Utopias nunca morrem: o marxismo como religião política

0

A era da informação, a persistência da ignorância e as contradições do pensamento comunista:

Vivemos um período extraordinário da história humana. Hoje, uma pessoa comum, de classe média, moradora de uma pequena cidade do interior do Brasil, pode ter acesso a uma quantidade de informações que seria inimaginável até mesmo para reis, imperadores e aristocratas de séculos passados. Nunca foi tão fácil conhecer as ideias dos grandes filósofos, estudar economia, compreender acontecimentos históricos ou consultar obras que, durante muito tempo, estiveram restritas a pequenas elites intelectuais.

É uma transformação impressionante. E talvez uma das maiores contradições do nosso tempo seja justamente esta: nunca tivemos tanto conhecimento à disposição e, ainda assim, continuamos cercados de erros, mentiras e ignorância.

Não quero dizer, evidentemente, que todos deveriam dominar profundamente todas as áreas do conhecimento. Isso seria praticamente impossível. Nosso tempo é limitado, assim como nossa capacidade de estudar, compreender e memorizar informações. Mas existe uma diferença enorme entre não conhecer determinado assunto e simplesmente não demonstrar qualquer interesse em compreender questões fundamentais da vida em sociedade, inclusive sobre temas e teorias que impactam diariamente a nossa vida.

Conceitos como inflação, juros, preferência temporal, propriedade privada, justiça, liberdade e ética deveriam fazer parte da formação intelectual básica de qualquer pessoa. Se existem tantas escolas e professores, por que não ensinar essas informações tão fundamentais? Afinal, são questões que afetam diretamente nossas vidas, mesmo quando não percebemos.

Compreender como funciona o Estado, quais são os incentivos dos governantes e de que maneira as decisões políticas interferem na economia é fundamental para entender a sociedade em que vivemos. E não faltam oportunidades para isso. Com alguns cliques, qualquer pessoa pode consultar a Constituição de qualquer país, as diferentes Bíblias, as mais variadas filosofias, conhecer as ideias de grandes economistas, estudar os fundamentos da filosofia política libertária, pesquisar o pensamento da Igreja Católica ou ler os ensinamentos de Jesus Cristo.

É verdade que a inflação brasileira deteriorou o poder de compra da nossa moeda, tornando casas, automóveis e tantos outros bens cada vez mais difíceis de adquirir. Mas, apesar de todos esses problemas econômicos que estamos passando há muitos anos, o acesso ao conhecimento continua relativamente barato. E isso, pelo menos, deveria ser motivo de muita satisfação. No entanto, muitas pessoas que têm recursos e pleno acesso à informação continuam negando a busca pela verdade e optando voluntariamente pelo caminho da mentira.

O problema é que ter informação disponível não significa necessariamente ter disposição para aprender e ter honestidade intelectual – algo que falta em muitas pessoas.

Confesso que, durante este ano de 2026, especialmente no período eleitoral, fiquei bastante assustado com a quantidade de pessoas que demonstraram uma ingenuidade política difícil de compreender. Refiro-me, sobretudo, àqueles que defendem abertamente o comunismo, ignorando ou relativizando as implicações morais, econômicas e históricas dessa ideologia e tudo o que ela causou a humanidade ao longo da história. E no Brasil de hoje, existem muito mais comunistas do que eu poderia sonhar, e ainda acredito que essas pessoas são movidas puramente por algum tipo de inveja ou ressentimento, em sua maioria. Talvez por eu estar “preso” na minha ‘bolha libertária e conservadora’, cheguei a achar que o comunismo tinha se tornado coisa do passado para muitos, mas me enganei. Ao ver os vídeos das grandes manifestações de militantes petistas e vários simpatizantes da causa socialista na Avenida Paulista, no dia 11 de outubro, e em outras cidades e universidades, minha decepção com a mentalidade do povo brasileiro só aumentou.

Em outubro de 2026 me assustei ao ver um monte de estudante mal-informado ou mal-intencionado na universidade federal da minha cidade, a UFVJM, conhecida como Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, que foi tomada, em plena eleição presidencial, por professores e alunos socialistas, marxistas e petistas. Em uma das fotos que vi de um evento com viés partidário que tinha como objetivo apoiar a campanha de Lula, aparecia uma estudante com a camiseta do ditador Che Guevara, segurando um cartaz escrito: “Ditadura nunca mais!”. Eu preferi rir para não chorar. Mas é nesse momento que percebemos a total falência moral do povo brasileiro e a aberração política que é o sufrágio universal. O direito ao voto universal implica que todos os cidadãos elegíveis ao voto, independente de sua competência, profissão, histórico, sanidade mental, conquistas e contribuições sociais têm o mesmo poder de voto. Mas a coisa ainda fica pior…

O que mais me impressiona é encontrar pessoas que se apresentam como cristãs, professam sua fé e defendem valores religiosos, mas apoiam candidatos cujas ideias são profundamente hostis ao cristianismo, à Igreja e à tradição moral que dizem seguir. Para mim, é o mesmo que ver um trabalhador ou empresário que defende um constante aumento de impostos – eu não consigo ver racionalidade e boa intenção nisso. Alguns conservadores e católicos que estudam esse assunto – como o falecido filósofo Olavo de Carvalho – argumentam que a causa desse problema e confusão entre os cristãos, ao não compreender os verdadeiros males do marxismo, foi devido a uma estratégica infiltração de comunistas dentro das igrejas católicas brasileiras.

