O filósofo alemão neomarxista Jürgen Habermas faleceu; veja Jürgen Habermas, influente filósofo alemão, morre aos 96 anos (AP, 14 de março de 2026).
Como os admiradores de Hans-Hermann Hoppe sabem, Habermas foi um dos seus professores e principal orientador de sua tese de doutorado em Filosofia sobre David Hume e Immanuel Kant na Goethe-Universität, Frankfurt am Main, de 1968 a 1974, Handeln und Erkennen [Ação e Cognição] (Berna 1976). (Na época de sua tese de doutorado, Hoppe tinha 24 anos. Ele considera sua tese de “habilitação”, escrita quando atingiu a maturidade intelectual, e claro, trabalhos posteriores, como muito mais importantes do que a dissertação de doutorado.)[1] Hoppe logo abandonou o esquerdismo de Habermas e da Escola de Frankfurt e adotou a economia austríaca misesiana e o libertarianismo anarquista rothbardiano. Como Grok e ChatGPT reconhecem, Hoppe é o aluno mais famoso, mas politicamente mais distante de Habermas (outros alunos proeminentes de Habermas incluem figuras mais alinhadas como Axel Honneth, Rainer Forst, Claus Offe e Hans Joas).
Uma coisa pela qual Habermas ficou conhecido foi sua “ética do discurso”;[2] Hoppe posteriormente baseou-se em certa medida em aspectos dessa teoria e, em maior grau, nas visões mais coerentes e desenvolvidas do também filósofo alemão de esquerda Karl-Otto Apel,[3] ao desenvolver sua própria defesa radical dos direitos libertários da “ética argumentativa”.[4] Alguns críticos de Hoppe superestimaram o impacto das ideias de Habermas nas visões de Hoppe; por exemplo, em 2019, o crítico de Hoppe, Phil Magness fez uma tentativa confusa de tentar ligar as visões de Hoppe sobre imigração a Habermas, mesmo que a análise de democracia e imigração e visões relacionadas não tenha absolutamente nada a ver com Habermas.[5] Até mesmo a teoria dos direitos de Hoppe tem apenas uma leve conexão com Habermas; Hoppe na verdade nem sequer tinha conhecimento da ética do discurso de Habermas quando estudou com ele. Hoppe não é habermasiano; ele é misesiano e rothbardiano. E sua obra é muito mais importante, coerente e saliente para a liberdade humana do que a de Habermas.
Para alguns comentários relacionados sobre Hoppe e Habermas, veja:
Sean Gabb, “Introdução”, em Hans-Hermann Hoppe, Manual para entender direito o Libertarianismo (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2018), pp. 7–8, 10:
“Após frequentar diversas escolas locais, ele foi primeiro para a Universidade de Saarland, em Saarbrücken, e de lá mudou para a Universidade de Goethe, em Frankfurt, onde foi aluno do notável neo-marxista Jürgen Habermas, que também foi o principal orientador da tese de doutorado de Hoppe em filosofia sobre David Hume e Immanuel Kant. … Hoppe tenta com sua Ética Argumentativa transcender este debate. Ao fazer isso, ele se baseia em seus estudos anteriores com Habermas, sobre a tradição kantiana da filosofia alemã, e nas obras éticas de Rothbard.”
Hoppe, “Sobre a Ética Argumentativa”:
“O único assunto em que considero minha contribuição a mais importante: oa priori da argumentação como o fundamento definitivo do direito.
Eu desenvolvi o argumento principal em meados da década de 80, em meus trinta e poucos anos. Não do zero, é claro. Tomei ideias e argumentos anteriormente desenvolvidos por outros, em particular do meu primeiro professor de filosofia e Doktorvater, Jürgen Habermas, e ainda mais importante o amigo e colega de longa data de Habermas, Karl-Otto Apel, assim como pelos economistas-filósofos Ludwig von Mises e Murray Rothbard. Em todo caso, no entanto, o argumento que desenvolvi me pareceu essencialmente novo e original. (Na mesma época, Frank van Dun, morando em Flandres e escrevendo em holandês, e tendo sido educado em circunstâncias e tradições filosóficas muito diferentes, tinha chegado a um argumento e uma conclusão muito similar. Na época, entretanto, nós não sabíamos do trabalho um do outro e descobriríamos apenas anos depois.)”[6]
“Cultura e liberdade – uma entrevista com Hans-Hermann Hoppe”(15 de Julho 2013):
“Habermas exerceu influência positiva sobre seu pensamento? Houve também influências negativas?
Hoppe: Habermas foi meu principal professor de filosofia e meu orientador de Ph.D durante meus estudos na Universidade Goethe em Frankfurt, de 68 a 74. Por meio de seus seminários eu travei contato com a filosofia analítica britânica e americana. Li Karl Popper, Paul Feyerabend, Ludwig Wittgenstein, Gilbert Ryle, J. L. Austin, John Searle, W. O. Quine, Hillary Putnam, Noam Chomsky, Jean Piaget. Descobri Paul Lorenzen, a Escola de Erlangen e a obra de Karl-Otto Apel. Ainda acredito que tenha sido um treino intelectual muito bom.
