Por que ser um libertário anarquista?

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Na faculdade nos anos 1960 eu não era uma pessoa politizada. Embora tenha me interessado por política, principalmente na guerra que era travada no Vietnã, eu focava nos meus estudos, em pagar as contas e em ir atrás de mulher. Depois que comecei a trabalhar como professor, em 1968, gravitei rapidamente da minha nova esquerda colegial em direção ao liberalismo. Conforme fui aprendendo mais sobre Economia Austríaca, economia política, Escolha Pública e história, fui ficando cada vez mais libertário (do tipo minarquista). Porém, minhas visões continuaram a evoluir, e na virada do século XXI, senão antes, finalmente cheguei no meu destino como um libertário anarquista.

Ainda que eu não peça quaisquer desculpas por esta identidade ideológica, eu não compartilho das mesmas expectativas de meus companheiros libertários anarquistas de que uma revolução está ocorrendo agora, ou em breve irá ocorrer, em direção dos meus ideais políticos. Na verdade minhas expectativas são, quando muito, o inverso: me parece muito mais provável que nosso país continue em sua guinada em direção ao totalitarismo, embora este sistema certamente contará com as cores da nossa bandeira para se encaixar na história, cultura e gostos do nosso povo. Não espero um ditador com um bigodinho peculiar e uma horda de arruaceiros de camisa marrom tomarem o poder depois de baterem em todo mundo nas ruas. Ao invés, eu espero um ditador eleito que se pareça com George W. Bush ou Barack Obama e uma horda de policiais usando uniformes da tropa de choque completarem a manobra, apesar de que a maioria das pessoas não vai precisar apanhar e irá concordar de bom grado.

Se é assim que eu compreendo o mundo, o que, alguns se perguntam, eu estou fazendo aderindo ao anarquismo libertário? Bem, obviamente não estou adotando essa posição para estar do lado vencedor. Se este fosse meu objetivo, eu já teria encontrado uma maneira de participar do complexo industrial militar parlamentar. Não, eu me coloquei onde estou agora de um modo parecido com o de Martinho Lutero quando disse: “Aqui fico. Não posso fazer diferente.”

No meu caso, esta declaração significa em primeiro lugar que eu estou simplesmente fazendo o que me parece a coisa decente a se fazer; que tomar qualquer outra posição ideológica iria me envolver em perversidades das quais não quero fazer parte. Embora eu sinceramente acredite que um mundo sem estado seria infinitamente melhor que o mundo atual, com melhor saúde, maior riqueza, e bem estar material elevado, eu não sou um libertário anarquista prioritariamente por razões consequencialistas, mas ao invés disso prioritariamente por acreditar que é errado alguém – incluindo designados governantes e seus funcionários – cometerem fraude, extorsão, roubo, tortura e assassinato. Não acredito que exista um direito justificável de cometer estes atos; nem acredito que eu, ou qualquer outra pessoa, possa delegar aos funcionários públicos um direito legítimo de fazer algo que é errado para eu – ou você, ou qualquer outro – fazer como uma pessoa privada.

Ainda assim, alguém pode perguntar, se não espero que minha visão de um mundo justo possa vir a se realizar, por que persisto em avaliar os eventos do repulsivo “mundo real” pelos padrões concebíveis somente em meu mundo ideal? A resposta é que todo mundo tem que ter um ideal; sem um, não há padrão pelo qual se possa medir as ações e eventos imperfeitos do mundo real. Sem um padrão, só se é possível desdenhar, como um personagem de um romance existencialista, numa indiferença indolente a perversidade política desenfreada por toda parte. Assim como um devoto cristão buscando viver como Cristo, sabendo perfeitamente que ninguém pode alcançar o padrão estabelecido por Jesus, eu tento viver e fazer julgamentos de eventos que chegam ao meu conhecimento sob a ótica do axioma da não-agressão. A iniciação de violência ou de ameaça de violência contra terceiros inocentes é errada, independente dos fins nobres que possam ser usados para justificar esta violência ou ameaça. É errado para mim, errado para você, e errado para o presidente e seus comparsas.

Como o cristão que inevitavelmente cai no pecado, posso falhar no meu ideal. Posso agir ou falar inconsistentemente em relação a ele. Muitos problemas públicos são complicados, e em relação a eles posso não conseguir discernir a melhor maneira de agir de acordo com meu ideal ideológico. Se você me alertar sobre minha inconsistência, posso tentar deixar meu orgulho de lado, admitir meu erro e corrigi-lo. Conforme novos problemas vão surgindo, a tarefa de descobrir a melhor maneira de lidar com as questões mais urgentes irá se repetir constantemente. Talvez, como São Paulo em suas cartas as novas igrejas do mundo antigo, possamos aspirar instruir uns aos outros sobre a prática e entendimento mais adequados do anarquismo libertário. Apenas bradar que a ordem existente é podre, está a ponto de colapsar e, uma vez que tenha caído, será substituída pelo anarquismo libertário me parece tão inutilmente ingênuo que tendo a encorajar meus camaradas ideológicos que agem assim a se recomporem. É preciso combinar a integridade moral com um entendimento solidamente fundamentado do mundo social, político e econômico e de como ele opera. Caso contrário, nossas declarações e ações se tornam irremediavelmente quixotescas.

Não tenho esperanças de estar vivo para ver um mundo que sequer se aproxime do meu ideal. Na verdade, temo que ao invés disso viva o suficiente para ver a espécie mais obscena de estado policial no poder nos EUA – afinal, estamos apenas a uma curta distância deste destino horrível, e muitos americanos parecem ansiosos para chegarmos lá o quanto antes. Não obstante, estou em paz com minhas convicções ideológicas. Ter adotado qualquer outra coisa teria sido um grande erro para mim. Levei quase uma vida para chegar a minha posição atual; não foi fácil e nem sem pensar e estudar muito. Claro que ainda posso estar errado em todos os aspectos; sou um ser humano, e como tal certamente estou sujeito a sair do eixo moral e intelectual. Porém, não sugiro ficar paralisado por esta susceptibilidade humana ao erro. Sentindo a necessidade de se posicionar de alguma forma como um participante do eventos de minha época e lugar, me coloquei firmemente onde ora estou. Pela luz me foi permitido enxergar o certo, não posso fazer diferente.

 

Tradução de Fernando Fiori Chiocca

Artigo original aqui.

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