Em muitos casos, no que se refere a toda essa militância esquerdista que tem dominado as instituições brasileiras, parece faltar justamente aquilo que deveria orientar qualquer reflexão política séria: a capacidade de questionar, confrontar argumentos e examinar a realidade com lógica e bom senso.

Um exemplo que considero muito preocupante no Brasil é o do militante e youtuber marxista Jones Manoel, eleito no dia 4 de outubro para o cargo de deputado federal por Pernambuco, com uma votação próxima de 250 mil votos. Trata-se de uma figura conhecida por declarações radicais e por uma retórica política que, em minha avaliação, estimula o ressentimento, ódio mortal e o antagonismo entre classes sociais. Essa pessoa definitivamente ameaça a paz social e o direito que as pessoas deveriam ter à propriedade privada com seus discursos inflamados. E o que mais me assusta é a quantidade de gente que saiu de casa no domingo para votar nesse sujeito.

Entre suas declarações mais controversas estão referências à violência contra patrões/empresários e manifestações agressivas de todos os tipos, direcionadas aos conservadores e liberais. Mas o ódio vindo de pensadores e militantes de esquerda é muito aceito pelo status quo brasileiro, tanto é que Jones já fez um discurso público que foi gravado, defendendo agredir Ministros do STF. A conhecida e antiga militante petista, Marilena Chauí, já fez um discurso em uma palestra, algo que foi gravado e é fácil de achar na internet, dizendo que odeia a classe média. Em suas palavras, a classe média é ignorante, reacionária, arrogante, petulante e terrorista, e ela ainda a caracterizou como uma “abominação política, ética e cognitiva”. Sim, é óbvio que ela é uma marxista ressentida e muito amiga do Lula, isso não tem segredo algum.

Mas há uma questão ainda mais importante por trás de tudo isso. Como explicar que, em pleno século XXI, com tantas informações disponíveis e depois de tantas experiências históricas desastrosas, que o marxismo continue despertando tamanha adesão e até respeito?

Para compreender parte desse fenômeno, considero necessário examinar seus fundamentos econômicos e filosóficos e analisarmos melhor esse dogma por trás de diferentes perspectivas, e o que faz os teóricos marxistas terem tamanha fé cega nessa utopia.

Marx, a teoria do valor-trabalho e a crítica dos economistas austríacos:

Uma das principais ideias econômicas de Karl Marx está relacionada à teoria do valor-trabalho, cuja tradição intelectual remonta à economia política clássica, especialmente às contribuições de Adam Smith e David Ricardo.

Em linhas gerais, Marx sustentava que o valor das mercadorias estava relacionado ao tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-las. A partir dessa concepção, desenvolveu sua teoria da mais-valia, segundo a qual o trabalhador produz um valor superior àquele que recebe como remuneração por sua força de trabalho.

Essa diferença, apropriada pelo capitalista, constituiria a base da exploração no sistema capitalista.

A conclusão marxista é muito conhecida: o empresário se beneficia do trabalho alheio e se apropria de uma parcela do valor produzido pelos trabalhadores. Essa interpretação tornou-se um dos pilares da crítica socialista ao capitalismo e continua influenciando movimentos políticos, organizações sindicais e ambientes acadêmicos.

Ocorre que essa explicação encontrou críticas profundas no desenvolvimento posterior da ciência econômica. Em 1871, o economista austríaco Carl Menger publicou Princípios de Economia Política, obra que se tornaria um marco da chamada Revolução Marginalista. Sua contribuição foi essencial para transformar a maneira como os economistas compreendiam o valor econômico.

Menger demonstrou que o valor de um bem não depende simplesmente da quantidade de trabalho empregada em sua produção. Ele está relacionado à importância que os indivíduos atribuem àquele bem para satisfazer suas necessidades.

Pensemos em um exemplo bastante simples.

Imagine dois escultores. O primeiro dedica cem horas à produção de uma escultura, enquanto o segundo consegue produzir uma obra semelhante em apenas dez horas. Isso significa que a primeira escultura necessariamente valerá dez vezes mais?

Evidentemente, não. Os consumidores podem preferir a segunda obra, mesmo que ela tenha exigido muito menos tempo de trabalho. Podem considerá-la mais bonita, mais interessante ou simplesmente mais adequada aos seus gostos.

O esforço empregado na produção não determina, por si só, quanto alguém estará disposto a pagar pelo resultado. Essa percepção parece simples, mas suas consequências para a teoria econômica foram enormes.

Menger mostrou que o valor não é uma propriedade física dos objetos. Não está escondido na madeira de uma cadeira, no metal de uma ferramenta ou nas horas de trabalho necessárias para fabricar determinado produto. O valor surge da relação entre as necessidades humanas e os bens disponíveis para satisfazê-las.

É por isso que duas pessoas podem atribuir valores completamente diferentes ao mesmo objeto.

Outro exemplo ajuda a compreender a questão. Imagine que você esteja com muita sede e tenha cinco garrafas de água à disposição. A primeira garrafa provavelmente terá enorme importância, pois permitirá satisfazer sua necessidade mais urgente. A segunda também será útil, mas talvez menos necessária. Quando chegar à quinta, sua importância poderá ser bastante reduzida.

Esse raciocínio está relacionado ao princípio da utilidade marginal, uma das contribuições centrais da revolução econômica iniciada no século XIX.

