Capítulo III — Conflito como um fator na evolução social

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§1
A causa da evolução social

A forma mais simples de retratar a evolução da sociedade é mostrar a distinção entre duas tendências evolucionárias que estão relacionadas entre si na mesma forma tanto em intenção quanto em extensão. A sociedade se desenvolve subjetivamente e objetivamente; subjetivamente ao ampliar seus membros, objetivamente ao ampliar os objetivos de suas atividades. Originalmente confinada aos círculos mais estreitos de pessoas, aos vizinhos imediatos, a divisão do trabalho gradualmente se torna mais geral até que finalmente inclui toda a humanidade. Este processo, ainda longe de ser concluído e nunca em qualquer ponto da história completo, é finito. Quando todos os homens na Terra formarem um sistema unitário de divisão de trabalho, ele terá alcançado seu objetivo. Lado a lado com essa extensão do vínculo social, ocorre um processo de intensificação. A ação social abrange cada vez mais objetivos; a área em que o indivíduo provê para seu próprio consumo torna-se cada vez mais estreita. Não precisamos parar neste estágio para perguntar se esse processo irá eventualmente resultar na especialização de todas as atividades produtivas.

O desenvolvimento social é sempre uma colaboração para uma ação conjunta; a relação social sempre significa paz, nunca a guerra. As ações que lidam com a morte e a guerra são antissociais.[1] Todas essas teorias que consideram o progresso humano como um resultado de conflitos entre grupos humanos negligenciaram essa verdade.

§2
Darwinismo

O destino do indivíduo é determinado inequivocamente por seu ser. Tudo que tem necessariamente procedido de seu Vir-a-ser, e tudo que irá ser resulta necessariamente daquilo que é. A situação em qualquer dado momento é a consumação da história.[2] Aquele que a entendeu completamente seria capaz de prever todo o futuro. Durante um longo período, foi considerado necessário excluir a volição humana e a ação humana da determinação dos eventos, pois o significado especial da “imputação” — que é o processo de pensamento peculiar a toda ação racional — não havia sido apreendido. Acreditava-se que a explicação causal era incompatível com a imputação. Isso não é mais assim. A economia, a Filosofia da Lei e a Ética esclareceram o problema da imputação o suficiente para remover os antigos mal-entendimentos.

Se, para simplificar nosso estudo, analisarmos a unidade que chamamos de indivíduo em determinados complexos, precisa ser claramente entendido que apenas o valor heurístico da divisão pode justificar o nosso fazer. As tentativas de separar, de acordo com características externas, o que é essencialmente similar nunca pode sobreviver ao exame último. Apenas sujeitos a essa admissão, podemos proceder ao agrupamento dos determinantes da vida individual.

Aquilo que o homem traz ao mundo ao nascer, o inato, chamamos de herança racial ou, para resumir, a raça.[3] O inato no homem é o precipitado da história de todos os seus ancestrais, do destino deles e de todas as experiências deles. A vida e o destino do indivíduo não começam ao nascer, mas se estendem até o passado infinito e inimaginável. O descendente herda dos ancestrais; esse fato está fora da esfera da disputa sobre a herança das características adquiridas.

Após o nascimento, a experiência direta começa. O indivíduo começa a ser influenciado pelo seu ambiente. Junto com o que é inato, essa influência produz o Ser individual em cada momento de sua vida. O ambiente é natural na forma do solo, clima, alimentação, fauna, flora, em resumo, nos arredores externos naturais. É o social na forma da sociedade. As forças sociais agindo sobre o indivíduo são a linguagem, suas posições no processo de trabalho e troca, ideologia e as forças de compulsão: coerção irrestrita e ordenada. Chamamos de Estado a organização ordenada da coerção.

Desde Darwin fomos inclinados a considerar a dependência da vida humana no ambiente natural como um conflito contra forças antagônicas. Não houve objeção a isso, desde que as pessoas não transferissem a expressão figurativa para um campo onde isso estava totalmente fora do lugar e estava fadado a causar graves erros. Quando as fórmulas do darwinismo, que surgiram de ideias assumidas pela Biologia das Ciências sociais, reverteram para as Ciências Sociais, as pessoas esqueceram o que as ideias originalmente significavam. Assim surgiu aquela monstruosidade, o darwinismo sociológico, que, encerrando em uma glorificação romântica da guerra e do assassinato, foi peculiarmente responsável pelo obscurecimento das ideias liberais e por criar a atmosfera mental que levou à Guerra Mundial e aos conflitos sociais de hoje.

