A crescente popularidade de políticos da esquerda que se identificam explicitamente como socialistas ou, pelo menos, não se esquivam ou rejeitam o termo, parece estar causando genuína preocupação no establishment.
Isso, claro, é totalmente justificável. O socialismo é profundamente injusto e destrutivo.
Hoje em dia, os socialistas gostam de apresentar toda a sua ideologia como se ela não fosse nada além do que ter um pouco de empatia pelos mais necessitados ou um interesse em ver todos “terem” acesso a serviços como a saúde moderna.
Mas, se você investigar mais a fundo ou fizer algumas perguntas adicionais, a verdade acabará vindo à tona. O que os socialistas realmente querem é um aumento massivo do intervencionismo governamental, que politizaria quase todos os aspectos da vida e esvaziaria os componentes produtivos restantes da economia em uma batalha de lobby de soma zero para reivindicar parte dos recursos cada vez menores de um governo federal muito maior, mais poderoso e ávido por impostos.
Qualquer passo em direção ao socialismo precisa ser vigorosamente combatido por todos que se preocupam com os direitos e o bem-estar material das pessoas comuns.
No entanto, a preocupação que vemos por parte do establishment neoliberal e neoconservador é frustrante. Isso porque a ordem política que eles construíram e preservaram ao longo do último meio século tornou a crescente popularidade desse tipo de “socialismo democrático” praticamente inevitável.
Acadêmicos como Gabriel Kolko, Murray Rothbard e Patrick Newman escreveram extensivamente sobre como o poderoso governo federal centralizado sob o qual vivemos hoje teve origem na chamada Era Progressista, no final do século XIX e início do século XX. E, importante ressaltar, não foram reformadores populares que impulsionaram o crescimento do governo federal na época, mas sim interesses empresariais influentes.
A narrativa que muitos de nós aprendemos na escola — de que autoridades governamentais, a contragosto, teriam assumido mais poder sobre a economia na virada do século para apaziguar um público que exigia o fim do capitalismo laissez-faire — não passa de um mito de origem conveniente para justificar o que sempre foi um esquema de uso do poder estatal para redistribuir riqueza da população em geral para uma pequena casta de famílias e empresas bem relacionadas.
Como quase toda a história da humanidade deixa claro, esse tipo de esquema redistributivo baseado em nepotismo e poder estatal tende a ser bastante instável.
Isso ocorre, em parte, porque as pessoas geralmente não ficam nada satisfeitas quando começa a ficar claro que o governo está transferindo parte de sua riqueza para indivíduos já muito mais ricos — o que obriga os formadores de opinião da classe política a correrem constantemente atrás de novas formas de justificar as políticas que compõem esse esquema.
Mas, além disso, o governo, ao manipular os mercados de crédito para beneficiar certos setores ou ao lançar guerras desnecessárias para enriquecer empresas de armamento e fortalecer líderes estrangeiros com fortes lobbies, mergulhou o país em diversas crises econômicas e geopolíticas.
Até agora, a classe política tem feito um trabalho notável ao usar essas crises para expandir e acelerar enormemente seus esquemas redistributivos de enriquecimento próprio. Mas cada crise é única. Situações diferentes exigem respostas diferentes.
O que nos leva à ascensão do que é frequentemente chamado de “Consenso de Washington” neoliberal.
A notória adesão do establishment político ao neoliberalismo na década de 1980 foi, principalmente, uma resposta aos eventos da década de 1970. Durante grande parte dessa década, o país foi forçado a suportar um período prolongado de alta inflação, causada pela extensa impressão de dinheiro pelo Banco Central nos anos 60 e início dos anos 70 para ajudar a financiar a Guerra do Vietnã e os programas da Grande Sociedade de Johnson. Esse caos econômico foi então intensificado pelo colapso do sistema de Bretton Woods, pelos choques do petróleo da OPEP e pelos controles de preços e salários de Nixon.
Como vimos nos últimos anos, a inflação por si só é mais do que suficiente para gerar uma forte demanda pública por mudanças políticas. Mas, na década de 1970, a expansão do crédito anterior, combinada com a persistente relutância do governo em permitir que a economia se corrigisse, também resultou em uma economia estagnada. E essa combinação de alta inflação e crescimento econômico estagnado, ou “estagflação”, como ficou conhecida, era considerada economicamente impossível pelos economistas keynesianos.
