A Mentalidade Anticapitalista

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Capítulo 3 – A Literatura sob o Capitalismo

1.  O mercado para os produtos literários

 

O capitalismo dá a muitos a oportunidade de mostrar iniciativa.  Enquanto a rigidez de uma sociedade de statusobriga todos ao desempenho invariável e rotineiro sem permitir qualquer desvio dos padrões tradicionais de comportamento, o capitalismo encoraja o inovador.  O lucro é o prêmio dos que se afastam com sucesso dos tipos normais de procedimento; o prejuízo é a punição dos que, por preguiça, aderem a métodos obsoletos.  O indivíduo é livre para mostrar o que pode fazer de modo melhor do que os outros. 

No entanto, essa liberdade do indivíduo é limitada.  É resultado da democracia do mercado e, por isso, depende da apreciação do desempenho do indivíduo por parte do consumidor, que é soberano.  O que conta no mercado não é o bom desempenho em si, mas o desempenho reconhecido como bom por um número suficiente de clientes.  Se o público comprador for tolo e não apreciar devidamente o valor de um produto, embora este seja excelente, todo o esforço e despesa foram empregados em vão. 

O capitalismo é essencialmente um sistema de produção em massa para satisfazer às necessidades das massas. Derrama a fartura sobre o homem comum.  Elevou a média do padrão de vida a um nível jamais sonhado em épocas passadas.  Tornou acessíveis, a milhões de pessoas prazeres que, há poucas gerações, estavam ao alcance somente de uma pequena elite. 

O exemplo mais destacado encontra-se na evolução do amplo mercado para todos os tipos de literatura[1].  A literatura — no sentido mais amplo da palavra — é hoje um artigo solicitado por milhões.  Leem jornais, revistas e livros, ouvem rádio e lotam os teatros.  Autores, produtores e atores que satisfazem aos desejos do público recebem rendimentos consideráveis.  Dentro da estrutura da divisão social do trabalho, surgiu uma nova subdivisão, a espécie dos literatos, ou seja, as pessoas que ganham a vida escrevendo.  Esses autores vendem o seu trabalho ou o produto de seu esforço no mercado assim como todos os outros especialistas vendem seus serviços ou produtos.  Estão, na plena capacidade de escritores, totalmente integrados no contexto cooperativo da sociedade de mercado. 

Nas eras pré-capitalistas, escrever era uma arte mal remunerada.  Ferreiros e sapateiros ganhavam para o sustento, mas os autores não.  Escrever era uma arte liberal, um passatempo, e nunca uma profissão.  Era ocupação nobre de pessoas ricas, reis, gente importante, políticos, aristocratas e outros cavalheiros com recursos próprios.  Era praticada em horas de folga por bispos e monges, professores universitários e militares. O homem sem dinheiro que, por irresistível impulso, era levado a escrever tinha, primeiro, de garantir alguma fonte de renda independente do direito de autor.  Spinoza polia lentes.  Os dois Mills, pai e filho, trabalhavam nos escritórios londrinos da East India Company.  Mas muitos autores pobres viveram da generosidade de abastados amigos das artes e das ciências.  Reis e príncipes disputavam entre si o patrocínio de poetas e escritores.  As cortes eram o asilo da literatura. 

É fato histórico que o sistema de patrocínio oferecia aos autores inteira liberdade de expressão.  Os patronos não se aventuravam a impor aos protegidos sua própria filosofia e seus padrões de gosto e de ética.  Estavam quase sempre preocupados em protegê-los das autoridades eclesiásticas.  Pelo menos era possível ao autor que fosse banido por uma ou mais cortes refugiar-se em outra rival. 

Apesar disso, ver filósofos, historiadores e poetas transitando entre os cortesãos e dependendo dos favores de um déspota não é muito edificante.  Os antigos liberais saudavam a evolução do mercado para os produtos literários como parte essencial do processo que emanciparia o homem da tutela de reis e aristocratas.  A partir daí, achavam eles, o julgamento das classes cultas seria supremo.  Que perspectiva maravilhosa!  Um novo ressurgimento parecia prestes a brotar. 

 

2.  Sucesso no mercado do livro

 

Houve, porém, algumas sombras nesse quadro. 

Literatura não é conformismo e sim dissidência.  Os autores que só repetem o que todos aprovam e querem ouvir não são importantes.  O que vale é o inovador, o não conformista, o precursor de coisas inéditas, o homem que rejeita os padrões tradicionais e busca substituir velhos valores e ideias por outros novos.  É essencialmente antiautoritário, contra o governo, irreconciliavelmente oposto à imensa maioria de seus contemporâneos.  É exatamente o autor dos livros que a grande maioria de pessoas não compra. 

