A filosofia política de Jorge Luis Borges

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borges3Tem-se falado muito sobre Borges e a política, porém a atenção dada às suas opiniões tem se baseado geralmente nos relatos anedóticos daquele sujeito que prestava pouca atenção às notícias diárias, e que dedicava boa parte de sua reflexão a critérios estéticos e particularmente épicos: desde sua admiração pelos militares fundadores da pátria em sua luta pela independência e liberdade argentinas, à sua filiação ao Partido Conservador porque “somente os ilustres defendem causas perdidas”.

Lamentavelmente, tais pontos de vista lhe custaram o prêmio Nobel[1], negado por aqueles que dão prioridade ao “politicamente correto” ao invés de ao literariamente extraordinário.

No entanto, a despeito de nos depararmos ao largo de sua história com variadas decisões e opiniões políticas, em alguns casos até mesmo contraditórias, é opinião deste escritor, conforme pretende-se demonstrar no curso deste artigo, de que existe uma clara filosofia política em Borges, consistente e reconhecida, e que se manteve inalterada durante o curso de sua longa vida.

Porém como atribuir a uma filosofia política coerente decisões políticas menos que coerentes, e em alguns casos até contraditórias?  A explicação proposta é que a filosofia é de fato consistente, e que as referidas decisões se basearam em outros critérios que lamentavelmente diferiam dos princípios.

Os elementos centrais da filosofia política de Borges se coadunam claramente com os princípios filosóficos associados ao liberalismo clássico, e possuem até mesmo um viés do que atualmente se denomina “libertarianismo”, daquela variante que, diferentemente do primeiro, não propõe um estado limitado, mas questiona sua própria existência, sem implicar no entanto em anarquia, entendida aqui como “ausência de normas”.

Livre arbítrio e individualismo

O ceticismo de Borges quanto ao livre arbítrio, sem o qual não pode haver moral nem liberdade individual, surpreendia a muitos, porém isto não significa que tenha caído nas redes do determinismo.  Sua posição pode ser resumida da seguinte forma: os seres humanos não estão isentos das relações de causa e efeito que regem o universo; os seres humanos são determinados por tais relações, no entanto é impossível estabelecer o que os define entre as inúmeras causas existentes.  Nas suas palavras:

“Se sente que o Universo possui um desenho.  As coisas não são totalmente arbitrárias; há quatro estações, nossa vida passa por etapas: nascimento, infância, juventude… Poderiam ser indícios de que há uma trama, de que este mundo não é caótico, mas apenas tortuoso.  É como o livre arbítrio.  É possível que não exista, porém não se pode pensar neste exato instante que não se é livre, não é mesmo?”[2]

E também:

“… se me disserem que todo meu passado foi predestinado, obrigatório, não me importarei; porém, se me disserem que, neste instante, não posso atuar livremente, me desesperarei.”[3]

Essa capacidade de agir livremente segundo Borges, se complementa ao que nas ciências sociais se denomina de individualismo metodológico, que se baseia integralmente na ação humana, que  por sua vez só existe no âmbito individual e portanto descarta prontamente a “hipóstase” de certos conceitos, isto é, de tornar sujeitos à existência real conceitos tais como a “sociedade”, o “povo”, a “nação, a “classe operária” e outros:

“…a multidão é uma entidade fictícia, o que realmente existe é cada indivíduo.”[4]

“Penso que só existem indivíduos: tudo o mais, as nações e as classes sociais, são meras comodidades intelectuais.”[5]

“As massas são uma entidade abstrata, e possivelmente, irrealista.  Supor a existência da massa é como supor que todos aqueles cujo nome começa com a letra ‘b’ formam uma sociedade.”[6]

Borges possui inclusive uma peça literária específica sobre este tema, “Tú”, que começa assim:

“Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.  Afirmar o contrário seria mera estatística, uma adição impossível.  Não menos extraordinária que adicionar o cheiro da chuva ao sonho que sonhaste ontem à noite.”[7]

Este enfoque estende-se à sua noção de “pátria”, mais venerada por Borges por sua dimensão histórica épica do que pelo conceito social de “nação”.  Desta forma, sua “Elegia à Pátria” culmina

