O que muda de relevante se a esquerda ou a direita vencerem as eleições?

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Comentaristas de política costumam atacar membros de partidos de oposição, afirmando que eles precisam ser substituídos por terem aprovado leis com as quais o comentarista discorda. Diante disso, sempre me pergunto: quem os substituirá? E quem substituirá as pessoas que os elegeram e os seus financiadores? Quem ocupará o lugar deles daqui a vinte anos? Você pode continuar colhendo maçãs de uma macieira na esperança de obter uma pera, mas isso não vai acontecer. Se você continuar voltando à mesma árvore ano após ano, poderá encontrar variações de sabor, cor e tamanho, mas sempre colherá o mesmo tipo de fruta, pois ela provém daquela mesma árvore.

Se a árvore está podre até o cerne, você precisa de uma árvore nova, não de frutos novos. No entanto, figuras da mídia são especialistas em culpar o fruto (ou o político) e prometer aos ouvintes que a próxima colheita será melhor. Enquanto conseguirem enganar os eleitores dessa forma, eles jamais pensarão em analisar a árvore em si — os partidos e o sistema do qual dependem. Os eleitores se fixam na disputa, apontando qual fruto é pior em vez de se concentrarem na questão fundamental da própria árvore.

Políticos, individualmente, devem prestar contas aos eleitores, mas em menor grau do que ao seu partido e aos seus apoiadores. Na realidade, muitas vezes descobrimos que o sucesso dos políticos se baseia nos interesses que os apoiam — ou, talvez, na chance de impedir que o “adversário” vença. Os políticos dizem aos eleitores o que é preciso para chegar ao poder e, então, integram a elite política de Brasília; eles sofrem pressões desses grupos — pressões que, com mais frequência do que a vontade do eleitorado que os elegeu, influenciam a maneira como votam.

Não estou dizendo que “outsiders” nunca ganham uma eleição, fazem alguma diferença ou permanecem imunes à corrupção dos partidos políticos em Brasília. Os partidos têm representantes genuínos eleitos pela população local, enviados para cumprir seus interesses. Mas eles não são maioria em nenhum dos partidos e, portanto, têm pouca influência.

Alguns veem o voto como um ritual que condiciona os eleitores a acreditar que controlam — ou, ao menos, afetam significativamente — o governo. Isso lhes permite imaginar que eles possuem o poder ou o potencial para realmente transformá-lo. O estado permite que você suponha ser capaz de conquistar outras pessoas para o seu modo de pensar e moldar o governo conforme os seus desejos. No entanto, na realidade, as burocracias condicionam tanto o poder político quanto a mentalidade dos eleitores, assegurando a continuidade do sistema do qual elas próprias se beneficiam.

Acho incoerente que nossa sociedade não consiga perdoar pessoas por atos cometidos, há centenas de anos, por seus antepassados ​​que tinham pigmentação semelhante. No entanto, perdoamos nossos principais partidos políticos a cada ciclo eleitoral. Políticos podem prometer resolver os mesmos “problemas” que candidatos anteriores — que fracassaram — e sair ilesos. Nós realmente acreditamos que, desta vez, eles resolverão os problemas.

O sistema político se aproveita dessa memória de curto prazo. Após quatro ou oito anos de governo inadequado e promessas não cumpridas, o apoio ao partido no poder diminui. Muitas vezes, a situação se torna tão ruim que os eleitores estão dispostos a tentar qualquer coisa, até mesmo o partido nacional que rejeitaram quatro ou oito anos antes. Dessa forma, o sistema político ajuda os partidos nacionais menos bem-sucedidos a dominarem; seus fracassos atuais contribuem para garantir seu sucesso futuro.

Será que realmente temos “progressistas” e “conservadores”? A direita é uma oposição genuína? Existe realmente muita diferença entre esquerdistas e direitistas? Não acredito que haja tanta diferença quanto se costuma supor.

À medida que vou mais fundo na toca do coelho, mergulhando na loucura da monarquia pré-estatal da Idade Média, ocasionalmente volto meu olhar para trás para observar nossos direitistas e esquerdistas. Desta grande distância, eles parecem notavelmente semelhantes. A vasta maioria da humanidade antes da Primeira Guerra Mundial, e certamente antes da Revolução Francesa, concordaria.

