Reaprendendo e revisando a história: as lições de Rothbard

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[Discurso proferido no dia 20 setembro de 2026 em ocasião do vigésimo encontro anual da Property and Freedom Society em Bodrum, Turquia]

Dei a essa palestra o título de “Reaprendendo e revisando a história” e, até certo ponto, pode-se dizer que ela se trata de uma espécie de autobiografia intelectual, traçada em linhas bem gerais. Muitos detalhes foram omitidos. É claro que não acredito na teoria da “tábula rasa”: todos nascem com um corpo e uma certa estrutura biológica — uma espécie de “hardware” —, e embora o hardware que todos os seres humanos possuem apresente certas semelhanças, o hardware de um indivíduo certamente não é idêntico ao de outra pessoa.

Mas, de certa forma, começamos, sim, como uma tábula rasa: a experiência externa — aquilo que será inserido no “hardware” — não está presente desde o início; nós simplesmente passamos a conhecer o mundo exterior. O que se aprende primeiro é o idioma, naturalmente, do lugar onde se vive, as regras sociais, as convenções e tudo o mais. É claro que eu também aprendi isso. Depois, especialmente por meio dos meus pais, assimilei o que se costuma chamar de “virtudes secundárias” dos alemães: pontualidade, confiabilidade, diligência, ambição e outras características desse tipo.

Aliás, devo mencionar que os filhos de refugiados – como eu – tendiam a ter mais sucesso na vida do que as pessoas que já residiam no local antes da guerra, ao contrário das crianças refugiadas. Ralf Dahrendorf (1929–2009), um sociólogo alemão, investigou isso. Claro que isso já não é relevante, mas para a minha geração – nasci em 1949, logo após a Segunda Guerra Mundial – esse era definitivamente o caso.

O que eu não recebi dos meus pais foi algum tipo de explicação sobre como o mundo funciona, sobre história, sobre uma visão de mundo. E existe uma explicação muito simples para isso também, que aconteceu não só comigo, mas com toda uma geração de alemães da minha idade.

Os alemães haviam perdido uma guerra devastadora. Minha mãe vinha de uma família chamada Junkers da Elbia Oriental – proprietários de terras na parte oriental da Alemanha. E sua família foi expropriada pelos soviéticos em 1946 e expulsa de sua casa. Eles puderam levar só o que conseguiam carregar e partir.

Meu pai havia sido aprisionado no infame Rheinwiesenlager. Eram campos de prisioneiros de guerra, administrados principalmente por americanos, onde os prisioneiros eram brutalizados sem piedade. Os americanos não se importavam com eles, chegando a proibir que civis alemães enviassem pacotes de ajuda humanitária para esses campos. Os americanos, é claro, davam a entender que isso havia causado apenas algumas dezenas de milhares de pessoas mortas. Outras estimativas apontam para 200 mil mortes por inanição – mortes deliberadas causadas pela fome. E há até estimativas, feitas por James Bacque, um autor canadense, que chegam a 1 milhão de mortos.

Isso já aponta para um tema ao qual voltarei: o de que os alemães — inclusive os alemães ocidentais, que estavam sob ocupação dos aliados ocidentais — não foram libertados pelos americanos. Obviamente, uma libertação tem um aspecto um tanto diferente de ser tratado daquela maneira em campos de prisioneiros de guerra.

E por causa dessa experiência – de ter sido expropriado, de ter sido encarcerado sob as circunstâncias mais brutais –, esses eram assuntos que simplesmente nunca eram mencionados. Eles eram silenciados. Não era algo sobre o qual se falava. Você aceitava o status quo imposto pelas potências ocidentais.

E as potências ocidentais deixaram um sistema. Elas instalaram o novo governo alemão. Elas licenciaram a constituição, a Grundgesetz. Licenciaram os livros didáticos. Licenciaram os partidos políticos. Licenciaram todos os meios de comunicação e assim por diante. E isso era, por assim dizer, o que se aprendia na escola desde o início: que tudo aquilo era normal.

