Immanuel Kant e o libertarianismo

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[Este artigo foi apresentado no 10º o Aniversário do jogo FA x Hayek Society Club em Weimar, Alemanha, 15 de agosto de 2026.]

Meu pai nasceu em 1934 na cidade de Königsberg, na Prússia Oriental. Em janeiro de 1945, ele escapou em um dos últimos navios de sua cidade natal sitiada e posteriormente destruída. Ele era um prussiano oriental de corpo e alma, e em sua biblioteca possuía as obras completas de Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo iluminista de Königsberg. Ainda me lembro bem de meu pai me dizendo – com um sorriso – que as obras originais de Kant não eram exatamente fáceis de ler, mas mesmo assim me incentivou a estudá-las; felizmente, ele também me ajudou com referências a obras secundárias mais acessíveis. Foi assim que adquiri uma certa predisposição, ou mesmo uma preferência, pelo grande filósofo do Iluminismo.

Embora eu deva admitir que, nos primeiros anos, eu não sabia bem como aplicar as ideias de Kant à minha própria vida. Porém, ao longo dos anos, por diversas razões, a ideia de liberdade ganhou cada vez mais destaque no meu pensamento econômico — e isso, por sua vez, criou para mim uma forma direta de contato com o ideal kantiano do Iluminismo. Tornou-se cada vez mais evidente que as ideias e teorias destrutivas e contrárias à liberdade — próprias do socialismo, do comunismo e do fascismo (que hoje frequentemente se apresentam sob outros rótulos, como “política verde”, “Grande Reinício” ou “globalismo”) — não podem ser derrotadas apenas por meio de argumentos econômicos; é necessário, sobretudo, um grande despertar psicológico das pessoas — precisamente o Iluminismo no sentido kantiano.

Segundo Kant, o Iluminismo é a superação da imaturidade autoimposta do homem. Imaturidade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a orientação de outrem. Essa imaturidade é autoimposta se sua causa não for a falta de entendimento, mas a falta de resolução e coragem para usá-lo sem a orientação de outrem. Kant nos diz: Pense por si mesmo! Use o seu cérebro! Não se deixe guiar, comandar ou mandar pelos outros! “Sapere aude”: Tenha a coragem de usar o seu próprio entendimento sem a orientação de outrem! Esse é o “lema do Iluminismo” de Kant.

Mas há algo na obra de Kant que talvez me fascine ainda mais do que o apelo ao Iluminismo — porque é o próprio fundamento do Iluminismo. E esse algo é a teoria do conhecimento de Kant (ou “epistemologia”, como é chamada pelos filósofos). O filósofo italiano da história e do direito Giambattista Vico (1668-1744) já havia antecipado o pensamento científico e epistemológico moderno com seu princípio ““Verum ipsum factum” (traduzido: a verdade é feita pelo homem). Giambattista Vico afirmou, com isso, que o homem só pode compreender aquilo que ele mesmo criou. E, portanto, o homem não pode conhecer completamente a natureza — pois ela foi criada por Deus —, mas pode conhecer a história e a sociedade, que, afinal, são obras do homem.

Kant afirmou, em resumo (e aqui vemos a proximidade com a reflexão de Giambattista Vico), que nós, seres humanos, experimentamos as coisas do mundo em que vivemos apenas na medida em que podemos experimentá-las com nossa faculdade do conhecimento. Kant formula isso em sua Crítica da Razão Pura, publicada em 1781 (sob o título “analítica transcendental”): Ou seja, o homem estrutura ativamente sua experiência — por meio das formas da percepção pura (espaço e tempo) e por meio das categorias de seu entendimento (isto é, os conceitos básicos do pensamento). Conhecemos, segundo Kant, as aparências da realidade porque e na medida em que as “criamos” ou constituímos — não as coisas em si mesmas. Para entender como Kant chegou a essa conclusão, vamos relembrar as questões que o motivaram.