É bem conhecido que Darwin estava sob a influência do Essay on the Principle of Population de Malthus. Mas Malthus estava longe de acreditar que o conflito é uma instituição social necessária. Até mesmo Darwin, quando fala sobre o conflito pela existência, nem sempre significa o combate destrutivo de criaturas vivas, o conflito de vida ou morte por locais de alimentação e por fêmeas. Ele geralmente usa a expressão figurativamente para mostrar a dependência dos seres vivos uns dos outros e do que os cerca.[4] É um equívoco interpretar a frase literalmente, pois é uma metáfora. A confusão fica ainda mais confusa quando as pessoas equiparam o conflito pela existência com a guerra do extermínio entre seres humanos, e procedem a construir uma teoria social baseada na necessidade do conflito.

A Teoria Malthusiana da População é — o que seus críticos, ignorantes em sociologia sempre ignoram — meramente uma parte da teoria social do liberalismo. Somente dentro de tal estrutura pode ser compreendida. O cerne da teoria social liberal é a teoria da divisão do trabalho. Somente lado a lado é que se pode fazer uso da Lei da População para interpretar as condições sociais. A sociedade é a união dos seres humanos para a melhor exploração das condições naturais da existência; em sua própria concepção, ela abole o conflito entre seres humanos e substitui a ajuda mútua que fornece o motivo essencial de todos os membros unidos em um organismo. Dentro dos limites da sociedade não há conflito, apenas paz. Todo conflito suspende efetivamente a comunidade social. A sociedade como um todo, enquanto organismo, luta numa batalha por sua existência contra as forças hostis a ela. Mas por dentro, à medida que a sociedade absorveu completamente os indivíduos, só há colaboração. Pois a sociedade nada mais é do que colaboração. Dentro da sociedade moderna até mesmo a guerra não consegue quebrar todos os laços sociais. Alguns permanecem, embora perdidos, em uma guerra entre Estados que reconhecem a força obrigatória da Lei Internacional. Assim, um fragmento de paz sobrevive mesmo em tempo de guerra.

A propriedade privada dos meios de produção é o princípio regulador que, dentro da sociedade, balanceia os meios limitados de subsistência à disposição da sociedade com a capacidade menos limitada de aumento de consumidores. Ao fazer a parte do produto social que cai sobre cada membro da sociedade depender do produto economicamente imputado a ele, isto é, do seu trabalho e propriedade, a eliminação do excedente de seres humanos vivendo em uma luta para existir, da mesma forma que os seres no reino animal e vegetal lutam, é substituída por uma redução da natalidade como resultado de forças sociais. A “restrição moral”, as limitações de propagação de descendência impostas por condições sociais tomam o lugar da luta pela sobrevivência.

Dentro da sociedade não há uma luta por existência. É um grave erro supor que a logicamente desenvolvida teoria do liberalismo poderia levar a qualquer outra conclusão. Certas frases isoladas do ensaio de Malthus, que poderiam ser interpretadas diferentemente, são facilmente contabilizadas ao fato de que Malthus compôs o rascunho original incompleto de sua famosa primeira obra antes de ele ter absorvido completamente o espírito da Economia Política Clássica. Como prova de que sua doutrina não permite outras interpretações, pode ser apontado que, antes de Spencer e de Darwin, ninguém pensou em considerar a luta pela sobrevivência (no sentido moderno da expressão) como um princípio ativo dentro da sociedade humana. Foi o pensamento darwinista o primeiro a sugerir que as teorias acerca da luta de indivíduos, de raças, de nações e de classes são um elemento social básico; e foi no darwinismo, que tinha se originado no círculo intelectual da teoria social liberal, que as pessoas agora encontraram armas para enfrentar o liberalismo que abominavam. Na hipótese de Darwin, há muito considerada um fato científico irrefutável, o marxismo,[5] o Misticismo Racial[6] e o Nacionalismo, encontraram, assim acreditavam, um fundamento inabalável para seus ensinamentos. O imperialismo moderno, em especial, depende de palavras de ordem cunhadas pela ciência popular advinda do darwinismo.

