Capítulo II – DROGAS- 2. O viciado em drogas

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Nos dias de hoje, em que tanto se discutem os males do consumo da heroína, vale lembrar o velho ditado “olhe os dois lados da moeda”.  Dentre as muitas razões para isso, está o fato, talvez o mais importante, de que, se todos são contra alguma coisa (no caso, o consumo da heroína), pode-se presumir que há alguma coisa que pode ser dita a favor.  Através da longa – com suas inúmeras disputas – história da humanidade, a opinião da maioria tem estado quase sempre errada. 

Por outro lado, mesmo os que concordam com a opinião da maioria também devem aceitar que ela seja atacada.  A melhor forma de se ensinar as verdades da vida, segundo o utilitarista John Stuart Mill, é ouvindo a oposição.  Deixe que a situação seja desafiada e deixe falhar o desafio.  Esse método era considerado tão importante por Mill, que ele recomendava que se inventasse uma situação de desafio, se não houvesse uma acontecendo, e se apresentasse essa situação da forma mais convincente possível.  Assim, os que acreditam nos males não mitigados do consumo de heroína, ficariam ansiosos por ouvir um argumento em favor deste. 

O fenômeno do vício deveria ser considerado de um ponto de vista intrínseco.  Ou seja, a suposição será a de que o problema social ou interpessoal – a necessidade de um viciado se envolver em atividades criminosas, a fim de sustentar seu vício – tenha sido resolvida.  Porque isso é causado pela legislação que proíbe a venda de narcóticos e é, portanto, um problema extrínseco à droga, ela própria.  Os problemas intrínsecos do vício são todos os outros problemas que os viciados alegam enfrentar. 

A principal alegação em qualquer lista dos problemas não sociais do consumo de drogas é a de que o vício abrevia a vida.  Dependendo da idade e da saúde do viciado e do pessimismo ou otimismo de quem alega isso, o número de anos em que a vida é pretensamente abreviada varia de dez a quarenta.  Isso é mesmo um infortúnio, mas dificilmente constitui uma crítica válida ao vício e certamente não justifica, nem um pouco, a proibição do consumo da heroína.  Não constitui crítica válida, nem justifica a proibição, porque depende do indivíduo determinar que tipo de vida ele quer levar – se uma vida curta, incluindo o que considera atividades prazerosas, ou uma vida longa, sem esses prazeres.  Uma vez que não existe critério objetivo para essas escolhas, não há nada de irracional ou mesmo suspeito sobre qualquer das opções do espectro.  Podemos optar por maximizar a possibilidade de longevidade, mesmo que isso signifique renunciar a bebida, fumo, jogo, sexo, viagens, atravessar ruas, discussões fortes e exercícios vigorosos.  Ou podemos optar por algumas ou todas essas atividades, mesmo que isso signifique uma menor expectativa de vida. 

Outro argumento levantado contra o consumo de drogas é o de que ele impede as pessoas de cumprirem com suas responsabilidades.  O exemplo geralmente dado é o de chefe de família que, sob o efeito contínuo da heroína, se torna incapaz de cumprir com suas obrigações, financeiras e outras, para com a família.  Presumamos que o consumo de heroína incapacite esse chefe de família.  Isso ainda não justifica que o consumo e a venda da heroína devam ser proibidos.  Seria irracional proibir qualquer atividade com base em que ela impede algumas pessoas de exercerem certas atividades.  Por que deveria tal restrição se aplicar às pessoas que não são prejudicadas ou que não têm tais tipos de responsabilidades? Se fosse legítimo proibir a heroína por essa razão, certamente também seria correto proibir o jogo, a bebida, o fumo, dirigir automóveis, viajar de avião e outras atividades perigosas ou potencialmente perigosas.  Mas isso seria, obviamente, um absurdo. 

Deve o consumo de heroína ser legal para algumas pessoas, mas não para outras, que não aceitem suas responsabilidades ou não cumpram com elas? Não.  Quando um homem – continuando com o exemplo – se casa, não se compromete a renunciar a todas as atividades que possam ser perigosas.  O contrato de casamento não é, afinal, um contrato de escravidão.  O casamento não proíbe qualquer das partes de participar de atividades que possam ser desconfortáveis à outra parte.  Pessoas com responsabilidades bem podem sofrer ataques do coração por jogarem tênis. Mas ninguém sugeriria que essas pessoas fossem barradas às atividades esportivas. 