“O vermelho das datas dos aniversários,

Pompas de mármore, árduos monumentos,

Pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas cinzas, a menor flama,

Dos vestígios desta antiga chama. “[8]

Pátria, país, estado

Borges teve muitas pátrias, mas nunca pensou em desprender-se de sua própria, e estendeu sua concepção individualista também a este âmbito:

“Quantas Argentinas existem? Mais de uma?”, e responde

“Muitas, tantas quantas há indivíduos.  Os países são falsos, os indivíduos talvez não o sejam — se é que o indivíduo permanece o mesmo ao longo dos anos.”[9]

Gostava de “colecionar” pátrias (Argentina, Brasil, Uruguai, Suíça, Inglaterra, entre outras) e não acreditava nas fronteiras e nos países:

“Desgraçadamente para o ser humano, o planeta foi fatiado em países, cada qual provido de lealdades, de lembranças, de uma mitologia particular, de direitos, de agravantes, de fronteiras, de bandeiras, de emblemas e mapas.  Enquanto durar este arbitrário estado das coisas, serão inevitáveis as guerras.”[10]

“Sou um cosmopolita que atravessa fronteiras pois não as prezo.”[11]

O livre arbítrio e o individualismo lhe permitiram empregar uma preocupação ética, individualista, como não poderia ser de outra forma:

“…Creio que se cada um de nós pensasse em ser ético, e se esforçasse a sê-lo, já teríamos feito bastante; pois ao final das contas a soma dos comportamentos depende de cada indivíduo. “[12]

E ao tentar obter o máximo de individualidade, inevitavelmente colidiu com o estado, no qual desacreditava profundamente:

“O mais urgente dos problemas de nosso tempo (já denunciado com profética lucidez pelo  virtualmente esquecido Spencer) é a gradual intromissão do estado nas ações do indivíduo; o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, encontrará justificativa e deveres na luta contra este mal, cujos nomes são comunismo e nazismo.”[13]

“…tudo começa com a ideia de que o estado deve dirigir tudo; que é melhor que haja uma organização que dirija as coisas, e que nem tudo seja ‘abandonado ao caos, ou a circunstâncias individuais’; e assim chega-se ao nazismo o ao comunismo, claro.  Tal ideia começa como uma nobre possibilidade, e então, bem, à medida que envelhece é usada para a tirania, para a opressão.”[14]

Nem por isso deixou de ser otimista, ao imaginar que um dia os estados não mais existirão.  Perguntou o personagem Eudoro Acevedo:

“O que aconteceu com os governos?  Segundo a tradição, foram gradualmente caindo em desuso.  Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura, mas ninguém no planeta os acatava.  A imprensa deixou de publicar suas contribuições e efígies.  Os políticos foram forçados a encontrar um emprego honesto; alguns se tornaram bons comediantes ou bons médicos.  A realidade sem dúvida deve ter sido mais complexa que esse resumo”.[15]

E disse Borges:

“…para mim o estado é o atual inimigo comum; gostaria — e o afirmei diversas vezes — que houvesse o mínimo de estado e o máximo de individualidade.  Mas talvez seja preciso esperar…não sei dizer se algumas décadas ou séculos — o que não é nada em termos históricos — embora certamente não presenciarei esse mundo sem estados.  Para isso necessitaríamos uma humanidade ética, e também uma humanidade intelectualmente superior à atual, do que hoje somos; pois somos, sem dúvida, muito imorais e muito pouco inteligentes comparados a esses homens que virão, e por isso estou de acordo com a frase: ‘Acredito dogmaticamente no progresso’.”[16]

“Acredito que com o tempo faremos jus a que não existam mais governos”.[17]

Política e democracia

Sua descrença no estado só poderia estar acompanhada de um baixo interesse pela política, com o qual compartilham também muitos argentinos de hoje.  Quando lhe foi dito que não parecia ter em alta conta os políticos em geral, confirmou:

“Não.  Em primeiro lugar não são homens éticos; são homens que contraíram o hábito de mentir, o hábito de subornar, o hábito de sorrir o tempo todo, o hábito de agradar todo mundo, o hábito da popularidade…  A profissão dos políticos é mentir.  O caso de um rei é diferente, um rei recebe tal destino, e portanto lhe cabe cumpri-lo.  O político não; o político deve fingir o tempo todo, deve sorrir, simular cortesia, deve submeter-se melancolicamente aos coquetéis, às cerimônias oficiais, aos feriados nacionais.”[18]