Ele também ajuda a explicar o antigo paradoxo da água e dos diamantes. A água é indispensável à vida, mas, em locais onde existe em abundância, uma unidade adicional pode ter valor relativamente baixo. Os diamantes, embora não sejam necessários à sobrevivência, são escassos e podem receber avaliações marginais muito elevadas.

O valor econômico, portanto, não pode ser explicado apenas pelo esforço humano ou pela utilidade geral de determinado bem.

Menger também se diferenciava de outros marginalistas, como William Stanley Jevons e Léon Walras, pela maneira como desenvolveu sua investigação. Em vez de construir sua explicação principalmente por meio de modelos matemáticos, procurou compreender as relações causais entre necessidades humanas, escolhas individuais e bens econômicos.

Sua teoria também explicava como o valor atribuído aos bens de produção, como máquinas, matérias-primas e equipamentos, deriva da importância dos bens de consumo que esses recursos permitem produzir.

Essa mudança de perspectiva influenciou profundamente economistas posteriores, entre eles Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek.

E foi justamente Böhm-Bawerk quem desenvolveu uma das críticas mais importantes à teoria marxista da exploração.

Böhm-Bawerk e a explicação do lucro capitalista:

Böhm-Bawerk dedicou parte significativa de sua produção intelectual à análise crítica das teorias socialistas, especialmente das ideias econômicas de Karl Marx.

Uma de suas principais contribuições foi demonstrar a importância do tempo no processo produtivo e na formação dos juros. Para entender seu argumento, basta imaginar o funcionamento de uma fábrica de móveis.

Antes que qualquer produto seja vendido, o empresário precisa realizar uma série de investimentos. Deve adquirir máquinas, comprar madeira, contratar funcionários, alugar instalações, pagar energia elétrica e organizar toda a estrutura necessária à produção.

Nada disso acontece gratuitamente.

Suponhamos que, em janeiro, esse empresário invista R$ 100 mil na operação. Durante fevereiro, março e abril, a fábrica produz os móveis, enquanto os trabalhadores recebem seus salários conforme os contratos estabelecidos.

Somente em maio os produtos são vendidos, gerando uma receita de R$ 120 mil. Nesse exemplo simplificado, a diferença entre a receita e as despesas consideradas seria de R$ 20 mil. Para Marx, a existência de uma diferença entre o valor produzido e a remuneração do trabalho está relacionada à apropriação da mais-valia pelo capitalista.

Böhm-Bawerk, entretanto, apresenta outra maneira de compreender essa relação.

O empresário precisou disponibilizar recursos no presente para tentar obter uma receita no futuro. Durante todo o processo produtivo, assumiu compromissos financeiros e permaneceu exposto à possibilidade de prejuízo.

Os trabalhadores, por sua vez, receberam seus salários antes que os móveis fossem efetivamente vendidos aos consumidores. Isso nos leva a uma questão fundamental: receber determinada quantia hoje é economicamente equivalente a receber a mesma quantia daqui a vários meses?

Não necessariamente.

Bens presentes e bens futuros não são avaliados da mesma maneira. Em determinadas condições, as pessoas atribuem maior importância a recursos disponíveis imediatamente do que a recursos equivalentes que só poderão utilizar no futuro.

Essa diferença de avaliação está relacionada à preferência temporal, conceito essencial para compreender a teoria austríaca dos juros.

Böhm-Bawerk argumentava que a produção exige tempo e que os bens presentes podem ser trocados por direitos a bens futuros mediante um diferencial de valor, o chamado ágio.

Assim, a existência de rendimentos associados ao capital não constitui, por si só, uma demonstração de exploração.

É importante distinguir, nesse ponto, os juros do lucro empresarial propriamente dito. O primeiro está relacionado à diferença de avaliação entre bens presentes e futuros. Já o lucro empresarial envolve também a capacidade de antecipar corretamente as necessidades dos consumidores e organizar os recursos produtivos.

Um empresário pode investir uma grande quantidade de dinheiro, contratar dezenas de trabalhadores e dedicar anos à construção de determinado negócio. Ainda assim, poderá perder tudo caso os consumidores não valorizem aquilo que ele oferece. O risco não desaparece simplesmente porque existe trabalho humano envolvido na produção.

Além disso, o trabalhador não é o único elemento necessário para produzir riqueza. Máquinas, ferramentas, matérias-primas, instalações, conhecimento, organização e tempo também participam do processo produtivo.

A produção moderna depende da combinação de diferentes fatores, e não apenas do esforço físico ou intelectual dos empregados.

Por isso, Böhm-Bawerk contestava a conclusão de que toda diferença entre a receita obtida com a venda dos produtos e os salários pagos aos trabalhadores representaria necessariamente uma apropriação indevida.

Na tradição austríaca, o lucro empresarial também desempenha uma função econômica importante. Ele pode indicar que determinados recursos foram empregados de uma maneira mais valorizada pelos consumidores do que em seus usos alternativos. O prejuízo, por outro lado, revela que o empresário pode ter cometido erros ao antecipar a demanda ou organizar sua produção.

Essa interpretação não significa que todo empresário seja competente, honesto ou moralmente irrepreensível. Significa apenas que a existência de lucro não constitui prova suficiente de exploração.

E considero essa distinção fundamental.

Afinal, é curioso observar como tantos militantes socialistas tratam a atividade empresarial como algo moralmente suspeito, mesmo quando ela se desenvolve por meio de contratos voluntários, investimentos privados e trocas pacíficas.

