min-guido-mantega_fotor_collage_0A doutrina keynesiana clássica, apesar do seu jargão algébrico e geométrico, é impressionantemente simples em seu âmago: recessões são causadas por uma escassez de gastos (demanda) na economia; e a inflação, por um excesso de gastos.

Dentre as duas principais categorias de gasto, o consumo privado é passivo e determinado, quase que roboticamente, pela renda.  Portanto, a esperança para que haja a quantidade adequada de gastos na economia depende do investimento privado.

Mas os investidores privados, embora ativos, altivos e decididamente não robóticos, são irregulares e volúveis, deixando-se levar por emoções e por flutuações de otimismo — característica essa alcunhada por Keynes de “espírito animal“.

E isso é um problema.

No entanto, para a nossa felicidade geral, existe um outro grupo na economia que, além de ser exatamente tão ativo e decisivo quanto os investidores privados, é também — desde que guiado por economistas keynesianos — científico e racional, capaz de agir pelo interesse de todos: o governo.

Quando os investidores e os consumidores gastam pouco, o governo deve intervir e aumentar o gasto por meio de déficits orçamentários, tirando assim a economia da recessão.  E quando o espírito animal privado ficar muito selvagem, o governo deve interferir e reduzir o gasto privado por meio daquilo que os keynesianos reveladoramente chamam de “absorção do excessivo poder de compra” (o nosso poder de compra, convém frisar) por meio de um aumento de impostos.

O governo, portanto, é a entidade encarregada de fazer os “ajustes finos” na economia com a intenção de fazê-la funcionar a contento.

Adicionalmente, os keynesianos diziam haver um conflito entre inflação e desemprego.  Se o desemprego estivesse baixo, a inflação de preços tenderia a aumentar.  E se o desemprego estivesse alto, a inflação de preços seria baixa.  Inflação alta e desemprego alto seria uma impossibilidade prática.

Sendo assim, se o desemprego ficasse muito alto em decorrência de um crescimento econômico lento, a solução preconizada era simples: o governo deveria aumentar seus gastos, diminuir os juros e estimular o crédito e o endividamento.

Se o desemprego, por outro lado, ficasse muito baixo durante a recuperação econômica — levando a um “supereaquecimento” da economia —, a solução seria o governo elevar os impostos (para absorver o “excesso de poder de compra da população”).  E também restringir — só um pouco — o crédito (mas muito menos ênfase é dada a esse mecanismo).

Em termos teóricos, os keynesianos poderiam muito bem defender que é o governo quem deve cortar seus gastos durante um boom inflacionário, e não as pessoas. Mas a idéia de reduzir o orçamento do governo (fazer cortes mesmo, e não reduções no ritmo de crescimento do gasto) sempre foi anátema para eles.

Originalmente, os keynesianos juravam que eles também eram tão a favor de um “orçamento equilibrado” quanto os antiquados reacionários que se opunham a eles.  Mas a única e insignificante diferença, diziam eles, é que, ao contrário dos antiquados reacionários, eles não se prendiam a um período da contabilidade que durava apenas um ano.  Sim, eles também iriam equilibrar o orçamento, mas isso aconteceria ao longo de um período de tempo maior, geralmente o tempo de um ciclo econômico.

Assim, se a um período de quatro anos de recessão se seguir um período de quatro anos de crescimento, os déficits do governo durante a recessão seriam compensados pelos superávits acumulados durante o crescimento; ao longo dos oito anos do ciclo, tudo estaria equilibrado.

Evidentemente, o “orçamento ciclicamente equilibrado” foi o primeiro conceito keynesiano a ir para o buraco da memória orwelliano, pois ficou claro que não iria jamais haver qualquer superávit — apenas déficits menores ou maiores. Daí, então, surgiu uma sutil, porém importante correção no modelo keynesiano: déficits maiores durante as recessões, e déficits menores durante as expansões.

