16. A força que molda o mundo

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Mas uma discussão sobre como o governo poderia ser desmantelado, e como homens livres poderiam então construir uma sociedade laissez-faire a partir de seus fragmentos, ainda não responde à pergunta: “Como chegaremos lá?” Políticos são políticos porque gostam de exercer poder sobre os outros e receber as honras associadas a seus “altos cargos”. Poder e aplausos são a vida do político, e um verdadeiro político lutará até a morte (a sua morte, não a dele) se achar que isso o ajudará a mantê-los. Mesmo burocratas anônimos agarram-se a seus poderes mesquinhos com a tenacidade desesperada de uma multidão de sanguessugas, cada um se contorcendo e lutando para manter e aumentar sua área de dominação. Como podemos nos opor com sucesso a essa vasta e cancerosa estrutura de poder? Onde podemos encontrar uma força forte o suficiente para atacar, minar e finalmente destruir seu poder?

Algumas pessoas, vendo o temível poder do Leviatã americano, decidiram que nossa única esperança está em uma eventual revolução armada. Então eles se dedicam ao recrutamento de revolucionários, provocam um espírito de hostilidade agressiva contra o establishment, e promovem confrontos violentos com representantes do governo e da polícia. A maioria dessas pessoas é bastante sincera em seu desejo de aumentar a liberdade derrubando um governo que insiste em nos taxar, nos regular e “cuidar de nós” até nos sufocar. Muitos deles até percebem que não podemos ter liberdade real enquanto tivermos algum governo. Mas poucos, se é que algum deles, pensaram nas implicações certeiras de uma revolução violenta.

As revoluções armadas, quer ocorram em escala maciça e organizada ou como confrontos de guerrilha, são muito destrutivas. Mesmo sem considerar a imoralidade de destruir a propriedade privada ou a vida de um indivíduo que não agrediu você, a destruição é tola e míope. Muitas vezes leva anos para construir o que pode levar apenas alguns momentos para destruir; e uma vez destruído, um objeto nunca mais poderá beneficiar ninguém. A destruição reduz a quantidade total de bens disponíveis para todos e, portanto, reduz o bem-estar de cada indivíduo na sociedade (naturalmente, os pobres sentem essa redução de bem-estar primeiro, e mais acentuadamente). O objeto destruído pode ser reconstruído, mas apenas ao custo de muito tempo, dinheiro e esforço intelectual e físico. Geralmente não será reconstruído até que a destruição termine, para que os construtores sintam que estará seguro. Enquanto isso, a economia (o que significa todos os indivíduos que tentam melhorar sua situação trocando bens e serviços com outros) é enfraquecida. Enfraquecer uma economia saudável já seria ruim o suficiente, mas sangrar nossa economia – que já está à beira do colapso – é uma loucura suicida.

A ação revolucionária violenta não só é destrutiva, como na verdade fortalece o governo, dando-lhe um “inimigo comum” contra o qual unir o povo. A violência contra o governo por parte de uma minoria sempre dá aos políticos uma desculpa para aumentar as medidas repressivas em nome de “proteger o povo”. De fato, a população em geral tende a se juntar ao clamor dos políticos por “lei e ordem”.

Mas muito pior do que isso, a revolução é uma maneira muito questionável de chegar a uma sociedade sem governantes, já que uma revolução bem-sucedida deve ter líderes. Para ser bem sucedida, a ação revolucionária deve ser coordenada. Para ser coordenada, deve ter alguém no comando. E, uma vez que a revolução tenha triunfado, esse “Alguém no Comando” (ou um de seus correligionários, ou mesmo um de seus inimigos) assume a nova estrutura de poder tão convenientemente construída pela revolução. Ele pode sinceramente querer “fazer as coisas darem certo”, mas acaba se tornando mais um governante. Algo assim aconteceu com a Revolução Americana, e olhe para nós hoje.

Mesmo que uma revolução conseguisse evitar a instalação de um novo governante, a grande massa do povo provavelmente o exigiria. A revolução causa confusão e caos, e em tempos de angústia e desordem o primeiro pensamento da maioria das pessoas é: “Precisamos de um líder para nos livrar desses problemas!” Quando as pessoas clamam freneticamente por um líder, elas sempre conseguem um; não faltam homens com sede de poder. Além disso, o líder que elas conseguirão será um ditador com poder de “restaurar a lei e a ordem” de acordo com as demandas dos cidadãos. A menos que as pessoas saibam o que é a liberdade laissez-faire (e esse é o único tipo de liberdade que existe), e a menos que saibam que é muito preferível a um sistema de escravidão governamental, o mais provável é que qualquer revolução violenta apenas abra o caminho para um novo Hitler. Então estaremos muito pior do que estamos agora, porque precisaremos conviver com a destruição física e sua consequente pobreza, com o colapso econômico, e com um estado ditatorial com apoio popular.