Ao mesmo tempo, muitos desses indivíduos demonstram uma tolerância surpreendente diante da enorme e evidente coerção exercida pelo aparato estatal, que angaria trilhões de reais todos os anos no Brasil por métodos antiéticos e agressivos.

É justamente nesse ponto que a crítica econômica encontra a filosofia política libertária.

Murray Rothbard e a verdadeira natureza da exploração:

O marxismo interpreta grande parte da história humana a partir da luta de classes. Segundo essa perspectiva, diferentes grupos sociais disputam o controle dos meios de produção, e as relações econômicas são marcadas por estruturas de dominação e exploração.

Não considero absurdo reconhecer que a história esteja repleta de relações de exploração. Pelo contrário. Impérios, monarquias, aristocracias políticas, repúblicas e governos de diferentes épocas frequentemente enriqueceram mediante a apropriação coercitiva da riqueza produzida por outras pessoas. A questão é identificar corretamente quem exerce essa coerção.

E é aqui que considero especialmente importante a contribuição do principal representante do anarcocapitalismo moderno, o economista, historiador e filósofo político americano, Murray Rothbard.

Em obras como A Anatomia do Estado, O Manifesto Libertário e A Ética da Liberdade, Rothbard apresenta uma crítica radical ao poder estatal, argumentando que o Estado se diferencia das demais organizações sociais justamente por reivindicar o monopólio territorial da coerção e por financiar suas atividades mediante a tributação compulsória.

Enquanto empresários precisam, em condições normais de mercado, convencer consumidores a adquirir seus produtos e serviços, o governo pode exigir recursos independentemente da concordância individual de quem paga. Essa diferença não é pequena. Na verdade, ela altera completamente a natureza moral da relação.

O empresário que oferece um produto no mercado depende da decisão do consumidor. Se ninguém quiser comprar, ele poderá acumular prejuízos e até encerrar suas atividades. É por isso que antes de qualquer empreendimento, o empresário precisa de analisar e estudar as demandas e comportamentos dos consumidores, e buscar de todas as formas solucionar problemas das pessoas da forma mais eficiente possível.

O Estado, por outro lado, dispõe de mecanismos legais e coercitivos para arrecadar recursos mesmo quando os indivíduos discordam de suas decisões.

Na interpretação rothbardiana, essa é uma das principais características da exploração institucionalizada. Rothbard recupera, nesse debate, uma distinção formulada pelo sociólogo Franz Oppenheimer: a diferença entre os meios econômicos e os meios políticos de obtenção de riqueza.

Os meios econômicos envolvem a produção e as trocas voluntárias. Os meios políticos, por sua vez, consistem na apropriação coercitiva da riqueza produzida por terceiros.

Essa distinção permite compreender por que o libertarianismo considera moralmente diferentes a atividade empresarial pacífica e a tributação compulsória.

É claro que empresários também podem cometer fraudes, violar contratos e praticar agressões. Quando isso acontece, deixam de agir dentro dos princípios da cooperação voluntária – mas numa sociedade onde existe um sistema de justiça que protege contratos, esses empresários serão punidos. O ponto central é que a simples obtenção de lucro, quando decorrente de relações legítimas, não equivale a uma agressão.

Já a coerção estatal está presente na própria estrutura de financiamento e imposição das decisões governamentais. Por isso me parece tão contraditório observar pessoas que demonizam constantemente o empresário, mas tratam o Estado como uma instituição legítima, justa e quase sagrada. O aparato estatal, no final das contas, nasce e vive da espoliação e escravização de pessoas pacíficas.

O indivíduo que investe suas economias, assume riscos, contrata trabalhadores e oferece produtos aos consumidores é frequentemente retratado como explorador pelos esquerdistas. Entretanto, o aparato político que recolhe compulsoriamente parte da renda de milhões de pessoas recebe, muitas vezes, uma espécie de absolvição moral. E os socialistas não são tão ingênuos assim: eles sabem muito bem que seu projeto de poder pessoal depende de um estado extremamente centralizado, onipotente e hipertrofiado.

Em certas correntes socialistas, o Estado parece assumir o papel de uma entidade superior, capaz de corrigir todas as injustiças, organizar a economia e determinar o destino da sociedade, sendo visto como um verdadeiro pai protetor. Ou quase um Deus secular. É uma visão completamente distorcida e insana da realidade.

Mas por que deveríamos considerar moralmente legítima uma ação quando praticada por agentes públicos, se condenaríamos essa mesma ação quando realizada por indivíduos particulares?

Essa pergunta nos conduz ao fundamento ético do libertarianismo.

A ética libertária e a contradição moral da coerção:

A crítica de Rothbard ao socialismo não se limita à economia. Ela também possui fundamentos éticos.

Inspirado na tradição do direito natural, especialmente em John Locke, Rothbard desenvolveu uma defesa da autopropriedade, da apropriação original de recursos e da legitimidade das trocas voluntárias.

O princípio é relativamente simples: cada indivíduo possui o direito de controlar seu próprio corpo e de utilizar legitimamente os bens que adquiriu sem violar os direitos de outras pessoas. Esses bem adquiridos podem ser herdados ou podem ser bens que foram encontrados sem donos, como por exemplo uma terra ou propriedade que alguém decide morar ou trabalhar nela de alguma forma.

Se alguém produz, trabalha, economiza e adquire propriedade por meios pacíficos, não deveria ser obrigado a entregar parte dessa propriedade a terceiros simplesmente porque outra pessoa considera mais conveniente uma distribuição diferente dos recursos.