Kant defendia a ideia de que só é possível levar uma vida bem-sucedida se nos apegarmos aos seguintes pressupostos metafísicos: (1) Deus é a causa última do universo, (2) o ser humano possui livre-arbítrio, (3) o ser humano tem uma alma imortal e (4) o mundo possui uma ordenação significativa e é adequado ao ser humano. O que significa “metafísico”? A metafísica trata de questões que transcendem a nossa percepção sensorial — isto é, que vão além daquilo que nós, seres humanos, podemos ouvir, ver, provar e sentir. Em sua busca por respostas para as questões metafísicas mencionadas, Kant indaga, primeiramente: pode a metafísica ser considerada uma ciência? Pode ela fundamentar tais pressupostos metafísicos com argumentos sólidos? Aquilo que não podemos perceber pelos sentidos pode constituir objeto da ciência? Para responder a essa questão, Kant estabelece, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), a seguinte caracterização das proposições metafísicas: elas devem ser a priori e sintéticas. O significado desses termos será explicado brevemente a seguir.

Existem proposições, segundo Kant (ele falava de “julgamentos”), cujo conteúdo de verdade depende da experiência; e existem proposições cujo conteúdo de verdade é independente da experiência. Kant chama as proposições dependentes da experiência de a posteriori. Exemplo: A placa do fogão está quente. Eu sei disso porque toquei na placa do fogão anteriormente. Kant designa tais proposições dependentes da experiência como a posteriori. Já as proposições independentes da experiência que são verdadeiras por intuição, cuja validação não requer experiência, Kant chama de a priori. Por exemplo, encontramos proposições a priori na lógica — por exemplo — como o princípio da não contradição: não é possível que uma proposição seja verdadeira e, simultaneamente, não seja verdadeira. Esse princípio representa um conhecimento verdadeiro a priori. Não se pode negar o conteúdo de verdade de uma afirmação a priori sem incorrer em contradição; sua negação já pressupõe a sua validade.

É importante ressaltar que, quando Kant fala de a priori, não se refere necessariamente a todos os tipos de proposições a priori, mas especificamente às proposições a priori “puras”. O adjetivo “pura” no título da obra de Kant, Crítica da Razão Pura, refere-se exatamente a esse ponto. Com o acréscimo de “pura”, Kant quer dizer proposições que operam com conceitos e ideias que são inteiramente independentes da experiência, ou seja, às quais nenhuma experiência está envolvida. Um exemplo de tal afirmação a priori pura seria, para Kant, o seguinte: “Em um círculo, todos os pontos da circunferência estão à mesma distância do centro do círculo”. Essa afirmação é verdadeira e, de fato, independente da experiência. Não podemos verificar a afirmação por meio da experiência. Por um lado, não podemos medir todos os círculos possíveis e, assim, classificar a afirmação como verdadeira ou falsa (o número de círculos que teríamos que desenhar para fins de teste é infinito). Por outro lado, também não podemos desenhar um círculo perfeitamente, pois sempre existem imprecisões de medição e fabricação que impedem isso. Kant consideraria, portanto, a frase “Todos os pontos na circunferência estão à mesma distância do centro do círculo” como uma afirmação a priori pura. Pois a verificamos sem qualquer experiência, mas unicamente com conceitos independentes da experiência que se originam da nossa razão. Em vista do a priori pura, Kant fala de “conceitos puros do entendimento”, isto é, conceitos a priori especiais, aqueles aos quais nenhuma experiência está misturada, que, portanto, também em conteúdo, se originam do entendimento — e sem os quais, como ficará claro adiante, não podemos obter nenhum conhecimento objetivo do mundo real.

Kant faz uma distinção adicional: a saber, entre proposições analíticas e proposições sintéticas. “Homens solteiros não são casados” é uma proposição analítica: “homens solteiros” é o sujeito da frase, e “não casados” é o seu predicado (ou adjetivo). Em uma frase analítica, o predicado (aqui: não casados) apenas expressa o que já está contido no sujeito (aqui: homem solteiro). Portanto, uma proposição analítica não amplia o conhecimento; ela meramente explicita o que já é pensado juntamente com o sujeito. A situação é diferente em uma proposição sintética — como “A água congela a 0 grau Celsius”. O fato de a água congelar a 0 grau Celsius não está contido na palavra “água”, mas deve ser constatado pela experiência, mediante a observação ou o teste. As proposições sintéticas, segundo Kant, ampliam o conhecimento.