Conhecendo os perigos e as desvantagens de revoluções violentas, alguns defensores do laissez-faire propuseram que coloquemos “nossa gente” no governo e o desmantelemos por dentro. O problema desta proposta é que apenas homens de integridade, que não desejam governar os outros, seriam dignos da confiança de que, uma vez que ocupassem cargos oficiais, desmantelariam o governo em vez de se juntar à elite do poder. Mas dificilmente se poderia esperar que homens íntegros fizessem o sacrifício de desperdiçar suas vidas em cargos governamentais, em meio a saqueadores. E mais uma vez, se as pessoas não entendessem as vantagens de uma sociedade laissez-faire, desmantelar o governo só iria confundi-las e alarmá-las, fazendo-as pedir uma nova liderança.

Também já foi sugerido que a maneira de superar o governo a longo prazo é retirar toda anuência a ele, e recusar-se a tratar com ele; evitar votar, aceitar subsídios governamentais ou usar serviços governamentais. O problema aqui é que o governo pode nos obrigar a lidar com ele, seja por força de lei ou mantendo o monopólio de algum serviço vital. Você pode se recusar a votar, mas veja o que acontece se recusar-se a usar as ruas do governo e o sistema de correio, pagar impostos, ou alistar-se nas forças armadas ! Retirar nossa anuência aos saqueadores, recusando-nos a lidar com eles, seria uma tática muito eficaz… se os saqueadores nos permitissem fazê-lo!

O desespero levou alguns a decidirem que a batalha, pelo menos nos EUA, já está perdida, e que nossa única esperança de ter alguma liberdade ainda em nossas vidas está na construção de uma nova sociedade em alguma ilha remota, ou em se refugiar em alguma área isolada para escapar do “Grande Irmão.” Povoar e industrializar uma pequena ilha fora do controle de qualquer governo (se tal lugar pudesse ser encontrado) poderia ser um empreendimento interessante e até lucrativo, mas não é uma forma viável de derrotar os governos. Assim que a ilha livre se tornasse uma presa suficientemente atraente, algum governo a engoliria. Fundar uma ilha livre não é um passo em direção à vitória – na melhor das hipóteses, é apenas um adiamento da derrota.

Da mesma forma, um refúgio remoto bem organizado pode ser um abrigo para salvar vidas em caso de um colapso socioeconômico realmente grave, mas “auto-exclusão” não é uma maneira de derrotar os governos para que possamos ter um mundo livre e seguro para viver. Um refúgio é exatamente o que seu nome sugere — recuo, não vitória.

Os defensores da revolução, de desmantelar o governo por dentro, de se recusar a lidar com ele, ou da “auto-exclusão” não conseguiram perceber que, se alguém quer mudar a sociedade, deve primeiro descobrir o que torna a sociedade como ela é. A sociedade nada mais é do que um grupo de indivíduos que vivem na mesma área geográfica ao mesmo tempo. Os valores e as ações de cada um desses indivíduos são determinados pelas ideias às quais ele se apega – pelo que ele acredita ser certo ou errado, benéfico ou prejudicial para si e para os outros. Isso significa que os costumes, instituições e estilo de vida de qualquer sociedade são determinados pelas ideias esposadas pela maioria das pessoas influentes dessa sociedade. Assim como a forma da vida de um homem é o resultado das suas ideias, a forma de uma sociedade é o resultado das ideias que nela prevalecem.

Ideias, mesmo as aparentemente insignificantes, podem mover montanhas quando se tornam amplamente difundidas em uma cultura. Por exemplo, na Idade Média, um dogma religioso menor afirmava que os gatos eram agentes do diabo. Como a religião era um fator muito importante na vida de quase todos naquela época, quase toda a sociedade participava do dever religioso de matar gatos. À medida que a população de gatos diminuiu, a população de roedores aumentou rapidamente. Os ratos carregavam as pulgas que carregavam os germes que causavam a Peste Negra. Entre um quarto e um terço da população da Europa morreu, e quase metade das pessoas na Inglaterra morreram em dois anos, tudo por causa de uma ideia estúpida e ruim (embora aparentemente inofensiva)!