Independente da opinião que se tenha sobre Marx e Nietzsche, é inegável que seu sucesso póstumo foi extraordinário.  Contudo, ambos teriam morrido de fome se não tivessem tido outras fontes de renda além do direito autoral.  O não conformista e inovador tem pouca esperança de vender seus livros no mercado usual.  O astro do mercado do livro é o autor de ficção que escreve para as massas.  Seria errado pensar que o comprador sempre prefere o mau livro.  O que lhe falta é discernimento e, por isso, está pronto a absorver ocasionalmente até bons livros.  É verdade que quase todos os romances e peças publicados hoje em dia não passam de lixo. Não é de admirar, visto haver milhares de volumes sendo escritos a cada ano.  Nossa época ainda poderá ser chamada a do florescimento da literatura se, em cada mil livros publicados, ao menos um prove ser equivalente aos grandes livros do passado. 

Muitos críticos aprazem-se em criticar o capitalismo pelo que eles chamam de decadência da literatura.  Talvez devessem incriminar sua incapacidade de separar o joio do trigo.  Serão mais perspicazes do que seus predecessores de cem anos atrás?  Hoje, por exemplo, todos os críticos tecem elogios a Stendhal.  Mas, quando Stendhal morreu, em 1842, era obscuro e mal-compreendido. 

O capitalismo pode fazer com que as massas sejam tão prósperas a ponto de comprar livros e revistas.  Mas não pode imbuí-las do discernimento de um Mecenas ou do Can Grande della Scalla.  Não é culpa do capitalismo se o homem comum não aprecia livros notáveis. 

 

3.  Observações sobre as histórias de detetive

 

A época na qual o movimento radical anticapitalista adquiriu um conveniente poder irresistível fez surgir um novo gênero literário: a história de detetive.  A mesma geração de ingleses cujos votos levaram o Partido Trabalhista ao governo foi arrebatada por autores como Edgar Wallace.  Um dos autores socialistas ingleses mais destacado, Q. D. H.  Cole, é também famoso autor de histórias de detetive.  Um marxista coerente deveria chamar a história de detetive — junto talvez com os filmes de Hollywood, com as histórias em quadrinhos e com a “arte” do strip-tease — de superestrutura artística da época do sindicalismo e da socialização. 

Muitos historiadores, sociólogos e psicólogos tentaram explicar a popularidade desse estranho gênero.  A investigação mais profunda foi a do professor W. O. Aydelotte.  O professor Aydelotte está certo quando afirma que o valor histórico das histórias de detetive está em elas descreverem castelos no ar e, assim, esclarecerem algo às pessoas que as leem.  Ele também está certo quando diz que o leitor se identifica com o detetive e que, em termos gerais, faz dele uma extensão do seu ego.[1]

Ora, esse leitor é o homem frustrado que não atingiu a posição para a qual sua ambição o impelia.  Como já dissemos, para consolar-se ele culpa a injustiça do sistema capitalista.  Ele falhou por ser honesto e submisso à lei.  Seus competidores tiveram mais sorte e sucesso por terem sido desonestos; valeram-se de golpes ilícitos que ele, consciencioso e límpido como é, jamais imaginara.  Se as pessoas soubessem o que há de desonestidade nesses novos-ricos arrogantes!  Infelizmente seus crimes permanecem encobertos e eles continuam desfrutando de uma reputação que não merecem.  Mas o dia do julgamento há de chegar.  Ele mesmo irá desmascará-los e revelar seus crimes. 

A típica sequência de fatos numa história de detetive é esta: um homem que todos consideram como respeitável e incapaz de qualquer atitude indigna comete um crime abominável, ninguém suspeita dele.  Mas o esperto detetive não pode ser enganado.  Sabe tudo sobre esses santarrões hipócritas.  Reúne todas as provas para condenar o culpado.  Graças a ele, a boa causa finalmente triunfa. 

O desmascaramento do trapaceiro que se faz passar por cidadão respeitável era, com implícita tendência antiburguesa, um tópico muitas vezes tratado até em alto nível literário como, por exemplo, por Ibsen em The Pilars of Society.  A história de detetive desvenda a trama e nela introduz o caráter desprezível do investigador farisaico que se compraz em humilhar um homem que todos consideravam cidadão impecável.  O que motiva o detetive é o ódio subconsciente que tem do “burguês”-bem-sucedido.  Do lado oposto ao detetive estão os inspetores da força policial do governo.  São por demais tolos e parciais para resolver o mistério.  Fica às vezes subentendido que eles estão inconscientemente inclinados a favor do culpado, cuja posição social muito os impressiona.  O detetive supera os obstáculos que a morosidade dos inspetores coloca em seu caminho.  O triunfo dele corresponde ao fracasso das autoridades do governo burguês que escolheram tais policiais. 