Na ética rothbardiana, retirar coercitivamente a propriedade legítima de alguém constitui uma agressão, independentemente das justificativas políticas utilizadas para defender essa medida. O uso da força, portanto, só pode ser usado em legítima defesa e de forma proporcional.

Por exemplo, imagine que um indivíduo trabalhe, economize e compre uma casa. Segundo Rothbard, nenhum terceiro tem o direito de invadir essa propriedade ou tomar posse dela mediante violência. Entretanto, caso alguém tente invadir a residência, o proprietário possui o direito de defender sua integridade e seus bens, respeitados os limites da força defensiva.

O PNA (Princípio de Não-agressão), portanto, não é um princípio pacifista. Ele não proíbe toda utilização da força, mas sua iniciação contra pessoas inocentes.

O socialismo, quando fundamentado na expropriação compulsória dos meios de produção, entra em conflito direto com esse princípio.

Hans-Hermann Hoppe, um brilhante sociólogo alemão e aluno de Rothbard, procurou aprofundar essa discussão por meio de sua chamada ética argumentativa, teoria apresentada em sua obra A Economia e a Ética da Propriedade Privada e também em Democracia – o deus que falhou.

Hoppe sustenta que qualquer pessoa que participe de uma discussão racional sobre justiça já pressupõe determinadas condições necessárias ao próprio ato de argumentar, incluindo o controle sobre seu corpo e a possibilidade de utilizar recursos para defender suas ideias.

A partir desse raciocínio, ele procura demonstrar que a negação da autopropriedade e de certos direitos de propriedade produziria uma contradição performativa. Em outras palavras, o indivíduo utilizaria sua própria autonomia para defender princípios incompatíveis com as condições que tornam possível sua argumentação.

É justamente essa dimensão moral que considero ausente em boa parte do discurso político socialista. Fala-se constantemente em justiça social, igualdade e emancipação humana – muitas palavras bonitas, mas que podem ser interpretadas de diferentes formas. Mas, quando examinamos os meios propostos para alcançar esses objetivos, encontramos frequentemente a defesa da coerção, da expropriação e da concentração de poder político.

E aqui surge uma contradição que merece ser enfrentada: como uma sociedade supostamente livre pode ser construída por meio da violação sistemática da liberdade de indivíduos pacíficos? Para os libertários, uma finalidade considerada nobre não torna automaticamente legítimos todos os meios utilizados para alcançá-la.

O marxismo como religião política: Rothbard e Eric Voegelin:

Existe ainda outra dimensão da crítica ao marxismo que considero particularmente interessante. Refiro-me à interpretação do comunismo como uma espécie de religião secular.

Murray Rothbard explorou essa perspectiva em seu ensaio Karl Marx: Profeta do Fim dos Tempos, no qual relaciona determinados elementos do pensamento marxista a tradições religiosas milenaristas e a concepções de redenção histórica.

Segundo essa leitura, o marxismo não seria apenas uma teoria econômica ou uma interpretação materialista da história. Sua estrutura também apresentaria semelhanças com narrativas religiosas sobre a queda da humanidade, o sofrimento histórico e a promessa de uma redenção definitiva.

Na interpretação de Rothbard, a história marxista adquire uma dimensão quase teológica. A propriedade privada, a divisão social do trabalho e a alienação aparecem como elementos de uma condição histórica marcada pelo conflito. O capitalismo representa uma etapa de sofrimento e contradições que, segundo Marx, prepararia as condições para sua própria superação.

O proletariado, por sua vez, assume o papel de sujeito revolucionário responsável pela transformação radical da sociedade.

Ao final desse processo estaria o comunismo, uma sociedade sem classes, na qual desapareceriam as estruturas de exploração características dos sistemas anteriores.

Rothbard identifica nessa narrativa uma semelhança com a promessa religiosa de salvação, embora apresentada em linguagem materialista e revolucionária. A revolução funcionaria como uma espécie de ruptura redentora, enquanto a sociedade comunista representaria o horizonte final da história. É uma interpretação provocativa, especialmente porque o marxismo se apresenta tradicionalmente como uma doutrina materialista e crítica da religião.

O professor e filósofo germano-americano Eric Voegelin desenvolveu uma reflexão semelhante, embora a partir de fundamentos próprios.

Em A Nova Ciência da Política, Voegelin examinou movimentos ideológicos modernos que, segundo sua interpretação, procuraram transferir para a política expectativas de salvação originalmente associadas à experiência religiosa.

É nesse contexto que aparece sua conhecida crítica à tentativa de imanentizar o eschaton, isto é, transformar uma promessa de realização transcendente em um projeto de perfeição histórica e terrena.

Voegelin relacionou determinadas ideologias modernas, incluindo o marxismo, a formas de pensamento gnóstico, caracterizadas pela pretensão de possuir um conhecimento capaz de explicar os males do mundo e orientar sua transformação definitiva.

O problema, segundo essa interpretação, surge quando uma doutrina política passa a se apresentar como portadora de uma verdade histórica incontestável. Se determinado movimento acredita conhecer o destino necessário da humanidade, seus adversários deixam de ser vistos apenas como pessoas que possuem ideias diferentes. Podem passar a ser tratados como obstáculos à realização de um futuro supostamente inevitável. Daí podemos entender a profunda necessidade que os marxistas e comunistas têm de desumanizar os opositores e destruir essas pessoas tanto física quanto materialmente. Por isso podemos concluir que a defesa da violência como método de se fazer a revolução e de combater as classes consideradas opressoras, faz parte da essência da visão de mundo do marxismo.

