Teoria e História

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Capítulo 14. As Características Epistemológicas da História

1. A Previsão nas Ciências Naturais

 

AS CIÊNCIAS NATURAIS têm dois modos de prever os eventos futuros: a previsão ampla e a previsão estatística. A primeira diz: b segue a. A segunda diz: em x% dos casos b segue a; em (100-x)% de todos os casos não-b segue a.

Nenhuma dessas previsões pode ser chamada de apodítica; ambas se baseiam na experiência. A experiência é, necessariamente, de eventos passados. Só se pode recorrer a ela para a previsão de eventos futuros com o auxílio do pressuposto de que uma uniformidade invariável predomina na concatenação e sucessão de fenômenos naturais. Ao se referir a este pressuposto apriorístico, as ciências naturais utilizam-se da indução ampliativa, inferindo a partir da regularidade observada no passado a mesma regularidade nos eventos futuros.

A indução ampliativa é a base epistemológica das ciências naturais. O fato de que diversas máquinas e aparelhos projetados de acordo com os teoremas das ciências naturais funcionam e operam da maneira esperada proporciona uma confirmação prática tanto dos teoremas envolvidos quanto do método indutivo. No entanto, esta corroboração também se refere somente ao passado; ela não exclui a possibilidade de que um dia os fatores até então desconhecidos por nós possam produzir efeitos que produzam o caos em nosso conhecimento e nossas habilidades tecnológicas. O filósofo tem que admitir que não há como o homem mortal adquirir um conhecimento seguro sobre o futuro. O agente homem, no entanto, não tem motivo para dar qualquer importância à precariedade lógica e epistemológica das ciências naturais; elas fornecem a única ferramenta mental que pode ser usada na busca incessante pela vida. Elas provaram sua validade prática. Como não há outro modo do conhecimento se abrir para o homem, não resta a ele qualquer outra alternativa. Se ele quer sobreviver e tornar sua vida mais agradável, ele deve aceitar as ciências naturais como guias rumo ao sucesso tecnológico e terapêutico. Ele deve se comportar como se as previsões das ciências naturais fossem verdades, talvez não verdades eternas e inabaláveis, mas ao menos verdades durante o período de tempo que a ação humana planeja abranger.

A segurança com a qual as ciências naturais anunciam suas descobertas não está fundamentada apenas neste como se. Ela também deriva da intersubjetividade e da objetividade da experiência, que é a matéria prima das ciências naturais e o ponto inicial do seu raciocínio. A percepção dos objetos externos é tamanha que entre todos aqueles que estão numa posição que lhes permita ter consciência deles pode-se facilmente concordar a respeito da natureza dessa percepção. Não existe discórdia a respeito da leitura de um ponteiro que não possa ser encerrada com uma resolução final. Os cientistas podem discordar a respeito de teorias, mas nunca discordam durante muito tempo acerca do estabelecimento daquilo que se chama de fatos puros. Não há como se discutir se um pedaço específico de algo é feito de cobre ou ferro, ou se seu peso é de duas ou cinco libras.

Seria absurdo não reconhecer a importância das discussões epistemológicas a respeito da indução, da verdade, e do cálculo matemático da probabilidade. Mas estas disquisições filosóficas não contribuem para os nossos esforços de analisar os problemas epistemológicos das ciências da ação humana. O que a epistemologia das ciências da ação humana tem que ter em mente sobre as ciências naturais é que suas teorias, embora extraídas da experiência, isto é, do que aconteceu no passado, foram usadas com sucesso para planejar ações futuras.

 

2. História e Previsão

 

Em seu aspecto lógico, os procedimentos aplicados nas investigações mais elaboradas no campo dos eventos naturais não diferem da lógica mundana do cotidiano de todos. A lógica da ciência não é diferente da lógica à qual qualquer indivíduo recorre nas reflexões que antecedem suas ações ou analisam seus efeitos posteriormente. Só existe um a priori e uma única lógica concebível para a mente humana. Consequentemente, só existe uma ciência natural que pode suportar o exame crítico feito pela análise lógica da experiência disponível.

