Capítulo III — Superando o destrucionismo

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§.1
A ação contrária dos “interesses” do capitalismo

De acordo com Marx, a posição política do indivíduo depende da classe à qual ele pertence; a posição política de sua classe é condicionada por seus interesses como uma classe. A burguesia está fadada a apoiar o capitalismo. Por outro lado, o proletariado só pode atingir seu propósito, só pode se libertar da exploração capitalista, preparando o caminho para o socialismo. Assim, as respectivas posições da burguesia e do proletariado na arena política são definidas de antemão. Talvez nenhuma doutrina de Marx tenha causado uma impressão mais profunda ou duradoura na teoria política do que essa. Ele encontrou aceitação muito além do alcance imediato do marxismo. O liberalismo passou a ser considerado como a doutrina na qual os interesses de classe da burguesia e do grande capitalista encontram expressão. Quem professa visões liberais é considerado como mais ou menos um agente de boa fé dos interesses especiais que se opõem ao bem geral. Economistas que rejeitam a doutrina marxiana são caracterizados como o “guarda-costas espiritual dos lucros do capital — e às vezes também dos aluguéis de terras”[1] — uma teoria notavelmente conveniente que poupa ao marxista o trabalho de discutir com eles.

Nada indica mais claramente o amplamente difundido reconhecimento que foi concedido a essa doutrina de Marx do que sua aceitação até mesmo pelos oponentes do socialismo. Quando as pessoas sugerem que a derrota do esforço socialista é uma tarefa principalmente ou mesmo exclusivamente para as classes proprietárias; quando tentam formar uma “frente única” de todos os partidos burgueses para se opor ao socialismo; eles então admitem que a manutenção da propriedade privada dos meios de produção é de interesse especial de uma certa classe e que é antagônica ao bem-estar público. Esses adversários estranhamente míopes do socialismo não percebem que qualquer tentativa, por parte de uma classe que é comparativamente pequena quando comparada com as massas, de defender seus interesses particulares precisa ser inútil; não reconhecem que a propriedade privada está condenada quando é considerada privilégio de seus proprietários. Ainda menos são capazes de perceber que seu pressuposto é radicalmente contradito pela experiência da formação de partidos políticos reais.

O liberalismo não é uma doutrina que serve aos interesses de classe daqueles que possuem propriedade. Quem quer que o conceba como tal já admitiu uma das principais afirmações do socialismo; ele não é liberal. O liberalismo defende a propriedade privada não no interesse dos proprietários, mas no interesse geral; acredita que a manutenção do sistema capitalista beneficia não só os capitalistas, mas também todos os membros da sociedade. Admite que na comunidade socialista haverá, com toda a probabilidade, pouca ou nenhuma desigualdade de renda. Mas ele insiste que, devido ao menor rendimento da produção socialista, a quantidade total a ser compartilhada será consideravelmente menor, de modo que cada indivíduo receberá menos do que os mais pobres recebem hoje. Se essa tese é aceita ou rejeitada é outra questão. Esse é precisamente o ponto em que o socialismo e o liberalismo estão em conflito. Quem o rejeita de imediato, rejeita o liberalismo. Ainda assim, não seria razoável fazer isso sem uma consideração cuidadosa do problema e dos argumentos de ambos os lados.

De fato, nada está mais longe dos interesses particulares dos empreendedores, seja como indivíduos ou como classe, do que defender o princípio da propriedade privada ou resistir ao princípio do Socialismo. Que a introdução do socialismo precisa necessariamente prejudicar os empresários e capitalistas, ou pelo menos seus filhos, não pode ser contestado por aqueles que acreditam que o socialismo implica necessidade e angústia para todos. Nessa medida, portanto, as classes proprietárias estão reconhecidamente preocupadas em resistir ao socialismo. Mas seu interesse não é maior do que o de qualquer outro membro da sociedade e é totalmente independente de sua posição privilegiada. Se fosse possível imaginar que o socialismo seria introduzido de um dia para o outro, então poderia ser dito que os empreendedores e capitalistas tinham razões especiais para desejar manter o sistema capitalista. Eles teriam mais a perder. Mesmo que a angústia resultante da reorganização fosse a mesma para todos, sofreriam mais aqueles cuja queda tivesse sido maior. Mas não é possível imaginar que o socialismo será introduzido tão rapidamente; e se assim fosse, é possível supor que os empreendedores, em razão de seu conhecimento especializado e capacidade de assumir responsabilidades, ocupariam, pelo menos por algum tempo, posições privilegiadas dentro da organização socialista.