Pessoalmente, portanto, não tenho arrependimentos. Já no tocante à influência de Habermas na Alemanha e sobre a opinião pública alemã, ela tem sido um desastre absoluto, ao menos do ponto de vista libertário. Habermas é hoje o intelectual público mais celebrado da Alemanha e o Sumo Sacerdote do “Politicamente Correto”: da social-democracia, do estado de bem-estar social, do multiculturalismo, da antidiscriminação (ação afirmativa) e da centralização política, temperada — especialmente para o consumo alemão — com uma dose pesada de retórica “antifascista” e de “culpa coletiva”.”
Hoppe, “Como descobri o “Ação Humana” e Mises como um filósofo”:
“Comecei no meu desenvolvimento intelectual como esquerdista. … Entrei na universidade em 1968, no auge dos protestos contra a guerra do Vietnã e dos protestos estudantis generalizados nos EUA e na Europa. Como produto típico do Zeitgeist, então, fui um daqueles jovens que mais tarde foram chamados, e até hoje são, de membros da geração de 1968, responsabilizados pela sucessiva guinada à esquerda da Alemanha (e do Ocidente, em geral), através de uma “marcha pelas instituições” recomendada pelo comunista italiano Antonio Gramsci, que continua até hoje – mas com alguns sinais esperançosos aparecendo no horizonte de que o fim da marcha pode estar perto. De qualquer forma, meu esquerdismo na época não era tanto motivado por sentimentos igualitários, mas pela crença na maior eficiência de algum tipo de planejamento econômico central (em vez da “anarquia dos mercados”).
Meu principal campo de estudo universitário originalmente era Filosofia, e meu principal professor na época era Jürgen Habermas, 20 anos mais velho que eu, e naquela época a jovem estrela em ascensão da famosa “Escola de Frankfurt” da chamada “Teoria Crítica”.
Absorvi toda ou a maior parte de sua obra, e Habermas, que desde seus primórdios como enfant terrible ascendeu entretanto ao posto de um dos filósofos mais famosos e altamente condecorados não apenas na Alemanha, mas em todo o mundo, e o sumo sacerdote do politicamente correto, do bem-estar social e da centralização política liderada pelos EUA, tornou-se meu Doktor-Vater.”
Hoppe, “Meu caminho até a Escola Austríaca de Economia”:
“Jürgen Habermas, naquela época a jovem estrela em ascensão da nova esquerda e hoje o sumo sacerdote do estatismo social-democrata e da sinalização de virtude politicamente correta, tornou-se meu primeiro professor de filosofia e orientador de dissertação mais importante. Em 1974, o ano do meu doutorado, minha fase socialista, é claro, já havia terminado, e minha dissertação sobre um tópico epistemológico – uma crítica ao empirismo – não tinha nada a ver com socialismo ou “a” esquerda”.”
Hoppe, “Guerra, paz democrática e reeducação: a “experiência alemã” em perspectiva reacionária”: descrevendo Habermas como o veterano intelectual ou “Sumo Sacerdote” da Escola de Frankfurt, que — após um desentendimento temporário com Horkheimer por ser visto como insuficientemente reformista e ocidental — foi reabilitado ao provar seu compromisso com o modelo “revisionista” do Estado de Bem-Estar Ocidental, contribuindo assim para a reeducação da Alemanha no pós-guerra em relação a ideais antinacionalistas, igualitários e social-democratas que Hoppe vê criticamente no contexto da paz democrática e do declínio social.
Hoppe e Tom Woods, “Entrevista com Hans Hoppe”:
“Tom Woods: Hans Hoppe, muito obrigado por conversar conosco. Gostaria de começar pedindo que você descreva sua formação educacional e ideológica; eu sei que você começou sua carreira como esquerdista.
Hans-Hermann Hoppe: Terminei o ensino médio em 1968, que foi o auge da rebelião estudantil nos Estados Unidos e também na Alemanha, na França, na verdade em toda a Europa. E eu era uma espécie de esquerdista — não tanto por motivações igualitárias, mas mais porque estava convencido de que uma economia planejada seria mais eficiente do que uma economia anarquista de mercado.
Por causa disso, fui para a Universidade de Frankfurt, que na época, ao lado da Universidade Livre de Berlim, era um dos lugares mais de esquerda. E decidi estudar filosofia. Eu era próximo de Jürgen Habermas, que na época era a estrela em ascensão da Escola de Frankfurt. Ele me ofereceu rapidamente a oportunidade de escrever uma dissertação com ele. Então, nesse meio tempo, me tornei um dos alunos dele, e provavelmente um dos mais famosos, mesmo eu tendo acabado me afastando de como eu pensava quando era mais jovem.