Os dois lados são comparáveis ​​a árvores da mesma espécie, diferindo apenas em suas ramificações, tamanho, formato e na cor das folhas. No entanto, quando se trata de um contraste genuíno entre ambos, encontra-se muito pouco. Talvez possamos compará-los aos dois lados de uma mesma moeda. A moeda é lançada a cada dois ou quatro anos, exibindo uma aparência de contrastes, mas, em sua essência, possuem a mesma composição, o mesmo valor e fazem parte da mesma economia. As divergências são, em geral, apenas superficiais e de ordem estética. O professor Jason Brennan descreveu as diferenças da seguinte forma: “Ambos concordam em comprar o Corolla; agora, estão apenas debatendo se escolhem o modelo esportivo ou a versão híbrida”.

Não posso votar na esquerda porque eles me lembram muito a direita, e vice-versa. Não consigo porque ambos não passam de publicitários fazendo campanha em busca de poder.

Eles concordam na maior parte do tempo, mas essas situações nunca são discutidas ou debatidas, pois constituem pressupostos com os quais ambos concordam. São os fundamentos de uma sociedade democrática aceitos sem questionamentos. Eles travam batalhas ferozes em torno dos 5% em que discordam — o que ganha as manchetes e cria a percepção de dois lados distintos.

O lendário linguista e filósofo Noam Chomsky disse: “A maneira inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro de opiniões aceitáveis, mas permitir debates muito acalorados dentro desse espectro”. O observador francês da democracia americana do século XIX, Alexis de Tocqueville, escreveu: “A maioria traça um círculo formidável em torno do pensamento. Dentro desses limites, o escritor é livre; mas ai dele se ousar ir além deles”.

Assim, esquerda e direita discutirão intensamente e trabalharão para derrotar seu inimigo, mas são muito mais parecidos do que diferentes. Eles se concentram em pequenos detalhes onde divergem; ao fazer isso, todo o sistema e seus fundamentos permanecem sem debate, sem argumentação e são aceitos sem questionamento. Eles aceitam a presença do dragão na sala e debatem se devem apagar o fogo com água ou com um extintor.

Não percebemos as semelhanças entre os dois lados porque porque eles representam pressupostos inquestionáveis ​​da nossa sociedade. Aqueles que se mantêm à margem da disputa carregada de emoção entre esquerda e direita geralmente veem os direitistas como esquerdistas “diluídos”. Libertários costumam dizer que não há muita diferença entre os dois lados.

É verdade que as diferenças são, por vezes, significativas — por exemplo, na definição de vida e de gênero (pelo menos por enquanto). A direita tende à ficar atrás no que diz respeito ao progressismo, mas, ainda assim, acabam “progredindo”. Devemos entender esses partidos como um único partido nacional com duas velocidades: uma lenta e outra turbo; mas ambos estão progredindo. O historiador Christophe Buffin de Chosal explica:

             “A esquerda e a direita hoje são, na verdade, apenas duas facetas da mesma corrente política… O grau de esquerdismo pode variar, mas os princípios fundamentais são os mesmos… os principais partidos políticos europeus concordam sobre o que consideram essencial: um governo poderoso, intervencionista e o mais centralizado possível… a politização da mídia, do funcionalismo público, do sistema judiciário e das forças armadas; a submissão das decisões políticas aos interesses do poder econômico – daí o globalismo e a imigração… a rejeição de toda moralidade tradicional, ao mesmo tempo que se defende incondicionalmente uma moralidade estatal baseada nos direitos humanos, no laicismo, no relativismo e na não discriminação; a necessidade de um banco central, crédito ilimitado e inflação… alta tributação; educação gratuita e obrigatória, burocracia onipresente e intervencionismo estatal em tantos domínios quanto possível.”

 

 

 

Artigo original aqui

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Jeb Smith
é autor de quatro livros, sendo o mais recente "Monarquia Perdida: Corrigindo Equívocos Sobre a Idade Média, Realeza Medieval, Democracia e Liberdade". Smith é autor de mais de cem artigos em várias publicações, incluindo a revista History is Now, a revista Medieval, a História Medieval, o Instituto Cristão Libertário, a Revista Postil, o Vermont Daily Chronicle, The Rutland Herald e Fellowship & Fairydust Magazine.

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