Isso explica por que a história de detetive tem popularidade junto às pessoas que sofrem de ambição frustrada. (É claro que também existem outros leitores de história de detetive.) Sonham dia e noite em despejar sua vingança sobre os competidores bem-sucedidos.  Sonham com o momento em que seu rival “de pulsos algemados é levado pela polícia”.  Esta satisfação lhes é indiretamente fornecida através do clímax da história na qual se identificam com o detetive e veem no criminoso apanhado o rival que os sobrepujou.[2] 

 

4.  A liberdade de imprensa

 

A liberdade de imprensa é um dos pontos fundamentais de um país de cidadãos livres.  É um dos itens essenciais do programa político do velho liberalismo clássico.  Até hoje ninguém conseguiu apresentar objeções convincentes contra a argumentação de duas obras clássicas: Areopagitica, de John Milton, em 1644, e On Liberty, de John Stuart Mill, em 1859.  Imprimir livros proibidos é o sangue vivo da literatura. 

A imprensa livre só existe onde o controle dos meios de produção é privado.  Na comunidade socialista, na qual todos os meios para publicar e as máquinas impressoras pertencem e são acionados pelo governo, não pode existir a imprensa livre.  O governo determina sozinho quem deve dispor de tempo e de ocasião para escrever, bem como o que deve ser impresso e publicado.  Comparada com as condições predominantes na Rússia soviética, até a Rússia dos czares, retrospectivamente, parece um pais de imprensa livre.  Quando os nazistas realizaram o famoso auto-de-fé do livro, agiram perfeitamente de acordo com o que preconizou um dos maiores autores socialistas, Cabet.  [3]

Como todas as nações estão caminhando para o socialismo, a liberdade dos autores desaparece pouco a pouco. Torna-se cada dia mais difícil para alguém publicar um livro ou artigo cujo conteúdo não agrade ao governo ou a grupos fortes de pressão.  Os hereges não são, no entanto, “liquidados” como na Rússia, nem seus livros são queimados por ordem da Inquisição.  Também não há um retorno ao velho sistema de censura.  Os que se consideram progressistas dispõem de armas mais eficientes.  Seu principal instrumento de opressão é boicotar autores, organizadores, editores, livreiros, impressores, anunciantes e leitores. 

Qualquer um é livre para abster-se de ler livros, revistas e jornais que lhe desagradam, assim como para recomendar a outros que evitem esses livros, revistas e jornais.  Mas a coisa muda de figura quando algumas pessoas ameaçam outras com graves represálias caso estas não deixem de patrocinar certas publicações e seus editores.  Em muitos países, os editores de jornais e revistas ficam apavorados com a ameaça de boicote por parte dos sindicatos.  Evitam discussões abertas sobre o assunto e tacitamente cedem às ordens dos líderes sindicais.  [4] Esses líderes “trabalhistas” são muito mais delicados do que as majestades reais e imperiais das épocas passadas, não admitem gracejos.  Sua instabilidade rebaixou a sátira, a comédia e a comédia musical do verdadeiro teatro e condenou os filmes à esterilidade. 

No ancien regime os teatros tinham liberdade para apresentar as zombarias de Beaumarchais sobre a aristocracia e a ópera imortal composta por Mozart.  Sob o segundo império francês, a “Grã-Duquesa de Gerolstein” de Offenbach e Halévy parodiou o absolutismo, o militarismo e a vida da corte.  O próprio Napoleão III e outros monarcas europeus divertiam-se com a peça que os ridicularizava.  Na época vitoriana, o censor dos teatros britânicos, o Lord Chamberlain, não proibiu a exibição das comédias musicais de Gilbert e Sullivan que faziam pilhérias com todas as veneráveis instituições do sistema de governo britânico.  Os lordes lotavam os camarotes enquanto no palco o Conde de Montararat cantava: “The House of Peers made no pretence to intellectual eminence” (A Casa dos nobres não tem veleidades a nenhum destaque intelectual). 

Hoje em dia não se pode, fazer a mínima paródia no palco a respeito dos poderes existentes, nenhuma observação desrespeitosa sobre sindicatos, cooperativas, empresas dirigidas pelo governo, déficits orçamentários e outros aspectos do estado previdenciário é tolerada.  Os lideres sindicais e os burocratas são sagrados: O que resta para a comédia são os assuntos que tornaram a opereta e a farsa de Hollywood execráveis. 

