaristas raciais não irão retirar a maldição até que ele se humilhe completamente e repudie toda sua filosofia.

Se ele tentar se defender alegando que ele tem grandes amigos que pertencem aquele grupo, ele é acusado de ódio, ele será ainda mais ridicularizado. A seguir Rothbard novamente:

Eu também gostaria de florear um ponto: Por toda a minha vida ouvi anti-antissemitas ridicularizarem gentios que, ao se defenderem de acusações de antissemitismo, protestaram dizendo que “alguns dos meus melhores amigos são judeus”. Esta frase é sempre ridicularizada, como se uma simples ridicularização fosse uma refutação de um argumento. Mas me parece que a ridicularização é normalmente usada aqui precisamente porque o argumento é conclusivo. Se alguns dos melhores amigos do Senhor X são realmente judeus, é absurdo e autocontraditório acusa-lo de ser antissemita. E isso deveria se encerrar ai.

É difícil discordar de Rothbard nessa. Se alguém foi acusado de não gostar de carne, mas pudermos demonstrar que ele gosta muito de hambúrgueres e bolo de carne, isto iria virtualmente destruir a acusação, não?

Não conheço ninguém que odeie grupos inteiros de pessoas , e as que o fazem são uma minoria tão minúscula que suas organizações são formadas por partes iguais de lunáticos e informantes do FBI. Do mesmo modo, não conheço ninguém que defenda o uso de violência oficial contra grupos específicos.

Deveríamos querer tratar as pessoas com justiça e respeito. Qualquer pessoa decente sente que deveria ser assim. Mas como e quando a “igualdade” entrou no jogo, excetuando-se o trivial e óbvio sentido libertário que devemos todos igualmente abster-se de agredir um ao outro?

O que o estado mais gosta é declarar guerra, contra as drogas, ou o terrorismo, ou a pobreza, ou a “desigualdade”. O estado ama a “igualdade” como um princípio organizacional, porque ela nunca pode ser alcançada. E no curso de se tentar, o estado adquire cada vez mais poder sobre cada vez mais práticas e instituições. Qualquer um que questione a premissa da igualdade é açoitado para fora da sociedade “civilizada” – uma bela fraude ela é, e sem dúvida não é um lugar para libertários.

Se é a igualdade material que queremos, ela iria desaparecer no momento que fosse alcançada, assim que as pessoas retomassem seus padrões de gastos normais e os bens e serviços oferecidos por algumas pessoas fossem mais valorizados do que os oferecidos por outras. Se é “igualdade de oportunidades”, então teríamos que abolir a família, como tantos planos socialistas seriamente contemplaram, já que as condições domésticas possuem um grande peso no sucesso dos filhos.

É claro que nos opomos a desigualdade que resulta de privilégios estatais especiais gozados por certas pessoas e grupos. Mas a verdadeira questão aqui não é a desigualdade per se, mas justiça e propriedade privada.

Até mesmo o velho ditado sobre igualdade na visão de Deus não está certo. Erik von Kuehnelt-Leddihn, o tradicional católico e liberal clássico, notou que Judas, que traiu Cristo, não era de nenhuma forma “igual” ao amado discípulo, e que as origens da “igualdade” estavam na ânsia de Lúcifer ser igual a Cristo. Ele acrescentou:

O igualitarismo, na melhor das hipóteses, não passa de hipocrisia; se é aceitada e acreditada de coração, sua ameaça é maior. Deste modo, todas as desigualdades reais parecem sem exceção serem injustas, imorais e intoleráveis. Ódio, infelicidade, tensão, uma inadaptação geral é o resultado. A situação é ainda pior quando esforços brutais são feitos para estabelecer a igualdade através de um processo de nivelamentos artificiais (“engenharia social”) que só pode ser feito através da força, restrições, ou terror, e o resultado é a perda completa da liberdade.

Portanto, se queremos ser livres, temos que evitar o estado, seus métodos, e sua linguagem.

 

Tradução Fernando Chiocca

Artigo original aqui

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