Isso significava que tínhamos o tipo de democracia liberal americana imposto na Alemanha, com um banco central, com papel-moeda, logo após a fundação da Alemanha Ocidental como membro da OTAN. Todos nós aprendemos a odiar a União Soviética – o que, no meu caso, foi fácil, porque eu tinha visto o que eles fizeram com a minha família. E aprendemos, de modo geral, que os alemães são maus e os americanos são maravilhosos. Os Estados Unidos são a nação excepcional. Tudo o que eles fazem é algo que devemos imitar – este é o nosso grande exemplo.

E, claro, também aprendemos algo que persiste até hoje: a chamada culpa alemã. Os alemães foram responsáveis ​​por todas as guerras. Eles foram os únicos responsáveis ​​pela Primeira e pela Segunda Guerra Mundial. A Alemanha era má, e os Estados Unidos e o Ocidente eram fantásticos e maravilhosos. Além disso, algo que se mantém até hoje, sempre ouvíamos a pergunta: “O que vocês fizeram aos judeus?”. E o Holocausto, até hoje, surge periodicamente na mídia, de uma forma ou de outra, e o que ficou incutido nos alemães foi essa atitude: nunca diga nada sobre eles. Todos vocês são culpados — a despeito do fato de que eu nasci depois da guerra e, obviamente, não poderia ter feito absolutamente nada.

Qualquer tipo de crítica a essas coisas que nos foram apresentadas como perfeitamente normais — e às quais nossos pais não ofereceram muita resistência, já que, afinal, eles próprios haviam sofrido traumas —, enfim, qualquer questionamento sobre essas narrativas que nos contaram, fazia de você um excluído. E, quanto mais você começava a duvidar ou questionar, mais você era excluído.

Foi isso, no fim das contas, que me aconteceu: tornei-me uma espécie de pária por causa de tudo o que aprendi ao longo da minha vida. E, naturalmente, quem desempenhou o papel mais importante na releitura e na revisão da história para mim foi Rothbard — não que ele tenha sido o único, mas teve um papel extremamente relevante nisso.

A primeira constatação — bem, não foi a primeira em sentido cronológico, mas uma das mais fundamentais a que cheguei — foi a de que há algo de errado com a instituição do estado. Isso, é claro, jamais foi ensinado na escola; o estado era apresentado como uma organização maravilhosa.

E descobri uma verdade muito elementar: o estado é o monopólio da tomada de decisão final e da arbitragem final em todos os casos de conflito, inclusive em conflitos que envolvem o próprio estado. É fácil prever o que acontece se aceitamos uma instituição como essa. Creio que nenhuma pessoa normal ou sensata concordaria se isso fosse escrito explicitamente: “Existe uma instituição que é sempre o juiz final em qualquer tipo de conflito, inclusive em conflitos nos quais ela mesma estive envolvida. Eu reclamo da polícia, a decisão será tomada por um juiz, mas o juiz é funcionário da mesma empresa que o policial.” Portanto, é possível prever, em linhas gerais, o resultado que esse tipo de instituição trará.

É claro que, se você é sempre o juiz supremo em qualquer tipo de conflito, incluindo aqueles em que você mesmo está envolvido, você também pode cobrar impostos. Você pode roubar pessoas e depois ter seus juízes decidindo que isso é perfeitamente legítimo: “Não chamamos isso de roubo, chamamos isso de impostos ou contribuições.”

Se eu sou o juiz supremo em qualquer tipo de conflito, também posso criar leis. Posso me envolver na atividade de legislar. E em que tipo de legislação, previsivelmente, eu me envolverei? Na criação de leis que me beneficiem, às custas de outros. É possível perceber, de imediato, que existe uma tendência de que o poder do estado cresça continuamente; afinal, quanto mais impostos são cobrados, melhor é a situação de quem os arrecada. Quanto mais você legisla, mais você pode favorecer a si mesmo e aos seus amigos.