“Penso que nenhum político pode ser uma pessoa completamente sincera.  Um político está sempre à procura de eleitores, e diz aquilo que esperam que diga.  No caso de um discurso político, importa mais a opinião dos ouvintes que a do orador.  O orador é uma espécie de espelho ou eco do que os demais pensam.  Se não for assim, fracassará.”[19]

“…eu diria que os políticos vêm a ser os últimos plagiadores, os últimos discípulos dos escritores.  Mas, geralmente, com um século de atraso, ou talvez um pouco mais.  Pois tudo que se chama de atualidade é realmente[…]um museu, geralmente arcaico.  Agora estamos todos encantados com a democracia; bem, tudo isso nos leva a Paine, a Jefferson, e àquilo que poderia ser considerado paixão por Walt Whitman em seu Leaves of Grass.  Em 1855.  Tudo isso é atualidade; de modo que os políticos seriam leitores atrasados, não é?  Leitores antiquados, leitores de bibliotecas antigas.”[20]

Seu individualismo depurado o levou até a duvidar da possibilidade de representação, e da própria democracia, sem no entanto defender ditaduras ou monarquias, pois pensava que o importante não eram os sistemas políticos, mas os indivíduos e seus valores:

“Twirl, que tinha uma inteligência lúcida, observou que o Congresso possuía um problema central de natureza filosófica.  Planejar uma assembleia que representasse todos os homens era como fixar o número exato de arquétipos platônicos, enigma que intrigou pensadores por séculos.  Deu a entender, sem entrar em detalhes, que dom Alejandro Glencoe iria representar os interesses dos proprietários de terras, mas também os dos grandes pioneiros, os dos homens de barba ruiva e os daqueles sentados em poltronas.  Nora Erfjord era norueguesa.  Representaria as secretárias, as norueguesas, ou simplesmente todas as mulheres bonitas?  Bastaria um engenheiro para representar todos os engenheiros, inclusive aqueles da Nova Zelândia?”[21]

Esta é a mesma opinião encontrada na magnum opus do economista austríaco Ludwig von Mises, Ação Humana, no que diz respeito às ações individuais e à participação do indivíduo em múltiplos grupos.

A opinião mais citada de Borges sobre a democracia é: “Não me considero habilitado a comentar sobre assuntos políticos, mas espero que me perdoem por acrescentar que desacredito na democracia, este curioso abuso da estatística”.  Mais uma vez, ao acreditar mais nos indivíduos que nos governos:

“Suspeito que a forma de governo seja muito pouco importante, e que o que importa seja o país.  Suponhamos que houvesse uma monarquia na Suíça: as coisas não se alterariam significativamente; possivelmente nada mudaria.  Pois as pessoas continuam sendo as mesmas.  Portanto, não creio que uma determinada forma de governo seja uma panaceia.  Talvez atribuamos atualmente importância demais às formas de governo, e talvez as pessoas sejam mais importantes.[22]

Borges libertário

Em suas próprias palavras, Borges se considerava um anarquista, embora pacífico: “Atualmente me definiria como um inofensivo anarquista; isto é, um homem que quer o mínimo de governo e o máximo de indivíduo”.[23]

“Sou anarquista.  Sempre acreditei fervorosamente na anarquia.  E nisso sigo as ideias de meu pai.  Ou seja, sou contra os governos — especialmente as ditaduras —, e contra os estados”.[24]

Mas esta definição de “anarquista pacífico” foi apresentada para diferenciá-lo da anarquia violenta do final do século XIX e início do século XX.  Atualmente sua posição seria classificada como “libertária”, pois o ideal de seu admirado Spencer foi reproduzido neste século XX por pensadores que apóiam um estado pequeno e limitado, como no caso dos filósofos Karl Popper e Robert Nozick, e dos economistas Ludwig von Mises, Friedrich von Hayek ou Milton Friedman; e também por pensadores cuja variante questiona até mesmo o monopólio da força do estado, ainda que mínimo, como nos casos de Murray Rothbard e David Friedman.

