Quando a polícia das palavras entra em campo

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Recentemente, o Sport Club Corinthians foi punido pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) por “gritos homofóbicos” cantados por sua torcida em um jogo válido pelo Campeonato Brasileiro contra seu rival histórico: o São Paulo Futebol Clube.

Na ocasião, durante o segundo tempo, o árbitro interrompeu a partida e, sem sucesso, uma mensagem no placar eletrônico da arena pediu que os gritos cessassem. O canto, que mais parece uma brincadeira de quinta-série, incentiva o Corinthians a vencer seu adversário, referindo-se a ele por um termo aparentemente agora proibido. Algumas semanas depois, em uma nova partida entre as duas equipes, desta vez pela Copa do Brasil, foi noticiado que um juiz do STJD estaria presente na arena do Corinthians, inaugurando assim o cargo “fiscal de cantos”. Felizmente, após ampla campanha nas redes sociais, desta vez os gritos foram suprimidos, o que evitou que a pena fosse ampliada.

A punição, aplicada ao clube e aplaudida pela mídia progressista como mais um passo no combate à homofobia (aí referida como discriminação contra homossexuais e não pavor dos mesmos como a etimologia leva a crer), foi disputar a partida contra o Vasco da Gama de portões fechados, portanto sem torcida e a renda da bilheteria. Na coletiva de imprensa, como não poderia deixar de ser, alguns jornalistas militantes, em vez de fazerem perguntas sobre o jogo, questionaram o técnico corinthiano sobre a punição, levando-o a concluir que “as coisas mudaram e a torcida precisa entender”.

Vale aqui resgatar um breve histórico: no início dos anos 2000, o ex-jogador do Corinthians e hoje comentarista Vampeta, às vésperas de um jogo decisivo contra o São Paulo Futebol Clube teria, na saída de um bar ou estabelecimento semelhante, passado em frente a uma sorveteria e visto o jovem jogador Kaká no local. De maneira irreverente, Vampeta, adepto de noitadas regadas a álcool, teria afirmado que sorvete era coisa de “bambi”, ou seja, em sua opinião, algo não viril o bastante para um jogador de futebol. O termo “bambi” acabou sendo adotado pela torcida do Corinthians para se referir a torcedores e jogadores do São Paulo, que, por sua vez, aludem aos corinthianos usando termos como Gambás (preto e branco) ou Galinhas, numa referência a uma de suas principais torcidas.

Saltamos alguns anos adiante: na Libertadores de 2012 o Corinthians vai jogar no México, onde os torcedores do time local cantam “puto” em uníssono cada vez que o goleiro adversário corre para bater um tiro de meta. A torcida do Corinthians decide então adotar o grito em jogos no Pacaembu (a arena ainda não havia sido construída), traduzindo “puto” para o português, principalmente em jogos contra o SPFC, quando o goleiro e ídolo do time rival se preparava para repor a bola. Esse foi o primeiro grito a ser censurado sob ameaça de multas e perda de mando de campo do clube. Afinal, esta terrível ameaça à diversidade no futebol precisava ser coibida. Detalhe: sem nenhum juízo de valor, que se saiba, o ex-goleiro do São Paulo é heterossexual, o que constitui uma “pequena” falha lógica na acusação de homofobia.

No entanto, um canto ainda persistiu ao longo dos anos. Uma adaptação do grito “Vamos, vamos Corinthians, esse jogo teremos que ganhar”, feita especialmente para jogos contra o rival São Paulo, onde “esse jogo” é substituído, novamente, pela palavra proibida. Nunca conheci um São Paulino sequer que se ofendesse com a brincadeira. Mas a mídia e os ativistas do STJD estavam em uma missão que não podia ser interrompida.

Que um indivíduo não deve ser agredido por suas opções sexuais num estádio de futebol ou em qualquer outro lugar, está na lei e parece ser consenso hoje em dia.  A pergunta que fica é: onde está a homofobia em um grito dirigido a um time adversário do qual se desconhece a preferência sexual de seus atletas? Como isso seria possível?

Pode-se alegar que a homofobia está no uso do termo, supostamente pejorativo, utilizado para se referir ao adversário. Mas é sabido que mesmo dentro do meio LGBT (e das outras letras acrescentadas à sigla nos últimos anos) ele é utilizado sem qualquer intenção de ofensa, muitas vezes até mesmo de forma carinhosa.

Dessa forma, conclui-se que o árbitro da partida e o STJD, imbuídos de poderes telepáticos, são capazes de adivinhar a intenção por trás das palavras, classificando-as de acordo com seus critérios progressistas na cruzada por um mundo melhor.

A partir daí, quando o árbitro da partida tem sua progenitora ofendida, isso também não seria um preconceito contra a profissão mais antiga do mundo? Alguma sumidade jurídica vai também querer calar esse grito? E depois desse, qual o próximo? E o próximo?

Será que é papel do STJD se tornar polícia da linguagem? Estamos realmente falando sobre combate à discriminação ou simplesmente mais uma tentativa de controle social, utilizando o futebol como ferramenta?

Em breve, com a conivência dos clubes e de seus próprios torcedores (sim, muitos corinthianos aplaudiram a punição) quem sabe uma cartilha com os cantos permitidos será distribuída pelas divindades que julgam o que pode ou não ser dito. E aí, estaremos finalmente testemunhando a versão desportiva do clássico 1984.

3 COMENTÁRIOS

  1. sou corintiano e achei muito bom seu texto, coisa tão banal que o torcedor sempre fez de brincar com torcedores de outros times estão tornando isso um crime. O corinthians enfrenta uma delicada situação, boa parte de sua torcida se identifica com o comunismo devido sua história com a “democracia corinthiana” tão ilusória quanto elogiada pelos esquerdistas, e agora o feitiço se volta contra o feiticeiro, as lacrações de nova esquerda está colocando esse povo em uma confusa situação, de lacrar e acabar com movimentos do clube, como foi o caso da perseguição do time feminino do corinthians contra contratação do técnico Cuca, conseguiram derrubar o técnico e colocar o time que todos assistem, no caso o masculino, em apuros, enfim a história de quem lacra não lucra no corinthians só chove no molhado, vai pagar um preço salgado por essa lacração e o feitiço se volta contra o feiticeiro.

  2. Eu sempre achei que chamar corintiano de gambás fosse uma ofensa, pois gamba aqui no Sul pode ser sinônimo de burro ou cachaceiro…

    Aqui a torcida do Internacional tem vários cantos chamando o grêmio de puto.

    Excelente artigo.

  3. Nunca imaginei que iriam tocar até mesmo nos velhos costumes dos times de futebol, eu não torço por ou contra nenhum dos dois times, mas sempre vi essas “zoeiras” como uma maneira de expressar à rivalidade entre os dois times, é terrível que os agentes do Estado estejam tocando até mesmo nisso, e como sempre, muita gente está aplaudindo, como se isso estivesse fazendo à vida de alguém melhor. Ótimo artigo.