Boas ideias podem ser tão poderosas quanto as ruins. A percepção de que as doenças são causadas por micro-organismos e não por demônios, a vontade de Deus ou o ar ruim da noite salvou mais vidas do que a Peste Negra destruiu. Esta boa ideia por si só melhorou a saúde e aumentou a expectativa de vida de cada um de nós. A percepção parcial de que o homem tem direitos que nenhum governo pode tirar levou a quase dois séculos do maior progresso e felicidade que os homens já tinham visto.

Ideias equivocadas mantiveram o homem retraído com medo supersticioso dos deuses… mancharam altares de pedra com sangue humano… fizeram com que crianças vivas fossem sacrificadas no fogo. Ideias corretas – o resultado da razão – libertaram o homem, permitindo que se levantasse, ereto, com dignidade… para entender a natureza em vez de temê-la… para conquistar uma vida melhor para seus filhos, em vez de sacrificá-los aos deuses de seus medos insanos.

As ideias são as forças que moldam nossas vidas e nosso mundo!

Mas como as ideias são invisíveis, a maioria das pessoas as considera sem importância (quando não as ignoram). Você pode ver uma cidade, mas não pode ver as miríades de plantas que tiveram que ser elaboradas para cada prédio, cada rua, cada parque. Nem pode ver os milhões de ideias que tornaram possível a eletricidade, os automóveis, os supermercados, os cortadores de grama, os aparelhos de playground etc., etc. É fácil observar um governo (os burocratas não permitem que você o ignore), mas você não consegue ver a ideia que o torna possível – a crença, presente em milhões de mentes, de que é correto que alguns homens governem, ou usem de coerção para dominar, outros.

Uma vez que o formato das vidas dos homens e de suas sociedades dependem daquilo em que acreditam, as ideias são a força mais poderosa do mundo. Se você quer que um homem mude seu estilo de vida, você terá que fazê-lo mudar suas ideias sobre que tipo de estilo de vida é possível e desejável para ele. Da mesma forma, se você quiser mudar uma sociedade, terá que fazer com que uma maioria de pessoas influentes mude suas ideias sobre o que sua sociedade pode e deve ser.

Em uma sociedade canibal, a razão de os homens comerem carne humana é que é considerado apropriado, ou talvez até necessário, usar seres humanos como alimento. Para se livrar do canibalismo, basta mudar a ideia predominante de que comer pessoas é adequado ou necessário. Em uma sociedade governamental, a razão de alguns homens governarem outros é que a grande maioria dos formadores de opinião naquela sociedade considera apropriado, ou mesmo necessário, que os homens sejam governados pela força. Para se livrar do governo, é necessário apenas mudar a ideia predominante de que os homens precisam ou devem ser mantidos em algum grau de escravidão por seus governantes. Em uma sociedade dominada pela ideia de que nenhum homem tem o direito de governar nenhum outro, o governo seria impossível — nenhum aspirante a governante poderia reunir homens armados suficientes para impor sua vontade.

Uma sociedade não apenas pode ser mudada mudando as ideias que prevalecem nela, mas esta é a única maneira pela qual pode ser mudada (exceto escravizando, empobrecendo ou matando todos os membros da sociedade, a fim de impedi-los à força de viver da maneira que suas ideias ditam). O governo é apenas a expressão concreta e o resultado da ideia predominante de que é certo que os homens sejam governados pela força. Atualmente, o governo americano tem a anuência e o apoio, ou pelo menos a aceitação apática, da maioria de seus cidadãos-súditos. Enquanto a maioria dos homens acreditar que o governo é certo e/ou necessário, eles terão um governo. Se seu governo for destruído antes que eles compreendam as vantagens e a viabilidade da liberdade, eles se apressarão em estabelecer um novo, porque acreditam que precisam ser governados para ter um mundo civilizado. Até que mudemos essa ideia, nunca poderemos ter uma sociedade livre.