 

5.  O fanatismo dos literatos

 

Um observador superficial das ideologias atuais pode facilmente deixar de reconhecer o fanatismo predominante dos que formam a opinião pública e das tramas que abafam a voz dos que não concordam. Parece haver discordância sobre questões consideradas como importantes.  Comunistas, socialistas e intervencionistas, bem como as várias facções e escolas desses partidos, lutam entre si com tanto ardor, que a atenção se desvia dos dogmas fundamentais com os quais todos eles concordam plenamente.  Por outro lado, os poucos pensadores independentes que têm coragem para questionar esses dogmas são praticamente alijados e suas ideias não conseguem atingir o público leitor.  A tremenda máquina da propaganda e da doutrinação “progressista” tem tido grande sucesso ao inculcar esses tabus.  A intolerante ortodoxia dos grupos’ que se consideram “não ortodoxos” é dominante. 

Este dogmatismo “não ortodoxo” é uma autocontradição e confusa mistura de várias doutrinas incompatíveis entre si.  É o que há de pior no ecletismo, uma adulterada compilação de suposições tiradas de sofismas e falsos conceitos há muito ultrapassados.  Compreende fragmentos de muitos autores socialistas, tanto “utópicos” quanto “marxistas científicos”, ou da Escola Historicista Alemã, fabianos, institucionalistas americanos, sindicalistas franceses, tecnocratas.  Repete os erros de Godwin, Carlyle, Ruskin, Bismarck, Sorel, Veblen e de uma porção de nomes menos famosos. 

O dogma fundamental dessa crença proclama que a pobreza é resultado de instituições sociais injustas.  O pecado original que privou a humanidade de uma vida feliz nos jardins do paraíso foi o estabelecimento da propriedade privada e da empresa.  O capitalismo atende apenas aos interesses egoístas dos ferozes exploradores.  Condena as massas de homens íntegros ao empobrecimento e degradação progressivos.  O que é necessário para tornar prósperas todas as pessoas é a submissão dos exploradores gananciosos ao grande deus chamado estado.  O motivo “lucro” deve ser substituído pelo motivo “serviço”.  Felizmente, dizem eles, nem as intrigas nem a brutalidade provenientes dos infernais “monarquistas da economia” conseguem dominar o movimento reformista.  A chegada da era do planejamento central é inevitável.  Haverá então fartura e abundância para todos.  Quem está ansioso para acelerar essa grande transformação se autodenomina de progressista, exatamente porque finge que está trabalhando para a realização daquilo que é desejável e, ao mesmo tempo, que está de acordo com as leis inexoráveis da evolução histórica.  Chamam de reacionários todos os que se dedicam ao vão esforço de deter o que eles chamam de progresso. 

Do ponto de vista desses dogmas, os progressistas defendem certas políticas que, a seu ver, podem de imediato aliviar o fardo das massas sofredoras.  Recomendam, por exemplo, a expansão do crédito e o aumento do volume de moeda em circulação, o piso do salário mínimo a ser determinado e imposto seja pelo governo, seja pela pressão e coerção do sindicato, o controle de preços das mercadorias e dos aluguéis, bem como outras medidas intervencionistas.  Mas os economistas têm demonstrado que todas essas panaceias não levam aos resultados que seus defensores desejam alcançar.  Seu efeito é, do exato ponto de vista dos que os recomendam e concorrem para sua execução, ainda mais insatisfatório do que o precedente estado de coisas que eles se propunham a alterar.  A expansão do crédito provoca a recorrência de crises econômicas e de períodos de recessão.  A inflação faz com que subam os preços de todas as mercadorias e serviços.  As tentativas de impor aumentos de salário superiores aos que seriam determinados pela liberdade de mercado provocam o desemprego em massa que se estende ano após ano.  Tabelamento de preços tem como efeito a queda no fornecimento dos produtos tabelados.  Os economistas têm provado essas teses de modo irrefutável, nenhum pseudo-economista “progressista” jamais tentou negá-las.  O ataque essencial que os progressistas fazem ao capitalismo é que a recorrência de crises e recessões, bem como do desemprego em massa, são características inerentes a esse sistema.  Demonstrar que esses fenômenos são, pelo contrário, resultantes das tentativas intervencionistas no sentido de regular o capitalismo e de melhorar as condições do homem comum é dar à ideologia progressista o golpe final.  Como os progressistas não estão em situação de opor nenhuma objeção consistente à argumentação dos economistas, tentam manter estes afastados das pessoas e especialmente dos intelectuais e dos universitários.  Qualquer menção a essas heresias é estritamente proibida.  Seus autores são insultados, e os universitários são desencorajados a ler suas “loucas bobagens”. 