O dicionário define anarquia como “um estado de falta de governo”, ou “desordem, confusão, por ausência ou fraqueza da autoridade política”.  Diante disso, Borges não seria estritamente um “anarquista” — se interpretarmos o termo como a completa falta de normas ou ordem — , mas um “libertário”, palavra que atualmente define uma grande variedade de posições tais como as mencionadas acima.

Sua filosofia política conflita com a da sociedade argentina, cuja qual, ante a falência do estado, demanda ainda mais ações de sua parte.  Borges pensava que o argentino é um individualista contraditório:

“O argentino deveria ter como símbolo o gaúcho e não o militar; pois o valor codificado nas tradições orais não está a serviço de uma causa, e deve ser puro.  O gaúcho e o compadre são imaginados como rebeldes; o argentino, em contraste como os norte-americanos e quase todos os europeus, não se identifica como o estado.  Isso pode ser atribuído ao fato de que o estado é uma abstração inconcebível; o fato é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão.”[25]

Porém, é um indivíduo contraditório, porque demanda do estado serviços “suíços” sem estar disposto a pagar impostos suíços.  O espírito do gaúcho mudou, pois ele era rebelde e não demandava nem esperava nada do estado, somente que o deixasse em paz.  O gaúcho está mais próximo ao pensamento político Borgiano do que ao do cidadão argentino de hoje.

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Notas

[1] Entre os acontecimentos que devem ter influenciado a decisão da Academia Sueca, figuram os encontros com os ditadores Videla e Pinochet.

[2] Pilar Bravo y Mario Paoletti, Borges Verbal (Buenos Aires: Emecé, 1999), p. 179

[3] Ibid, p. 152.

[4] Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari, En Diálogo I (Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1985), p. 36.

[5] Revista Siete Días (Buenos Aires, 23 de Abril de 1973, ano VI, ? 310, pp. 55-59, em Fernando Mateo, El Otro Borges (Buenos Aires: Editorial Equis, 1997).

[6] Bravo y Paoletti, Borges Verbal, p. 126.

[7] “El Oro de los Tigres”, Obras Completas, Tomo II (Buenos Aires: Emecé Editores, 1996), p. 489.

[8] “La Moneda de Hierro”, Obras Completas, Tomo II, p. 129.

[9] Revista Ambiente (Buenos Aires, Fevereiro de 1984), pp. 27-32, em Mateo, El Otro Borges (op. cit.).

[10] Bravo y Paoletti, Borges Verbal, p. 147.

[11] La Gaceta del Fondo de Cultura Económica (México, ? 8, Agosto de 1986), p. 92 em Mateo, El Otro Borges(op. cit).

[12] Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari, Reencuentro: Diálogos Inéditos (Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1999), p. 157.

[13] “Nuestro pobre individualismo”, em Obras Completas II (Barcelona: Emecé Editores, 1996), p. 37.

[14] Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari, En Diálogo II (Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1998), p. 207.

[15] “El Libro de Arena”, Obras Completas, Tomo III (Barcelona, Emecé Editores, 1996), p. 55.

[16] Borges e Ferrari, En Diálogo I, p. 220.

[17] “El Informe de Brodie”, Obras Completas II, p. 399.

[18] Roberto Alifano, El humor de Borges (Buenos Aires: Proa, 1995), pp. 132-33.

[19] Diálogos Borges-Sábato, compilados por Orlando Barone (Buenos Aires: Emecé Editores, 1976), p. 75.

[20] Borges e Ferrari, En Diálogo II, p. 129.

[21] Obras completas, tomo III, p. 24.

[22] Fernando Sorrentino, Siete conversaciones con Jorge Luis Borges (Buenos Aires: El Ateneo, 1996), p. 119.

[23] Borges e Ferrari, En Diálogo I, p. 59.

[24] Entrevista com Vicente Zito Lima, Revista Semana Gráfica (Buenos Aires, 12 de marzo de 1971), pp. 42-45, em Mateo, El Otro Borges (op. cit.).

[25] “Evaristo Carriego”, Obras Completas I (Barcelona: Emecé Editores, 1996, p. 162.