Os darwinistas — ou mais corretamente, as teorias pseudo-darwinistas-sociais — jamais perceberam a maior dificuldade envolvida em aplicar seus bordões acerca da luta pela sobrevivência nas relações sociais. Na natureza são indivíduos que lutam pela sobrevivência. É excepcional encontrar fenômenos que podem ser categorizados como lutas entre grupos de animais. Há, é claro, as lutas entre grupos de formigas — embora aqui seja possível que um dia nos encontremos obrigados a adotar explicações bem diferentes daquelas aceitas até então.[7] Uma teoria social fundamentada no darwinismo iria chegar ao ponto, ou de uma guerra de todos contra todos seria a forma natural e necessária de relação humana, dessa forma negando que quaisquer laços sociais seriam possíveis; ou teria de, de um lado, mostrar por que a paz reina e precisar reinar em determinados grupos e ainda, por outro, provar que o princípio da união pacífica que leva à formação dessas associações é inefetivo para além do círculo do grupo, de modo que os grupos entre eles mesmos tenham de lutar. Essa é precisamente a rocha sobre a qual todas teorias sociais não-liberais se fundam. Se se reconhece um princípio que resulta na união de todos os alemães, todos os dolicocéfalos, ou todos os proletários, e se forma uma nação, raça ou classe especial a partir de indivíduos, então esse princípio não pode ser provado como efetivo somente dentro dos grupos coletivos. As teorias sociais antiliberais passam por cima desse problema ao confinar a si mesmas na suposição de que a solidariedade de interesses dentro dos grupos é tão autoevidente de modo a ser aceita sem mais discussão, e ao tomar a responsabilidade somente para provar a existência do conflito de interesses entre grupos e a necessidade de conflito como a única força dinâmica de desenvolvimento histórico. Mas se é para a guerra ser o pai de todas as coisas; a frutífera fonte de progresso histórico, é difícil ver por que sua atividade tão frutífera deveria ser restrita entre Estados, nações, raças e classes. Se a natureza precisa de guerra, por que não a guerra de todos contra todos, por que meramente a guerra de todos os grupos contra todos? A única teoria que explica como a paz é possível entre indivíduos e como a sociedade cresce a partir de indivíduos é a teoria social liberal da divisão de trabalho. Mas a aceitação dessa teoria faz impossível acreditar na inimizade entre coletivos como sendo necessária. Se os Brandeburguenses e os Hanoverianos vivem em sociedade pacificamente lado a lado, por que os franceses e os alemães não podem fazer o mesmo?

O darwinismo sociológico é incapaz de explicar o fenômeno do surgimento da sociedade. Isso não é uma teoria social, mas “uma teoria de insociabilidade”. [8]

Um fato que expõe claramente a decadência do pensamento sociológico nas últimas décadas é que as pessoas agora começam a combater o darwinismo sociológico ao apontar para exemplos de ajuda mútua (simbiose) que a Biologia descobriu apenas tardiamente nos reinos animal e vegetal. Kropotkin, um desafiante antagônico à teoria social liberal, que nunca entendeu o que ele rejeitou e combateu de fato, encontrou, entre os animais, rudimentos de laços sociais, e os estabeleceu em oposição ao conflito, contrastando o princípio benéfico de ajuda mútua com o princípio nocivo de guerra ao extremo.[9] Kammerer, um biólogo escravizado pelas ideias do marxismo socialista, demonstrou que, em adição ao conflito, há um princípio de cooperação que domina a vida na natureza.[10] Nesse ponto, a Biologia retorna a seu ponto de partida, a Sociologia. Ela devolve o princípio do trabalho dividido dado pela sociologia. Ela não ensina à sociologia nada de novo, nada essencial que já não havia sido incluído na teoria da divisão de trabalho como definida pela desprezada Economia Política Clássica.