No modo de ver dos dogmáticos progressistas, existem dois grupos de indivíduos que lutam para saber quanto da “renda nacional” deve caber a cada um deles.  A classe dos proprietários, os empresários e os capitalistas, à qual quase sempre se referem como “gerência”, não está preparada para deixar ao “trabalho” — isto é, assalariados e empregados — nada além de uma ninharia, apenas um pouco mais do que a garantia de subsistência.  A força de trabalho, como pode ser facilmente entendido, prejudicada pela ganância da “gerência” está inclinada a dar ouvidos aos radicais, aos comunistas, que desejam despojar inteiramente a “direção”.  Entretanto, a maioria da classe trabalhadora é suficientemente moderada para não entregar-se ao radicalismo excessivo.  Ela rejeita o comunismo e está pronta para se contentar com menos do que o confisco total da renda “imerecida”.  Desejam uma solução de meio termo, o planejamento, o estado previdenciário, o socialismo.  Nessa controvérsia, os intelectuais que declaradamente não pertencem a nenhum dos dois campos adversários, são chamados a intervir como árbitros.  Eles — os professores, representantes da ciência, e os escritores, representantes da literatura — devem evitar os extremistas de cada grupo, tanto os que recomendam o capitalismo como os que apoiam o comunismo.  Devem permanecer com os moderados.  Devem insistir no planejamento, no estado previdenciário, no socialismo, e devem apoiar todas as medidas adotadas para refrear a ganância da gerência, bem como impedi-la de abusar do seu poder econômico. 

É desnecessário repetir a análise minuciosa de todos os erros e contradições implícitos nessa forma de pensar. Basta destacar três erros fundamentais. 

Primeiro: o grande conflito ideológico de nossa era não é a luta a respeito da distribuição da “renda nacional”. Não é uma briga entre duas classes, das quais cada uma busca se apropriar do maior quinhão possível de uma quantia total que está disponível para a distribuição.  Trata-se de uma divergência quanto à escolha do mais adequado sistema de organização econômica da sociedade.  A questão está em saber qual dos dois sistemas, capitalismo ou socialismo, garante maior produtividade dos esforços humanos para melhorar o padrão de vida das pessoas.  A questão também é saber se o socialismo pode ser considerado um substituto para o capitalismo, se a conduta racional das atividades de produção, isto é, conduta baseada no cálculo econômico, pode ser efetivada sob as condições socialistas.  O fanatismo e o dogmatismo dos socialistas estão manifestos no fato de eles obstinadamente recusarem-se a examinar esses problemas.  Com eles nem se discute que o capitalismo é o pior dos males e o socialismo a encarnação de tudo o que há de bom.  Qualquer tentativa de análise dos problemas econômicos de uma comunidade socialista é considerada crime de lesa-majestade.  Como as condições existentes nos países ocidentais ainda não permitem a eliminação desses criminosos à maneira russa, são eles insultados e difamados, suspeitos e boicotados.  [5]

Segundo: não há diferença do ponto de vista econômico entre socialismo e comunismo.  Ambos os termos, socialismo e comunismo, expressam o mesmo sistema de organização econômica da sociedade, ou seja, o controle público de todos os meios de produção, em oposição ao controle privado dos meios de produção, chamado capitalismo.  Os dois termos, socialismo e comunismo, são sinônimos.  O documento que todos os socialistas marxistas consideram como base inabalável de sua doutrina chama-se o Manifesto comunista.  Por outro lado, o nome oficial do império russo é União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).[6]

O antagonismo entre o comunismo atual e os partidos socialistas nada tem a ver com o objetivo final de suas políticas.  Refere-se primordialmente à atitude dos ditadores russos que buscam subjugar o maior número possível de países, a começar pelos Estados Unidos.  Refere-se, além disso, à questão da realização do controle público dos meios de produção: deve ser esse controle efetivado por métodos constitucionais ou pela derrubada violenta do governo no poder? 

Também os termos “planejamento” e “estado previdenciário” tais como são usados na linguagem dos economistas, estadistas, políticos e demais pessoas não adquirem significação diferente de acordo com o objetivo final do socialismo e do comunismo.  Planejamento significa que os projetos individuais dos cidadãos devem ser substituídos pelos planos do governo.  Significa que empresários e capitalistas devem ser destituídos da possibilidade de empregar seu capital de acordo com sua própria vontade e devem ser obrigados a cumprir incondicionalmente as ordens provenientes do órgão planejador central ou governo.  Isto representa a transferência do controle das mãos dos empresários e capitalistas para as do governo. 