E, quando isso acontece, a política deixa de ser um espaço de discussão entre indivíduos livres e se transforma em uma missão de redenção coletiva. Essa perspectiva ajuda a compreender um fenômeno que considero preocupante em determinados ambientes intelectuais e universitários: a dificuldade de admitir críticas profundas aos pressupostos marxistas.

Não me refiro a todos os professores ou pesquisadores que estudam Marx, evidentemente. Existem estudiosos sérios, capazes de apresentar suas ideias e submetê-las ao debate. Minha crítica se dirige àqueles que transformam uma corrente de pensamento em doutrina intocável, tratando autores divergentes como intelectualmente ilegítimos antes mesmo de examinar seus argumentos. Muitos dos adeptos dos dogmas de Marx e comunistas confessos são abertamente intolerantes e muitas vezes desrespeitosos. Alguns deles estão há anos deliberadamente fazendo lavagem cerebral em seus alunos.

Uma universidade deveria ser justamente o contrário disso. O ambiente acadêmico deveria estimular o confronto entre diferentes tradições intelectuais, incluindo marxistas, liberais, conservadores, libertários e tantas outras escolas de pensamento. Mas não dá para esperar muito de instituições financiadas pelo Estado – afinal, os incentivos que os funcionários bem pagos do Estado têm é de defender o seu patrão. Isso é algo bastante óbvio e evidente, ainda mais quando vemos todo o ódio e medo que essa classe de professores e funcionários públicos têm do homeschooling e de qualquer prática que traga liberdade e diversidade ao sistema de ensino.

Quando o professor apresenta apenas uma interpretação da realidade e procura impedir que seus alunos conheçam argumentos contrários, deixa de contribuir plenamente para a formação intelectual e passa a reproduzir uma visão ideológica fechada. Hoje, felizmente, na era da informação descentralizada, em que qualquer pessoa consegue ter acesso a diferentes visões, teorias e obras em seu celular ou computador, as pessoas finalmente se libertam do arcaico e monopolista sistema de ensino estatal. Por isso mesmo, como já disse, a questão da ignorância política e econômica tem se tornado algo cada vez mais voluntário. Portanto, qualquer pessoa com um mínimo de curiosidade e honestidade intelectual consegue conhecer as ideias e teorias de autores como Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Carl Menger, Roger Scruton, Eric Voegelin e outros.

Nenhuma teoria deveria estar acima da crítica. Muito menos uma doutrina política tão difundida e tão impactante que pretende explicar a história humana e reorganizar profundamente a sociedade.

Popper, Hayek, Kołakowski e Scruton: os perigos do dogmatismo ideológico:

As críticas ao marxismo também foram desenvolvidas por pensadores de tradições filosóficas bastante diferentes.

Karl Popper, por exemplo, examinou o problema do historicismo e das teorias que pretendem descobrir leis necessárias do desenvolvimento histórico. Em sua avaliação, determinadas interpretações marxistas passaram a incorporar mecanismos de defesa que dificultavam sua submissão a testes empíricos.

Quando uma previsão não se concretizava, seus defensores podiam reinterpretar os acontecimentos de maneira a preservar a validade da teoria original.

O problema desse procedimento é evidente: uma doutrina que consegue explicar qualquer resultado, inclusive aqueles contrários às suas previsões, corre o risco de se tornar imune à refutação.

O economista austríaco e aluno de Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, desenvolveu outra crítica fundamental, relacionada aos limites do conhecimento humano. Para Hayek, o funcionamento de uma economia depende de uma quantidade gigantesca de informações dispersas entre milhões de indivíduos. São conhecimentos sobre necessidades, preferências, recursos, oportunidades e circunstâncias particulares que nenhum planejador central consegue reunir integralmente.

Os preços de mercado desempenham, nesse contexto, uma função essencial: transmitem informações e permitem que diferentes pessoas coordenem suas decisões sem depender de uma autoridade central responsável por determinar toda a atividade econômica. É exatamente essa liberdade que faz uma economia capitalista complexa funcionar.

Já o socialismo baseado no planejamento central enfrenta, portanto, um problema que não pode ser resolvido simplesmente pela boa vontade de seus dirigentes. Não importa o quanto um governante se considere inteligente, preparado ou comprometido com o bem comum. Ele continuará enfrentando os limites inevitáveis do conhecimento humano. E esses foram os limites que tornaram a União Soviética um país pobre e estagnado, e que causaram enormes desastres econômicos na grande China revolucionária de Mao Tsé-Tung, onde milhões de pessoas morreram de fome e na completa miséria.

Por isso, a pretensão de substituir a coordenação descentralizada do mercado pelas decisões de uma elite política ignora justamente a complexidade da sociedade, ainda mais numa economia industrial e capitalista de grande dimensão.

Leszek Kołakowski, que conheceu profundamente a tradição marxista, também dedicou grande parte de sua obra à análise crítica do comunismo. Seus estudos mostram como determinadas doutrinas políticas podem adquirir uma dimensão quase mítica, transformando interpretações ideológicas em explicações abrangentes e supostamente definitivas da realidade.

A experiência histórica dos regimes comunistas oferece exemplos perturbadores das consequências desse fenômeno. Na União Soviética e em outros Estados de partido único, a manipulação de estatísticas, a censura, a falsificação de acontecimentos históricos e a subordinação de instituições científicas aos interesses políticos tornaram-se instrumentos de poder. A realidade precisava se ajustar à doutrina oficial, mesmo quando os fatos apontavam em direção contrária. E os próprios funcionários do estado soviético e do partido sabiam que caso desobedecessem, teriam um terrível fim num campo de concentração. Uma sociedade comunista é um verdadeiro império de mentiras.