O empreendedor é incapaz de sustentar seus netos e bisnetos, pois é característico da propriedade privada dos meios de produção sob o sistema capitalista que ela não crie nenhuma fonte permanente de renda. Cada fortuna precisa ser renovada pelo esforço. Quando o senhor feudal apoiou o sistema feudal, ele estava defendendo não apenas sua propriedade, mas a de seus descendentes. Mas o empreendedor no sistema capitalista sabe que seus filhos e netos só sobreviverão diante de uma nova competição se conseguirem se manter sua base como diretores de empreendimentos produtivos. Se ele está preocupado com o destino de seus sucessores e quer consolidar sua propriedade para eles de uma forma contrária aos interesses da comunidade, ele terá de se tornar um inimigo da ordem social capitalista e exigir todo tipo de restrição à competição. Mesmo o caminho para o socialismo pode parecer-lhe o melhor meio para isso, desde que a transição não ocorra muito repentinamente, pois ele pode esperar uma compensação contra a expropriação para que, por um período mais longo ou mais curto, o expropriado desfrute de uma renda segura em lugar da incerteza e da insegurança que é o destino dos donos de um empreendimento. A consideração por sua própria propriedade e pela propriedade de seus sucessores pode, portanto, incitar os empreendedores a apoiarem, em vez de se oporem, o socialismo. Ele precisa acolher todos os esforços que visam suprimir fortunas recém-criadas e recentemente desenvolvidas, especialmente todas as medidas destinadas a limitar qualquer coisa na natureza da liberdade econômica, porque garantem a renda que, de outra forma, precisa ser obtida pela luta diária, desde que a competição não seja restrita — porque excluem novos concorrentes.[2]

Os empreendedores têm interesse em se unir para proceder uniformemente nas negociações salariais com os trabalhadores organizados em sindicatos.[3] E têm interesse em se combinar para levar a cabo tarifas e outras restrições que entrem em conflito com a essência e o princípio do liberalismo ou para resistir a interferências governamentais que possam prejudicá-los. Mas eles não têm absolutamente nenhum interesse especial em lutar contra o socialismo e a socialização como tal. Eles não têm nenhum interesse especial em lutar contra o destrucionismo. Todo o propósito do empreendedor é se ajustar às contingências econômicas de qualquer momento. Seu objetivo não é combater o socialismo, mas ajustar-se às condições criadas por uma política voltada para a socialização. Não é de se esperar que os empreendedores ou qualquer outro grupo particular na comunidade devam, por interesse próprio, fazer dos princípios gerais de bem-estar a máxima de seu próprio procedimento. As necessidades da vida os compelem a tirar o melhor proveito de quaisquer dadas circunstâncias. Não compete aos empreendedores liderar a luta política contra o socialismo; tudo o que lhes interessa é ajustar a si mesmo e as suas empresas às situações criadas pelas medidas de socialização, para que tirem o maior proveito possível nas condições existentes.

Segue-se, portanto, que nem as associações de empreendedores, nem aquelas organizações nas quais o apoio dos empreendedores conta, estão inclinadas a lutar por princípio contra o socialismo. O empreendedor, o homem, que agarra a oportunidade do momento, tem pouco interesse na questão de uma luta secular de duração indefinida. Seu interesse é ajustar-se às circunstâncias em que se encontra no momento. Uma organização de empreendedores visa apenas repelir alguma invasão individual dos sindicatos; ou pode opor-se a atos legislativos, como formas especiais de tributação. Desempenha as tarefas que lhe são atribuídas pelos parlamentos e governos nos casos em que se deseja que o corpo organizado de empreendedor coopere com a classe operária organizada, a fim de dar voz ao elemento destrucionista na economia nacional. Lutar por princípio pela manutenção de uma economia baseada na propriedade privada dos meios de produção não faz parte do programa dos empreendedores organizados. Sua atitude em relação ao liberalismo é de indiferença ou mesmo, como no caso da política tarifária, de antagonismo.

Os interesses organizados, como os retrata a doutrina socialista, não correspondem às associações de empresários, mas sim aos sindicatos de agricultores, que defendem direitos tarifários sobre os produtos agrícolas, ou às associações de pequenos produtores que — sobretudo na Áustria — pressionam pela exclusão de competição. Esses claramente não são esforços em nome do liberalismo.