Como só existe um tipo de pensamento lógico, só existe uma praxeologia (e, a propósito, somente uma matemática) válida para todos. Como não existe pensamento humano que não possa distinguir entre A e não-A, também não existe ação humana que não possa distinguir entre meios e fins. Esta distinção implica que o homem atribui valores, isto é, que ele prefere A a B.

Para as ciências naturais o limite do conhecimento é o estabelecimento de um dado irredutível, isto é, um fato cuja origem não possa ser identificada em outro fato do qual ele pareceria ser a consequência necessária. Para as ciências da ação humana o dado irredutível são os julgamentos de valor daqueles que agem e as ideias que engendram esses julgamentos de valor.

É exatamente este fato que impede a utilização dos métodos das ciências naturais para resolver os problemas da ação humana. Observando a natureza, o homem descobre uma regularidade inexorável na reação dos objetos aos estímulos. Ele classifica as coisas de acordo com o padrão de suas reações. Uma coisa concreta, como, por exemplo, o cobre, é algo que reage da mesma maneira que outros exemplares da mesma classe. Como os padrões desta reação são conhecidos, o engenheiro sabe que reação futura ele deve esperar por parte do cobre. Este conhecimento antecipado, a despeito das ressalvas epistemológicas a que se referiu a seção anterior, é considerado apodítico. Toda a nossa ciência e filosofia, toda a nossa civilização, teriam que ser questionadas instantaneamente se, em apenas um instante e por um momento, os padrões dessas reações variassem.

O que distingue as ciências da ação humana é o fato de que não existe este conhecimento prévio dos julgamentos de valor dos indivíduos, dos fins que eles buscarão sob o impacto destes julgamentos de valor, dos meios aos quais eles recorrerão para obter os fins que estão buscando e dos efeitos de suas ações, na medida em que estas coisas não são inteiramente determinadas por fatores cujo conhecimento é transmitido pelas ciências naturais. Sabemos algo a respeito destas coisas, mas nosso conhecimento delas e sobre elas é categoricamente diferente do tipo de conhecimento que as ciências naturais experimentais fornecem sobre os eventos naturais. Poderíamos chamar isso de conhecimento histórico, se este termo não estivesse sujeito a ser mal-interpretado por sugerir que este conhecimento serve apenas ou principalmente para elucidar eventos do passado. No entanto, sua utilidade mais importante pode ser vista no serviço que ele presta à antecipação das condições futuras e ao planejamento da ação que tem sempre, necessariamente, como meta afetar as condições futuras.

Algo acontece no âmbito da política doméstica da nação. Como reagirá o senador X, o homem de destaque do partido verde? Muitos homens bem-informados poderão ter uma opinião acerca da reação a ser esperada do senador. Talvez uma dessas opiniões se revele correta. Mas pode também acontecer que nenhuma delas esteja certa, e o senador reaja de uma maneira que não foi prevista por ninguém. E surge então um dilema semelhante na análise dos efeitos gerados pela maneira que o senador reagiu. O segundo dilema não pode ser resolvido como o primeiro, assim que se conheceu a ação do senador. Durante séculos os historiadores poderão discordar a respeito dos efeitos produzidos por determinadas ações.

A epistemologia tradicional, preocupada exclusivamente com os problemas lógicos das ciências naturais e totalmente ignorante da própria existência do campo da praxeologia, tentou lidar com esses problemas a partir do ponto de vista de sua ortodoxia tacanha e dogmática. Ela condenou todas as ciências que não são ciências naturais experimentais por serem atrasadas e comprometidas com um método metafísico e filosófico datado, isto é, em seu ponto de vista, estúpido. Ela confundiu probabilidade, no sentido que o termo é utilizado nas expressões coloquiais que se referem à história e à ação prática cotidiana com o conceito de probabilidade tal como ele é empregado no cálculo matemático da probabilidade. Por fim, surgiu a sociologia. Ela prometia substituir o lixo e as fofocas vazias dos historiadores por uma ciência verdadeira, desenvolvendo uma ciência a posteriori das “leis sociais” que seriam derivadas a partir da experiência histórica.

