Este artigo é a terceira parte da série iniciada É verdade que Keynes era um liberal? Veja aqui a segunda parte.Todas as referências bibliográficas estão contidas ao final do primeiro artigo

O tom e o conteúdo de alguns dos comentários mais extensos feitos por Keynes sobre o comunismo soviético são curiosos. Após uma viagem à União Soviética, em 1925, ele publicou um ensaio chamado A short view of Russia(1972, pp. 253–71). Skidelsky, com espantosa implausibilidade, trata o ensaio como “um dos mais severos ataques ao comunismo soviético já escritos” (1994, p. 235).

É verdade que Keynes aponta algumas falhas graves no regime soviético, em especial a perseguição aos dissidentes e a opressão generalizada. Mas considera essas falhas, em parte, fruto da revolução e resultado de “alguma bestialidade inata aos russos — ou inata a russos e judeus quando aliados, como agora”.  Tais falhas formam “uma face” da “soberba seriedade da Rússia Vermelha”. Tal seriedade pode ser dura, “rude, estúpida e enfadonha ao extremo”, como testemunha (1972, p. 270). Outro toque fino do grupo de Bloomsbury.

Keynes não fornece indício algum de que o despotismo possa ser a consequência natural, o resultado inteiramente previsível de tamanha concentração de poder nas mãos do estado, como os bolcheviques efetuaram na Rússia. Esta última concepção sempre foi o alicerce do pensamento liberal desde pelo menos a época de Montesquieu e Madison, passando por Mises e Hayek, chegando aos dias de hoje.  Era de se esperar que um genuíno liberal — como alguns afirmavam ser Keynes — chamasse a atenção para esse ponto.

Em vez disso, Keynes desmancha-se em elogios ao desejo dos soviéticos de se dedicar a audaciosos “experimentos” de engenharia social.  Na Rússia, “o método de tentativa e erro é adotado sem reservas.  Nunca houve ninguém mais francamente experimentador do que Lênin”. Quanto às falhas catastróficas dos “experimentos” implementados ainda nos primeiros anos do governo bolchevique, que haviam obrigado uma substituição do “comunismo de guerra” pelo sistema então vigente, da Nova Política Econômica (NEP), Keynes descreveu-as em termos totalmente anódinos: os “erros” anteriores haviam sido corrigidos e as “confusões”, dissipadas (p. 262).[1] Keynes sente-se fascinado pelo caráter do regime como um “laboratório da vida”, e conclui que o comunismo soviético tem “uma chance” de sucesso. Ele garante — nesse “severo ataque”, segundo seu biógrafo Skidelsky — que “mesmo sendo uma chance, todo o experimento confere ao que ocorre na Rússia mais importância do que o que ocorre (digamos) nos Estados Unidos da América” (p. 270).[2]

O que reside na origem da simpatia de Keynes pela experiência soviética? Uma dica pode ser vista no início de seu ensaio, em que sugere em tom de galhofa que o arcebispo de Cantuária seria merecedor do título debolchevique “se seguisse à risca os preceitos dos Evangelhos”. (Nesse caso, Jesus Cristo seria o primeiro agente da Cheka?).  O que mais profundamente comove Keynes é o elemento “religioso” do leninismo, cuja “essência emocional e ética concentra-se na atitude dos indivíduos e da comunidade com relação ao amor ao dinheiro” (p. 259).

Os comunistas teriam transcendido o “egoísmo materialista”, possibilitando “uma mudança sincera na atitude predominante com relação ao dinheiro. … Uma sociedade na qual isso seja verdadeiro, mesmo que parcialmente, é uma tremenda inovação”: “na Rússia do futuro, o que se pretende é que um jovem respeitável nem sequer chegue a cogitar uma carreira rendosa como uma possível oportunidade, assim como qualquer jovem respeitável não cogitaria jamais seguir a carreira de ladrão de casaca ou mesmo desenvolver habilidades em falsificação ou desfalque. … É dever de todos trabalhar em prol da comunidade — assim decreta a nova doutrina — e, aquele que cumprir com suas obrigações, dela terá apoio” (pp. 260–61).