Tínhamos também a instituição de um banco central – que, claro, também estava sob o controle, de certa forma, dos americanos, que eram uma força ocidental dominante na Alemanha Ocidental. Além da tributação, se você tem o monopólio da impressão de papel-moeda, é claro que imprimirá mais. De repente, você descobre que tem muitos amigos que nunca imaginou que poderiam ser seus amigos, mas que você pode comprar. Portanto, existe uma tendência de um estado crescer continuamente.

Acrescente a isso a democracia. Há eleições democráticas para determinar quem é o chefe de Estado. Tenho um pequeno livro em alemão chamado “A Competição dos Ladrões”. A democracia introduz uma competição entre pessoas que querem governar outras pessoas ou que não têm qualquer inibição em governar outras pessoas.

Na competição econômica normal, produtos melhores superam produtos piores. Mas ingressar na política não é algo positivo. É, desde o início, um crime, pois se deseja exercer domínio sobre outras pessoas. Portanto, no contexto da democracia, a competição faz com que os piores indivíduos cheguem ao topo. Hayek escreveu um artigo sobre isso: “Por que os piores chegam ao poder“. Eu também escrevi alguns textos breves sobre esse assunto.

Se analisarmos a atual liderança no mundo ocidental, é fácil perceber como essa tendência se concretizou. Nossos principais políticos, praticamente um após o outro, tornaram-se piores do que os que vieram antes.

Se considerarmos apenas Clinton e Bush, depois Obama, Biden e Trump, começamos com um vigarista como Clinton e terminamos com um imbecil como Trump. Se Trump não fosse tão poderoso sendo o presidente que é, o consideraríamos uma piada. Ele poderia aparecer em programas de comédia. Mas, na verdade, a situação é muito mais séria. Temos a nação mais poderosa do mundo governada por um lunático, que deveria estar internado em um hospício em vez de ocupar o cargo que ocupa atualmente.

Mas é claro que isso também se aplica à Alemanha. Na Alemanha, tivemos uma ministra das Relações Exteriores cuja única qualificação era ser muito boa em saltos em trampolim. Tivemos um ministro da Economia que não sabia o que significava insolvência. Atualmente, temos pessoas no poder que, ao contraírem uma enorme quantidade de dívidas adicionais, chamam isso de fundo soberano.

E se você olhar para outros países, verá um cenário semelhante. A qualidade dessas pessoas… dá vergonha de ser governado por gente assim. Eles não sabem nada sobre você. Eu não sei nada sobre eles. Eles não sabem nada sobre as minhas circunstâncias e, mesmo assim, têm a arrogância de aprovar leis que me afetam nos meus assuntos mais íntimos, sem nunca terem o meu consentimento para nada do que fazem.

Ora, dado que o estado está sempre em expansão — que o seu tamanho cresce continuamente, naturalmente às custas do setor privado, que é quem realmente produz —, e considerando que aqueles que estão no comando possuem uma inteligência bastante medíocre, é fácil prever o que acontecerá nessas circunstâncias.

As pessoas realmente bem-sucedidas – os grandes empresários e os grandes financistas – perceberão que o tamanho crescente do estado o torna, naturalmente, passível de ser controlado. Assim, eles ganham cada vez mais controle – são as pessoas mais inteligentes, a grande indústria, as grandes finanças – são eles que, na verdade, dão apoio a esses políticos idiotas que nos governam e se beneficiam deles na medida em que obtêm privilégios especiais. Eles conseguem contratos governamentais, afinal, o governo tem mais dinheiro do que qualquer outra entidade – contratos enormes podem ser firmados com o governo, que podem enriquecer ou arruinar alguém.

Assim, os grandes empresários também estão se tornando estatistas. Os grandes empresários sempre tiveram interesse em eliminar a concorrência de empresas menores e mais competitivas, e é fácil para eles influenciar os políticos a aprovarem leis que prejudicam as pequenas empresas e beneficiam as grandes.

Essa foi, portanto, uma das minhas primeiras percepções — o que, como você pode imaginar, já é capaz de tornar qualquer pessoa um tanto desconfiada. A percepção seguinte dizia respeito à relação entre estado, guerra e imperialismo, e ao papel peculiar dos bancos centrais em tudo isso.