Esta depreciação dos métodos da história motivou primeiro Dilthey, depois Windelband, Rickert, Max Weber, Croce e Collingwood à oposição. Suas interpretações foram insatisfatórias, em muitos aspectos. Foram iludidos por diversos dos erros fundamentais do historicismo. Todos, com a exceção de Collingwood, foram totalmente incapazes de reconhecer o caráter unicamente epistemológico da economia. Foram vagos em suas referências à psicologia. Os quatro primeiros, além do mais, apresentaram o preconceito chauvinista que, na época do pangermanismo, induziu até mesmo os mais eminentes pensadores alemães a menosprezar os ensinamentos do que eles chamavam de filosofia ocidental. No entanto, o fato é que eles conseguiram elucidar de maneira brilhante as características epistemológicas do estudo da história. Eles destruíram para sempre o prestígio daquelas doutrinas epistemológicas que culpavam a história por ser história e não “física social”. Eles desmascararam a futilidade da procura por leis a posteriori de mudanças ou transformações históricas que tornariam possível a previsão da história futura do mesmo modo que os físicos prevêem o comportamento futuro do cobre. Eles fizeram com que a história se tornasse autoconsciente.

 

3. A Compreensão Específica da História

 

A praxeologia, ciência a priori da ação humana e, mais especificamente, sua parte mais desenvolvida até agora, a economia, fornece em seu campo uma interpretação consumada dos eventos passados registrados e uma previsão consumada dos efeitos a serem esperados de ações futuras específicas. Nem esta interpretação nem esta previsão informam qualquer coisa sobre a qualidade e o conteúdo real dos julgamentos de valor do agente homem. Ambas pressupõem que os indivíduos estão avaliando e agindo, mas seus teoremas são independentes e não são afetados pelas características específicas desta avaliação e ação. Estas características são, para as ciências da ação humana, dados últimos; são aquilo que é chamado de individualidade histórica.

Existe, no entanto, uma diferença monumental entre o dado irredutível nas ciências sociais e no campo da ação humana. Um dado irredutível da natureza é — por ora, ao menos, até que alguém consiga demonstrar que ele é a consequência necessária de outro dado irredutível — um ponto final para a reflexão humana. Ele é como ele é, e isso é tudo que o homem pode falar sobre ele.

Com o dado irredutível da ação humana, no entanto, com os julgamentos de valores de indivíduos e as ações motivadas por eles, a situação é diferente. São dados irredutíveis porque sua origem não pode ser identificada em algo do qual eles pareceriam ser a consequência necessária; se isso ocorresse, não seria admissível chamá-los de dados irredutíveis. Mas não são, como o dado irredutível nas ciências naturais, um ponto final de um modo específico de reflexão, da compreensão específica das ciências históricas da ação humana.

Se o cientista que realiza experimentos no laboratório estabelecer um fato que, ao menos durante aquele período de tempo não possa ter sua origem remontada a outro fato do qual ele pareça ter derivado, não há nada mais a se dizer sobre a questão. Mas se nos deparamos com um julgamento de valor e a ação resultante dele, podemos tentar entender como ele se originou na mente de quem realizou a ação.

Esta compreensão específica da ação humana, tal como ela é praticada por todos em todas as suas ações e relações inter-humanas, é um processo mental que não deve ser confundido com qualquer um dos esquemas lógicos aos quais as ciências naturais e todos envolvidos com atividades puramente tecnológicas ou terapêuticas recorrem.

A compreensão específica tem como meta a cognição das ações de outros indivíduos. Ela pergunta, em retrospecto: o que ele estava fazendo, o que ele tencionava? Qual foi a sua intenção ao escolher este fim específico? Qual foi o resultado de sua ação? Ou então ela faz perguntas análogas a respeito do futuro: que fins ele escolherá? O que ele fará para obtê-los? Qual será o resultado de sua ação?