Dessa forma, Kant chega a uma matriz de quatro campos (a uma disjunção dupla). De um lado, proposições a priori e a posteriori; do outro, proposições analíticas e sintéticas.

O que é de particular interesse aqui são as proposições sintéticas a priori (representadas como campo (3)) na matriz. Ou seja, proposições que expandem nosso conhecimento (que são sintéticas) e que, ao mesmo tempo, também são verdadeiras independentemente da experiência (que são válidas a priori). Para Kant, os julgamentos sintéticos a priori são as condições de possibilidade da experiência, que remontam ao fato de exercermos nossa faculdade do conhecimento. Em outras palavras: todos os objetos de nossa experiência devem satisfazer essas condições. Portanto, proposições que afirmam que os objetos da experiência estão precisamente sujeitos a essas condições são proposições sintéticas a priori. Kant formula isso da seguinte maneira: “… as condições de possibilidade da experiência em geral são, ao mesmo tempo, condições de possibilidade dos objetos da experiência e, portanto, têm validade objetiva em um julgamento sintético a priori.” (Talvez agora você entenda bem por que meu pai me apontou as dificuldades nos escritos de Kant!) Portanto, formulado mais uma vez de maneira bastante compreensível: nós, humanos, não conhecemos os objetos de nossa experiência como eles são, mas apenas como podemos conhecê-los, isto é, em função de nossa faculdade do conhecimento. Impomos conceitos a priori aos objetos de nossa percepção; e as proposições que alegam que os objetos de nossa experiência estão sujeitos a essas condições necessárias são proposições sintéticas a priori, conforme as entende Kant.

Com base nessas ideias, podemos agora voltar nossa atenção para a obra do economista e filósofo social austríaco Ludwig von Mises (1881–1973). Mises apresenta uma mensagem de alcance extraordinário — subestimada até hoje e, para muitos, até mesmo desconhecida: a de que a economia, a ciência da ação humana, não é uma ciência empírica, mas sim uma ciência a priori da ação (o conceito de a priori, aqui, remete-nos justamente a Kant). Como Mises justifica sua afirmação de que a economia não é uma ciência empírica, mas uma ciência a priori da ação?

Nas ciências naturais, procede-se da seguinte maneira: formulam-se hipóteses (proposições do tipo “se-então”) e, posteriormente, testam-se essas hipóteses, tentando assim confirmar ou refutar seu conteúdo de verdade por meio da experimentação. As proposições obtidas dessa forma são — nas palavras de Kant — a posteriori. Mas precisamente esse procedimento empírico (comum e aceito nas ciências naturais) não é, segundo Mises, possível no âmbito da ação humana. Eis as razões:

(1.) Os objetos de conhecimento nas ciências naturais são algo bastante distinto do ser humano que age. Nas ciências naturais, trata-se, por exemplo, de átomos, elétrons, pedras, planetas — isto é, de objetos inanimados e sem alma que meramente reagem a impulsos externos, que não possuem vontade, que não estabelecem objetivos para si mesmos nem escolhem meios para alcançar tais objetivos. O ser humano que age, contudo, possui vontade; ele age, isto é, escolhe entre diferentes objetivos e seleciona meios para alcançar suas metas. O ser humano e sua ação, portanto, não se assemelham de forma alguma a uma constante função de estímulo-resposta, como ocorre com os objetos das ciências naturais.