Descobri, facilmente, que os estados têm, obviamente, a possibilidade de entrar em guerra e se envolver em conflitos com mais facilidade do que os cidadãos comuns. Isso porque os estados podem transferir o custo da guerra para os recrutas e todos os participantes involuntários.

Os estados são, portanto, a causa das guerras — e são muito mais propensos a causá-las do que qualquer outro grupo criminoso —, uma vez que o custo da guerra pode ser socializado. Isso nos leva à conclusão de que os estados que possuem uma base econômica mais sólida — já que toda guerra precisa ser financiada de alguma forma —, ou seja, aqueles que são internamente mais liberais — gerando, por conseguinte, uma população mais próspera e uma base econômica mais robusta —, tendem a ser, no que diz respeito à sua política externa, mais agressivos do que estados que são internamente opressores e que dependem de uma população pouco produtiva, com uma economia subdesenvolvida.

Isso me levou a refletir ainda mais sobre as relações germano-americanas. Como você deve se lembrar, os alemães e a Alemanha são vistos como malvados, enquanto os Estados Unidos e os americanos são vistos como bonzinhos.

Descobri então, naturalmente, com relativa facilidade, que os Estados Unidos já eram há bastante tempo uma potência imperial, desde, pelo menos, a Guerra Hispano-Americana. Os Estados Unidos eram um dos países mais ricos no final do século XIX, então, como eu previa, esses lugares tendem a se tornar mais agressivos porque sabem que provavelmente vencerão qualquer guerra.

Primeiro houve a Guerra Hispano-Americana, eles ocuparam Cuba, ocuparam as Filipinas, depois se interessaram pelo Pacífico, o Havaí foi ocupado e assim por diante. O que me leva à Primeira Guerra Mundial.

Obviamente, a Primeira Guerra Mundial foi inicialmente uma guerra interna europeia. E certamente, o Império Alemão não representava uma ameaça aos Estados Unidos, visto que a guerra ocorria a dois oceanos de distância da Alemanha. No entanto, os alemães foram considerados os únicos culpados pela Primeira Guerra Mundial – o que, claro, não é verdade, já que a Grã-Bretanha teve pelo menos tanta participação quanto a Alemanha, senão mais.

A guerra que eclodiu na Europa levou, inicialmente, a uma espécie de impasse. A paz parecia próxima. O conflito poderia ter terminado em 1916, ou algo do gênero. Então, os britânicos — valendo-se de laços financeiros e familiares com os americanos — conseguiram envolver os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial; e foi justamente a intervenção norte-americana no conflito que garantiu a vitória às potências ocidentais.

Foram os americanos que vieram à Europa, sob a liderança do presidente Wilson, cujo lema era: “Precisamos tornar o mundo seguro para a democracia”. Assim, um dos objetivos dos americanos — que entraram na guerra e, por fim, determinaram o seu desfecho — era a destruição de todos os impérios monárquicos na Europa: o Império Habsburgo, o Império Otomano, o Império Alemão e o Império Russo.

Então, qual foi o resultado da destruição dos impérios monárquicos na Europa? Na Rússia, tivemos a ascensão dos comunistas ao poder. E na Alemanha — que é o foco principal da minha análise aqui — a democracia e a abolição da monarquia levaram a um crescimento contínuo tanto dos comunistas quanto dos nacional-socialistas; no fim, os nacional-socialistas acabaram prevalecendo sobre os comunistas — ou seja, sobre os partidos comunistas na Alemanha que tinham vínculos com a União Soviética ou interesses alinhados a ela.

Obviamente, esse não foi um resultado fantástico. Se os Estados Unidos não tivessem entrado na Primeira Guerra Mundial, a situação poderia ter sido muito melhor do que foi depois que os Estados Unidos entraram e encerraram decisivamente a guerra.