Criar uma sociedade laissez-faire mudando as ideias que prevalecem em nossa cultura pode parecer uma tarefa difícil e que levará séculos, mas a formação de opinião não é tão difícil. Em qualquer sociedade, apenas uma minoria muito pequena — talvez um ou dois por cento — tem algum pensamento original. Uma porcentagem um pouco maior atua como correia de transmissão, passando as ideias dos pensadores para o restante da população. A grande maioria das pessoas simplesmente absorve suas ideias da cultura ao seu redor, aceitando a palavra das autoridades ou as opiniões de seu círculo social, sem muito questionar ou pensar. Para mudar as ideias em uma sociedade, basta mudar as ideias de uma pequena minoria de pensadores e depois observar enquanto elas se espalham, primeiro para os comentaristas, escritores, editores, professores e todos os outros “homens influentes”, até serem repetidas por todos os outros. São os pensadores que controlam o curso futuro de uma sociedade – presidentes e outros políticos são apenas os atores que sobem ao palco, pronunciando as palavras escritas por outros.

Além disso, sequer é necessário mudar as opiniões dos nossos pensadores atuais. Os formadores de opinião de hoje são os resquícios de um passado confuso, esgotado e cínico. Antigamente, suas ideias de um governo grande e paternalista cuidando de seus cidadãos, regulando seus assuntos econômicos, protegendo-os do medo, da carência, da fome, da pornografia, da bebida e da maconha, e garantindo seu “bem-estar geral” pareciam novas e promissoras. Agora, no entanto, a mistura caótica de pobreza, escravidão e conflito que resultou de sua crença no bem-estar forçado, socialismo forçado e moralidade forçada está começando a se tornar aparente para todos. Esses pensadores do passado não apenas fracassaram em resolver nossos problemas, mas os tornaram incalculavelmente piores; o resultado está começando a cheirar tão mal que o seu tempo está se esgotando. Eles terão que abrir caminho para uma nova geração de pensadores – para os libertários (principalmente jovens) que ainda não têm muita influência, mas que terão em apenas alguns anos. Muitos dos pensadores do futuro já estão começando a perceber o significado e a necessidade da liberdade. Quando um número suficiente deles compreender o laissez-faire, o futuro será nosso!

A ideia que temos que difundir é muito fácil de entender – é simplesmente que o governo é um mal desnecessário, e que a liberdade é o melhor e mais prático modo de vida.

Ao longo da história, a maioria dos homens considerou o governo um fato da vida – tão inevitável quanto tempestades devastadoras e doenças fatais. Dos poucos que pensaram sobre o assunto, a maioria concluiu que, embora o governo pudesse ser mau, era um mal necessário porque a natureza do homem exigia que ele fosse governado… para seu próprio bem (!). E a maioria dos homens concordou com isso de maneira impensada, porque ter um líder parecia eliminar a terrível necessidade de serem responsáveis por suas próprias vidas e decisões em um mundo incerto. Assim, o medo da responsabilidade tornou-se medo da liberdade, e os governantes encorajaram isso ao conferir ao governo toda a autoridade, legitimidade, pompa e tradição que pudessem obter, enquanto mantinham a população ignorante e supersticiosa. Ainda podemos ver esse medo da responsabilidade nas demandas por leis para proteger as pessoas do jogo, drogas, prostituição, rótulos enganosos, “concorrência desleal”, armas, salários “sub-mínimos”, monopólios, e inúmeras outras ameaças imaginárias.

Mas governo significa alguns homens governando – dominando – outros pela força, e é isso que devemos dizer às pessoas que queremos convencer. Quando alguns homens governam outros, existe uma condição de escravidão, e a escravidão é errada em qualquer circunstância. Defender um governo limitado é defender a escravidão limitada. Dizer que o governo é um pré-requisito necessário para uma sociedade civilizada é dizer que a escravidão é necessária para uma sociedade civilizada. Dizer que os homens não podem proteger sua liberdade sem um governo é dizer que os homens não podem proteger sua liberdade sem um sistema de escravidão. A escravidão nunca é correta ou necessária… incluindo a forma de escravidão chamada de governo. Devemos dizer às pessoas que o governo é um mal, não necessário, mas desnecessário.

Devemos também dizer-lhes que a liberdade, sendo a maneira correta dos homens viverem, é viável e prática. Uma sociedade laissez-faire funcionaria, e funcionaria bem. Os problemas sociais que deixam quase todos perplexos são o resultado não de um excesso liberdade, mas da intromissão do governo em nossas vidas com suas imposições, proibições e impostos cada vez maiores. Devemos dizer às pessoas que uma sociedade laissez-faire não degeneraria em caos, mas sim resolveria a maioria dos nossos problemas. E devemos estar prontos para mostrar como tal sociedade se sustentaria, e por que resolveria esses problemas.

