Capítulo VII – ECOLOGIA – 3. O fabricante de desperdício

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Há muito as pessoas vêm suspeitando de que uma prática básica de negócios é fabricar, propositalmente, produtos de qualidade inferior.  Os homens de negócios, presume-se, não querem produzir produtos de alta qualidade, que durem muito tempo.  Em vez disso, fabricam produtos com obsolescência “embutida” ou “planejada”.  A medida em que esses produtos se desgastam com o uso, têm de ser substituídos, e assim os fabricantes se mantêm no negócio e prosperam.  Essa ideia, que sempre nos acompanha, ainda que de forma um tanto subjacente, recebeu, há alguns anos, uma injeção de forças desnecessária, mas que teve ampla publicidade, com o livro de Vance Packard,Waste Makers[2]. 

A teoria da obsolescência “embutida” é falaciosa.  E, com o evento do avanço tecnológico e os neopartidários da teoria malthusiana de Crescimento Zero da População, torna-se mais importante do que nunca enterrarmos a falácia.  Segundo os partidários da teoria da superpopulação, temos ou teremos, em breve, pessoas demais em relação aos recursos da terra.  Na opinião dos ambientalistas, atualmente nós (ou seja, o sistema de livre mercado) estamos desperdiçando os recursos que possuímos.  Na visão de outros, ainda, a obsolescência embutida é um componente trágico e totalmente desnecessário desse desperdício.  Considerados no conjunto, esses grupos representam uma ameaça intelectual, moral e até física a uma economia sadia e saudável. 

É importante iniciarmos essa crítica observando um truísmo.  Tanto faz fabricar um produto de maneira “adequada”, de forma que ele não se desgaste “antes do tempo”, ou não; o custo é o mesmo.  Um produto é inferior, ou porque o fabricante instrui os operários a produzirem mercadoria inferior, ou porque é mais barato fabricá-lo assim. 

Um exemplo autêntico de obsolescência embutida é o caso em que não se obtém qualquer economia de custo por fabricar um produto inferior.  É como se uma bomba-relógio fosse colocada numa mercadoria perfeita.  O consumidor não sabe, mas o objeto está programado para se “autodestruir”.  Essa prática, evidentemente, é uma prática de desperdício.  Em linguagem econômica, a sociedade está preterindo produtos de qualidade superior que não tenham custos alternativos. 

Esse comportamento, porém, não tem lugar numa economia de mercado de iniciativa privada, porque não é orientada para a sobrevivência.  Os empresários que se ocupam de obsolescência planejada desse tipo, reduzem seus lucros, aumentam suas perdas e podem ir à falência.  Alguns clientes certamente deixam de comprar de uma empresa que vende mercadoria de qualidade inferior por preços de mercadoria padrão de qualidade e passam a comprar de outras firmas que vendem mercadorias de qualidade padrão pelos mesmos preços.  A firma em questão perde clientes, sem qualquer compensação disso na forma de redução de custos, e as outras firmas ganham os clientes perdidos pela empresa que produz produtos de baixa qualidade. 

Mas o receio de muitos consumidores não é o de que um empresário fabrique produtos com obsolescência embutida, mas que todos os fabricantes o façam.  Nesse caso, supõe-se, o consumidor cairia numa arapuca. 

Quais seriam as consequências, se todos os fabricantes de um setor acordassem, via um acerto de cartel, fabricar produtos de qualidade inferior, a fim de aumentar as vendas relativas a sua substituição? Parece claro que cada fabricante parte do acordo ficaria extremamente tentado a melhorar a qualidade de seu produto – em outras palavras, burlar o acordo.  Porque, se todos os demais estivessem fabricando produtos da mesma qualidade inferior (como acordaram fazer), e ele fizesse produtos que fossem apenas ligeiramente melhores, conquistaria clientes e aumentaria seus lucros.  Dada a motivação de lucro (que foi o incentivo para o cartel), não é provável que os membros honrem o acordo. 

Segundo, empresários de fora do cartel ficariam imensamente tentados a entrar no ramo, já que, fabricando produtos apenas ligeiramente melhores do que os produzidos pelos fabricantes membros do cartel, atrairiam clientes e lucros. 