Na vida real, todas essas perguntas raramente são  feitas isoladamente. Elas quase sempre estão associadas a outras perguntas que se referem à praxeologia ou às ciências naturais. As distinções categoriais que a epistemologia inevitavelmente faz são ferramentas de nossas operações mentais. Os eventos reais são fenômenos complexos e só podem ser compreendidos pela mente se cada uma das diversas ferramentas disponíveis for utilizada para o seu propósito adequado.

O principal problema epistemológico da compreensão específica é: como pode um homem ter qualquer conhecimento acerca dos julgamentos de valor e ações futuras de outras pessoas? O método tradicional para se lidar com este problema, comumente chamado de problema do álter ego ou Fremdverstehen, não é satisfatório. Ele focava a atenção na compreensão do significado do comportamento de outras pessoas no “presente” ou, mais corretamente, no passado. Porém a tarefa que o agente homem, isto é, todos, se depara em todas as suas relações com seus semelhantes não diz respeito ao passado, mas sim ao futuro. Conhecer as reações futuras de outras pessoas é a tarefa primordial do agente homem. O conhecimento de seus julgamentos de valor e ações passadas, por mais indispensável que seja, é apenas um meio para este fim.

É óbvio que este conhecimento, que propicia a um homem a capacidade de prever até certo ponto as atitudes futuras de outras pessoas não é um conhecimento a priori. A disciplina a priori da ação humana, a praxeologia, não lida com o conteúdo de fato dos julgamentos de valor; lida apenas com o fato de que os homens avaliam e então agem de acordo com suas avaliações. O que sabemos sobre o conteúdo de fato dos julgamentos de valor pode ser derivado apenas a partir da experiência. Temos a experiência dos julgamentos de valor e das ações passadas de outras pessoas; e temos a experiência de nossos próprios julgamentos e ações.

A esta última costuma-se chamar de introspecção. Para distingui-la da psicologia experimental, o termo timologia foi sugerido num capítulo anterior[1] para o ramo do conhecimento que lida que os julgamentos de valor e ideias humanas.

Wilhelm Dithey enfatizou o papel que a timologia — obviamente, ele a chamou de psicologia — desempenha nas Geisteswissenschaften, as ciências mentais ou morais, ciências que lidam com os julgamentos de valor, ideias e pensamentos humanos, e como operam no mundo externo.[2] Não nos cabe buscarmos a origem das ideias de Dilthey em autores que o precederam. Não há dúvida que ele deveu muito aos seus antecessores, especialmente David Hume. Mas o exame destas influências deve ser deixado para os tratados que lidam com a história da filosofia. A principal contribuição de Dilthey foi mostrar de que modo o tipo de psicologia ao qual ele se referia era diferente, epistemológica e metodologicamente, das ciências naturais e, por consequência, da psicologia experimental.

 

4. Experiência Timológica

 

A experiência timológica é o que conhecemos sobre os julgamentos de valor humanos, as ações determinadas por eles, e as respostas que estas ações despertam em outras pessoas. Como já foi dito, essa experiência surge ou a partir da introspecção ou a partir das interações com outros homens, da maneira como agimos nas diversas relações inter-humanas.

Como toda experiência, a experiência timológica também é, necessariamente, um conhecimento das coisas que aconteceram no passado. Por motivos suficientemente esclarecidos nas primeiras seções deste ensaio, não se pode atribuir a ela o significado que as ciências naturais atribuem aos resultados da experimentação. O que aprendemos com a experiência timológica nunca tem a importância do que se costuma chamar, nas ciências naturais, de um fato verificado experimentalmente; permanece sempre um fato histórico. A timologia é uma disciplina histórica.

Na falta de uma ferramenta melhor, devemos recorrer à timologia se queremos prever as atitudes e ações futuras de outras pessoas. A partir da nossa experiência timológica geral, adquirida diretamente, através da observação de nossos semelhantes e de nossas interações com eles, ou indiretamente, através da leitura e do que ouvimos falar, bem como da nossa experiência especial adquirida nos contatos anteriores com os indivíduos ou grupos em questão, tentamos formar uma opinião sobre a sua conduta futura. É fácil ver no que consiste a diferença fundamental entre este tipo de previsão e a que faz um engenheiro ao fazer o projeto para a construção de uma ponte.