Assim, não existem indivíduos nem classes cujos interesses particulares os levariam a apoiar o capitalismo como tal. A política do liberalismo é a política do bem comum, a política de superação do interesse privado pelo interesse comum — um processo que demanda do indivíduo não uma renúncia de seus próprios interesses, mas sim uma percepção da harmonia de todos os interesses individuais. Não há, portanto, indivíduos ou grupos cujos interesses seriam, em última análise, mais bem protegidos pelo socialismo do que por uma sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção.

Mas embora, em última análise, os interesses de ninguém estivessem melhor atendidos pelo socialismo, há muitas pessoas cujos interesses particulares do momento são mais bem protegidos por uma política voltada para a socialização do que pela manutenção do liberalismo. O liberalismo se opôs a tudo que tem a natureza de uma sinecura e procurou reduzir ao mínimo o número de oficiais públicos. A política intervencionista fornece a milhares e milhares de pessoas empregos seguros, plácidos e não muito extenuantes às custas do resto da sociedade. Toda nacionalização ou instalação de uma empresa municipal ou pública vincula os interesses privados ao movimento contra a propriedade privada. Hoje, o socialismo e o destrucionismo encontram seus maiores apoiadores na casa dos milhões, para os quais um retorno a uma economia mais livre seria, no início e no curto prazo, prejudicial para seus interesses particulares.

§.2
Violência e autoridade

A atitude de espírito que vê na propriedade privada um privilégio dos proprietários é um eco de períodos anteriores na história da propriedade. Toda   propriedade começou com a apropriação de coisas sem dono. A história da propriedade passou por um período em que a expropriação à força dos proprietários era a regra. É seguro dizer que a propriedade de qualquer pedaço de terra pode ser rastreado até a tomada pela violência. É claro que isso não se aplica à ordem social do capitalismo, visto que a propriedade aqui é constantemente adquirida no processo de competição de mercado. Mas como os princípios liberais em nenhum lugar — pelo menos na Europa — foram postos em prática em sua totalidade, e como em toda parte, especialmente na propriedade fundiária, muito da velha mancha de violência sobrevive, a tradição dos proprietários feudais ainda é mantida: “Ich lieg und besitze.” [“Eu deito e tenho.”] A crítica aos direitos de propriedade é recebida com abusos violentos. Essa é a política que os junkers alemães adotaram contra a social-democracia — com o qual o sucesso é bem conhecido.[4]