A Alemanha foi despojada de diversos territórios e teve que pagar reparações. Você já deve ter ouvido falar do Tratado de Versalhes, que, para todas as pessoas minimamente objetivas da época, era considerado uma garantia de que haveria uma revisão, de que haveria uma próxima guerra. Alguns historiadores, por causa disso, descreveram o período entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o fim da Segunda Guerra Mundial como uma única guerra de 30 anos. Portanto, a Segunda Guerra Mundial era bastante previsível com base no resultado da primeira.

E quanto à Segunda Guerra Mundial? Novamente, a história que aprendemos na Alemanha foi, claro, que os alemães também começaram aquela maldita guerra. Na verdade, não foi isso que ocorreu.

Hitler era um grande admirador da Grã-Bretanha e do mundo anglo-saxão. Ele acreditava que eles tinham parentesco genético com a raça ariana e coisas desse tipo. Ele não tinha interesse em travar guerra contra a Inglaterra ou os Estados Unidos. O que ele queria era recuperar parte do território originalmente alemão que havia sido ocupado pela Polônia, país criado após a Primeira Guerra Mundial. Embora a ideia de Wilson fosse a de que os povos deveriam ter o direito de escolher a que lugar queriam pertencer, esse direito foi amplamente ignorado na execução do Tratado de Versalhes.

Existiam muitos territórios habitados por alemães que votaram para se tornarem parte da Alemanha, mas não tiveram permissão para fazê-lo. Assim, a Alemanha teve alguns conflitos com a Polônia nessas regiões. Os poloneses eram muito intransigentes, incentivados pelos britânicos e franceses, que acreditavam que qualquer imprevisto contra eles seria motivo para uma guerra contra a Alemanha.

Quando a Alemanha invadiu a Polônia em acordo com a Rússia — que invadiu a Polônia algumas semanas depois —, a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha. Portanto, não houve uma declaração de guerra por parte da Alemanha contra nenhuma das potências ocidentais; pelo contrário, foram as potências ocidentais que declararam guerra à Alemanha. Contudo, elas não declararam guerra à Rússia, que, duas semanas mais tarde, fez exatamente a mesma coisa e tomou a outra parte da Polônia, conforme a Alemanha e a Rússia haviam previamente planejado. Assim, não houve declaração de guerra contra a Rússia, mas houve uma declaração de guerra contra a Alemanha.

A Alemanha viu-se forçada a travar uma guerra no oeste, uma vez que, afinal, a Grã-Bretanha encontrava-se, naquele momento, em estado de guerra. Surgiu, então, a célebre blitzkrieg alemã. A França e a Inglaterra foram rapidamente derrotadas. Os alemães foram generosos a ponto de permitir que centenas de milhares de soldados britânicos — que poderiam ter sido facilmente capturados — retornassem à Inglaterra. A Alemanha desejava a paz — buscava assegurar a paz no oeste —, pois sua ambição, a intenção de Hitler, voltava-se para o leste. Ele não queria ter qualquer envolvimento com o oeste; na verdade, considerava-os até mesmo aliados. (Veja bem: como ocorre sempre que falamos de governos, estamos tratando de grupos de gângsteres; contudo, esses grupos possuem, naturalmente, interesses distintos, e alguns gângsteres são piores do que outros.)

E como terminou essa guerra mundial? Mais uma vez, os britânicos conseguiram envolver os americanos nessa guerra também, assim como fizeram na Primeira Guerra Mundial, e foram, claro, os americanos que, em última análise, decidiram o resultado da guerra.

A Rússia soviética havia matado muito mais pessoas, mesmo em tempos de paz, do que Hitler. Hitler havia matado, talvez, alguns milhares de pessoas em tempos de paz. Stalin, por sua vez, já havia matado 20 milhões — e, ainda assim, foi a União Soviética que se tornou aliada das potências ocidentais.

Então, qual foi o resultado disso? O resultado foi que os americanos passaram a ocupar a Alemanha. Ocuparam também a Itália. Nesse meio-tempo, ocuparam muitos outros países ao redor do mundo, como demonstram as bases militares que eles mantêm. Até hoje, existem bases militares americanas na Alemanha. Até hoje, eles mantêm bases militares na Itália, na Espanha e na Turquia. Praticamente não há países europeus onde os americanos não possuam instalações militares.