É, pois, grave tolice considerar socialismo, planejamento ou estado previdenciário como soluções ao problema da organização econômica da sociedade diferentes das do comunismo e devendo ser tidas como “menos absolutas” ou “menos radicais”.  Socialismo e planejamento não são antídotos contra o comunismo, como muitos parecem crer.  O socialista é mais moderado do que o comunista no sentido de ele não subtrair documentos secretos do seu país para entregá-los aos russos nem de conspirar para o assassinato de burgueses anticomunistas.  Trata-se, é claro, de uma diferença muito importante.  Mas não tem qualquer relação com o objetivo final da ação política. 

Terceiro: capitalismo e socialismo são dois padrões distintos de organização social.  O controle privado dos meios de produção e o controle público são noções contraditórias e não meramente contrárias.  Não existe uma espécie de economia mista, um sistema que se situe entre o capitalismo e o socialismo.  Quem defende o que erroneamente se pensa ser uma solução de meio termo não recomenda um compromisso entre capitalismo e socialismo, mas sim um terceiro padrão, com características especificas e que deve ser julgado segundo seus méritos.  Esse terceiro sistema que os economistas chamam de intervencionismo não é uma combinação, como alegam seus defensores, de alguns traços do capitalismo com outros do socialismo.  É algo inteiramente diferente de cada um dos dois.  Os economistas que declaram que o intervencionismo não atinge os fins que seus adeptos querem atingir mas sim piora as coisas — não do ponto de vista dos economistas mas do próprio ponto de vista dos defensores do intervencionismo — não são intransigentes nem extremistas.  Descrevem simplesmente as inevitáveis consequências do intervencionismo. 

Quando Marx e Engels no Manifesto Comunista defenderam medidas intervencionistas precisas, não estavam recomendando um compromisso entre socialismo e capitalismo.  Consideravam aquelas medidas — por acaso as que são hoje a essência das políticas do New Deal e   do Fair Deal — como os primeiros passos para o estabelecimento do pleno comunismo.  Eles mesmos descreveram essas medidas como “economicamente insuficientes e insustentáveis”, e para as quais só haviam apelado porque elas “no decorrer do movimento se superam a si mesmas, necessitam de novas incursões pela antiga ordem social, e são inevitáveis como meio de revolucionar inteiramente o modo de produção”. 

Logo, a filosofia social e econômica dos progressistas é um pretexto para o socialismo e o comunismo. 

 

6.  Os romances e peças “sociais”

 

O público, influenciado por ideias socialistas, pede romances e peças socialistas (“sociais”).  Os autores, também eles imbuídos de ideias socialistas, estão prontos para fornecer a matéria solicitada.  Descrevem condições insatisfatórias que, como eles insinuam, são a consequência inevitável do capitalismo.  Retratam a pobreza, e a penúria, a ignorância, a sujeira e a doença das classes exploradas.  Acusam a luxúria, a estupidez e a corrupção moral das classes exploradoras.  A seu ver, tudo o que é mau e ridículo é burguês, e tudo o que é bom e sublime é proletário. 

Os autores que tratam da vida dos necessitados podem ser divididos em duas classes.  A primeira é a dos que não conheceram a pobreza, que nasceram e foram criados num ambiente “burguês” ou num meio de abastados assalariados ou agricultores; para esses autores, o meio no qual situam as personagens de suas peças e romances é estranho.  Devem tais autores, antes de começar a escrever, reunir informações sobre a vida no submundo que desejam retratar.  Põem-se a pesquisar.  Mas, é claro que abordam o tema de seus estudos com certos preconceitos.  Sabem com antecedência o que vão encontrar.  Estão convencidos de que as condições dos assalariados são desoladoras e mais terríveis do que se possa imaginar.  Fecham os olhos para tudo o que não querem ver e só encontram o que confirma suas opiniões preconcebidas.  Aprenderam com os socialistas que o capitalismo é um sistema que faz com que as massas sofram terrivelmente e que, quanto mais o capitalismo progride e se aproxima da plena maturidade, mais a imensa maioria de pessoas empobrece.  Seus romances e peças são pensados como estudos de caso para demonstrar esse dogma marxista. 