Outro argumento contra o consumo de drogas é a alegação de que os que as usam, tornam-se totalmente improdutivos e, com isso, tomados como grupo, reduzem o Produto Interno Bruto (PIB) – um índice de bem-estar econômico do país como um todo.  Com isso, diz o argumento, o consumo de drogas prejudica o país. 

O argumento é falso, porque considera o bem-estar do país um conceito significativo, em detrimento do bem-estar do viciado.  Mas, até mesmo em termos absolutos, ele não é convincente. Ele se baseia numa equação do PIB com o bem-estar econômico.  E essa equação é ilusória.  O PIB, por exemplo, computa todos os gastos do governo como contribuições ao bem-estar do país, quer isso corresponda ou não à realidade.  Ele deixa de levar em conta o trabalho doméstico das donas de casa.  Além do mais, interpreta de forma errada a condição econômica do lazer.  Qualquer avaliação do bem-estar econômico deve atribuir algum valor ao lazer, mas o PIB não faz isso.  Por exemplo, o PIB deveria dobrar, com a introdução e implementação de um invento que possibilitasse às pessoas dobrarem sua produção de bens reais e de serviços.  Mas se as pessoas optassem por usar a invenção apenas para manter seu padrão de vida e, em vez de dobrar, reduzir sua carga horária de trabalho, o PIB não se modificaria nem um fio. 

É claro que, se o consumo de heroína levar a maior lazer, isso causará uma queda do PIB.  Mas um aumento do lazer por qualquer razão terá o mesmo efeito.  Portanto, se somos contra seu consumo baseados nisso, também temos de nos opor a férias, contemplação poética e caminhadas nos bosques.  A lista das atividades proscritas poderia não ter fim.  Não há nada de errado em preferirmos utilizar um aumento da riqueza aumentando nosso lazer.  E se, por isso, o PIB diminuir, tanto pior para ele. 

Por fim, não está de forma alguma evidente que o consumo de drogas necessariamente leva a uma diminuição da atividade econômica.  A maior parte de nosso conhecimento sobre o comportamento de viciados vem do estudo daqueles viciados que, em virtude da legislação que proíbe a heroína e, com isso, eleva seu preço às alturas, têm de passar a maior parte do tempo numa angustiada busca por vastas somas de dinheiro.  Eles não podem ter empregos normais, porque a maior parte de seu tempo é gasta em roubar, assassinar e se prostituir.  Uma vez que estamos nos concentrando no problema pessoal com o consumo de drogas, e não no problema social, a evidência dada por essas pessoas é irrelevante para a discussão.  Para estudar o comportamento de viciados que não estão proibidos por lei de serem produtivos, temos de nos voltar àqueles poucos viciados privilegiados o bastante para terem assegurado um fornecimento garantido e barato da heroína. 

Esse grupo compõe-se principalmente de médicos, que podem usar seus poderes de assinar receitas para garantirem a si próprios um fornecimento seguro.  A evidência limitada fornecida por esta pequena amostra parece indicar que os viciados, uma vez livres das compulsões a que a proibição da heroína os induz, são capazes de levar uma vida normal e produtiva.  Os médicos em questão prestam serviços tão bem quanto os outros médicos.  Segundo todas as indicações, são capazes de acompanhar os últimos desenvolvimentos em seu campo, manter um relacionamento adequado com seus pacientes e atuar, em todos os aspectos relevantes, de forma não diversa da dos outros médicos. 

Para ser sincero, se a heroína fosse legal, os viciados continuariam a ter problemas pessoais relacionados à droga.  Haveria o medo de uma possível nova proibição e a incapacidade relativa que se segue aos períodos em que a droga é usada.  Haveria o perigo de overdose, embora esse perigo diminuísse em função da legalização, já que a droga poderia ser ministrada sob supervisão médica.  Vestígios da antiga atitude proibitória poderiam permanecer e se manifestar de forma a prejudicar os viciados. 

A questão a ser destacada, no entanto, não é a de que os viciados tenham problemas relacionados à droga, mesmo estando esta legalizada.  Problemas especiais sempre acompanham interesses especiais; os violinistas vivem com medo de machucar os dedos, e as bailarinas não podem se dar ao luxo de quebrar os dedos dos pés.  O consumo de heroína não é, em si próprio, um mal.  Se for legalizado, não poderá, possivelmente, ferir qualquer outro que não o que consome a droga.  Existem aqueles que podem querer falar, educar e prevenir contra o consumo de drogas, mas proibi-lo é uma violação clara dos direitos dos que querem usá-las.