Muitos estudiosos dos escritos de Murray Rothbard ficarão profundamente decepcionados com o novo livro de Joe Salerno e Patrick Newman — Murray N. Rothbard: The Making of an Economist. Não se trata de uma biografia intelectual, como os autores afirmam. 85% do livro é essencialmente uma resenha detalhada de Homem, Economia e Estado, publicado em 1962. Não há menção a nenhuma das obras de Rothbard posteriores a essa data, razão pela qual é, na verdade, um insulto ao legado de Rothbard chamá-lo de biografia intelectual. Foram os brilhantes escritos interdisciplinares de Rothbard nos trinta e três anos subsequentes (e além, visto que ele possui publicações póstumas) que criaram o que é conhecido como rothbardianismo.
O “rothbardianismo” não é um mero “ramo” da economia austríaca, como alguns críticos afirmam. Ele se baseia em inúmeras aplicações brilhantes da economia austríaca ao estudo das instituições econômicas e políticas por Murray Rothbard. Como exemplo, conforme Mises escreveu em Ação Humana, todos que escrevem sobre história o fazem através de alguma lente intelectual — marxismo, institucionalismo, etc. Murray o fez — assim como o próprio Mises — através da lente da abordagem praxeológica da economia austríaca e do estudo profundo da história, da filosofia e de outros campos. Esse tipo de erudição foi o que mais me impressionou durante minha formação, e não apenas a teoria econômica pura dos tratados austríacos. Afinal, Mises e Hayek não escreveram apenas sobre teoria econômica pura.
Os autores afirmam ter dedicado seis anos à escrita do livro de 169 páginas, dois anos a mais do que Rothbard levou para escrever Homem, Economia e Estado (1.441 páginas na versão que inclui Poder e Mercado; 987 páginas na versão sem essa inclusão). A obra assemelha-se a anotações de aula digitadas do seminário “Rothbard Graduate School” do Mises Institute, com duração de uma semana, onde Salerno e Newman lecionam, e que se dedica ao estudo de Homem, Economia e Estado aproximadamente a cada dois anos. A narrativa do livro apresenta um relato passo a passo do conteúdo de cada capítulo de Homem, Economia e Estado, com referências ocasionais a comunicações com diversas pessoas, incluindo o próprio Mises, que teceu grandes elogios ao livro e ao seu autor. Os autores citam alguns artigos e documentos de trabalho de Rothbard ao longo do texto, mas os estudiosos da economia austríaca, público-alvo do livro, provavelmente já os conhecem — assim como Homem, Economia e Estado.
Grande parte da história do livro gira em torno de como Rothbard teve uma experiência educacional semelhante à de todos nós que nos interessamos e estudamos a economia austríaca. Ele foi formado na economia mainstream, institucionalismo e positivismo, no caso dele, na Universidade Columbia, e então descobriu o Ação Humana. (Não é como se fosse 50/50, metade dos departamentos de economia fossem austríacos e a outra metade “mainstream”!) Graças a Deus que Murray descobriu Mises da maneira como descobriu, e ninguém aproveitou melhor seus ensinamentos, aplicando-os e expandindo-os.
Os autores explicam a importância disso no contexto de Homem, Economia e Estado, mas nada além disso, infelizmente. Eles escreveram um relato de quatro anos dos 53 anos de vida acadêmica/intelectual de Rothbard (ele ingressou na Universidade Columbia em 1942, aos 16 anos).
Os autores aparentemente optaram por escrever um livro com um foco tão restrito devido à sua obsessão por alguns comentários feitos por economistas da George Mason University, como Larry White, Pete Boettke e Karen Vaughn, que eles citam na página 3. Em seguida, declaram na página seguinte que seu objetivo no livro é mostrar que os comentários dos economistas da GMU “não transmitem adequadamente o alcance e a originalidade” das contribuições de Rothbard… Dá para imaginar o que significa “intriga de bastidores”?
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Também percebo como Tom, essa necessidade atual do Instituto Mises, especialmente Salerno (que aparentemente manda lá agora, embora seja funcionário remunerado), de ficarem tentando provar para economistas mainstream, especialmente aqueles que se dizem “austríacos” como os da Universidade George Manson, de que o Rothbard não é apenas um “praxeologista misesiano”, de que ele lia economia mainstream, de que ele não era apenas um “panfletário” e militante de ideias políticas, coisas que tipos como Peter Boetke costumam falar, de que Rothbard não foi um grande economista pois rejeitava a economia maintream e dedicou parte dos escritos dele a filosofia política e análises da política eleitoral do momento.
Parece que Salerno e os demais que o acompanham no instituto não perceberam até agora que não devemos nos preocupar ou precisar receber a aprovação de tipos como estes, a escola austríaca sempre foi marginalizada porque batemos de frente com o maintream, autores como o Boetke fazem um desserviço ao tentar fundir economia austríaca com o maintream econômico, para tentar ganhar a simpatia dessa classe intelectual pedante e subserviente ao estado, isso sem contar que neste processo o que diferencia a escola austríaca das visões do maintream é apagado pouco a a pouco, não atoa Boetke rejeita a praxeologia, na verdade é natural, já que ele e seus colegas da GMU são Hayekianos, sendo muito mais permissivos com visões positivistas e neoclássica da economia universitária dominante.
Infelizmente o instituto Mises vem perdendo essa rigidez intelectual e está cada vez mais omitindo conteúdo interdisciplinar, que era a cara do instituto, e focando apenas em “economia pura”, esvaziando o legado tanto de Mises e especialmente Rothbard, que justamente como Tom Dilorenzo cita no artigo, não restringiram suas observações apenas a teorização econômica pura, eles levavam o ferramental praxeológico para outros campos, especialmente na área de política econômica, para criticar a intervenção do estado na economia e atacar sua existência. Rothbard foi mais além e criou todo um corpo de Teoria Legal libertária sob o edificio do intelectual do austrianismo. Tentativas de “academizar” o instituo só vai levá-lo a se afastar do legado de Rothbard, igual aconteceu no instituto Mises brasileiro.
Esqueci de citar, que como eles estão precisando agradar a classe intelectual dominante, precisam mostrar que são “plurais”, e cada vez mais conteúdo não Misesiano e Rothbardiano estão se infiltrando nos artigos do site. Visões Hayekianas como ceticismo, conhecimento inacessível e “evolução social espontânea” (não proposital), que rejeitam o core da praxeologia, que se baseiam na ação racional e proposital para explicar os fenômenos sociais, estão tomando conta do instituto. Outras variantes “liberais” de estado mínimo também estão presentes cada vez mais no instituto. Flexibilização acadêmica sempre vai resultar em perda de identidade e esvaziamento intelectual do legado e propostas originais do instituto….