A timologia não nos diz nada além do fato de que o homem é movido por diversos instintos inatos, diversas paixões, e diversas ideias. O indivíduo que está fazendo previsões tenta colocar de lado estes fatores, que claramente não desempenham papel algum no caso concreto que está sendo considerado. Ele escolhe, então, entre os fatores restantes.

Costuma-se qualificar estes prognósticos como mais ou menos prováveis, e contrastá-los com as previsões feitas pelas ciências naturais, que já foram chamadas de certas e que ainda são consideradas certas e exatas por pessoas que não estão familiarizadas com os problemas da lógica e da epistemologia. Colocando de lado estas últimas questões, devemos enfatizar que a probabilidade dos prognósticos a respeito da ação humana futura tem pouco em comum com o tipo de probabilidade com o qual se lida no cálculo matemático da probabilidade. O primeiro é probabilidade de caso, e não probabilidade de classe.[3] Para evitar confusão, é aconselhável referir-se à probabilidade de caso como possibilidade.

Na compreensão específica dos eventos futuros existem, via de regra, dois tipos de possibilidade a serem determinadas. A primeira se refere à enumeração dos fatores que podem vir a ter um efeito, ou tiveram um efeito, na produção do resultado. A segunda se refere à influência de cada um destes fatores na produção do resultado. Pode-se ver com facilidade que a possibilidade de que a enumeração dos fatores que estão operando seja correta e completa é muito maior do que a possibilidade de que se atribua a cada um deles a medida exata da sua participação. No entanto, a correção ou incorreção de um prognóstico depende da correção ou incorreção desta última avaliação. A precariedade da previsão se deve principalmente à complexidade deste segundo problema. Não se trata de uma questão intricada apenas para a previsão de eventos futuros; ela é igualmente intricada para o historiador que examina o retrospecto.

Não basta, para o estadista, o político, o general ou o empreendedor, conhecer todos os fatores que podem contribuir para a determinação de um evento futuro. Para prever corretamente eles também devem prever corretamente o quanto, por assim dizer, cada fator contribuiu e o instante no qual a sua contribuição se tornará efetiva. E, posteriormente, os historiadores se depararão com a mesma dificuldade, ao analisar e tentar compreender o caso em retrospecto.

 

5. Tipos Reais e Tipos Ideais

 

As ciências naturais classificam as coisas do mundo externo de acordo com a sua reação aos estímulos. Como o cobre é algo que reage de uma maneira específica, o nome cobre não é atribuído a algo que reaja de uma maneira diferente. Ao estabelecer o fato de que uma coisa é cobre, estamos fazendo uma previsão sobre o seu comportamento futuro. O que é cobre não pode ser ferro ou oxigênio.

Ao agir — em sua rotina cotidiana, bem como na tecnologia, na terapêutica e também na história — as pessoas se utilizam de “tipos reais”, isto é, conceitos de classe que distinguem as pessoas ou instituições de acordo com traços claramente definíveis. Estas classificações podem se basear em conceitos da praxeologia e da economia, da jurisprudência, da tecnologia e das ciências naturais. Pode se referir, por exemplo, aos italianos, tanto como habitantes de uma área específica, ou como pessoas dotadas de uma característica legal especial, a saber, a nacionalidade italiana, ou ainda como um grupo linguístico específico. Este tipo de classificação é independente da compreensão específica; ela aponta para algo que é comum a todos os membros daquela classe. Todos os italianos, no sentido geográfico do termo, são afetados pelos eventos geológicos e meteorológicos que atingem o seu país. Todos os cidadãos italianos estão envolvidos com os atos legais relativos às pessoas de sua nacionalidade. Todos os italianos, no sentido linguístico do termo, estão numa posição que lhes permite serem compreendidos uns pelos outros. Quando se chama um homem de italiano, em qualquer uma destas três conotações, não se está querendo dizer nada mais do que isso.

