O ano de 2025 consolidou o Bitcoin como uma classe de ativo global. Contudo, esse amadurecimento traz um paradoxo que todo investidor profissional deve compreender: a convergência entre a volatilidade de valoração e a volatilidade operacional.
O que muitos interpretam apenas como “oscilações monstruosas” é, na verdade, o processo de precificação (ou atribuição de valor via valoração por parte dos agentes econômicos) do único ativo que representa uma defesa real contra o monopólio estatal da moeda.
Esta transição não ocorre no vácuo; ela foi antecipada há meio século. Em Desestatização do Dinheiro (1976), Friedrich Hayek argumentou que a inflação e as crises econômicas são subprodutos inevitáveis do monopólio estatal da emissão de moeda.
Hayek propôs que a solução não viria de governos melhores, mas da livre concorrência entre moedas privadas. Para ele, o mercado selecionaria as unidades mais estáveis e confiáveis, devolvendo a soberania monetária ao indivíduo. Cinquenta anos depois, o Bitcoin materializa essa teoria como a “alternativa que o governo não pode impedir”.
O piso fiduciário sob a dominância fiscal
Atualmente, a economia norte-americana valida a tese hayekiana através de um cenário de “Impressão Gradual”. O Federal Reserve não opera mais em uma dominância total de política monetária via Teoria Moderna Monetária; ele está sob Dominância Fiscal.
Para manter a liquidez dos Treasuries e o sistema de reservas, a expansão do balanço tornou-se uma necessidade estrutural.
Nesse contexto, a institucionalização do Bitcoin via ETFs e custódia bancária serviu para firmar o ativo como o hedge definitivo contra um sistema fiduciário que se desvaloriza ad infinitum.
O capital institucional não entra no Bitcoin por mera especulação, mas por uma necessidade existencial de proteção contra a diluição monetária. É essa demanda que cria o chamado “piso fiduciário”, removendo o risco de ruína do ativo no longo prazo.
O bitcoin como proxy de risco e engenharia financeira
Entretanto, se a escassez programática protege o longo prazo, o curto prazo tornou-se suscetível à engenharia financeira de Wall Street. Ao ser integrado aos grandes balanços, o Bitcoin passou a compor o balde de “ativos de risco” (risk-on) dos algoritmos operacionais, transformando-se em um proxy de liquidez.
O surgimento de derivativos complexos — como swaps perpétuos e opções de ETFs — criou o fenômeno da “oferta sintética”, onde camadas de reivindicações de papel sobrepõem-se ao Bitcoin real.
Na prática, isso resulta em dois efeitos imediatos:
- Correlação Exacerbada: O BTC agora responde de forma muito mais agressiva a choques externos, como as políticas do Fed ou o unwinding do carry trade do iene japonês (JPY).
- Cascata de Liquidações: O preço muitas vezes deixa de refletir a demanda real e passa a refletir apenas o posicionamento técnico. Quedas verticais de preço são causadas por liquidações forçadas de players alavancados, enquanto a utilização da rede no “mundo real” permanece inalterada.
Soberania on-chain vs. eficiência em Wall Street
O investidor deve, portanto, saber navegar entre duas realidades paralelas. De um lado, a Realidade On-Chain, onde a escassez é absoluta e o protocolo segue imutável (21 milhões), fundamentando a tese de defesa contra loucuras governamentais. De outro, a Realidade de Wall Street, onde o ativo é um instrumento de arbitragem e liquidez global.
A institucionalização trouxe legitimidade e capital, mas trouxe também um potencial revés da correlação com o mercado tradicional.
Ludwig von Mises já alertava que não há meio de evitar o colapso final de um boom provocado pela expansão do crédito, como demonstrado pela Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE).
O que vemos hoje no cenário macro não é uma anomalia, mas a progressão natural desse processo, onde o Bitcoin surge como o refúgio para o capital que busca escapar da destruição planejada do poder de compra.
Conclusão
A volatilidade atual não sinaliza uma falha na tese do Bitcoin, mas sim a sua integração definitiva ao sistema financeiro global. Dito isso, é importante distanciar ruído de fundamento.
Enquanto Wall Street usa o Bitcoin para gerenciar liquidez diária e especulação de curto prazo, o investidor inteligente utiliza essa mesma eficiência para acumular o ativo em momentos de desalavancagem mecânica.
A institucionalização alterou a dinâmica de preços, mas não alterou a matemática da escassez.
No fim, o Bitcoin continua sendo o único ativo onde você pode realmente exercer o controle e a propriedade.
Como Hayek defendia, a verdadeira estabilidade não virá de um governo melhor, mas da liberdade de escolha. O Bitcoin é essa escolha materializada; a volatilidade é apenas a liberdade sendo precificada em um mundo de moedas controladas por agentes estatais.