O filósofo e escritor britânico, Roger Scruton, por sua vez, dedicou importantes reflexões ao papel da linguagem na construção e na preservação das ideologias políticas. Sua crítica ajuda a compreender como determinadas expressões podem ser utilizadas para conferir aparência moralmente respeitável a práticas coercitivas.

Palavras muito usadas e achadas nas obras e artigos de militantes comunistas como emancipação, igualdade, justiça e libertação possuem enorme força simbólica. É muito comum vermos essas palavras nos livros do pseudo-pedagogo Paulo Freire. Mas os significados desses termos dependem das ações concretas que procuram justificar.

Uma sociedade não se torna automaticamente justa porque seus governantes afirmam agir em nome da justiça, senão qualquer ditadura e regime totalitário como a Itália fascista de Mussolini, o Camboja comunista de Pol Pot ou a Alemanha de Hitler seriam sociedades com governos extremamente justos e bondosos. Da mesma maneira, a violência não deixa de ser violência simplesmente porque é praticada sob a promessa de construir um futuro melhor.

Esse é, talvez, um dos maiores perigos das ideologias utópicas: a disposição de sacrificar pessoas reais, com famílias, direitos e vidas concretas, em nome de uma humanidade futura e abstrata. Os utópicos e revolucionários não veem valor na vida do indivíduo, eles não têm qualquer padrão moral e pouco se importam com isso; essas pessoas só pensam na causa final e em suas teorias utópicas, pois seu imaginário e vocabulário já foram completamente distorcidos.

Quando a ideologia se torna mais importante que a realidade:

Ao analisarmos as críticas de Menger, Böhm-Bawerk, Mises, Hayek, Rothbard, Hoppe, Voegelin, Popper, Kołakowski e Scruton, encontramos perspectivas diferentes, mas também preocupações que se aproximam em pontos importantes.

Na economia, os autores da tradição austríaca questionaram os fundamentos da teoria marxista do valor, destacaram a importância do capital, da ação humana, da preferência temporal, da escassez e dos preços de mercado.

Na filosofia política, Rothbard e Hoppe desenvolveram argumentos em defesa da autopropriedade, dos direitos individuais e da rejeição da coerção contra pessoas pacíficas.

Já pensadores como Voegelin, Popper, Kołakowski e Scruton chamaram atenção para os perigos das doutrinas que se apresentam como explicações definitivas da história, da sociedade e da moralidade.

Essas críticas não são idênticas, nem partem necessariamente dos mesmos princípios. Mas todas oferecem razões importantes para desconfiar de projetos políticos que pretendem reorganizar a sociedade a partir de uma teoria abrangente e de uma autoridade central.

No fundo, os revolucionários marxistas têm um profundo problema moral, uma falha de caráter e uma desonestidade intelectual em reconhecer não só a falha empírica dos experimentos socialistas, mas suas contradições lógicas e econômicas.

Talvez existam indivíduos na esquerda que estão sinceramente preocupados com a pobreza, a desigualdade e o sofrimento humano – esses são os mais ingênuos e inocentes conhecidos como idiotas úteis. Mas posso dizer que os pensadores e políticos marxistas mais engajados, são desonestos ou moralmente perversos. Muitos realmente são psicopatas, egocêntricos e narcisistas ou tiveram algum trauma ou problema paterno na infância.

A verdade é que “boas intenções” não tornam uma teoria verdadeira. Tampouco justificam o uso da violência, ou alteram a realidade material e a natureza humana. Por isso, em minha visão, fica claro que faz parte da maturidade intelectual de um indivíduo, a sua preocupação com a coerência, com a lógica e com as evidências históricas e empíricas.

O problema moral aparece de maneira especialmente grave quando alguém, conhecendo as consequências históricas de determinados projetos revolucionários, continua defendendo a expropriação violenta, a eliminação de adversários políticos ou a supressão das liberdades individuais em nome de uma sociedade futura. E infelizmente existem muitas pessoas assim, e essas pessoas conseguem, com certa tranquilidade, ocupar importantes espaços de poder nos governos democráticos, e recebem muito prestígio nas universidades ou até em empresas de mídia. Elas adotam discursos bonitos e muitas vezes falam das injustiças que os mais pobres ou os mais invejosos gostam de ouvir – esses discursos realmente mexem com o emocional de muita gente. Talvez isso explique o sucesso de famosos ditadores pelo mundo em encantar e ludibriar as pessoas, incluindo o socialista Adolf Hitler, com seus discursos feitos para as massas e sua estratégia de criar bodes expiatórios.

Nesse momento, já não estamos discutindo apenas diferenças de interpretação econômica. Estamos diante de uma escolha moral.

O século XX mostrou, de maneira terrível e cruel, o que pode acontecer quando governos se consideram autorizados a sacrificar indivíduos em nome de grandes projetos de transformação social.

Em vários países, milhões de pessoas foram submetidas à perseguição, ao trabalho forçado, à fome provocada ou agravada por políticas estatais, à censura e à violência política em regimes que afirmavam construir sociedades mais justas.

Essas experiências não podem ser ignoradas ou tratadas como meros acidentes históricos sem importância.