O que isso indica sobre a situação desse tipo de sociedade? Obviamente, trata-se de uma espécie de vassalagem. Os alemães não possuem instalações militares nos Estados Unidos, na França ou em qualquer outro lugar do tipo. Países normais não gostam de ver soldados estrangeiros dando as cartas em seu próprio território.

Além disso, toda a Europa Central e a Europa Oriental caíram sob domínio comunista. Esse foi outro grande desdobramento dessa guerra.

14 milhões de alemães foram expulsos de seus lares — onde, em alguns casos, viviam há centenas de anos — e foram forçados a partir como refugiados; entre cinco e seis milhões deles foram simplesmente mortos pelas pessoas que, nos diversos locais, os expulsaram e se apropriaram dos bens que antes pertenciam à Alemanha.

Mais uma vez, isso me lembra o que eu disse anteriormente: os Estados Unidos não foram libertadores para os alemães; os americanos vieram à Europa como conquistadores.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram, de longe, o império mais poderoso do mundo. O Império Britânico estava, basicamente, falido, e foi herdado pelos Estados Unidos.

E agora vejo que essa expansão de territórios e de estados vassalos continuou, e que os Estados Unidos estão, há décadas, na vanguarda desse processo. Após o colapso da União Soviética, no início da década de 1990, o Pacto de Varsóvia foi dissolvido. Os russos, de fato, retiraram-se da Alemanha Oriental; voltaram para casa.

A razão de ser da OTAN — que, inicialmente, era a de que “precisamos defender os europeus da maligna União Soviética” — havia, essencialmente, desaparecido. Contudo, ao contrário do que ocorreu com a dissolução do Pacto de Varsóvia — que, no bloco soviético, equivalia à OTAN no mundo ocidental —, a OTAN não foi dissolvida.

Inicialmente, houve acordos verbais firmados pelas potências ocidentais: “não expandiremos a OTAN para além da Alemanha Oriental”. A Alemanha Oriental agora está incluída, devido à reunificação alemã, mas além disso, não haverá mais expansão da OTAN. O que aconteceu, é claro, foi justamente essa inclinação imperial que alguns países têm, desde que possuam poder econômico para sustentar tal coisa.

Então a Polônia se tornou membro da OTAN. Os Estados Bálticos se tornaram membros da OTAN. A Tchecoslováquia se tornou parte da OTAN. E a Rússia deixou de ser a União Soviética. Passou a ser apenas a Rússia. Muitas pessoas, até hoje, cometem o erro de pensar que a Rússia é a União Soviética. Não, a Rússia não é a União Soviética. Já estive na Rússia algumas vezes. Não, definitivamente não é a União Soviética. Estive na Alemanha Oriental quando ela era comunista. Sei como funcionam os países comunistas. A Rússia de hoje não é como a União Soviética. É completamente diferente.

De qualquer forma, a animosidade que fomos educados a nutrir contra a União Soviética foi, então, transferida para a Rússia. A Rússia foi cercada; e, claro, há também a história mais recente sobre a guerra na Ucrânia, que, segundo alegaram, foi totalmente não provocada. Na verdade, nada poderia estar mais longe da verdade. Tratou-se, evidentemente, de uma guerra claramente provocada.

Eles promoveram uma dessas “revoluções laranja” na Ucrânia, derrubaram o presidente que estava no poder, instalaram estruturas americanas no país e, a certa altura, Putin se cansou disso e disse: chega de expansão.

De qualquer forma, meu ponto é apenas este: se analisarmos o histórico da questão, a guerra não começou com Putin atacando a Ucrânia. As províncias do leste da Ucrânia são todas de língua russa. Seus habitantes não se sentiam ucranianos e desejavam um certo grau de autonomia. E, à medida que tentavam obter isso, Zelensky e seus aliados conduziram, durante 14 anos, uma guerra contra essa parcela da população ucraniana — a população de língua russa. Esse tipo de atrocidade, que ocorria por lá, nunca foi noticiado — ou, quando foi, houve pouquíssimas reportagens a respeito.