Os partidários dessa ordem nada podem dizer para justificar a propriedade privada dos meios de produção, a não ser que ela é mantida pela força. O direito da forte é o único direito que podem forçar. Eles se gabam de sua força física, contam com seu equipamento armado e se consideram no direito de desprezar qualquer outro argumento. Somente quando o chão começa a tremer sob seus pés, eles produzem outro argumento ao se posicionar sobre os direitos adquiridos. A violação de sua propriedade torna-se uma ilegalidade que deve ser evitada. Não precisamos desperdiçar palavras para expor a fragilidade desse ponto de vista na luta contra um movimento que quer fundar novos direitos. É totalmente impotente mudar a opinião pública se essa opinião condenou a propriedade. Seus beneficiários reconhecem isso com horror e voltam em sua angústia para a Igreja, com o estranho pedido de que a Igreja mantenha os misera plebs modestos e humildes, combata a cobiça e desvie os olhos dos destituídos de bens dos bens terrestres para as coisas celestiais.[5] O cristianismo deve ser mantido vivo para que o povo não se torne cobiçoso, mas a exigência assim feita à Igreja é monstruosa. É solicitado para servir aos interesses, geralmente considerados prejudiciais à comunidade, de várias pessoas privilegiadas. É óbvio que os verdadeiros servos da Igreja se revoltaram contra essa exigência presunçosa, enquanto os inimigos da Igreja a encontraram como uma arma eficaz em sua guerra de libertação contra a religião. O que é surpreendente é que os inimigos eclesiásticos do socialismo, em seus esforços para representar o socialismo como um filho do liberalismo, da escola livre e do ateísmo, tenham assumido exatamente a mesma atitude em relação ao trabalho que a Igreja realiza na manutenção das relações de propriedade existentes. Assim, o Jesuíta Cathrein diz: “Se alguém assume que com esta vida está tudo acabado, que ao homem não é dado maior destino do que a qualquer outro mamífero que chafurda na lama, que então pedirá aos pobres e oprimidos, cuja vida é uma luta constante pela existência, para que suportem seu duro destino com paciência e resignação, e olhem enquanto os outros se vestem de seda e púrpura e fazem refeições regulares e fartas? Não carrega também o trabalhador no coração o impulso em direção a felicidade perfeita? Se ele é roubado de toda esperança de um mundo distante e melhor, por que direito ele está impedido de buscar sua felicidade na medida do possível na terra e assim exigir imperativamente sua parte das riquezas da terra? Ele não é tão homem quanto seu empregador? Por que deveriam alguns simplesmente sobreviver na miséria e na pobreza, enquanto outros vivem da gordura da terra, quando do seu ponto de vista não há razão para que as coisas boas desse mundo devam pertencer a uns e não a outros? Se o ponto de vista do naturalismo ateísta é justificado, também o é a exigência socialista: que os bens materiais e a felicidade sejam distribuídos a todos tão igualmente quanto possível, que é errado para alguns viver uma vida de prazer ocioso em palácios enquanto outros vivem em miseráveis porões e sótãos, mal conseguindo, apesar dos esforços mais extenuantes, ganhar o pão de cada dia.”[6] Supondo que as coisas sejam exatamente como Cathrein as imagina — que a propriedade privada é um privilégio dos proprietários, que os outros são mais pobres na proporção em que são ricos, que alguns morrem de fome porque outros festejam, que alguns vivem em quartos miseráveis porque outros vivem lugares nobres — ele realmente acredita que poderia ser uma obra da Igreja manter tais condições? O que quer que se possa ler no ensinamento social da Igreja, não se pode supor que seu fundador ou seus partidários aprovariam seu uso para apoiar instituições sociais injustas que são obviamente desvantajosas para a maior parte da humanidade. O cristianismo teria desaparecido da terra há muito tempo, se fosse aquilo com o que Bismarck e Cathrein o confundiram, assim como muitos de seus mais ferrenhos inimigos: guarda-costas de uma instituição social prejudicial às massas.

A ideia socialista não pode ser suprimida nem pela força nem pela autoridade, pois ambos estão do lado do socialismo e não de seus oponentes. Se as armas e metralhadoras forem postas em ação hoje, elas estarão nas fileiras do Socialismo e do Sindicalismo, e não se oporão a eles, pois a grande massa de nossos contemporâneos está imbuída do espírito do Socialismo ou do Sindicalismo. Qualquer que seja o sistema estabelecido na autoridade no momento, certamente não pode ser o capitalismo, pois as massas não acreditam nele.

§.3
A batalha de ideias

É um erro pensar que a falta de sucesso das experiências de socialismo que foram feitas pode ajudar a superar o socialismo. Os fatos per se não podem provar nem refutar nada. Tudo é decidido pela interpretação e explicação dos fatos, pelas ideias e pelas teorias.

O homem que se apega ao socialismo continuará a atribuir todo o mal do mundo à propriedade privada e a esperar a salvação do socialismo. Os socialistas atribuem as falhas do bolchevismo russo a todas as circunstâncias, exceto à inadequação do sistema. Do ponto de vista socialista, o capitalismo sozinho é responsável por toda a miséria que o mundo teve de suportar nos últimos anos. Os socialistas veem apenas o que desejam e são cegos para qualquer coisa que possa contradizer sua teoria.

Apenas ideias podem superar ideias e são apenas as ideias do capitalismo e do liberalismo que podem superar o socialismo. Somente por uma batalha de ideias é possível chegar a uma decisão.

O Liberalismo e o Capitalismo se dirigem à mente fria e bem equilibrada. Eles procedem por uma lógica estrita, eliminando qualquer apelo às emoções. O socialismo, ao contrário, atua sobre as emoções, tenta violar considerações lógicas ao despertar um senso de interesse pessoal e abafar a voz da razão ao despertar os instintos primitivos.

Mesmo com aqueles de posição intelectualmente mais elevada, com a pouca capacidade de reflexão independente, isso parece dar ao socialismo uma vantagem. Com as outras, as grandes massas incapazes de pensar, a posição socialista é considerada inabalável. Supõe-se que aquele que fala nas paixões das massas tem melhores chances de sucesso do que aquele que apela para sua razão. Assim, as perspectivas do liberalismo na luta contra o socialismo são consideradas muito pobres.

