A verdadeira defesa do libertarianismo segundo Hans-Hermann Hoppe e a farsa de Javier Milei

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O libertarianismo, na sua forma mais consistente e radical, não é uma mera retórica anti-estado ou um conjunto de slogans eleitorais.

É uma filosofia moral e econômica ancorada no princípio da não-agressão (PNA), na propriedade privada absoluta e na rejeição total da coerção estatal. Hans-Hermann Hoppe, um dos seus mais importantes teóricos contemporâneos, defende um libertarianismo que vai além do liberalismo clássico: trata-se de um anarcocapitalismo ou, na sua versão mais madura, de uma ordem social baseada na democracia privada (covenant communities), onde o estado é visto não como uma solução imperfeita, mas como a própria fonte institucional do parasitismo e da violação sistemática dos direitos individuais.

Hoppe argumenta que o estado, enquanto monopolista da violência e da justiça, inevitavelmente expande-se, corrompe a cultura, destrói o capital social e mina a prosperidade. Não basta “reduzir” o estado ou geri-lo de forma mais eficiente. É necessário deslegitimá-lo moral e intelectualmente e, na prática, minar as suas bases institucionais – especialmente o banco central, o monopólio da emissão monetária e o sistema tributário coercivo. Qualquer compromisso pragmático que preserve essas estruturas centrais representa, para Hoppe, uma traição aos princípios.

É precisamente contra este pano de fundo que a figura de Javier Milei surge como um caso ilustrativo de como o libertarianismo pode ser usado como ferramenta de marketing eleitoral, para depois ser diluído – ou mesmo traído – no exercício do poder.

O discurso libertário que elegeu Milei

Durante a campanha de 2023, Milei apresentou-se como um discípulo radical da Escola Austríaca. Brandiu uma motosserra simbólica prometendo “cortar” o estado, abolir o Banco Central da Argentina, “dolarizar” a economia, eliminar ministérios inteiros, reduzir drasticamente a carga fiscal e acabar com a “casta” política peronista. Usou abundantemente conceitos de Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Friedrich Hayek para denunciar a inflação como um roubo estatal, o keynesianismo como pseudociência e o intervencionismo como caminho para a miséria.

Essas ideias ressoaram num país destruído por décadas de extração e coerção abusivas, inflação galopante (que chegou a superar os 200% anuais) e corrupção endêmica. Milei não se apresentou como um mero reformador liberal, mas como um libertário disposto a aplicar o remédio austero sem anestesia. Muitos apoiadores genuínos do libertarianismo viram em Milei a possibilidade histórica de testar, em escala nacional, ideias que até então viviam apenas em livros e think tanks.

As promessas não cumpridas: da retórica à realpolitik

Uma vez no poder, a realidade revelou-se bem diferente. Várias promessas centrais foram abandonadas ou fortemente diluídas:

  • Abolição do Banco Central: Milei prometeu fechá-lo “no dia um”. Não o fez. Argumentou que uma eliminação abrupta geraria hiperinflação imediata – uma preocupação pragmática que Hoppe rejeita como desculpa para preservar o monopólio monetário estatal. O Banco Central continua a existir, mesmo que com maior disciplina sob o governo Milei.
  • Dolarização: A adoção plena do dólar como moeda oficial foi adiada indefinidamente. Em vez disso, Milei optou por uma estabilização gradual, mantendo controle sobre a política monetária.
  • Redução drástica do estado: Embora tenha conseguido um superávit fiscal primário nos primeiros meses (algo raro na Argentina recente), através de cortes severos em subsídios e despesa pública, Milei não eliminou os ministérios prometidos na escala anunciada. Em 2025 e 2026, o governo aumentou gastos em pensões, saúde e educação para garantir apoio político, testando o compromisso com o “déficit zero”. Privatizações avançaram de forma parcial e lenta.
  • Corte radical de impostos: A promessa de eliminar grande parte dos impostos nacionais foi moderada. O ajustamento fiscal assentou mais em redução de despesa do que numa revolução fiscal libertária.

Em resumo, Milei comportou-se como um líder político normal: negociou com o Congresso (ainda dominado por forças peronistas ou opositoras), fez concessões, geriu alianças e preservou estruturas institucionais do estado argentino. De “anarcocapitalista” com motosserra passou a um presidente que administra o Leviatã em vez de o desmantelar.

Para Hoppe, este é exatamente o problema: quem aceita o cargo de chefe do Executivo já aceitou as regras do jogo democrático e estatal, tornando-se parte do sistema que diz combater.