§3
Conflito e competição

As teorias sociais que são fundamentadas a partir de uma lei natural começam todas pelo dogma de que todos os seres humanos são iguais. Uma vez que todos os homens são iguais, eles são supostos a ter uma reivindicação natural para serem tratados como membros da sociedade com todos os direitos e, porque todos têm o direito natural de viver, seria uma violação de direito tentar tirar a vida de qualquer um. Desse modo, são formulados os postulados de inclusão total na sociedade, da igualdade dentro da sociedade, e de paz. A teoria liberal, por outro lado, deduz esses princípios da utilidade. Para o liberalismo, os conceitos de homem e homem social são a mesma coisa. A sociedade acolhe como membro qualquer um que consiga ver o benefício da paz e colaboração social em operação. É da vantagem pessoal de todo indivíduo que ele deva ser tratado como um cidadão com direitos iguais. No entanto, o homem que, ignorando as vantagens da colaboração pacífica, prefere lutar, e recusa a se encaixar na ordem social, precisa ser combatido como um animal perigoso. É necessário tomar essa atitude contra os criminosos antissociais e as tribos bárbaras. O liberalismo pode aprovar a guerra somente como uma forma de defesa. Para o resto, ele vê na guerra o princípio antissocial pelo qual a cooperação social é aniquilada.

Ao cometer o erro fundamental de confundir o ato de lutar com o de competir, as teorias sociais antiliberais buscam desacreditar o princípio liberal da paz. No sentido original da palavra, “luta” significa o conflito dos homens e animais a fim de destruir um ao outro. A vida social do homem começa na superação de seus instintos e considerações que o impele a lutar até a morte. A história nos mostra uma constante fuga do conflito como uma forma das relações humanas. As lutas se tornam cada vez menos intensas e frequentes. O oponente derrotado não é mais destruído; se a sociedade consegue encontrar uma forma de absorvê-lo, sua vida é poupada. A luta em si é limitada por regras e, consequentemente, mitigada. Mesmo assim, a guerra e a revolução seguem como instrumentos de destruição e aniquilação. Por essa razão o liberalismo nunca cessa em enfatizar o fato de que elas são antissociais.

É meramente uma metáfora chamar a competição de “guerra competitiva”, ou simplesmente, guerra. O propósito da batalha é a destruição, enquanto o propósito da competição é a construção. A competição econômica providencia que a produção seja conduzida de forma mais racional. Aqui, como em todo outro lugar, sua tarefa é a seleção do melhor. É um princípio fundamental da colaboração social que não pode ser pensado para fora da figuração. Até mesmo uma sociedade socialista não poderia existir sem esse princípio presente de alguma forma, embora possa ser necessário introduzi-lo no pretexto, digamos, de examinações. A eficiência de uma ordem de vida socialista dependeria em sua habilidade de fazer a competição suficientemente impiedosa e ávida para ser propriamente seletiva.

Há três pontos de comparação que servem para explicar o uso metafórico da palavra “luta” para a competição. Em primeiro lugar, é claro que a inimizade e o conflito de interesses estão presentes tanto em uma relação de guerreiros adversários quanto de competidores. O ódio que um lojista sente por seu concorrente imediato pode ser não menos pior em grau que o ódio que um muçulmano inspira em um Montenegrense. No entanto, os sentimentos responsáveis pelas ações dos homens pouco importam para a função social dessa ação. O que o indivíduo sente não importa desde que os limites impostos pela ordem social inibam suas ações.

O segundo ponto de comparação é encontrado na função seletiva tanto de batalhar quanto de competir. Até que dimensão a luta é capaz de fazer a melhor seleção é aberta a discussão; mais tarde mostraremos que muitas pessoas atribuem efeitos antisseletivos a guerras e a revoluções.[11] Mas porque ambas  preenchem uma função seletiva, não se pode esquecer que há diferença essencial entre lutar e competir.

O terceiro ponto de comparação pode ser encontrado nas consequências que a derrota colocam sobre os perdedores. Pessoas afirmam que os perdedores são destruídos, sem refletir que usam a palavra “destruição” em tais casos apenas figurativamente. Aquele que é derrotado na guerra é morto; até mesmo na guerra moderna, onde os sobreviventes do lado perdedor são poupados, sangue é derramado. As pessoas dizem que no conflito competitivo vidas econômicas são destruídas. Isto, contudo, significa somente que aqueles que sucumbem são forçados a buscar, na estrutura da divisão social do trabalho, por uma posição diferente da que gostariam de ocupar. De modo algum significa que os derrotados devem morrer de fome. Na sociedade capitalista há espaço e pão para todos. Sua habilidade de expandir provê sustento para todos os trabalhadores. Desemprego permanente não é uma característica do capitalismo livre.