(2.) Nas ciências naturais, a investigação ocorre da seguinte forma: A é causado por B; B é causado por C; C é causado por D; e assim por diante. (E talvez, com isso, chegue-se finalmente à causa de tudo. Mas, até o momento, isso ainda não foi desvendado.) Procede-se dessa maneira nas ciências naturais porque, simplesmente, não se conhece a razão última dos fenômenos que se pretende explicar. A situação é totalmente diferente no que diz respeito ao ser humano que age. Aqui, conhece-se o dado último: é o ser humano que age quem decide agir de determinada maneira. A afirmação de que o ser humano age é inevitavelmente verdadeira; trata-se de um “dado último”: não existem fatores externos que se possam invocar para explicar a ação humana por meio de métodos científicos.

Com o conhecimento de que “o homem age”, tem-se agora um ponto de partida (logicamente) inatacável e irrefutavelmente verdadeiro para a ciência da ação humana. Pois, se refletirmos com mais precisão sobre a frase “o homem age”, reconhecemos que ela não pode ser negada sem contradição. Quem diz “o homem não age” está, ele próprio, agindo e, com isso, contradiz o que disse, proferindo assim algo falso. A frase “o homem age” é válida a priori. A ação humana é sempre orientada para fins — isso também não pode ser negado sem contradição. O agente deve empregar meios para alcançar seus objetivos. Os meios são escassos; se não fossem escassos, não seriam meios. O tempo é um meio que deve ser empregado na ação; não existe ação atemporal. Quem age pressupõe causa e efeito, isto é, a causalidade. O ser humano que age possui uma preferência temporal: a satisfação mais imediata das necessidades é mais valorizada do que a satisfação posterior (mantendo-se iguais as demais circunstâncias). A manifestação da preferência temporal é o juro originário. A preferência temporal e o juro originário estão sempre presentes; jamais podem desaparecer, cair a zero ou a um nível inferior a zero. Conceitos como custos e receitas, lucro e prejuízo também estão implícitos na lógica da ação contida na frase “o homem age”; o mesmo vale para troca, valor e preço.

Com a frase “O homem age”, Mises apresenta, portanto, uma afirmação verdadeira e inescapável; ela pode ser categorizada como um dado fundamental no campo científico da ação humana. A frase “O homem age” é inclusive (e eu defendi recentemente isso em um ensaio para um livro em homenagem a Hans Hermann Hoppe) uma a priori puro, ou melhor, vejo nas frases que podem ser formuladas a partir da lógica da ação de Mises julgamentos sintéticos a priori, como os entendo na obra de Kant.

Da frase “O homem age” podem ser derivadas outras proposições verdadeiras em economia. Aqui estão alguns exemplos: A troca realizada voluntariamente beneficia todos os participantes envolvidos — em comparação com a situação em que a troca não ocorreu. Ou: O aumento na oferta de bens leva, mantendo-se a demanda inalterada, a uma queda no preço dos bens. Ou: Um aumento na quantidade de moeda reduz o poder de compra da unidade monetária — em comparação com a situação em que a quantidade de moeda não aumentou. Todas essas proposições são a priori, são verdadeiras independentemente da experiência. Não é necessário realizar testes ou experimentos em laboratório para comprovar sua veracidade.

Com o pensamento lógico da ação, também é possível categorizar proposições econômicas mais complexas como verdadeiras ou falsas. Aqui estão três exemplos: Se o dinheiro fiduciário for gerado e colocado em circulação, haverá consumo excessivo e investimentos inadequados. Ou: O socialismo é impraticável, não é um sistema econômico, termina em caos. Ou: Não existem impostos justos, não pode haver nenhum. Ou: O estado (como o conhecemos hoje) não surgiu por meio de decisões voluntárias das pessoas, mas por meio de coerção e violência, e também se mantém vivo por meio de coerção e violência, e não por voluntariedade.

O pensamento lógico da ação no âmbito da economia permite-nos, portanto, formular proposições verdadeiras — proposições, isto é, cujo conteúdo de verdade é independente da experiência. Com o pensamento lógico da ação, também se pode revelar o conteúdo de verdade das teorias econômicas sem primeiro ter que experimentá-las. Presumivelmente, já se pressente a tremenda força explosiva que nelas reside! Quem pratica a economia como uma ciência a priori da ação humana e não como uma ciência empírica vê o mundo literalmente através de um par de lentes diferente: muitas vezes chega a julgamentos que são completamente diferentes dos dos economistas mainstream (de orientação empírica) (e das pessoas que foram informadas, hipnotizadas e hipernormalizadas por eles).