Paradoxalmente, as forças tendentes a dissolver o cartel se tornariam mais fortes à medida em que o cartel tivesse mais sucesso.  Pois, quanto mais forte fosse o cartel, maior seria a queda de qualidade do produto.  Quanto pior a qualidade, mais fácil se tornaria atrair os clientes dos concorrentes.  Até mesmo um aumento mínimo de qualidade proporcionaria isso. 

A publicidade também acelera o processo de dissolução dos cartéis que tentam restringir a qualidade.  Na verdade, ela, antes de mais nada, tende a impedir sua formação.  A propaganda constrói marcas atreladas a uma reputação.  A marca responde por um certo nível de qualidade.  Se uma firma permite que a qualidade de seu produto se deteriore, perde a reputação que já gastou milhões para construir. 

As organizações independentes de classificação de produtos, como a Liga dos Consumidores, também tendem a evitar que se formem cartéis e a dissolvê-los, quando ocorrem.  Ao fazerem um acompanhamento rigoroso da qualidade das mercadorias, essas organizações mantêm o público informado até das mais leves quedas de qualidade. 

Por fim, mesmo que todos os membros do cartel cumprissem o acordo, e nenhum novo empresário entrasse no ramo, a restrição da qualidade teria mais chance de fracassar do que de ter sucesso.  Pois é impossível a todos os fabricantes restringirem a qualidade exatamente num mesmo nível.  Os que a restringissem menos, inevitavelmente conquistariam melhor reputação, mais clientes e mais lucros.  O mercado continuaria a ser um campo de testes, eliminando as empresas que produzissem mercadorias inferiores.  Fracassar no teste significa a falência; passar no teste significa sobrevivência. 

Parece evidente, então, que, num mercado livre, os cartéis não podem ser mantidos.  Mas podem ser mantidos e, com eles, a obsolescência, se o governo intervém.  Por exemplo, sempre que o governo estabelece restrições de caráter corporativista para o ingresso numa atividade, os cartéis são encorajados, porque a concorrência é desencorajada.  Assim, os interesses daqueles que já atuam no setor ficam protegidos.  Quaisquer que sejam os acordos que possam ter feito uns com os outros, podem ser mantidos.  Se eles acordarem, como política, restringir a qualidade da produção, tal política terá chances de ser bem-sucedida.  Os efeitos da participação do governo podem ser constatados em vários campos.  Consideremos o da medicina.  O governo, por injunção da Associação Médica Americana (AMA), conseguiu banir o uso da acupuntura.  Os práticos da acupuntura ameaçavam a posição dos médicos formados, e a AMA, que funciona como um cartel, exerceu grande pressão contra eles.  Isso estava, naturalmente, de acordo com sua política geral de manter altos os salários dos médicos, independentemente da qualidade do serviço.  Da mesma forma, os psicólogos e psiquiatras, com o auxílio do governo, atacam os práticos que lhes fazem concorrência.  Estão tentando banir todos aqueles (líderes de grupos de encontros etc.) a quem eles próprios não tenham dado licença para exercer a ocupação. 

O governo também tem evitado, por vezes, que as forças internas que tendem a acabar com os cartéis, operem.  O cartel das ferrovias é um caso a destacar.  Companhias membros do cartel ferroviário reduziram a quantidade do serviço, a fim de forçar um aumento de preços.  Mas, como poderia se prever, com preços mais elevados havia menos passageiros.  Cada ferrovia começou a tentar atrair os usuários das outras ferrovias, reduzindo o preço estabelecido.  Naturalmente, isso destruiria o cartel.  Quando isso aconteceu, o corte de preços tomou a forma de desconto no preço, Mas, ao invés de permitir que essa prática continuasse e arruinasse o cartel gerador de baixa qualidade de serviço, o governo proibiu os descontos.  E a indústria ferroviária até hoje não se recuperou. 

Uma terceira maneira da qual o governo contribui para o problema da obsolescência embutida é sustentando empresas que, devido à baixa qualidade dos bens que produzem, não conseguem sobreviver à concorrência do mercado.  Muitos dos subsídios que o governo disponibiliza para os empresários, servem apenas para sustentar negócios que estão fracassando por terem sido incapazes de satisfazer seus clientes. 

Consideremos, agora, a segunda alternativa, o caso em que custa mais dinheiro aumentar a qualidade do produto.  Aqui, a análise é exatamente o contrário.  Esse tipo de obsolescência planejada ocorre no mercado não sujeito a restrições, todos os dias, mas de forma nenhuma é um desperdício ou um absurdo! É parte e parcela da opção de qualidade oferecida aos consumidores. 