Lutar no sentido original atual da palavra é antissocial. Ela deixa a cooperação, que é o elemento básico da relação social, impossível entre os lutadores, e onde a cooperação já existe ela a destrói. A competição é um elemento de colaboração social, o princípio governante do corpo social. Observadas sociologicamente, a batalha e a competição são contrastes extremos

A realização disso fornece um critério suficiente para julgar todas aquelas teorias que consideram a evolução social como uma luta entre grupos conflitantes. Luta de classes, conflitos raciais, e guerras nacionais não podem ser o princípio construtivo. Nenhum edifício sequer será construído com uma base de destruição e aniquilação.

§4
Guerra nacional

O meio mais importante para a cooperação social é a linguagem. A linguagem constrói uma ponte sob o abismo que há entre indivíduos e somente com sua ajuda um homem pode comunicar ao outro pelo menos como se sente. Nesse ponto não temos necessidade de discutir a significância mais ampla da linguagem em relação ao pensamento e à vontade: como ela condiciona pensamentos e desejos e como, sem ela, não haveria pensamento, mas somente instinto, nenhuma vontade, mas apenas impulso.[12]O pensamento também é um fenômeno social; ele não é o produto de uma mente isolada, mas dos estímulos mútuos dos homens que se esforçam para alcançar os mesmos fins. O trabalho do pensador solitário, meditando afastado sobre problemas que poucos dão o mínimo reconhecimento, também é um diálogo, é uma conversação com o resíduo do pensamento que gerações de trabalho mental tiveram de depositar na linguagem, nos conceitos de cada dia, e na tradição escrita. O pensamento está ligado ao discurso. A estrutura conceitual de um pensador é construída sobre os elementos da linguagem.

A mente humana opera somente na linguagem; é pela Palavra que ela consegue se libertar da obscuridade da incerteza e da vagueza do instinto, para tal clareza maior do que jamais poderia desejar. O pensar e aquilo que é pensado não podem ser desunidos da linguagem da qual têm sua origem. Algum dia talvez consigamos uma linguagem universal, mas certamente não por meio dos métodos empregados pelos inventores de Volapuque, Esperanto e outros aparelhos semelhantes. As dificuldades de uma linguagem universal e do  entendimento mútuo das pessoas não serão resolvidos meramente ao eclodir combinações idênticas de sílabas para os termos mais comuns do dia a dia e para o uso por aqueles que falam sem pensar demais. O elemento intraduzível nas ideias, que vibra nas palavras que as expressam, é o que separa linguagens tanto quanto a variedade de sons nas palavras, que podem ser transpostos intactos. Mesmo se todos ao redor do mundo usassem as mesmas palavras para determinar “garçom” e “porta”, não teríamos fechado o abismo entre linguagens e nações. Mas suponha que tudo expresso em uma linguagem pudesse ser traduzido em outras línguas sem que coisa alguma se perdesse no processo, somente assim teríamos atingido uma unidade de linguagem, mesmo que não tenhamos encontrado sons idênticos para as sílabas. Diferentes linguagens seriam então apenas diferentes línguas, e nossa incapacidade de traduzir uma palavra não mais impediria a passagem do pensamento de nação para nação.

Até que esse dia chegue — e possivelmente nunca chegará — a fricção política está fadada a surgir entre membros de diferentes nações vivendo juntos, mas com linguagens misturadas, fricção essa que pode levar a um antagonismo político sério.[13]Direta ou indiretamente, essas disputas são responsáveis pelo “ódio” moderno entre nações, que fundamenta o imperialismo.