O motivo disso foi, por um lado, minha experiência com a Alemanha Oriental. Meus pais eram ambos refugiados. Os pais da minha mãe foram expropriados pelos russos em 1946. Eles eram grandes proprietários de terras. A maioria dos meus parentes morava na Alemanha Oriental e os visitávamos todos os anos. E eu vi que tipo de bagunça era tudo aquilo. Então me afastei da ideia de que a economia planejada era ótima, porque vi os resultados dela.
Depois procurei alternativas. E na Alemanha, as figuras mais proeminentes entre as pessoas que não eram socialistas naquela época eram Milton Friedman, de longe, e depois, talvez Hayek. Minha dissertação que escrevi sob Habermas não tinha mais nada a ver com a política de esquerda. Tratava-se de uma crítica ao empirismo do ponto de vista da escola racionalista, representada por pessoas como Kant, por exemplo.
No sistema alemão, após sua dissertação, se você quiser seguir uma carreira acadêmica, o próximo passo é escrever uma tese de habilitação, como um doutorado avançado. Quando terminar isso, você ganha o título de Privatdozent. Esse também foi o título que Mises teve por muito tempo em Viena. Isso te dá o status de professor. Você pode aceitar doutorandos, pode ministrar cursos na universidade, mas não tem salário.
De qualquer forma, minha tese de habilitação foi sobre o método das ciências sociais, incluindo economia. Foi a primeira vez que me familiarizei com a ciência econômica. Descobri que a maioria dos economistas adotou a visão que eu conhecia como estudante de filosofia, da chamada Escola de Viena ou da versão popperiana da Escola de Viena — ou seja, que todas as afirmações em economia são empíricas, testáveis ou falsificáveis.
Achei que isso estava claramente errado. Eu pensava que afirmações como, se você aumentar a oferta de moeda, então o poder de compra da moeda diminuirá, eram coisas que pareciam logicamente verdadeiras, que não precisavam buscar falsificação. Também descobri outras afirmações que claramente não se qualificavam como afirmações empíricas, como: uma pessoa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Essa não era uma afirmação que fosse apenas uma convenção linguística, mas uma afirmação verdadeira sobre algo real. Todo detetive usa esse princípio; em toda história de detetive, você encontra isso. A primeira coisa que fazem é verificar: o acusado tem álibi? Ele estava naquele local onde o assassinato ocorreu na época em que ocorreu? Ou ele estava em outro lugar (nesse caso, claro, teria que ser inocente)? Portanto, há muitas afirmações que não são empíricas do jeito que os positivistas lógicos em Viena, os popperianos, sustentavam que todas as afirmações têm que ser.
Então descobri Ludwig von Mises. Descobri que Mises compartilhava exatamente essa visão. Existem declarações econômicas — ele as chamou de declarações a priori. E isso também existia, claro, em Kant. E eu havia estudado Kant na minha crítica ao empirismo, especialmente a David Hume. Então achei que não havia nada de estranho nas declarações a priori. Então, sim, a economia tem afirmações a priori que não podem ser refutadas pela experiência, mas são logicamente verdadeiras. Então me tornei misesiano.
Então descobri Murray Rothbard.”
Artigo original aqui
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Notas
[1] Para sua tese de “Habilitação”, em Sociologia e Economia, pela Goethe-Universität, Frankfurt am Main, em 1981, veja Hans-Hermann Hoppe, Kritik der kausalwissenschaftlichen Sozialforschung: Untersuchungen zur Grundlegung von Soziologie und Ökonomie [Crítica à Pesquisa Social Científica Causal: Estudos sobre a Fundação da Sociologia e Economia] (Opladen: Westdeutscher Verlag, 1983); Kinsella, Tese de Habilitação de Hoppe: Crítica à Pesquisa Social Científica Causal.
[2] Veja Kinsella, Revisitando a ética argumentativa; Ética da discussão na Wikipédia (que eu mesmo comecei, e que tem mais sobre Hoppe e Habermas).
[3] Kinsella, A Ética da Argumentação de Hoppe e seus críticos.
[4] Hoppe, Como descobri o “Ação Humana” e Mises como um filósofo”; Sobre a Ética Argumentativa, e outras referências em Kinsella, Ética Argumentativa e Liberdade: um guia conciso.
[5] Veja Magness sobre Hoppe; o Kochtopus e o Mises Caucus; veja também Prychitko sobre Habermas e o austríaco: Onde está Hoppe?; Hoppe: Aluno anarco-conservador de Habermas.
[6] Veja Frank Van Dun; “Argumentation Ethics and The Philosophy of Freedom”; also Kinsella, Ética Argumentativa e Liberdade: um guia conciso; idem, “Dialogical Arguments for Libertarian Rights,” “Defending Argumentation Ethics,”, and “The Undeniable Morality of Capitalism,” all in Legal Foundations of a Free Society (Houston, Texas: Papinian Press, 2023).