Aqui reside um campo de aplicação muito importante: o estado. Quem pensa de forma lógica e prática reconhece que o estado (como o conhecemos hoje) é um aparato de coerção e violência que não protege a liberdade das pessoas, mas a destrói: o estado finge proteger a propriedade, mas a destrói; e também destrói a lei que finge proteger. Ou: reconhece-se que o estado (como o conhecemos hoje) substitui a moeda-mercadoria, ou metal precioso, por sua própria moeda fiduciária, não para encontrar uma solução melhor para o “problema monetário”, mas para atender às suas próprias necessidades (isto é, enriquecer e fortalecer aqueles intimamente ligados ao estado). Ou: reconhece-se que a União Europeia não é uma instituição bem-intencionada, mas um cartel de estados (interna e externamente) agressivo que desmantela a soberania das pessoas nos Estados-nação, promove a centralização do poder político e destrói as liberdades econômicas e civis. Ou seja: compreende-se que a chamada “Economia Social de Mercado” (ou: “Soziale Marktwirtschaft”) não é nada boa, mas sim uma manifestação de intervencionismo. E se não for interrompida, conduz a uma economia planificada e controlada, e, no caso extremo, ao socialismo pleno, a um sistema sem liberdade.

Com o termo “sem liberdade”, temos agora a palavra-chave (após termos abordado brevemente a base a priori nas obras de Kant e Mises) para passar ao libertarianismo. Para isso, começamos com uma referência a um exemplo do mundo real: a Declaração de Independência dos Estados Unidos, assinada há cerca de 250 anos. O povo das colônias britânicas empenhou-se em libertar-se do domínio britânico, do imperialismo britânico e de sua estrutura aristocrática de privilégios. Os revolucionários das colônias buscavam alcançar o autogoverno do povo. Eles não queriam mais ser governados; queriam livrar-se da opressão social e da exploração econômica. E aquilo que pretendiam organizar como “estado” deveria ser restringido ao máximo — um estado que tributasse pouco ou nada, que não mantivesse exército permanente, que não interviesse nos livres mercados, que não contraísse dívidas, que não tivesse acesso à criação de moeda e que fosse separado do sistema bancário. A Revolução Americana foi, em sua essência, um movimento libertário em prol da liberdade. O que é ser libertário?

O adjetivo “libertário” deriva do substantivo “libertarianismo”. E o libertarianismo remonta a Murray N. Rothbard (1926–1995), aluno de Mises. Rothbard baseou-se nos fundamentos teóricos estabelecidos por Ludwig von Mises. Isso incluía, por um lado, o pensamento a priori — a aplicação consistente da lógica a priori da ação humana à economia. Por outro lado, Rothbard levou tudo às suas últimas consequências lógicas — sobretudo a teoria liberal-clássica do estado e da liberdade. A partir disso, Rothbard formulou o libertarianismo, que também pode ser descrito como o desdobramento mais audaz do liberalismo até o momento.

O libertarianismo se baseia – e isso é central e bastante fácil de entender – no princípio da não agressão, que por sua vez possui uma justificação a priori na lógica da ação. De acordo com o princípio da não agressão, cada pessoa é dona de si mesma, possui autopropriedade sobre seu corpo e também propriedade sobre os bens externos que adquiriu por meios não agressivos — isto é, por meio da apropriação, produção e troca originais. Tudo isso pode ser derivado da teoria a priori, da lógica da ação. Pode-se pensar, neste ponto, por exemplo, no a priori da argumentação, como apresentado pelos filósofos Otto Apel e Jürgen Habermas em sua ética do discurso na década de 1980. As reivindicações de verdade são estabelecidas por meio de argumentos; trata-se de um empreendimento intelectual (não se trata de uma luta de boxe; isso pressupõe seres racionais e, portanto, não se pode discutir com um gorila). E a argumentação não pode ser negada sem contradição. Quem diz “O homem não argumenta”, argumenta. Pode-se, portanto, falar do a priori da argumentação. Argumentar pressupõe corporeidade — eu preciso, por exemplo, usar minhas cordas vocais para me fazer ouvir; ou preciso pressionar meus dedos no teclado para escrever e enviar um e-mail. O argumentador também precisa ter controle exclusivo sobre seu corpo. Caso contrário, não poderia argumentar — e não se pode, sem contradição, argumentar que não se pode argumentar. O princípio da não agressão implica propriedade, a autopropriedade da pessoa sobre si mesma.