Consideremos a seguinte tabela hipotética do custo de pneus de automóvel e a vida útil estimada de cada pneu:

 

Marca       Custo US$                  Vida útil média

Pneu A           10,00                         1 ano

Pneu B           50,00                         2 anos

Pneu C          150,00                         5 anos

 

 Ao comprar pneus, é dada ao consumidor a opção entre pneus de maior qualidade, a preços mais elevados, e pneus de inferior qualidade, a preços menores.  É claro que não se espera que o pneu de 10 dólares vá durar tanto quanto o de 150 dólares! Ele foi produzido de uma maneira tal, que se desgastará mais cedo.  Isso poderia ser chamado de obsolescência embutida.  Mas onde está o desperdício? Não há.  Os fabricantes de pneus baratos não estão tirando vantagem de um mercado de consumidores indefesos.  Não estão manobrando o público para que compre mercadorias de baixa qualidade.  Estão produzindo o que as pessoas querem.  Se alguns fabricantes de pneus de baixa qualidade fossem convencidos pelos ecologistas de que seus produtos eram antiecológicos e parassem de produzi-los, o preço dos pneus de baixa qualidade ainda disponíveis subiria, porque a demanda continuaria a existir, enquanto que a oferta teria diminuído.  Isso, por sua vez, instituiria pressões irresistíveis sobre os fabricantes para retomarem (ou para ingressarem pela primeira vez) o campo de pneus de baixa qualidade, à medida em que os lucros neste começassem a aumentar. Dessa forma, o mercado tenderia a ocasionar a satisfação do consumidor. 

O humilde prato de papelão pode servir para seguirmos ilustrando a questão de que a obsolescência embutida não é antiecológica, quando é mais barato fazer produtos de qualidade inferior do que produtos de alta qualidade.  Será que pensaríamos em acusar os fabricantes de pratos de papelão de obsolescência embutida? Assim como nos pneus, também nos pratos de papelão existe a mesma combinação de opções qualidade-preço.  Podemos comprar, a preços crescentes, pratos de papelão, várias qualidades de pratos de plástico, pratos de cerâmica e de porcelana que vão até a porcelana chinesa da maior qualidade. 

É muito estranho que as pessoas culpem a obsolescência embutida pelos defeitos de seus carros, mas não pela rápida deterioração de seus guardanapos de papel.  Mas em ambos os casos, há disponíveis mercadorias de maior qualidade, a preços mais altos.  A escolha é do consumidor.  Não há mais sentido em reclamar que os carros de qualidade inferior estragam, do que há em reclamar que copos de papelão não duram.  Os produtos mais baratos não são feitos para durar, tanto quanto os produtos mais caros! É por isso que têm menor custo.  Evidentemente, a obsolescência que reflete a escolha do consumidor não é antiecológica. 

Mas a baixa qualidade não é, em e por si própria, antiecológica, por esgotar nossos recursos? Mesmo que a obsolescência embutida não seja um problema nos pratos de papelão, será que os próprios pratos de papelão não são antiecológicos, por esgotarem as reservas de madeira?

Um dos problemas de se encarar o assunto dessa forma é que ela presume que os produtos de qualidade inferior utilizam mais recursos do que os de maior qualidade.  Para sermos francos, quanto mais inferior a qualidade do produto, mais provável é que sejam necessários substituição e reparos.  Mas, por outro lado, nos produtos de maior qualidade, são usados mais recursos já de início! A questão real é entre um grande dispêndio de recursos inicial e pequenos dispêndios subsequentes de recursos para um produto de qualidade superior, versus um pequeno dispêndio inicial de recursos e maiores dispêndios subsequentes (reparos, reposição) para produtos de qualidade inferior. 

Num livre mercado, os consumidores decidem entre essas alternativas.  São fabricados produtos que são menos antiecológicos na opinião dos consumidores.  Se os consumidores decidirem que, dadas rápidas mudanças na moda, é um desperdício comprar roupas que duram cinco anos ou mais, os fabricantes acharão mais lucrativo produzir roupas menos duráveis e menos caras.  Se o mercado pedisse, os fabricantes ofereceriam roupas de papel.  De forma similar, se os clientes quisessem carros que durassem por muito tempo, os produtores ofereceriam esses carros.  Eles os ofereceriam a um preço mais elevado, se os consumidores quisessem que os carros tivessem todas as bugigangas e confortos atuais.  Se os consumidores preferissem, os fabricantes os ofereceriam pelo mesmo preço dos carros de menor qualidade, mas sem os acessórios. 