Repito, não estou defendendo nenhum dos lados. Estamos sempre falando de gângsteres. Mas o maior gângster, nesse caso, são os Estados Unidos.

Se ampliarmos um pouco o panorama, observemos quem conduziu, nos tempos mais recentes, a maioria das guerras estrangeiras: Coreia, depois Vietnã, depois Afeganistão, Iraque, Sudão e agora Irã. Uma guerra após a outra contra nações que não representavam a menor ameaça aos Estados Unidos. Os vietnamitas não queriam invadir os Estados Unidos. Os coreanos não queriam invadir a América do Norte. Nem o Sudão, nem o Iraque, nem nenhum desses países tinham a intenção ou a capacidade de sequer considerar tal possibilidade.

Os Estados Unidos lideraram a maior parte dessas guerras, alegando tratar-se de uma guerra contra o terror. Mas cheguei à conclusão de que, se compararmos com todos esses diversos ataques terroristas — por mais graves que sejam — que ocorreram aqui e ali, os Estados Unidos são, atualmente, o maior terrorista do mundo.

Estima-se que pelo menos 20 ou 30 milhões de pessoas tenham morrido em decorrência das guerras americanas e, claro, também das sanções americanas contra diversos países, que levam a população civil à fome.

Por que essas guerras ocorreram, mesmo não trazendo nenhum benefício imediato para as pessoas — sendo, na verdade, destrutivas e assim por diante? É preciso entender que, claramente, existem pessoas que se beneficiam das guerras. Há fabricantes de armamentos que lucram com elas. Eles têm interesse em iniciar conflitos e mantê-los em curso pelo maior tempo possível.

Assim, voltamos novamente àquilo que chamamos de “estado profundo”. Mais uma vez, não são os políticos estúpidos — ou aqueles com limitações intelectuais — que estão no topo de tudo isso e tomam essas decisões sozinhos. São, na verdade, empresários e financistas influentes e mais astutos que têm interesse na guerra.

E, como os Estados Unidos são, naturalmente, a superpotência, são os financiadores e os grandes empresários norte-americanos que mais lucram com isso. Veja, por exemplo, a situação atual, em que a Europa apoia constantemente a Ucrânia. Os norte-americanos dizem a eles: vocês precisam se rearmar e fortalecer seus exércitos. Mas onde os alemães ou os italianos compram essas armas para fortalecer seus próprios exércitos? Pois é, eles as compram, em sua maioria, dos Estados Unidos.

Passo, então, à última e mais controversa conclusão a que cheguei — e, mais uma vez, Murray Rothbard foi fundamental para me ajudar a chegar a ela. Trata-se, naturalmente, de uma das ideias mais tabus que um alemão poderia vir a cogitar.

E foi uma observação muito simples. Se você observar esses empresários, financistas e outros figurões influentes que comandam o governo americano, que representam o “estado profundo” nos Estados Unidos, você descobrirá que há um grupo com influência desproporcional. E esse grupo é o lobby judaico nos Estados Unidos.

Se você observar o meio acadêmico, todos os cargos de alto escalão são ocupados por judeus. Se você analisar as administrações norte-americanas, todos os postos de maior relevância são ocupados por judeus que, por sua vez, são parentes de outros judeus. Há muitos indivíduos com dupla cidadania — cidadãos israelense-americanos — que desempenham um papel de enorme importância.

E isso nos leva, naturalmente, à questão de Israel. Rothbard também defendia a ideia de que todos os Estados são criminosos; contudo, Israel seria particularmente criminoso, pois, no seu caso, uma população estrangeira — que não vivia ali — chegou, ocupou e conquistou um território que já era habitado por outras pessoas, as quais viviam naquele local desde sempre. Eles as mataram, eliminaram-nas e tornaram-se uma fonte constante de conflito em todo o Oriente Médio.