Disso decorre que ninguém pode justificar de forma convincente o uso de violência e coerção — sem que isso tenha sido solicitado — contra outras pessoas (que se comportam pacificamente), nem agir agressivamente contra elas, tampouco subtrair-lhes a propriedade (seja o próprio corpo ou bens adquiridos de maneira não agressiva) ou utilizá-la sem permissão. Torna-se, assim, evidente que o estado (como o conhecemos hoje) é total e completamente incompatível com o princípio a priori da não agressão. Afinal, o estado (como o conhecemos hoje) elevou-se, mediante o emprego de coerção e violência, à posição de árbitro supremo de todos os conflitos em seu território e arroga-se a prerrogativa de cobrar impostos — praticando, portanto, um ato vedado a todos os demais: subtrair algo de alguém contra a sua vontade.

Veja bem: o pensamento lógico a ação desmascara e desmistifica o estado — e, de fato, o revela como uma organização criminosa. Nas palavras de Rothbard: “O estado é, por natureza, uma instituição ilegítima de agressão organizada, de crime organizado e regularizado contra as pessoas e a propriedade de seus súditos… uma instituição profundamente antissocial que vive parasitariamente das atividades produtivas dos cidadãos privados.”

Hans Hermann Hoppe enfatizou ainda que o estado se expande cada vez mais, torna-se cada vez maior, mais poderoso e mais perigoso, sobretudo quando o poder coercitivo e violento do estado pode ser exercido por praticamente qualquer pessoa, a qualquer momento (quando é um “bem público”), como de fato ocorre hoje nas democracias majoritárias modernas. De um estado mínimo surge, mais cedo ou mais tarde, um estado máximo.

Sob a ótica da teoria libertária, o monopólio estatal compulsório da moeda revela-se uma instituição particularmente nefasta. Isso ocorre porque o estado (como o conhecemos hoje) substitui a moeda-mercadoria ou a moeda lastreada em metais preciosos por sua própria moeda fiduciária, arroga-se um monopólio compulsório para a criação dessa moeda (concedendo licenças a bancos comerciais para que estes também participem de sua produção). O monopólio estatal compulsório da moeda fiduciária não é apenas inflacionário e socialmente injusto (no sentido mais verdadeiro do termo), nem apenas gera ciclos de expansão e contração econômica, endividamento excessivo e guerras; acima de tudo, ele permite que o estado cresça além de qualquer limite.

Os males decorrentes da moeda fiduciária — em particular a exploração e o empobrecimento da população em geral, bem como as crises financeiras e econômicas — são geralmente interpretados como consequências do livre mercado e do capitalismo, sobretudo por economistas do mainstream remunerados pelo estado (a maioria dos quais trata a economia como uma ciência empírica), bem como por ideólogos e demagogos. Como solução, eles exigem mais regulamentação, mais leis — e, acima de tudo, proibições — e o fortalecimento das autoridades estatais; tudo isso em detrimento das liberdades dos cidadãos e dos empreendedores e em prol do poder do estado. A população em geral, frequentemente desinformada e/ou mal aconselhada (por estar exposta à propaganda e à manipulação estatal nas escolas e universidades), geralmente não tem capacidade para contestar a narrativa imposta pelo estado ou para rebelar-se contra ela.