A teoria imperialista simplifica sua tarefa quando se limita a provar que conflitos entre nações existem. Para atacar seria necessário, então, demonstrar que também há uma solidariedade de interesses entre as nações. A doutrina imperialista-nacionalista surgiu como uma resposta contra o solidarismo ecumênico da doutrina do livre mercado. Em seu advento, a ideia cosmopolitana de cidadania mundial e fraternidade entre nações dominou as mentes dos homens. Tudo que parecia necessário, portanto, era provar que haviam interesses conflitantes entre as várias nações. O fato de que todos os seus argumentos usados para provar a incompatibilidade dos interesses nacionais poderiam ser igualmente utilizados para provar a incompatibilidade dos interesses regionais e, finalmente, até dos interesses pessoais dos indivíduos, foi bastante ignorado. Se os alemães sofrem por terem de consumir as roupas dos ingleses e o milho dos russos, os habitantes de Berlim precisam, presumivelmente, sofrer por terem de consumir cerveja da Baviera e vinho de Reno. Se não é bom permitir que a divisão de trabalho ultrapasse as fronteiras do Estado, seria melhor, sem dúvidas, no fim retornar à autossuficiência da economia doméstica fechada. O slogan “Sem mais bens estrangeiros!” nos levaria, se aceitássemos todas as suas implicações, à abolição da divisão de trabalho completamente. Pois, o princípio que faz a divisão internacional de trabalho parecer vantajosa, é precisamente o princípio que recomenda a divisão de trabalho sob qualquer circunstância.

Não é acidente que, de todas as nações, o povo alemão tem, pelo menos, senso de coesão nacional, e que entre todas as nações europeias foi a última a entender a ideia de uma união política em que um Estado engloba todos os membros da nação. A ideia de união nacional é uma criança do liberalismo, do livre comércio e do laissez-faire. O povo alemão, que, precisamente em virtude de suas condições de assentamento entre pessoas de diferentes línguas, foi o primeiro, entre os povos, a aprender as desvantagens da opressão nacionalista. Essa experiência levou a uma atitude negativa frente ao liberalismo. Mas, sem o liberalismo, faltava a ele o aparato intelectual necessário para superar o particularismo regional de grupos separados. Não é acidental que o sentimento de coesão nacional é, em nenhum outro povo, tão fortemente desenvolvido como entre os anglo-saxões, o lar tradicional do liberalismo. Os imperialistas se iludem fatalmente quando supõem que é possível fortalecer a coesão dos membros de uma nação ao rejeitar o cosmopolitismo. Eles negligenciam o fato de que o elemento antissocial básico da doutrina deles precisa, se aplicado logicamente, separar todas as comunidades.

 

§5
Guerra racial

O conhecimento científico das qualidades inatas ao homem ainda está em sua infância. Nós realmente não podemos afirmar mais nada sobre as características inerentes do indivíduo senão que alguns homens nascem melhor dotados do que outros. Onde a diferença entre bem e mal deve ser buscada não somos capazes de dizer. Sabemos que os homens diferem em suas qualidades físicas e psíquicas. Sabemos que certas famílias, linhagens e grupos de linhagem revelam traços similares. Sabemos que estamos justificados em diferenciar entre raças e em falar das diferentes qualidades raciais dos indivíduos. Mas até agora, tentativas de encontrar características somáticas nas relações raciais não tiveram resultado. Houve um tempo em que se pensou que uma característica racial tinha sido descoberta no índice craniano, mas agora é claro que essas relações entre o índice craniano e as qualidades psíquicas e mentais dos indivíduos, sobre as quais a escola antropossociológica de Lapouge baseou seu sistema não existem. Medições mais recentes nos demonstraram que homens com cabeças mais longas não são sempre loiros, bons, nobres e cultos, e que aqueles com cabeças menores nem sempre são pretos, maus, comuns e incultos. Entre as raças de crânio mais longo estão os aborígenes australianos, os esquimós, e kafirs. Muitos dos maiores gênios tinham crânios arredondados. O índice craniano de Kant era 88.[14] Temos aprendido que mudanças no índice craniano podem provavelmente acontecer sem misturas raciais — como resultado do modo de vida e ambiente geográfico.[15]

É impossível condenar muito enfaticamente o procedimento dos “experts raciais”. Eles determinam critérios raciais em um espírito totalmente acrítico. Mais ansiosos em cunhar bordões do que desenvolver o conhecimento, eles zombam de todos os parâmetros exigidos por um pensamento científico. Mas os críticos de tal diletantismo têm um descaso muito grande com seu trabalho ao direcionar sua atenção exclusivamente à forma concreta que autores dão às suas teorias e ao conteúdo de suas afirmações sobre raças particulares, suas características físicas e qualidades psicológicas. Embora as hipóteses arbitrárias e contraditórias de Chamberlain e Gobineau estejam distantes de possuir qualquer fundamento, e terem sido ridicularizadas como quimeras vazias, ainda há um pequeno germe da teoria racial que é independente de distinções entre raças nobres e ignóbeis.