Há um número infinito de maneiras de falar às pessoas sobre a liberdade – tantas maneiras quanto há ideias individuais sobre como fazê-lo. Podemos fazer de tudo, desde conversar com amigos até escrever artigos e fazer discursos, até organizar grandes manifestações de rua contra as injustiças do governo. O governo tem muito poder sobre nós, mas não tem o direito de ditar nossas ações. Isso significa que, desde que tenhamos o cuidado de não iniciar força contra a pessoa ou propriedade de qualquer terceiro inocente, podemos nos opor ao governo de qualquer maneira que consideremos prática e razoavelmente segura. Se estivéssemos na Rússia ou na China, nossas táticas provavelmente teriam que ser bem diferentes, mas nos EUA as pessoas estão acostumadas a um alto grau de liberdade de expressão, então atividades como a publicação deste livro são permitidas e, por ora, ainda seguras.

Combater o governo com ideias de liberdade tem um fator de segurança inerente – a maioria de nossos políticos e burocratas, assim como a maioria das outras pessoas, não consegue ver a importância das ideias. O que conta para eles são votos, dinheiro de impostos e acordos políticos. Coisas esotéricas como conceitos filosóficos sobre a natureza de uma sociedade livre nunca se tornarão visíveis para eles até que os votos, as receitas e a aplicação da lei comecem a se tornar realidade; nesse ponto, será tarde demais para parar a ideia de liberdade. Se você jogar uma bomba, a polícia virá atrás de você e o público aterrorizado clamará por “lei e ordem”. Mas se você disseminar uma ideia construtiva, as pessoas que forem receptivas a captarão, entenderão e transmitirão, enquanto a estrutura de poder a ignorará cegamente.

Para entender a importância de difundir a ideia de liberdade, pense no que aconteceria se a maioria (ou mesmo uma minoria substancial) das pessoas no país passasse a acreditar que o governo é um mal desnecessário, e que a liberdade é o melhor e mais prático modo de vida. Já atualmente, mesmo com o apoio da maioria das pessoas, os órgãos do governo estão começando a ranger, fraquejar e ruir sob o peso de sua própria incompetência. Os Correios pedem socorro, os tribunais têm um atraso tão incrível que “o direito a um julgamento rápido” é uma piada, as prisões estão lotadas, as estradas estão entupidas, as escolas nunca têm dinheiro suficiente, e a inflação persiste e cresce. O governo é inadequado para lidar com as complexidades da vida moderna e isto está se tornando visível para todos, exceto quem não quer ver. Junto com isso, as empresas privadas estão começando a crescer em áreas que antes eram de domínio exclusivo do governo. O setor privado de entregas, em expansão apesar de serem proibidos de entregar correspondências de primeira classe, e os serviços privados de arbitragem e agências de proteção são um começo promissor.

Em poucos anos, o governo estará ainda mais sobrecarregado, confuso e mais obviamente inadequado. O colapso progressivo de muitas outras “funções governamentais” abrirá caminho para empreendedores ousados ​​se firmarem e oferecerem serviços superiores ao público. E se, ao mesmo tempo, milhões de pessoas perdessem todo o respeito pelo governo? E se eles vissem o governo como ele realmente é – um bando importuno e perigoso de saqueadores, burocratas loucos por poder, e políticos sedentos de publicidade? E se o governo, supostamente fundado no consentimento dos governados, não tivesse mais esse consentimento? E se milhões de governados se recusassem a ser culpados de consentir por mais tempo?

Se milhões de pessoas não considerassem mais o governo como necessário, eles revogariam “o consentimento dos governados”. Então, com a força dos números, seria bastante viável recusar-se a tratar com o governo, e desobedecer abertamente a suas leis estúpidas e injustas. O que os burocratas poderiam fazer se 50% da população ignorasse todas as restrições comerciais – incluindo tarifas, controles de preços, leis de salário mínimo, impostos sobre vendas e até mesmo proibições totais? E se eles simplesmente comprassem e vendessem o que quisessem, de barras de ouro a tijolos, por quaisquer preços e sob quaisquer condições que quisessem, independentemente da regulamentação política? O que faria a Receita Federal se três milhões de seus súditos simplesmente não se preocupassem em enviar nenhum formulário de imposto de renda, e se cinquenta mil empregadores parassem de se preocupar em deduzir os impostos da folha de pagamento?[1] O que o exército poderia fazer com um milhão de homens que se recusassem a se alistar? O que eles poderiam fazer se a maioria dos homens em um regimento simplesmente desertassem silenciosamente e fossem para casa, deixando seus oficiais para trás, gritando e roxos de raiva?