Assim, a alta inflação, o baixo crescimento econômico e o colapso em tempo real do keynesianismo — a escola de pensamento que a classe política vinha usando para justificar seu intervencionismo econômico — significavam que a mudança estava a caminho. Além disso, em meados e no final da década de 1970, o chamado movimento da Nova Esquerda, que havia começado como protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã na década de 1960, havia degenerado em uma mistura extremamente perturbadora de uso letárgico de drogas e terrorismo declarado.
Nesse vácuo surgiu Milton Friedman.
O economista nerd, espirituoso e de terno impecável era o contraponto perfeito para a extrema esquerda radical e transgressora das convenções, da qual grande parte do país já estava cansada. A capacidade de Friedman de desmantelar os argumentos econômicos da esquerda de forma rápida, completa e educada, com um humor cativante, o tornou uma estrela nos programas de entrevistas da época. E, ao contrário dos keynesianos, o monetarismo de Friedman parecia justificado pela estagflação.
Graças, em grande parte, a Friedman, os neoliberais se apoderaram da cultura a ponto de levar o governo Carter, de tendência esquerdista, a desregulamentar muitos setores da economia, incluindo as indústrias ferroviária, aérea e de transporte rodoviário.
E então, é claro, veio Ronald Reagan.
Juntamente com Friedman e seus colegas economistas da Escola de Chicago, e líderes estrangeiros como Margaret Thatcher, Ronald Reagan e seus sucessores políticos supostamente reverteram todas as reformas feitas desde a Era Progressista, inaugurando uma era de “fundamentalismo de mercado”, ou capitalismo desenfreado. Eles ajudaram a criar o moderno “Consenso de Washington”, segundo o qual o governo não deveria interferir na economia, consenso esse que, segundo nos dizem, só agora — quatro décadas depois — começa a sofrer alguma pressão de figuras como Bernie Sanders e Donald Trump.
Pelo menos, essa é a narrativa que tanto os neoliberais quanto seus oponentes adotaram. Mas ela é uma mentira.
A ascensão do neoliberalismo nas décadas de 1970 e 80 foi, sem dúvida, uma verdadeira mudança ideológica. Os friedmanianos de fato passaram a dominar a disciplina econômica e a cultura política de maneira muito semelhante à que os keynesianos haviam feito décadas antes.
No entanto, a implementação efetiva dessas ideias de livre mercado esteve longe de corresponder ao que a narrativa do establishment queria nos fazer acreditar.
Praticamente toda a desregulamentação ocorrida durante a presidência de Reagan já havia sido aprovada durante o governo Carter. O fato de as mudanças terem sido implementadas gradualmente durante o governo Reagan criou a impressão de que o novo presidente estava desregulamentando a economia. Na verdade, ele não estava fazendo nada disso.
O mesmo vale para os cortes de impostos. Como explicou Murray Rothbard, os tão celebrados cortes de impostos da era Reagan, aprovados em 1981, foram mais do que compensados por aumentos de impostos ocorridos naquele mesmo ano. O governo passou, então, anos elevando ainda mais os impostos sob o pretexto de “eliminar brechas fiscais”.
E tudo isso foi necessário para ajudar a financiar o aumento maciço dos gastos governamentais que ocorreu durante os anos Reagan. A chamada revolução Reagan foi, na verdade, parafraseando Rothbard, uma aceleração da intervenção estatal, implementada sob o disfarce da retórica do livre mercado.
Houve, no entanto, uma área em que os friedmanianos viram suas recomendações políticas implementadas de forma genuína e duradoura: a política monetária.
Infelizmente, quando se trata de política monetária, os friedmanianos abandonam completamente seu apoio aos mercados e, em vez disso, defendem o planejamento centralizado pelo governo. Esses novos economistas neoliberais, aprovados pelo establishment, acreditavam não apenas em um sistema monetário fiduciário controlado inteiramente por um banco central estatal, mas também em um banco central altamente ativo e inflacionário.