Na teoria de Gobineau, a raça é um começo; originando-se de um ato especial da criação, é composta de qualidades especiais.[16] A influência do ambiente é estimada ser baixa: misturas de raças criam bastardos, nos quais as boas qualidades hereditárias das raças mais nobres se deterioram ou são perdidas. Para contestar a importância sociológica das teorias raciais, no entanto, não irá bastar provar que essa visão é insustentável, ou mostrar que uma raça é o resultado de uma evolução que procedeu sob as mais variadas influências. Essa objeção pode ser rejeitada ao asseverar que certas influências, operando durante um longo período de tempo, criaram uma ou mais raças, com qualidades especialmente favoráveis, e que os membros dessas raças, obtiveram, por meio dessas vantagens, uma liderança que os membros de outras raças não poderiam ultrapassar dentro de um tempo limitado. Em suas variações mais modernas, a teoria racial propõe, de fato, argumentos desse tipo. É necessário estudar essa forma da teoria racial, e perguntar como ela se porta em relação a teoria da cooperação social que tem sido aqui desenvolvida.

Vemos imediatamente que ela contém nada diretamente hostil à doutrina da divisão do trabalho. As duas são até que compatíveis. Pode ser assumido que raças diferem em inteligência e em força de vontade e que, isso sendo, são muito desiguais em sua habilidade de formar uma sociedade, e ademais que as melhores raças se distinguem precisamente por suas aptidões especiais em fortalecer a cooperação social. Essa hipótese joga luz sobre diversos outros aspectos da evolução social dificilmente compreensíveis de outra forma. Isso nos permite explicar o desenvolvimento e regressão da divisão social do trabalho e do florescer e do declínio das civilizações. Deixamos em aberto se a hipótese em si e as hipóteses construídas em cima dela são sustentáveis. Por enquanto, isso não nos preocupa. Estamos unicamente interessados em mostrar que a teoria racial é facilmente compatível com nossa teoria de cooperação social.

Quando a teoria racial combate o postulado da lei natural de igualdade e de igualdade de direitos de todos os homens, não afeta o argumento do livre mercado da escola liberal. Pois o liberalismo não defende a liberdade dos trabalhadores por razões de lei natural, mas porque considera trabalho não livre — o fracasso em recompensar o trabalhador com toda a produção imputada ao seu trabalho, e o divórcio de sua renda da produtividade de seu trabalho — como sendo menos produtivo do que o trabalho livre. Na teoria racial não há argumentos para refutar a teoria de livre comércio quanto aos efeitos da expansão social da divisão do trabalho. Pode-se admitir que as raças diferem em talento e caráter e que não há esperança de jamais ver essas diferenças resolvidas. Ainda assim, a teoria de livre comércio mostra que mesmo as raças mais capazes derivam uma vantagem ao se associarem com as menos capazes e que a cooperação social traz a elas a vantagem de maior produtividade no processo de trabalho total.[17]

A teoria racial começa a conflitar com a teoria social liberal no ponto em que ela começa a pregar a luta entre raças. Mas não há melhores argumentos para avançar neste sentido do que aqueles de outras teorias sociais militaristas. O ditado de Heráclito que a guerra é a mãe de todas as coisas permanece um dogma não comprovado. Ele falha, também, em demonstrar como a estrutura social poderia ter crescido da destruição e da aniquilação. Pelo contrário, os teóristas sociais também — na medida em que tentam julgar imparcialmente e não simplesmente seguir sua simpatia pela ideologia militarista-aristocrática e pelo conflito — precisam admitir que a guerra tem de ser condenada precisamente do ponto de vista da seleção. Lapouge apontou que apenas no caso de povos primitivos a guerra leva à seleção do mais forte e mais dotado, e que entre os povos civilizados leva a uma deterioração da raça pela seleção desfavorável.[18] O mais apto é mais provável de ser morto do que o inapto, que são mantidos por mais tempo, senão totalmente, longe do fronte. Aqueles que sobreviveram à guerra terminam por ter seu poder de produzir crianças saudáveis prejudicado pelos vários ferimentos que eles têm recebido na luta.