Tal desobediência passiva e em escala maciça a leis irracionais não precisaria ser organizada, se a maioria das pessoas visse o governo como ele é, e acreditasse na liberdade. Começaria secreta e silenciosamente, com indivíduos fazendo coisas pelas quais acham que não seriam pegos. (Na verdade, isto já começou.) Mas à medida que o desrespeito ao governo aumentasse, a prática de ignorar as leis se tornaria cada vez mais aberta e difundida. Por fim, se tornaria efetivamente uma grande revolta pacífica, e pará-la estaria além do poder de qualquer um.

Se confrontado por uma revolta tão maciça e pacífica, o governo teria apenas duas opções: recuar ou tentar impor um estado policial mais rígido. Se os políticos decidissem recuar, seriam forçados a ficar sentados e observar seus poderes serem derrubados, um por um, até que seu governo desmoronasse por falta de dinheiro e apoio. Se eles tentassem impor um estado policial, eles excitariam não apenas os rebeldes originais, mas também a maioria do restante do povo, para uma rebelião aberta. Os burocratas teriam grande dificuldade em obter qualquer apoio popular contra pessoas que obviamente não causaram nenhum dano a qualquer pessoa inocente, mas estavam apenas vivendo suas próprias vidas e cuidando de seus próprios negócios. A cada nova medida repressiva, os saqueadores veriam seu apoio popular diminuindo, seus exércitos e forças policiais dilacerados pela dissidência e sangrados pela deserção, suas prisões cheias demais para conter mais rebeldes.

Em tal crise, os políticos quase certamente vacilariam. Eles já têm bastante dificuldade para se decidir quanto a dilemas inócuos. Essa política de indecisão iria abalar o governo cambaleante de forma ainda mais certa e rápida, deixando o palco aberto para a liberdade.

Podemos criar uma sociedade laissez-faire, mas apenas através do tremendo e invisível poder das ideias. As ideias são a força motriz do progresso humano, a força que molda o mundo. As ideias são mais poderosas do que os exércitos, porque foram as ideias que fizeram com que os exércitos se formassem em primeiro lugar, e são as ideias que os mantêm lutando (se isso não fosse verdade, os líderes políticos não se preocupariam em manter uma tremenda máquina de propaganda). Quando uma ideia ganha apoio popular, todas as armas do mundo não podem matá-la.

Ao longo da história, a grande maioria das pessoas acreditou que o governo fosse uma parte necessária da existência humana… e assim sempre houve governos. As pessoas acreditavam que tinham que ter um governo porque seus líderes assim diziam a elas, porque elas sempre tiveram um, e acima de tudo porque achavam o mundo inexplicável e assustador, e sentiam a necessidade de alguém para liderá-las. O medo da liberdade sempre foi o medo da autossuficiência – de ser largado sozinho para enfrentar um mundo assustador, sem ninguém para lhe dizer o que fazer. Mas não somos mais selvagens aterrorizados fazendo oferendas a um deus relâmpago, ou servos medievais encolhidos se escondendo de fantasmas e bruxas. Aprendemos que o homem pode compreender e controlar seu ambiente e sua própria vida, e não precisamos de sumos sacerdotes, reis ou presidentes para nos dizer o que fazer. O governo agora é reconhecido pelo que ele é. Pertence ao passado sombrio com o resto das superstições do homem. É hora de os homens deixarem a infância para trás, para que cada indivíduo possa caminhar para a luz do sol da liberdade… com total controle de sua própria vida!

 

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Notas

[1] “Em uma conversa recente com um funcionário da Receita Federal, fiquei surpreso quando ele me disse que ‘se os contribuintes deste país descobrirem que a Receita Federal opera com 90% de blefe, todo o sistema entrará em colapso’.” Esta declaração foi feita pelo senador Henry Bellmon, de Oklahoma, conforme citado na cópia impressa das audiências no Comitê de Finanças do Senado em 2 de outubro de 1969.c

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são dois ativistas e pensadores libertários que, no início dos anos 1970, fizeram avanços surpreendentemente profundos na teoria da sociedade sem estado. Seu manifesto de livre mercado, O Mercado da Liberdade, foi escrito logo após um período de intenso estudo dos escritos de Ayn Rand e Murray Rothbard; tem o ritmo, a energia e o rigor que você esperaria de uma discussão de uma noite com qualquer um desses dois gigantes.

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