Em contraste com essa religiosidade inspiradora, “o moderno capitalismo é absolutamente irreligioso”, despido de todo senso de solidariedade e espírito público: “parece cada dia mais claro que o problema moral de nossa época está associado ao amor ao dinheiro, à presença do apelo habitual da motivação pecuniária em nove décimos das atividades da vida, ao empenho universal pela segurança econômica individual como principal alvo dos esforços, à aprovação social do dinheiro como medida do sucesso construtivo, ao apelo social ao instinto de poupança como base para o necessário sustento da família e para o provimento para o futuro” (268–29). Durante anos, Keynes entreteria essa predileção pela moralidade do comunismo à do capitalismo.

Em 1928, ele fez uma segunda visita à Rússia, a qual gerou uma avaliação menos favorável. Muito embora Skidelsky garanta que “restava claro que o romance havia acabado” (1992, pp. 235–236), esse juízo não está correto. O romance continuou pelo menos até 1936, com a resenha de Keynes sobre o livro Soviet Communism, de seus amigos Sidney e Beatrice Webb.  Nenhum daqueles que afirma que Keynes era um liberal analisou de maneira franca o pronunciamento nada ambíguo[3] contido em uma breve transmissão radiofônica que ele fez para a BBC, em junho de 1936, como parte da série de programas Books and Authors (1982b, pp. 333–34).

A única obra da qual Keynes ocupou-se detidamente foi o grosso volume, recém-publicado, de autoria dos Webbs: Soviet Communism (A primeira edição trazia como subtítulo A new civilisation? mas em edições posteriores o ponto de interrogação foi suprimido).  Líderes da Sociedade Fabiana, há décadas os Webbs empenhavam-se em introduzir o socialismo na Grã-Bretanha. Na década de 1930, haviam virado ardorosos propagandistas do novo regime da Rússia comunista — nas palavras de Beatrice, eles tinham “se apaixonado pelo comunismo soviético” (citado em Muggeridge e Adam 1968, p. 245). (O que ela chamava de “paixão”, Malcolm Muggeridge, seu sobrinho por parte de marido, viria a rotular de “adulação enlouquecida” [1973, 72].)

Ao longo das três semanas de visita à Rússia, quando — gabava-se Sidney — receberam um tratamento digno de “um novo tipo de realeza”, as autoridades soviéticas contribuíram para o livro dos Webbs com supostos fatos e dados (Cole 1946, 194; Muggeridge e Adam 1968, 245). Os apparatchiki stalinistas ficaram mais do que satisfeitos com o resultado final.  Na própria Rússia, o regime encarregou-se de traduzi-lo, publicá-lo e promovê-lo; como disse Beatrice: “Sidney e eu viramos ícones na União Soviética” (citado em Muggeridge 1973, p. 206).[4]

Desde o lançamento, Soviet Communism tem sido visto como aquele que é provavelmente o primeiro e principal exemplo da ajuda e do encorajamento que literatos simpatizantes dariam, de maneira pródiga e deslavada, ao estado terrorista stalinista. Se Keynes fosse mesmo um liberal, apaixonado pela livre sociedade, era de se esperar que, apesar de sua amizade com os autores, a resenha do livro fosse uma severa denúncia — mas o que se vê é o oposto. Como Beatrice anotou em seu diário, toda satisfeita, Maynard, “com seu jeito cativante, deu projeção a nosso livro, em sua recente transmissão radiofônica” (Webb 1985, p. 370).

Com efeito, o que Keynes fez foi advertir o público britânico de que Soviet Communism era uma obra “que todo cidadão sério faria bem em estudar a fundo”.

Até recentemente, os eventos na Rússia seguiam acelerados, e o hiato entre declarações documentais e realizações factuais era demasiado extenso para permitir um relato adequado.  No entanto, o novo sistema já está suficientemente cristalizado para ser submetido a um escrutínio. O resultado é impressionante. Os inovadores russos superaram não só o estágio revolucionário, mas também o doutrinário. Pouco ou nada do que sobrou guarda qualquer relação especial com Marx ou com o marxismo, distinguindo-se dos demais sistemas de socialismo. Esses inovadores se dedicam à vasta tarefa administrativa de fazer com que um conjunto inteiramente novo de instituições sociais e econômicas funcione de forma tranquila e satisfatória sobre um território cuja vastidão ocupa um sexto da superfície emersa do mundo. (1982b, p. 333)

Novamente, há um excesso de elogios ao “experimento” soviético: “Os métodos ainda apresentam uma rápida transformação, como resposta ao experimento. Estamos testemunhando um empirismo e um experimentalismo da mais ampla escala, algo que até então jamais havia sido empreendido por administradores altruístas e desprendidos. No entanto, graças aos Webbs, conseguimos enxergar a direção para onde as coisas parecem caminhar e até onde elas já foram” (1982b, p. 334).