Os resultados dos estudos científicos das raças não podem de forma alguma refutar a teoria liberal do desenvolvimento social. Em vez disso, eles confirmam. As teorias raciais de Gobineau e muitos outros originam-se no ressentimento de uma casta nobre e militar derrotada contra a democracia burguesa e a economia capitalista. Para o uso numa política diária de imperialismo moderno, elas tomaram uma forma que reencarna velhas teorias de violência e guerra. Mas suas restrições críticas são aplicáveis apenas para os bordões da velha filosofia da lei natural. Elas são irrelevantes no que diz respeito ao liberalismo. Nem mesmo a teoria racial pode abalar a afirmação de que a civilização é uma obra de cooperação pacífica.

 

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Notas

[1]              “La guerre est une dissociation.” [A guerra é uma dissociação] Consulte Novicow, La critique du Darwinisme social, Paris 1910, p. 124. Consulte também a refutação das teorias de conflitos de Gumplowicz, Ratzenhofer, e Oppenheimer por Holsti, The Relation of War to the Origin of the State, Helsingfors, 1913, p. 276 et seq.

[2]              Taine, Histoire de la littérature anglaise, Paris 1863, Vol. I, p. xxv.

[3]              Ibid. p. xxiii: “Ce qu’on appelle la race, ce sont ces dispositions innées et héréditaires que l’homme apporte avec lui à la lumière” [“O que se chama de raça são aquelas disposições inatas e hereditárias que o homem traz consigo ao nascer”].

[4]              Hertwig, Zur Abwehr des ethischen, des sozialen und des politischen Darwinismus, p. 10 et seq.

[5]              Ferri,Sozialismus und moderne Wissenschaft, traduzido por Kurella, Leipzig 1895, pág. 65 et seq.

[6]              Gumplowicz, Der Rassenkampf, Innsbruck 1883, pág. 176. Sobre a dependência de  Gumplowicz no darwinismo veja Barth, Die Philosophie der Geschichte als Soziologie, pág. 253. O darwinismo liberal é um terrível pensamento do produto de uma época que não mais apreende o significado da filosofia social liberal.

[7]              Novicow, La critique du Darwinisme social, pág. 45.

[8]              Barth, Die Philosophie der Geschichte als Soziologie, pág. 243

[9]              Kropotkin, Gegenseitige Hilfe in der Tierund Menschenwelt, Edição alemã por Landauer, Leipzig 1908 p. 69 et seq.

[10]             Kammerer, Genossenschaften von Lebewesen auf Grund gegenseitiger Vorteile, Stuttgart 1913; Kammerer, Einzeltod, Völkertod, biologische Unsterblichkeit, Viena 1918, p. 29 et seq.

[11]             Ver p. 326 desta obra.

[12]             Cohen, Ethik des reinen Willens, Berlim, 1904, p. 183 et seq.

[13]             Ver o meu Nation, Staat und Wirtschaft, p. 31 et seq.

[14]             Oppenheimer, Die rassentheoretische Geschichtsphilosophie (Verhandlungen des Zweiten Deutschen Soziologentages, Tübingen 1913), p. 106; também Hertz, Rasse und Kultur, 3rd edition, Leipzig 1925, p. 37; Weidenreich, Rasse und Körperbau, Berlim 1927, p. 133 et seq.

[15]             Nystrom, Über die Formveränderungen des menschlichen Schädels und deren Ursachen (Archiv für Anthropologie, Vol XXVII, pág. 321 et seq.; p. 630 et seq).

[16]             Oppenheimer, Die rassentheoretische Geschichtsphilosophie, p. 110 et seq.

[17]             Veja acima, p. 283.

[18]             “Chez les peuples modernes, la guerre et le militarisme sont de véritables fléaux dont le resultat définitif est de déprimer la race”. [“Entre os povos modernos, a guerra e o militarismo são verdadeiras pragas cujo resultado final é degradar a raça.”], (Lapouge, Les sélections sociales, Paris 1896, p. 230).

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.