O papel de Isaac Newton na história do pensamento econômico

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Isaac Newton é certamente um dos cientistas mais importantes da história da humanidade – matemático, físico, astrônomo, filósofo e teólogo. Na segunda metade de sua vida, ele descobriu o mundo das ciências econômicas, com foco na economia monetária. Sua história não é muito diferente da de Copérnico. Newton se colocou a serviço de seu país, estudando a cunhagem, para resolver com sucesso a crise econômica que o afligia. Além disso, a maneira pela qual sua pesquisa científica influenciou a filosofia posterior também é um aspecto rastreável de muitos economistas da tradição clássica.

Mestrado da Casa da Moeda Real

Em 1699, Isaac Newton, que se tornou famoso em toda a Grã-Bretanha por seus estudos científicos, foi nomeado Mestre da Casa da Moeda Real. Esse papel sempre foi puramente simbólico, mas não foi assim para Newton, que o levou muito a sério (ao contrário dos burocratas que o precederam). O Reino Unido estava, de fato, em uma grave crise monetária devido à falsificação muito frequente sofrida pela moeda: os fraudadores lixavam as bordas das moedas e colocavam moedas de menor valor intrínseco em circulação, causando uma inflação desastrosa em toda a Inglaterra.

O próprio Newton foi responsável por encontrar e punir fraudadores e desenvolveu novas técnicas para limitar a possibilidade de falsificação, como o serrilhado na borda das moedas que ainda é usado hoje. Mas o mais importante de tudo foi a precisão matemática com que as moedas tiveram que ser cunhadas: a cunhagem de martelo foi abolida e substituída pela cunhagem de máquina. A quantidade de metal contida nas moedas tinha que ser meticulosa e padronizada.

Neste último ponto, Newton tinha um grande aliado e amigo: John Locke. Até mesmo o famoso filósofo liberal britânico argumentou que o valor da moeda deveria corresponder ao metal contido, dizendo com ironia: “Pode-se racionalmente esperar alongar um pé dividindo-o em quinze partes em vez de doze, e chamando-as de polegadas”. Esse eixo entre Locke e Newton não passou despercebido por Rothbard, que em seu livro História do Pensamento Econômico – Uma Perspectiva Austríaca, escreveu:

            “Felizmente, a visão de Locke triunfou, e a recunhagem foi decidida e realizada em 1696 nas linhas lockeanas: a integridade do peso da denominação de prata da moeda foi preservada. A recunhagem lockeana foi auxiliada pelo velho amigo de Locke, o grande físico Sir Isaac Newton (1642-1727) que, enquanto ainda era professor de matemática em Cambridge a partir de 1669, também se tornou diretor da Casa da Moeda em 1696, e ascendeu a mestre da Casa da Moeda três anos depois, continuando nesse cargo até sua morte em 1727. Newton concordou com as visões de Locke sobre a recunhagem.”

A invenção do padrão-ouro

Na época de Newton, a Grã-Bretanha estava sob um regime bimetálico onde havia dois tipos de moedas: moedas de ouro de alto valor e moedas de prata de baixo valor. Uma moeda de ouro valia 20 xelins de prata, mas em 1717, Newton impôs a equação em que uma moeda de ouro era igual a 21 moedas de prata. Na verdade, foi um erro de cálculo por parte do cientista, que involuntariamente desencadeou uma revolução econômica interessante para a Inglaterra e o mundo inteiro: as pessoas começaram a trocar moedas de ouro por moedas de prata, colocando mais ouro em circulação, enquanto a prata era exportada. O preço do ouro permaneceu estável, enquanto a prata continuou a flutuar. Esse erro de cálculo favoreceu o ouro e mudou a moeda britânica para um padrão baseado exclusivamente no ouro, em vez de ambos os metais, dando origem ao padrão-ouro.

Os britânicos perceberam os benefícios trazidos por esse novo padrão e ele foi mantido no reino por vários séculos. Foi bem-sucedido porque – sendo baseado em uma relação clara entre valor e quantidade de metal (é como se Newton tivesse aplicado a lei da gravidade à economia, raciocinando como sua famosa constante de 9,81N/kg onde uma certa quantidade de massa corresponde a uma quantidade de força) – era um sistema compreensível e aplicável globalmente.

A influência de Newton na filosofia econômica clássica

O ponto de virada que Isaac Newton trouxe para as ciências naturais necessariamente infectou também a filosofia, que – sendo a “mãe” de toda erudição – não deixou ilesos nem mesmo os economistas-filósofos subsequentes. Em Frédéric Bastiat, por exemplo, há muitas referências às ciências newtonianas e à gravidade. O foco do pensamento de Bastiat era precisamente demonstrar a harmonia social da economia de mercado como comparável à harmonia dos corpos celestes, daí o título de sua obra Harmonias Econômicas, na qual ele escreve: “Mas a inteligência que introduziu harmonia nos movimentos dos corpos celestes, implantou-a também no mecanismo interno da sociedade”.

Uma referência interessante aos corpos celestes e à astronomia é imediatamente perceptível, mas ainda mais importante é este “pensamento” ou “inteligência”: Bastiat era profundamente católico e “pensamento” é uma referência ao Logos de Deus, a suprema Inteligência divina. Newton em seu Principia escreveu: “Este mais belo sistema do sol, planetas e cometas, só poderia proceder do conselho e domínio de um Ser inteligente e poderoso”. Há um paralelo impressionante entre essas duas citações de Bastiat e Newton que sugere que o economista francês se baseou na formação cultural do físico britânico.

Mesmo o mais famoso dos economistas-filósofos clássicos, Adam Smith, não estava isento da revolução newtoniana. Sua Riqueza das Nações contém várias referências ao trabalho de Newton acima mencionado. A ligação surge nos capítulos V, VI e VII de seu Principia. No capítulo V, intitulado “Do preço real e nominal das mercadorias, ou de seu preço em trabalho e dinheiro”, é feita referência, embora não explicitamente, à lei da inércia. O capítulo VI, “Sobre os componentes do preço das mercadorias”, pode ser relacionado à lei da força. Finalmente, no Capítulo VII, “Sobre o Preço Natural e de Mercado das Mercadorias”, é encontrada uma conexão com a lei de ação e reação, bem como com o conceito de gravidade.

Isaac Newton – como outros cientistas e filósofos – participou efetivamente da história do pensamento econômico, resolvendo problemas de seu tempo e influenciando teóricos posteriores. Seu conhecimento científico também deixou sua marca neste campo do conhecimento e é bom dar-lhe crédito por isso.

 

 

 

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