Esse ponto de vista pessimista está completamente equivocado em sua estimativa da influência que a reflexão racional e serena pode exercer sobre as massas. Também exagera enormemente a importância do papel desempenhado pelas massas e, consequentemente, pelos elementos psicológicos de massa, na criação e formação das ideias predominantes de uma época.

É verdade que as massas não pensam. Mas justamente por essa razão elas seguem aqueles que pensam. A orientação intelectual da humanidade pertence aos poucos que pensam por si mesmos. Em primeiro lugar, eles influenciam o círculo daqueles capazes de apreender e entender o que os outros pensaram; por meio desses intermediários, suas ideias chegam às massas e aí se condensam na opinião do tempo. O socialismo não se tornou a ideia dominante do nosso período porque as massas primeiro pensaram a ideia da socialização dos meios de produção e depois a transmitiram às classes intelectualmente superiores. Até mesmo a concepção materialista da história, assombrada como é pelo “espírito do povo”, tal como concebido pelo Romantismo e pela escola histórica de jurisprudência, não corre o risco de tal afirmação. Por si mesma, a psique da massa nunca produziu nada além de crime em massa, devastação e destruição. É certo que a ideia do socialismo também é em seus efeitos nada mais do que destruição[7], mas não deixa de ser uma ideia. Teve de ser pensada, e isso só poderia ser obra de pensadores individuais. Como qualquer outro grande pensamento, ele penetrou as massas apenas por meio da classe média intelectual. Nem o povo nem as massas foram os primeiros socialistas. Ainda hoje são socialistas agrários e sindicalistas, em vez de socialistas. Os primeiros socialistas foram os intelectuais; eles e não as massas são a espinha dorsal do socialismo.[8] O poder do Socialismo também é como qualquer outro poder, em última análise, espiritual; e encontra seu apoio nas ideias procedentes dos líderes intelectuais, que as entregam ao povo. Se a intelectualidade abandonasse o socialismo, seu poder acabaria. No longo prazo, as massas não podem suportar as ideias dos líderes. É verdade que os demagogos individuais podem estar prontos, por causa de uma carreira e contra seu melhor conhecimento, a instigar nas pessoas ideias que bajulam seus instintos mais básicos e que, portanto, certamente serão bem recebidas. Mas, no final, os profetas, que em seus corações sabem que são falsos, não podem prevalecer contra aqueles cheios do poder da convicção sincera. Nada pode corromper as ideias. Nem por dinheiro nem por outras recompensas se pode contratar homens para a luta contra as ideias.

A sociedade humana é um problema da mente. A cooperação social precisa primeiro ser concebida, depois desejada e, então, cumprida na ação. São as ideias que fazem a história, não as “forças materiais produtivas”, esses esquemas nebulosos e místicos da concepção materialista da história. Se pudéssemos superar a ideia do socialismo, se a humanidade pudesse ser levada a reconhecer a necessidade social da propriedade privada dos meios de produção, então o socialismo teria de deixar o palco. Essa é a única coisa que conta.

A vitória da ideia socialista sobre a ideia liberal só se deu através do deslocamento da atitude social, que tem em conta a função social da única instituição e o efeito total de todo o aparelho social, por uma postura antissocial, que considera as partes individuais do mecanismo social como unidades separadas. O socialismo vê os indivíduos — os famintos, os desempregados e os ricos — e critica capciosamente; O liberalismo nunca esquece o todo e a interdependência de todos os fenômenos. Sabe muito bem que a propriedade privada dos meios de produção não é capaz de transformar o mundo em um paraíso; nunca tentou estabelecer nada além do simples fato de que a ordem socialista da sociedade é irrealizável e, portanto, menos capaz do que o capitalismo de promover o bem-estar de todos.