A associação com instituições keynesianas

Outro ponto de forte tensão é a relação de Milei com o FMI e o Banco Mundial. Apesar da retórica anti-keynesiana e anti-burocracia internacional, o governo Milei negociou novos financiamentos e pacotes de apoio com estas instituições – que representam o próprio intervencionismo global que ele criticava. Recebeu dezenas de bilhões de dólares em empréstimos, mantendo a Argentina como um dos maiores devedores do FMI.

Esta dependência contradiz a independência radical defendida pelo libertarianismo hoppeano. Hoppe insiste que soluções verdadeiramente libertárias não passam por renegociar dívidas com burocratas internacionais nem por aceitar condicionalidades que, no fundo, perpetuam o ciclo de endividamento e controle externo. Milei, ao optar pela estabilização via acordo com estas entidades, optou pelo pragmatismo em detrimento da pureza principiológica.

A inconsistência do sionismo militante

Um aspecto particularmente problemático para o movimento libertário internacional é a posição de Milei em relação a Israel e ao conflito em Gaza. O presidente argentino adotou um alinhamento quase incondicional com o governo israelita, visitando Israel repetidamente, prometendo transferir a embaixada para Jerusalém e defendendo publicamente as ações militares na região, mesmo perante acusações graves de violações de direitos humanos e de um elevado número de vítimas civis. Para muitos libertários, esta posição é incoerente. O princípio da não-agressão não admite exceções geográficas ou religiosas. Se o libertarianismo condena a agressão estatal contra inocentes, a seletividade moral – condenar o terrorismo de um lado enquanto ignora ou justifica ações estatais massivas do outro – compromete a credibilidade ética da doutrina. Hoppe, com a sua visão anti-intervencionista e anti-imperialista, veria nesta associação um risco grave: o de associar o libertarianismo a agendas geopolíticas e a conflitos que nada têm a ver com a defesa da propriedade privada e da paz voluntária.

Além disso, esta postura pode prejudicar o movimento libertário globalmente. Ao ligar o libertarianismo a uma causa altamente polarizante e contestada internacionalmente, Milei facilita que os críticos pintem toda a filosofia como “direita radical” ou “aliada de regimes controversos”, em vez de uma teoria universal de liberdade individual. O dano reputacional para o libertarianismo enquanto ideia transcende a política argentina.

Hoppe vs. Milei: pragmatismo ou traição?

Hoppe criticou abertamente Milei, chamando a atenção para o fato de ele se assemelhar mais a Ronald Reagan ou Margaret Thatcher – figuras que reduziram marginalmente o estado mas o fortaleceram institucionalmente – do que a um libertário radical. Para Hoppe, o verdadeiro teste não é conseguir um superávit fiscal ou baixar a inflação (conquistas inegáveis de Milei em contexto argentino), mas sim avançar na desmontagem das instituições coercivas centrais: o banco central, o monopólio da violência e a democracia de massa que incentiva o clientelismo.

Milei conseguiu estabilizar parte da economia argentina após décadas de desastre peronista. Isso merece reconhecimento factual. No entanto, ao instalar-se como “um líder político normal”, negociando, fazendo concessões e mantendo as estruturas de poder essenciais, ele demonstrou que o exercício do poder estatal tende a corromper até os discursos mais radicais.

O libertarianismo hoppeano é exigente precisamente porque é coerente: não aceita que o fim justifique os meios quando os meios envolvem o uso continuado da coerção estatal. Reduzir o estado é diferente de substituí-lo por uma ordem baseada em contratos voluntários, propriedade privada e direito privado.

Conclusão: lições para o movimento libertário

O caso Milei serve como advertência. O libertarianismo não pode ser reduzido a uma marca eleitoral nem a um conjunto de políticas de austeridade fiscal. Ele exige integridade intelectual e moral: rejeição consistente da agressão, seja ela praticada por governos de esquerda, direita ou por estados estrangeiros.

Hoppe recorda-nos que a verdadeira mudança libertária não virá de presidentes carismáticos que gerem o aparelho estatal, mas de uma transformação cultural profunda, da construção de comunidades baseadas em valores privados e da deslegitimação intelectual do estado.

Enquanto Milei usa a retórica libertária para sobreviver na política convencional – associando-se a instituições keynesianas globais e a causas geopolíticas controversas –, o libertarianismo hoppeano mantém-se como crítica radical e intransigente. A liberdade não se negocia. Nem com o FMI, nem com o Congresso, nem com agendas externas. Essa é a lição dura, mas necessária, que Hoppe oferece perante o espetáculo de um “libertário” no poder que, afinal, se tornou apenas mais um político.

 

 

 

 

Artigo original aqui

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