A morte da teoria

A promessa dos keynesianos era a de que, enquanto eles estivessem no comando, as bênçãos da macroeconomia moderna iriam garantidamente nos levar a uma permanente prosperidade — e, melhor ainda — sem inflação.

Todo esse modelo keynesiano funcionou razoavelmente bem — principalmente no quesito da baixa inflação — enquanto o mundo ainda usufruía os resquícios do padrão-ouro, que de fato restringia os governos e os obrigava a manter um orçamento relativamente equilibrado.

No entanto, em 1971, ocorreu a abolição completa e definitiva do que restava do padrão-ouro.  As moedas foram finalmente desvencilhadas de qualquer relação com o ouro físico, podendo então flutuar como uma pipa presa a uma linha — ou talvez sem a linha.  Esse supostamente era o ideal keynesiano.  Nada de restrições à moeda.  Nada de apegos à relíquia bárbara.  Nada de limitações àquilo que os planejadores científicos do governo poderiam fazer.  Agora eles poderiam fazer o que fosse necessário para promover a combinação socialmente ótima de inflação e desemprego.  Nirvana!

E foi aí que o milagre keynesiano desandou.  Surgiu algo no caminho que levava ao Éden: a poderosa recessão inflacionária de 1973-1974, algo que a teoria keynesiana dizia ser impossível de acontecer.  Pior ainda: essa recessão inflacionária foi seguida por outra ainda mais intensa, uma verdadeira depressão inflacionária, que durou de 1979 a 1982.

Esse curioso fenômeno de inflação em alta ocorrendo simultaneamente a uma aguda recessão simplesmente não poderia ocorrer, de acordo com a visão keynesiana do mundo. Tais eventos não constavam no manual keynesiano.

Os economistas keynesianos afirmavam que ou a economia deveria apresentar uma expansão, sendo que nesse caso os preços estariam subindo, ou a economia deveria apresentar uma recessão com grande desemprego, sendo que nesse caso os preços estariam caindo.  Durante o período da expansão econômica, o governo keynesiano deveria “enxugar o excessivo poder de compra”, elevando impostos — de acordo com a teoria keynesiana, isso reduziria os gastos da economia.  Por outro lado, durante uma recessão, o governo deveria aumentar seus gastos e seu déficit orçamentário, com o intuito de estimular o nível de gastos da economia.

Mas e se a economia apresentasse ao mesmo tempo inflação e recessão com alto desemprego, o que o governo deveria fazer?  Se o governo deve pisar no acelerador dos gastos durante as recessões e no freio durante as expansões, o que ele deve fazer se houver uma aguda recessão (com desemprego e falências) e uma vigorosa inflação ao mesmo tempo?  Como poderia ele pisar no acelerador e no freio da economia ao mesmo tempo?

A resposta, obviamente, é que o governo e suas autoridades políticas e econômicas não poderiam fazer tal coisa.  Ao constatarem isso, o pânico se alastrou entre os economistas keynesianos.

A inegável ocorrência de recessões inflacionárias [como a que vivenciamos atualmente no Brasil] viola os pressupostos fundamentais da teoria keynesiana, acabando assim com seu crucial programa político. Desde 1973-74, o keynesianismo está intelectualmente acabado; tornou-se uma teoria obtusa.

O problema é que o cadáver se recusa a deitar, principalmente um que é composto por uma elite que teria de abrir mão de seus poderosos cargos no meio acadêmico e no governo. Uma regra crucial da política ou da sociologia é: ninguém jamais deve renunciar aos seus postos. E assim, os keynesianos se agarraram aos seus poderosos cargos o mais firme possível, dali jamais saindo.

Para sobreviver à débâcle da década de 1970, o keynesianismo foi desmembrado em novas correntes — os keynesianos clássicos, os neo-keynesianos e os pós-keynesianos —, cada uma acusando a outra de ter deturpado Keynes.

(Os pós-keynesianos se autoproclamam os verdadeiros keynesianos.  Consideram os keynesianos clássicos muito pueris e os neo-keynesianos muito ignorantes e “chicaguistas” demais.  Apenas eles, os pós-keynesianos, realmente leram e entenderam Keynes — ou é o que eles próprios dizem).