Ninguém entendeu menos o liberalismo do que aqueles que se juntaram a ele nas últimas décadas. Eles se sentiram obrigados a lutar contra as “excrescências” do capitalismo, assumindo assim sem escrúpulos a postura antissocial característica dos socialistas. Uma ordem social não tem excrescências que possam ser eliminadas à vontade. Se um fenômeno resulta inevitavelmente de um sistema social baseado na propriedade privada dos meios de produção, nenhum capricho ético ou estético pode condená-lo. A especulação, por exemplo, que é inerente a toda ação econômica, tanto em uma sociedade socialista quanto em qualquer outra, não pode ser condenada pela forma que assume sob o capitalismo apenas porque o censor da moral confunde sua função social. Tampouco esses discípulos do liberalismo foram mais afortunados em suas críticas ao socialismo. Eles declararam constantemente que o socialismo é um ideal belo e nobre pelo qual se deve lutar se fosse realizável, mas que, infelizmente, não poderia ser, porque pressupunha seres humanos mais perfeitos moralmente do que aqueles com quem temos de lidar. É difícil ver como as pessoas podem decidir que o socialismo é, de alguma forma, melhor do que o capitalismo, a menos que possam sustentar que funciona melhor como sistema social. Com a mesma justificativa, é possível dizer que uma máquina construída com base no movimento perpétuo seria melhor do que uma que funcionasse de acordo com as leis da mecânica — se ao menos pudesse funcionar de maneira confiável. Se o conceito de socialismo contém um erro que impede aquele sistema de fazer o que deve fazer, então o socialismo não pode ser comparado ao sistema capitalista, pois este se mostrou viável. Nem pode ser chamado de mais nobre, mais belo ou mais justo.

É verdade que o socialismo não pode ser realizado, mas não porque exige seres sublimes e altruístas. Uma das coisas que este livro se propôs a provar foi que a comunidade socialista carece, acima de tudo, de uma qualidade indispensável para todo sistema econômico que não perdura na miséria, mas trabalha com métodos de produção indiretos: essa é a capacidade de calcular e, portanto, de proceder racionalmente. Uma vez que isso tenha sido reconhecido por todos, todas as ideias socialistas precisam desaparecer da mente de seres humanos capazes de razão.

Quão insustentável é a opinião de que o socialismo precisa vir porque a evolução social necessariamente leva a ele, foi mostrado nas seções anteriores deste livro. O mundo se inclina para o socialismo porque a grande maioria das pessoas o deseja. Eles o querem porque acreditam que o socialismo garantirá um padrão mais elevado de bem-estar. A perda dessa convicção significaria o fim do socialismo.

 

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Notas

[1]              Assim, por Kautsky (citado por Georg Adler, Die Grundlagen der Karl Marxschen Kritik der bestehenden Volkwirtschaft, Tübingen 1887, p. VII).

[2]              “Beaucoup d’ouvriers, et non les meilleurs, préfèrent le travail payé à la journée au travail à la tâche. Beaucoup d’entrepreneurs, et non les meilleurs, préféraient les conditions qu’ils espèrent pouvoir obtenir d’un Etat socialiste a celles que leur fait un régime de libre concurrence. Sous ce régime les entrepreneurs sont des ‘fonctionnaires’ payés a la tâche; avec une organisation socialiste ils deviendraient des ‘fonctionnaires’ payés à la journée.” [Muitos trabalhadores, e não os melhores, preferem o trabalho remunerado diariamente do que comissões. Muitos empreendedores, e não os melhores, preferem as condições que eles esperam poder obter de um Estado socialista no lugar daquelas que conseguiriam num regime de livre mercado. Sob esse regime, os empreendedores são “funcionários” pagos por comissão. Com uma organização socialista eles se tornariam “funcionários” com remuneração diária.] Pareto, Cours d’Economie Politique, Vol. II, p. 97, Anm.

[3]              Hutt, The Theory of Collective Bargaining, p. 25 et seq.

[4]              O Junker não se preocupa em manter a propriedade privada como disposição dos meios de produção, mas em mantê-la como título de uma fonte especial de renda. Portanto, o Socialismo de Estado o conquistou facilmente. É para garantir a ele sua renda privilegiada.

[5]              Essa foi, por exemplo, a visão de Bismarck. Veja seu discurso no Parlamento em 15 de junho, 1847 (Fürst Bismarck Reden, editado por Stein, Vol.I, p. 24).

[6]              Cathrein, Der Sozialismus, 12th Edition, e 13th Edition, Freiburg 1920, p. 347 et seq.

[7]              Maciver, Community, Londres 1924, p. 79 et seq.

[8]              Isso, obviamente, é verdade também para a nação Alemã; quase toda a intelectualidade da Alemanha é socialista, em círculos nacionais é estatal ou, como se diz hoje em dia, Nacional-Socialismo, em círculos católicos, Socialismo de Igreja, em outros círculos, Social-Democracia ou Bolchevismo.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.