Keynes sente que a Grã-Bretanha tem muito que aprender com a obra dos Webbs: “Ela me inspira um forte desejo e esperança de que, neste país, possamos descobrir um jeito de fazer com que essa ilimitada disposição em fazer experimentos seja combinada com alterações nas instituições políticas e nos métodos econômicos, ao mesmo tempo em que preservamos o tradicionalismo e uma espécie de conservadorismo cauteloso, moderado em tudo que tenha a experiência humana por trás, em cada esfera de sentimento e de ação” (p. 334). Nessa passagem, como em muitas outras, o leitor é tomado de surpresa pelo recuo estudado e pela confusão básica, características de boa parte da filosofia social de Keynes — de algum modo há de se conjugar a “ilimitada disposição em fazer experimentos” com o “tradicionalismo” e um “conservadorismo cauteloso”.

Em 1936, ninguém dependia da propaganda enganosa dos Webbs para se informar sobre o sistema stalinista. Eugene Lyons, William Henry Chamberlin, o próprio Malcolm Muggeridge, a imprensa conservadora, a imprensa católica e a imprensa anarco-esquerdista do mundo inteiro, juntamente com outros, já haviam revelado a sordidez do verdadeiro cemitério administrado pelos “administradores inovadores, altruístas e desprendidos” de Keynes.[5] Qualquer pessoa disposta a ouvir poderia conhecer os fatos relacionados ao terror da fome no início da década de 1930, ao vasto sistema de campos de trabalho escravo e à miséria generalizada que se seguiu à abolição da propriedade privada. Para quem não se havia deixado cegar pela paixão e pela ideologia, a evidência de que Stalin andava aperfeiçoando o modelo de estado terrorista do século XX era inequívoca.

 


[1] Erros e confusões parecem termos bem pouco adequados para aquilo que um recente historiador do comunismo soviético caracterizou como “a titânica descida ao caos” desses anos; ver o capítulo “War communism: a regime is born, 1918–1921”, de Malia 1994, 109–39; ver também a análise ilustrativa de “‘War communism’, product of marxian ideas” (Roberts 1971, 20–47).

[2] Keynes acrescenta ainda que a Rússia soviética é muitas vezes preferível à Rússia czarista, da qual “nada poderia sair” (271). A declaração configura uma opinião estapafúrdia, especialmente em vista do amor de Keynes pelas artes. A antiga Rússia pode, obviamente, se vangloriar de façanhas grandiosas em diversas áreas, inclusive na música, na dança e, acima de tudo, na literatura.

[3] Pela lógica, Skidelsky deveria ter examinado essa transmissão radiofônica no segundo volume de sua biografia, que cobre o período até 1937. Mas embora mencione o livro Soviet communism, dos Webbs, ele nem chega a aludir à resenha de Keynes feita para o rádio (Skidelsky 1994, 488). Parece muito estranho que, em nenhum dos três volumes de sua imensa biografia de Keynes, Skidelsky tenha achado espaço sequer para mencionar esse episódio altamente problemático. E tampouco ele consta do ensaio sobre Keynes e os fabianos (Skidelsky 1999). Essa transmissão radiofônica é mencionada em O’Donnell 1989, 377 n. 13.

[4] Até Margaret Cole, amiga e biógrafa de Beatrice, afirma que o livro, mesmo tendo uma ou outra crítica, constitui, “de certa forma, um enorme folheto de propaganda, que defende e elogia a União Soviética” (1946, 199). Contudo, esse comentário não foi feito em tom de crítica, uma vez que, como deixa evidente a biografia que escreveu, Cole compartilhava da admiração dos Webbs pelo stalinismo.

[5] Para os comentários de Lyons a respeito da admiração dos Webbs pela “fé inabalável” e “vontade decidida” dos responsáveis pela chacina dos kulaks, ver Lyons 1937, 284. Ver também os comentários de Robert Conquest (1986, 317–18, 321). No romance Winter in Moscow, Malcolm Muggeridge (1934) descreve o mundo dos simpatizantes estrangeiros que visitavam a União Soviética: ele comentou que o era mais comum os “novos liberais” e fabianos serem ludibriados pelo regime soviético do que os socialistas não-comunistas.

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