O traço característico de um “tipo ideal”, por outro lado, é que ele implica alguma proposição a respeito da avaliação e da ação. Se um tipo ideal se referir a pessoas, ele implica que, de alguma forma, estes homens estão avaliando e agindo de uma maneira uniforme ou similar. Quando ele se refere a instituições, ele implica que estas instituições são produtos de maneiras uniformes ou similares de avaliar e agir, ou que influenciam a avaliação e a ação de uma maneira uniforme e semelhante.

Tipos ideias são construídos e utilizados com base num modo específico de compreensão do curso dos acontecimentos, seja para prever o futuro ou analisar o passado. Se, ao lidar com as eleições americanas, se faz referência ao voto italiano, a implicação é que existem votos de descendentes de italianos que serão influenciados, até certo ponto, por sua origem italiana. Dificilmente alguém negará que este grupo de eleitores de fato existe; mas as pessoas discordam amplamente quanto ao número de cidadãos que deve ser incluído nesse grupo e até que ponto seus votos são determinados por suas ideologias italianas. É esta incerteza a respeito do poder da ideologia em questão, esta impossibilidade de se descobrir e medir o seu efeito sobre as mentes dos membros individuais do grupo, que caracteriza o tipo ideal como tal e o distingue dos tipos reais. Um tipo ideal é uma ferramenta conceitual de compreensão, e o serviço que ela presta depende totalmente da utilidade do modo específico de compreensão.

Tipos ideais não devem ser confundidos com os tipos referidos no “dever”[4] moral e político, que podemos chamar de “tipos do dever” ou “tipos do que deveria ser”.[5] Os marxistas afirmam que todos os proletários se comportam necessariamente de uma maneira específica, e os nazistas fazem uma afirmação análoga referindo-se a todos os alemães. Nenhum desses partidos, no entanto, pode negar que sua declaração é insustentável enquanto proposição a respeito da realidade de fato, uma vez que existem proletários e alemães que não atuam da maneira que esses partidos chamam, respectivamente, de proletária e alemã. O que eles têm de fato em mente ao anunciar estas suas sentenças é uma obrigação moral. O que querem dizer é: todo proletário deve agir da maneira que o programa do partido e os seus expositores legítimos declaram ser proletária; todo alemão deve agir da maneira que o partido nacionalista considera ser genuinamente alemã. Estes proletários ou alemães cuja conduta não se adeque às regras são denegridos como traidores. O “tipo do dever” pertence à terminologia da ética e da política, e não à da epistemologia das ciências da ação humana.

Além do mais, é necessário separar tipos ideias de organizações que têm o mesmo nome. Ao se lidar com a história francesa do século XIX, frequentemente encontramos referências aos jesuítas e aos francos-maçons. Estes termos podem se referir às ações das organizações designadas por estes nomes; por exemplo, “a ordem jesuíta inaugurou uma nova escola” ou “as lojas dos francos-maçons doaram dinheiro para o auxílio a pessoas que sofreram com um incêndio”. Mas também podem se referir a tipos ideais, indicando que os membros destas organizações e seus amigos estão atuando, em determinados aspectos, sob a influência de uma ideologia jesuíta ou maçônica específica. Existe uma diferença entre afirmar que um movimento político é organizado, guiado e financiado pela ordem ou pelas lojas, e dizer que é inspirado por uma ideologia da qual a ordem ou as lojas são considerados os principais representantes, ou os representantes mais típicos. A primeira proposição não faz referência à compreensão específica. Ela diz respeito a fatos que poderiam ser confirmados ou desmentidos através do estudo de registros e de entrevistas com testemunhas. A segunda afirmação diz respeito à compreensão. Para se formar um julgamento sobre a sua propriedade ou impropriedade deve-se analisar ideias e doutrinas, e sua influência sobre as ações e eventos. Metodologicamente, existe uma diferença fundamental entre a análise do impacto da ideologia do socialismo marxista sobre a mentalidade e a conduta de nossos contemporâneos e o estudo das ações dos diversos governos, partidos e conspirações comunistas e socialistas.[6]

O serviço que um tipo ideal específico presta para o agente homem em seus esforços para prever os eventos futuros e para o historiador na sua análise do passado depende da compreensão específica que levou à sua construção. Para questionar a utilidade de um tipo ideal para explicar um problema específico é preciso criticar o modo de compreensão envolvido.