O próprio Friedman chegou a escrever um livro famoso com Anna Schwartz, no qual utilizou métodos econométricos questionáveis para argumentar que a Grande Depressão ocorreu porque o Federal Reserve não havia impresso dinheiro suficiente.
Como era de se esperar, a classe política estava muito mais disposta a implementar um programa friedmaniano que lhes desse mais poder sobre a economia, em vez de menos. E foi assim, no âmbito da política monetária, que ocorreram as maiores expansões tanto do poder estatal quanto dos esquemas de corrupção para os quais ele é utilizado, sob o novo paradigma neoliberal.
Primeiro, o Fed foi pressionado a imprimir dinheiro para ajudar a financiar a política externa intervencionista do Partido Republicano do pós-1980. E, na sequência — especialmente sob a presidência do falecido Alan Greenspan —, o banco central passou a sustentar diretamente o setor financeiro.
A evolução de Wall Street, de uma das muitas opções de investimento das poupanças para ser essencialmente o centro nevrálgico de toda a economia, não foi o resultado de uma mudança natural nas preferências dos poupadores; foi a consequência da política governamental. Especificamente, o banco central sob Greenspan ajudou a sustentar Wall Street com uma oferta constante de dinheiro fácil e crédito barato para impulsionar artificialmente o setor, juntamente com extensos resgates para estas empresas sempre que os bons tempos acabavam.
Isso representou, na prática, uma grande escalada nos tipos de esquemas de nepotismo que o governo federal vinha realizando desde a Era Progressista — todos justificados pela apologia monetarista de Friedman à impressão de dinheiro pelo governo.
E isso nos leva ao cerne da questão. A revolução neoliberal de Friedman, liderada por Reagan, não acabou com o intervencionismo econômico, apenas o reformulou. E a economia financeirizada era essa nova versão. Enriquecer em Wall Street tornou-se o ápice do capitalismo. A alta do mercado de ações passou a ser o novo indicador de força econômica. E a impressão de dinheiro pelo banco central tornou-se a força vital da economia.
Nas décadas que se seguiram, esse esquema facilitado pelo banco central expandiu-se drasticamente e permeou muito além do setor financeiro. Permitiu que a classe política potencializasse os esquemas construídos ao longo do último século — que, lembrem-se, os neoliberais nunca extinguiram —, transferindo muito mais da nossa riqueza para aquela pequena casta de apadrinhados bem relacionados.
No entanto, graças em grande parte aos neoliberais do passado e do presente, esse sistema altamente intervencionista, onde o governo manipula ativamente o mercado para beneficiar aqueles que já estão no topo, é chamado — e de fato considerado por muitos como — capitalismo genuíno de livre mercado.
Isso não é verdade. É uma artimanha — uma artimanha para nos enganar, de modo que, sempre que uma nova crise econômica surgir, concluamos automaticamente que a crise ocorreu apenas porque o governo não está suficientemente envolvido na economia. E é essa mentalidade que tornou tantas pessoas comuns, do dia a dia, sem ideologia, receptivas aos argumentos desses autoproclamados socialistas democráticos.
O establishment neoliberal e neoconservador fez muito para levar a cabo esse truque. Eles não deveriam se surpreender com o fato de que está funcionando.
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“onde o governo manipula ativamente o mercado para beneficiar aqueles que já estão no topo”
De fato. antes de libertários, liberais, anarcocapitalistas ou outras diabruras, grupos de supostos defensores da liberdade, Jesus já havia declarado que um rico dificilmente entraria no reino dos céus. A riqueza per se obviamente que não é ruim, mas a ganância sim. Por que esse pessoal do “topo” que já tem muito quer mais? veja que isso sempre aconteceu ao longo da história humana. De modo que é irrelevante se hoje em dia essa face da ganância seja uma espécie de complô entre os vagabundos do estado e os interesses privados.
O anarquismo católico e a doutrina social da Igreja são a redução de danos para essa situação patética. Do ponto de vista sobrenatural, se deriva uma vida temporal ordenada, a partir de cima. É ilusão que alguma solução venha dos mercados, por em tese, os mercados não foram jamais uma oposição a esta moral mundana.