O erro desses autores não está em escolherem revelar a miséria e a privação.  Um artista pode mostrar seu domínio no tratamento de qualquer tipo de assunto.  O erro deles está na informação tendenciosa e na falsa interpretação das condições sociais.  Não conseguem perceber que as circunstâncias chocantes que descrevem são o resultado da ausência de capitalismo, reminiscências do passado pré-capitalista ou efeitos das políticas que sabotaram o funcionamento do capitalismo.  Não entendem que o capitalismo, ao gerar a produção em larga escala para o consumo das massas, é essencialmente um sistema que liquida com a penúria na medida do possível.  Descrevem o assalariado somente como capacidade de mão-de-obra e nunca se lembram que ele também é o principal consumidor seja dos próprios produtos manufaturados, seja dos gêneros alimentícios e das matérias-primas negociadas em troca. 

A predileção desses autores que tratam da desolação e da desgraça torna-se uma escandalosa distorção da verdade quando dão a entender que o que estão relatando é o típico e representativo estado de coisas do capitalismo.  A informação prestada pelos dados estatísticos referentes à produção e venda de todos os artigos produzidos em larga escala mostra que o assalariado médio não vive na profunda miséria. 

A figura mais destacada na escola da literatura “social” foi Émile Zola.  Ele traçou o padrão que legiões de imitadores menos capazes adotaram.  Na sua opinião, a arte estava intimamente ligada à ciência.  Tinha que se apoiar na pesquisa e ilustrar as descobertas da ciência.  E o principal resultado da ciência social, no entender de Zola, era o axioma de que o capitalismo é o pior de todos os males e de que o advento do socialismo é não apenas inevitável como altamente desejável.  Seus romances eram “de fato um conjunto de homílias socialistas”.[7] Mas Zola foi, na sua inclinação e fervor pró-socialistas, logo ultrapassado pela literatura “proletária” de seus adeptos. 

Os críticos-“proletários” da literatura alegam que aquilo que foi tratado por esses autores “proletários” nada mais é do que os fatos verídicos da experiência proletária.[8] No entanto, tais autores não relatam fatos simplesmente.  Interpretam esses fatos do ponto de vista dos ensinamentos de Marx, Veblen e Webbs.  Essa interpretação é a essência de sua obra, o ponto destacado que a caracteriza como propaganda pró-socialista. Esses escritores tomam os dogmas sobre os quais seu relato de acontecimentos se baseia como aceitos e irrefutáveis; estão absolutamente convencidos de que seus leitores partilham a mesma fé.  Por isso, parece-lhes quase sempre supérfluo referir-se explicitamente às doutrinas.  Às vezes fazem-lhes menção implícita.  Mas isso não altera o fato de que tudo o que veiculam em seus livros depende da validade dos princípios e das estruturas pseudo-econômicas socialistas.  Sua ficção é uma ilustração das lições dos doutrinadores anticapitalistas e soçobra com eles. 

A segunda classe de autores da ficção “proletária” é a dos que nasceram no meio proletário que descrevem em seus livros.  Esses indivíduos se afastaram do ambiente operário e juntaram-se às classes dos profissionais, não são como os autores de origem burguesa que escrevem sobre o operariado e que precisam pesquisar para saber como é a vida dos assalariados.  Podem valer-se da própria experiência. 

Essa experiência pessoal ensina-lhes coisas que contradizem frontalmente dogmas essenciais do credo socialista, filhos talentosos e esforçados de pais que vivem em condições modestas não são impedidos de galgar posições mais satisfatórias.  Os autores de origem “proletária” servem de testemunha desse fato.  Sabem por que venceram enquanto a maioria de seus irmãos e colegas não o conseguiu.  No curso de seu avanço para uma melhor situação na vida, tiveram ampla oportunidade de encontrar outros jovens que, como eles, estavam ávidos para aprender e melhorar.  Sabem por que alguns atingiram seus objetivos e outros não.  Agora, convivendo com os “burgueses”, descobrem que a diferença entre um homem que ganha mais e outro que ganha menos não está no fato de o primeiro ser um patife.  Eles não teriam superado o nível em que nasceram se fossem estúpidos a ponto de não perceber que muitos homens de negócios e profissionais são pessoas que se fizeram por si e que, como eles próprios; começaram do nada.  Não podem deixar de perceber que as diferenças de renda dependem de fatores diversos dos que são apontados pelo ódio socialista. 

Esses autores não são sinceros quando adotam em seus livros as homilias pró-socialistas.  Seus romances e peças são inverídicos e, portanto, não passam de lixo.  Ficam bem abaixo da qualidade dos livros de seus colegas de origem “burguesa” que, pelo menos, acreditam no que escrevem. 