É necessário estudar suas causas, compreender suas particularidades e examinar o papel desempenhado pela concentração de poder, pela supressão da propriedade privada e pela eliminação da liberdade de expressão e da divergência.

Também considero profundamente contraditório que pessoas formadas em tradições cristãs, muitas vezes autointituladas católicas, cuja moral valoriza a dignidade humana e condena a agressão injusta, possam apoiar discursos que apresentam a violência revolucionária como instrumento legítimo de transformação social. Isso é mais comum do que parece, e ao mesmo tempo é de uma insanidade mental que não consigo entender com facilidade.

A preocupação com os pobres e com os trabalhadores não exige adesão ao comunismo – muito pelo contrário. Muito menos exige aceitar a violação dos direitos de pessoas inocentes. A caridade ensinada pelo cristianismo sempre foi baseada na cooperação voluntária, e não em imposição estatal.

É perfeitamente possível defender a dignidade humana, combater injustiças e desejar melhores condições de vida sem transformar empresários, proprietários ou adversários políticos em inimigos que precisam ser destruídos. Aliás, essa deveria ser uma das primeiras exigências de qualquer filosofia política moralmente séria e eticamente justa.

Volto, então, ao ponto de partida.

Vivemos em uma época na qual o conhecimento está disponível como nunca esteve. Podemos estudar as ideias de Karl Marx, mas também as críticas de Böhm-Bawerk e de tantos outros pensadores, filósofos e economistas. Podemos ler os argumentos socialistas e confrontá-los com Mises, Hayek e Rothbard. Podemos conhecer a interpretação de Voegelin sobre as religiões políticas e examinar as críticas de Popper ao historicismo.

Não precisamos aceitar passivamente aquilo que um professor, um político, um influenciador ou um partido nos apresenta como verdade. Temos a possibilidade de comparar argumentos, estudar diferentes tradições e formar nossas próprias convicções.

É justamente por isso que a ignorância voluntária me parece tão preocupante e, ao mesmo tempo, tão insana. É como se muitas pessoas sofressem de uma esquizofrenia coletiva. Como que uma pessoa pode não acreditar em vários dados, argumentos lógicos, registros históricos, e viver durante anos a décadas imersa na mentira? Mesmo sabendo que nosso país vizinho, a Venezuela, passou por uma traumática e longa experiência de ditadura, opressão e socialismo? Será que os incontáveis refugiados venezuelanos que vieram parar no nosso país não é o suficiente para despertar os jovens marxistas para a realidade?

A informação, sozinha, não torna ninguém sábio. A formação intelectual exige disposição para reconhecer erros, para ser verdadeiramente humilde, abandonar preconceitos e examinar seriamente ideias contrárias às nossas. Ir contra a corrente, contra o status quo, sobretudo em ambiente institucional e acadêmico, não é nenhum pouco fácil. A vida de intelectuais como Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Hans Hermann Hoppe, e os desafios que eles passaram, nos prova isso.

E talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis para qualquer pessoa, sobretudo aquelas cheias de titulações e que são pagas, muitas vezes, para defender ou ser conivente com o erro: admitir que uma ideia cultivada durante anos pode estar equivocada. Alguns dizem que essa mudança de postura e pensamento pode representar a morte de todo um sistema de crença formado nas mentes desses indivíduos comunistas; algo que algumas pessoas jamais tolerariam vivenciar. Apenas imagine o quão desafiador seria convencer alguém como Guilherme Boulos a se tornar um anarcocapitalista rothbardiano? Nesses casos, quando o sistema de crença marxista já se tornou parte da identidade da pessoa, do seu próprio ego, fica extremamente difícil para o indivíduo se libertar do erro, pois o dogma marxista já está vinculado ao senso de eu e às emoções da pessoa.

Não vejo liberdade ou decência em uma sociedade que precisa violar a propriedade legítima e escravizar ou matar inocentes para alcançar seus objetivos. Não vejo justiça na perseguição de pessoas pacíficas por pertencerem a determinada classe social. E não consigo aceitar que a promessa de um futuro supostamente perfeito sirva de justificativa para a coerção praticada no presente. Até porque, essa perfeição provavelmente nunca poderá ser realizada no reino da terra, e se for, ela não poderá violar a natureza humana como pretendem os engenheiros sociais marxistas.

Uma sociedade livre não deveria ser construída sobre o ressentimento, a inveja ou a hostilidade entre grupos. Deveria se fundamentar no respeito à vida, à propriedade, à responsabilidade individual e à cooperação voluntária, algo que com certeza está mais alinhado aos ensinamentos cristãos e à teoria de justiça libertária que defende o direito natural à autopropriedade.

O progresso humano não depende de encontrar uma classe social para culpar por todos os problemas do mundo. Depende, entre outras coisas, de permitir que indivíduos diferentes possam trabalhar, produzir, empreender, trocar ideias e buscar seus próprios projetos de vida sem sofrer agressões.

No fim das contas, a grande questão não é apenas saber quanta informação temos à disposição, mas o que estamos dispostos a fazer com ela e se estamos dispostos a morrer pela verdade. Porque conhecer uma ideia pode ser relativamente fácil. Difícil é examiná-la com honestidade intelectual, reconhecer suas contradições e, quando necessário, ter a coragem de abandoná-la para buscar a verdade.

E, numa época em que praticamente todo o conhecimento humano cabe na palma da mão, continuar tratando uma ideologia política como uma verdade sagrada e imune à crítica talvez seja uma das formas mais lamentáveis de desperdiçar essa oportunidade.

 

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here