E existia uma estreita associação entre os lobbies judaicos americanos e todos os seus representantes. Há quem diga que cada membro do Congresso e do Senado nos Estados Unidos tem, por assim dizer, uma pessoa designada — que está sob o controle de Israel — encarregada de arruiná-lo caso ele não faça o que lhe é ordenado. Se observarmos a situação atual em relação ao Irã, percebemos até que ponto Trump foi persuadido por Israel a iniciar esse conflito. E agora, embora ele deseje sair dessa guerra, é impedido — basicamente por Israel, ou melhor, por Netanyahu — de fazê-lo, sendo forçado a manter o conflito indefinidamente.

E, claro, a desculpa que sempre dão para isso é: “Sim, mas Israel merece proteção especial por causa do que aconteceu há 80 anos.”

Devo dizer que considero isso uma brincadeira cruel. Antes de mais nada, a população na Palestina — independentemente do que os alemães possam ter feito aos judeus — não tinha feito nada contra eles. E o que se estabeleceu em Israel não foi um governo que surgiu da população nativa; foi, na verdade, uma invasão estrangeira que tomou conta daquele lugar.

E se observarmos o que Israel — com a assistência dos americanos — está fazendo na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã — algo para o qual todos nós temos documentação; podemos ver, existem vídeos disso —, trata-se de uma crueldade sem paralelo. Nada parecido ocorreu na Primeira Guerra Mundial. Nada parecido ocorreu na Segunda Guerra Mundial. Veja Gaza, completamente arrasada. E tudo isso nos é apresentado como legítima defesa.

E, claro, os europeus — que já são tolos e foram tornados ainda mais tolos pelos americanos, que também são tolos — acreditam nesse tipo de coisa. Eles comparam o que acontece em Gaza com o chamado Holocausto.

No que diz respeito ao Holocausto, se você negar o menor detalhe da narrativa oficial sobre o Holocausto na Alemanha, será preso. Isso, apesar de ninguém — nem mesmo aqueles que são chamados de “negacionistas do Holocausto” — ter jamais negado que coisas cruéis, perversas e terríveis ocorreram durante aquele período.

Mas, se você examinar essas questões um pouco mais de perto — e, mais uma vez, aprendi tudo isso também com Rothbard —, verá que há furos enormes nessa narrativa. Há muitas mentiras misturadas a certos fatos que são, inegavelmente, verdadeiros. Nunca foram realizadas investigações forenses nesses locais.

O chamado julgamento de Nuremberg foi considerado – até mesmo por políticos americanos de alto escalão como Taft, que era candidato à presidência – um tribunal de exceção.

Se você comparar as evidências que apresentavam furos enormes com as evidências que temos sobre a crueldade que ocorre em Gaza, é preciso perguntar: como alguém pode deixar de culpar as pessoas que apoiam esse tipo de coisa?

Fiquei chocado ao saber, por exemplo, que o austríaco líder do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) repentinamente também se declarou um grande fã de Israel: “Temos que defender Israel em todas as circunstâncias”.

Espero que as pessoas cheguem à conclusão de que, independentemente de quem diga algo — se a esquerda ou a direita —, isso não tem tanta importância. O que importa é a verdade. Algumas pessoas que atacam ou criticam Israel acabam sendo acusadas: “Ah, você diz a mesma coisa que o pessoal da esquerda diz”.

Não existe ninguém que se oponha aos socialistas de forma mais contundente do que eu. Mas, ainda assim, se um socialista diz que o que está acontecendo em Gaza é um genocídio, então ele tem razão. E se o pessoal de direita — com quem, em geral, tenho mais afinidade — diz: “Não, não, não há nada disso. É tudo legítima defesa. Apenas legítima defesa — e não se esqueçam do Holocausto”, então, na minha opinião, essas pessoas estão erradas.

Como podem imaginar, com esse tipo de opinião que tenho, tornei-me uma das pessoas mais populares da Alemanha.

 

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