Os autores socialistas não se contentam em descrever as condições das vítimas do capitalismo.  Tratam também da vida e das ações dos que nele se beneficiam, os homens de negócios.  Desejam revelar aos leitores como o lucro passou a existir.  Como eles mesmos — graças a Deus — não entendem desses temas sórdidos, procuram informar-se em livros de historiadores competentes.  Eis o que esses especialistas lhe dizem sobre os“gangsters financeiros” e os “barões enriquecidos ilicitamente”, bem como sobre a maneira pela qual obtiveram a riqueza: “Começou sua carreira como tocador de gado, o que significa que ele comprava gado dos fazendeiros e o trazia ao mercado para vender.  O gado era vendido aos açougueiros a peso.  Pouco antes de chegar ao mercado, ele alimentava o gado com sal e dava-lhe de beber grande quantidade de água.  Um galão de água pesa oito libras.  Dê três ou quatro galões de água a uma vaca, e terá um peso ótimo quando chega a hora de vendê-la”.9 Nesse tom, muitos e muitos romances e peças revelam as maquinações do vilão da trama, o homem de negócios.  Os magnatas tornaram-se ricos com a venda de aço defeituoso e de alimentos estragados, de sapatos com sola de papelão e de artigos de algodão impingidos como de seda.  Subornaram senadores e governadores, juízes e policiais.  Enganaram clientes e empregados.  É uma história muito comum. 

Nunca ocorreu a esses autores que sua narrativa implicitamente descreve todos os demais norte-americanos como perfeitos idiotas a quem qualquer tratante pode enganar com facilidade.  A tramoia do gado estufado pela água é o método mais primitivo e mais velho de trapaça.  Custa acreditar que haja em alguma parte do mundo compradores de gado tão idiotas que ainda caiam nessa.  Admitir que tenha havido nos Estados Unidos açougueiros que tenham sido tapeados dessa forma é contar com muita ingenuidade do leitor.  Acontece o mesmo com todas as fábulas semelhantes. 

Na vida privada, o homem de negócios — de acordo com os autores “progressistas” — é um bárbaro, um jogador, um bêbado.  Passa os dias nas pistas de corrida, as noites em clubes noturnos e as madrugadas com as amantes.  Como Marx e Engels mostraram no Manifesto Comunista, esses “burgueses, não contentes de terem à sua disposição as esposas e filhas de seus operários, sem falar das prostitutas comuns, sentem o maior prazer em seduzir as esposas uns dos outros”.  É assim que o mundo dos negócios americano é retratado em grande parte da literatura americana.[10]

 

NOTAS

[1] Cf. William O. Aydelotte, The Detective Story as a Historical Source. (The Yale Review, 1949, vol. XXXIX, pp. 76-95.)

 

[2] Tato significativo é o sucesso de tiragem das revistas chamadas sensacionalistas, o mais recente lançamento da imprensa norte-americana.  Tais revistas dedicam-se exclusivamente a revelar os vícios secretos e delitos de gente importante, especialmente dos milionários e das celebridades da tela.  De acordo com o Newsweek de 11 de julho de 1955, uma dessas revistas previa a tiragem de 3.800.000 exemplares para setembro de 1955.  É claro que o homem comum regozija-se com o relato dos pecados — reais ou inventados — daqueles que o ultrapassaram.

 

[3] Cf. Cabet, Voyage en Icarie, Paris, 1848, p. 127.

 

[4] Sobre o sistema de boicote estabelecido pela Igreja Católica, cf- P. Blanshard, American Freedom and Catholic Power,Boston, 1949, pp. 194-198.

 

[5] As duas últimas frases não se referem a três ou quatro autores socialistas de nossa época que — muito tardia e insatisfatoriamente — começaram a examinar os problemas econômicos do socialismo.  Aplicam-se literalmente, porém, a todos os demais socialistas desde a mais remota origem das ideias socialistas até hoje.

 

[6] Sobre as tentativas feitas por Stalin a fim de estabelecer uma falsa distinção entre socialismo e comunismo, cf. Mises,Planned Chaos, Irvington-on-Hudson, 1947, pp. 44-46 (reimpresso na nova edição de Socialism, Yale University Press, 195 l, pp. 552-553).

 

[7] Cf. P. Martino na Encyclopedia of the Social Sciences, vol. XV. p. 537.

[8] Cf. J. Freeman, Introdução a Proletarian Literature in the United States, an Antology, New York, 1935, pp. 9-28.

[9] cr. W. E. Woodward (A New American History, New York, 1938, p. 608) ao narrar a biografia de um homem de negócios que mantinha um Seminário de Teologia.

 

[10] Cf. a brilhante análise de John Chamberlain, The Businessman in Fiction (Fortune, novembro 1948. pp. 134-148).

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.