Contendas teóricas à parte, o fato é que o keynesianismo jamais foi abandonado.  Ele apenas se reinventou.  Na prática, desde a década de 1970, varia apenas a intensidade de sua aplicação.  Há apenas aplicações mais brandas, há aplicações mais agressivas, e há aplicações mais extremas (como a que foi feita no Brasil por meio da Nova Matriz Econômica).

Normalmente, um período de políticas mais moderadas é seguido por um período de políticas mais agressivas, o que gera crises e, consequentemente, a necessidade de um retorno às políticas mais moderadas, reiniciando o ciclo.

Assim, embora o paradigma keynesiano venha fracassando fragorosamente desde a década de 1970, quem no governo está disposto a assumir a responsabilidade por seus recorrentes fracassos?  Ninguém.  Autoridades econômicas, sempre e em todo lugar, são completamente avessas a admitir culpa por qualquer coisa. Certamente a culpa pelo descalabro do momento não é nem da política monetária, nem da política fiscal, e nem de nenhuma política do governo, mas sim de “fatores externos”.

Por que o keynesianismo perdura

O keynesianismo é a teoria econômica favorita dos políticos simplesmente porque ela lhes concede um passe livre para fazer tudo aquilo que eles mais gostam de fazer: gastar dinheiro.

O keynesianismo diz que os gastos do governo impulsionam a economia; que expandir o crédito (melhor ainda se for subsidiado) gera crescimento econômico; que os déficits do governo são a cura para uma economia em recessão; que inchar a máquina estatal, dando emprego para burocratas, é uma medida válida contra o desemprego (quem irá pagar?); que regulamentações, se feitas por keynesianos, são propícias a estimular o espírito animal dos empreendedores.  E, obviamente, que austeridade é péssimo.

Qual político resiste a isso?

Conhecendo-se a volúpia do ser humano por poder e controle sobre a vida alheia, seria genuinamente um milagre caso tais idéias não prevalecessem no mundo atual.  E é por isso que os intelectuais acadêmicos, sempre ávidos por agradar o regime (e sempre de olho em cargos públicos), irão defender essa teoria.

No que mais, se você investiu toda a sua vida e toda a sua carreira acadêmica ou profissional defendendo teorias keynesianas, ou se a sua fé no estado é aquilo que dá sentido à sua vida, divorciar-se da economia keynesiana seria um choque e tanto.

Essencialmente, portanto, desprovido de seu fundamento intelectual, o keynesianismo tornou-se pura e simplesmente a economia do poder, comprometida apenas em manter o establishment funcionando, em fazer ajustes marginais e em mimar ternamente a máquina governamental até a próxima eleição na esperança de que, ao ficar mexendo nos controles, alternando rapidamente entre o acelerador e o freio, alguma coisa vai funcionar — pelo menos o suficiente para preservar suas confortáveis posições por mais alguns anos.

Conclusão

Dentre os keynesianos atuais, pode-se perceber a prevalência de algumas características que da teoria original que simplesmente se recusam a morrer não obstante seus comprovados fracassos empíricos: (1) uma predileção por déficits governamentais contínuos, (2) uma devoção à ideia de que um pouco mais de inflação gera um pouco mais de crescimento econômico, (3) fidelidade a um aumento constante dos gastos do governo, e (4) uma afeição eterna pelo aumento de impostos como meio de diminuir timidamente os déficits e, sobretudo, como meio de infligir um saudável castigo na população gananciosa, egoísta e imediatista.

Como consequência, os déficits estão cada vez maiores e aparentam ser eternos.

Pior, formou-se um padrão de competição: os economistas de qualquer que seja o governo do momento estão sempre se esforçando para superar o keynesianismo dos seus antecessores, sendo que o maior desafio é arrumar desculpas cada vez mais engenhosas para os déficits exorbitantes.

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Lew Rockwell, chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.

Leandro Roque, editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

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