Ao se lidar com as condições da América Latina, o tipo ideal “general” pode ter alguma utilidade. Existiram ideologias específicas vigentes que, em determinados aspectos, determinaram o papel desempenhado por muitos — não todos — os líderes militares que se tornaram importantes na política. Do mesmo modo, na França prevaleceram ideias que, de modo geral, restringiram o papel de homens como Cavaignac, MacMahon, Boulanger, Pétain e de Gaulle. Mas nos Estados Unidos não faria sentido empregar o tipo ideal de um general político ou um general na política. Não existe nenhuma ideologia americana que consideraria as forças armadas como uma entidade separada, distinta e oposta à população “civil”. Consequentemente, não existe um esprit de corps político no exército, e seus líderes não têm prestígio autoritário entre os “civis”. Um general que se torna presidente deixa de ser um membro do exército, tanto legalmente quanto politicamente.

Ao se referir a tipos ideais o historiador do passado, assim como o historiador do futuro, isto é, o agente homem, nunca deve se esquecer que existe uma diferença fundamental entre as reações dos objetos da ciência natural e as reações dos homens. É esta diferença que as pessoas quiseram enfatizar quando falaram sobre a oposição entre mente e matéria, livre-arbítrio e individualidade. Tipos ideais são artifícios para simplificar o tratamento da variedade e multiplicidade desconcertante existente nos assuntos humanos. Ao utilizá-los, deve-se sempre ter consciência das deficiências inerentes a qualquer tipo de simplificação. A exuberância e a variabilidade da vida e da ação humana não podem ser compreendidas integralmente através de conceitos e definições. Sempre restarão perguntas não respondidas, ou que jamais poderão ser respondidas, problemas cuja solução está além da capacidade das maiores mentes.



[1] Ver p. xx.

[2] Ver especialmente Dilthey, Einleitung in die Geisteswissenschaften (Leipzig, 1883). Ver também H. A. Hodges, The Philosophy of Wilhelm Dilthey (Londres, 1952), p. 170ss.

[3] Veja acima, p. xx.

[4] No original, “oughts“. (N.T.)

[5] No original, “ought types“. (N.T.)

[6] Existe uma distinção entre o partido comunista ou um partido comunista como um corpo organizado, por um lado, e a ideologia comunista (marxista), por outro. Ao lidarem com a história e a política contemporânea, as pessoas muitas vezes não se dão conta do fato de que muitas pessoas que não são membros “de carteirinha” ou que contribuem financeiramente para uma organização partidária podem estar, seja totalmente ou em alguns aspectos, sob a influência da ideologia do partido. Uma confusão séria resulta por esse erro, especialmente quando se avalia a força das ideias do comunismo ou do nazismo na Alemanha ou do fascismo na Itália. Ademais, é necessário saber que uma ideologia pode, às vezes, influenciar também as mentes daqueles que acreditam estar totalmente alheios a ela, ou que até mesmo julgam ser seu inimigo mortal e a combatem apaixonadamente. O sucesso do nazismo na Alemanha, em 1933, se deveu ao fato de que a imensa maioria dos alemães, até mesmo aqueles que votaram para os partidos marxistas, para o partido católico de centro, e os diversos partidos dissidentes “burgueses”, estavam comprometidos com as ideias do nacionalismo agressivo radical, enquanto os próprios nazistas haviam adotado os princípios básicos do programa socialista. A Grã-Bretanha não teria se tornado socialista se os conservadores, para não mencionar os “liberais”, não tivessem apoiado as ideias socialistas.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.