A moeda fiduciária estatal fomenta o crescimento do Estado por mais uma razão. Nas democracias majoritárias modernas, os políticos conquistam a maioria dos votos distribuindo benesses eleitorais e financiando-as com dinheiro emprestado — naturalmente, apenas depois de o estado ter garantido para si mesmo e para seus subordinados salários e pensões generosos. Para facilitar o financiamento do estado via crédito, o banco central estatal concede privilégios aos títulos da dívida pública. Assim, o estado vive, sem qualquer inibição ou entrave, à custa de dinheiro emprestado. Empresas recebem contratos públicos — muitas delas subsidiadas —, e um número crescente de pessoas passa a trabalhar direta (na burocracia) e indiretamente (em setores que só surgem e prosperam graças a leis e regulamentações estatais) para o estado. Sobretudo graças ao financiamento por meio de dívida, o estado avança cada vez mais e mais profundamente em todas as esferas econômicas e sociais: educação (escolas, universidades), previdência, saúde, transportes, meio ambiente, justiça e segurança, moeda e crédito, investimentos de capital, cultura — em toda parte, o estado se torna o agente dominante.

As liberdades de consumidores e produtores diminuem, a economia nacional se deforma gradualmente em uma economia de controle e comando, na qual o estado e seus burocratas — ou melhor, os grupos de interesse que sequestram o estado e a burocracia para seus próprios fins — determinam cada vez mais quem pode produzir o quê, quando e em que quantidade, e quem pode consumir o quê, quando e em que quantidade. Tudo isso abre caminho para o socialismo, inicialmente por meio da escassez e da carência geradas pela expansão estatal. O estado em expansão desenfreada paralisa o crescimento econômico; recursos escassos são empregados de forma ineficiente, dando origem ao desperdício, a má gestão, a corrupção e a degradação dos bons costumes.

Mais cedo ou mais tarde, a sustentabilidade da dívida do país se deteriora e os credores acabam não querendo mais conceder novos créditos ao estado ou, se o fazem, exigem taxas de juros que os pagadores líquidos de impostos não conseguem pagar ou (justificadamente) não querem pagar. Revela-se, então, que governantes e governados não têm a capacidade ou a disposição de quitar a carga de dívida acumulada. Para evitar a falência, resta apenas um caminho: o banco central do estado compra as dívidas públicas, financiando essas aquisições com dinheiro recém-criado. O resultado é a desvalorização da moeda, inflação elevada ou até mesmo hiperinflação, seguidas pelo colapso econômico e social — e uma grande crise oferece a oportunidade para que ideólogos socialistas e demagogos expropriem os proprietários e nacionalizem os meios de produção, estabelecendo o socialismo. De uma forma ou de outra, é bem provável que esse seja o futuro do estado (como o conhecemos hoje) — à luz dos insights da teoria a priori da ação humana, a teoria libertária.

A teoria libertária — o libertarianismo —, tal como formulada por Murray N. Rothbard, não traz apenas uma dimensão geradora de conhecimento, mas também uma estratégia orientada para a prática em prol da liberdade. Rothbard denominou esta última de “estratégia do golpe duplo” (one-two punch strategy). Ele argumenta que os libertários (bem como os “paleoconservadores” e os defensores do estado mínimo) precisam de uma abordagem complementar para reconquistar a liberdade e reduzir o estado ao máximo possível — em vez de dependerem apenas de uma “conversão intelectual” dos ocupantes de cargos públicos e daqueles que buscam chegar ao poder. Rothbard descreveu isso como ter um “golpe duplo” na manga:

           “(A) importância, para libertários ou conservadores defensores do estado mínimo, de contar com uma estratégia de ataque em duas frentes: não apenas difundir ideias corretas, mas também expor as elites governantes corruptas e a maneira como elas se beneficiam do sistema vigente — mais especificamente, como elas nos exploram. Arrancar a máscara das elites é a própria essência da ‘campanha negativa’ em sua forma mais pura e fundamental.”

Há o “impacto ideológico”, isto é, a formação de um grupo de libertários bem treinados, cujo trabalho de persuasão baseia-se em princípios e ideias corretos. Isso significa: a disseminação da teoria libertária e econômica (com base na Escola Austríaca de Economia), da ética universal a priori e das ideias de uma sociedade pacífica, a fim de formar um núcleo de intelectuais, autores e influenciadores capazes de compreender e representar com rigor as ideias de liberdade.

E há o “impacto populista”, isto é, o diálogo direto com as massas por meio da exposição implacável dos defeitos éticos e econômicos do estado (como o conhecemos hoje) e da revelação rigorosa de como certas elites (como, por exemplo, agentes políticos, pseudoempreendedores que lucram com dinheiro e regulações estatais, tecnocratas, jornalistas militantes, etc.) lucram com o sistema estatista vigente e exploram a população — por meio de tributação compulsória, regulações arbitrárias, transferências de renda, inflação, guerras e opressão.

Rothbard enfatizou que essa estratégia conecta o abstrato (isto é, o libertarianismo orientado por princípios) ao concreto (isto é, a exposição do sistema estatista existente e de seus beneficiários). A abordagem populista de Rothbard é confrontacional e dinâmica; ela visa mobilizar deliberadamente as classes média e trabalhadora — vítimas de exploração — contra a aliança nefasta das elites que desejam privá-las dos frutos de seu trabalho e controlá-las.

Acabamos de conectar pontos importantes entre si: desde o conhecimento a priori de Kant até a percepção de Ludwig von Mises de que a economia é uma ciência a priori da ação humana — e não uma ciência empírica — e, avançando, até o libertarianismo, que também se fundamenta em uma teoria a priori.

Ao estabelecer essas conexões, não se pretende apresentar Immanuel Kant como um precursor ou o pai fundador do libertarianismo, mas sim como o pensador que, como nenhum outro antes dele, forneceu os fundamentos para justificar a liberdade e o libertarianismo da maneira mais consistente e rigorosa — sendo que os últimos passos necessários para isso não foram dados pelo próprio Kant, mas por outros, graças ao seu trabalho preliminar.

E quem se dá conta de que a liberdade humana não é apenas uma suposição, mas algo que se sustenta a priori, talvez já pressinta a tempestade intelectual contida nesse conhecimento — uma tempestade que, uma vez desencadeada, ninguém mais conseguirá deter.

O estado e os políticos, nas últimas décadas, conseguiram ascender ao poder e mantê-lo por meio de engano, mentiras e fraudes: manipulando psicologicamente as pessoas, reprimindo-as politicamente e explorando-as economicamente.

Mas a farsa está agora vindo à tona, a verdade está emergindo cada vez mais: o estado está falido (o rei está nu, por assim dizer), e cada vez mais pessoas percebem (sem talvez conseguirem justificar isso profundamente) que não há justificativa para que algumas pessoas manipulem psicologicamente, oprimam politicamente e explorem economicamente seus semelhantes.

Para defender seu território e reprimir críticas, o estado e seus favorecidos mobilizam todos os recursos para encobrir e combater a verdade — sobretudo por meio do “anti-Iluminismo”, da restrição à liberdade de expressão, da cultura do cancelamento e da intimidação (via julgamentos teatrais, ataques a indivíduos por grupos terroristas pagos pelo estado, etc.). Para o estado (como o conhecemos hoje) e seus favorecidos, a batalha final começou.

Pessoas pacíficas e amantes da liberdade contrapõem a isso a tempestade de fogo do conhecimento a priori — o qual, não resta dúvida, incendiará uma tempestade de fogo de liberdade; uma tempestade de fogo que consumirá as bases falsas e malignas sobre as quais o estado e seus favorecidos construíram seu poder de domínio. Portanto, ajude agora a intensificar ainda mais o fogo da liberdade, a deflagrar essa tempestade de fogo da liberdade — sobretudo ao assimilar as compreensões a priori e difundi-las destemidamente.

Agradeço a sua atenção!

 

 

 

 

Artigo original aqui

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