Além do mais, no mercado livre, “esgotar” recursos não representa uma ameaça séria.  À medida em que começa a ocorrer uma escassez, forças poderosas automaticamente entram em cena para corrigi-la.  Por exemplo, se a oferta de madeira começa a diminuir, seu preço é empurrado para cima.  Consequentemente, os consumidores compram menos produtos feitos de madeira.  Os produtores tendem a substituir a madeira por outros materiais, sempre que possível.  Escritórios, móveis, barcos etc., são feitos de outros materiais menos caros.  São desenvolvidos materiais novos, possivelmente sintéticos.  É tomado maior cuidado, ao se reciclar a repentinamente mais valiosa madeira “usada”.  Jornais velhos, por exemplo, são quimicamente tratados e reutilizados em maior escala.  O preço mais alto da madeira incentiva empresários a plantarem mais mudas de árvores e a cuidarem mais intensivamente das florestas.  Em resumo, dadas a carência e o encarecimento de um ou até de vários recursos, uma livre economia ajusta-se automaticamente.  Contanto que não haja interferência em seu mecanismo de ajuste, o sistema de preço, outros recursos mais baratos e mais abundantes substituem os escassos, que são melhor preservados. 

Mas o que aconteceria, podem perguntar, senão apenas um ou vários, mas todos os recursos se tornassem escassos? O que aconteceria, se esgotássemos todos nossos recursos ao mesmo tempo? Este é o material de que é feita a ficção científica; assim, temos de nos permitir um pouquinho de ficção científica para lidar com isso.  Mas logo vamos parar de imaginar que tudo possa desaparecer da face da Terra como num passe de mágica.  Nessa eventualidade, não teríamos nada de útil a sugerir. 

A fim de que essa visão ganhe sentido, não vamos imaginar que todos os recursos desapareceriam de repente ou que, de repente, a Terra encolheria e se ressecaria, mas que os recursos econômicos teriam sido todos usados e transformados em cinzas, lixo e pó.  Por exemplo, admitamos, não que o carvão tenha desaparecido complemente, mas que todo ele tenha sido utilizado substituído por cinzas, pó, poluentes e derivados químicos do processo de combustão. Vamos admitir também que todos os demais recursos tenham sido completamente utilizados no mesmo sentido, isto é, que se tenham tornado inúteis para nós. 

Para lidarmos com esse horror, devemos ter em mente duas coisas.  Primeiro, há boas razões para se acreditar que novas fontes de energia serão descobertas ou inventadas ao se esgotarem as atuais.  Não há razões para presumir que esse não será o caso.  A raça humana passou da idade da pedra para a idade do bronze e para a do ferro.  Quando as fontes de carvão foram esgotadas, foi usado o petróleo.  Depois do petróleo, haverá outras fontes de energia, possivelmente nuclear. Ignorar esse fenômeno tecnológico seria distorcer a questão de forma desanimadora. 

Em segundo lugar, temos de ter em mente que a fonte direta e indireta de toda a energia é o Sol.  Ele é a fonte de todos os tipos de energia usados atualmente e será a fonte de quaisquer que sejam os tipos de energia que nossa tecnologia possa produzir no futuro.  Mas o próprio Sol não vai durar para sempre.  Quando ele se for, a humanidade acabará, a não ser que estejamos tecnologicamente avançados o suficiente para, ou reenergizá-lo, ou nos mudarmos para outro planeta com um sol jovem.  Se vamos ter uma tecnologia competente para conseguir isso quando chegar a hora, dependerá das escolhas que estamos fazendo agora.  Se explorarmos os recursos da Terra, os usarmos, encontrarmos substitutos para eles, aprendermos com essa exploração, nossa tecnologia continuará a se desenvolver.  Se não o fizermos e formos motivados pelo medo, se não tivermos fé em nossa habilidade de responder aos desafios, vamos preservar os recursos que temos no presente e não mais cresceremos.  Ficaremos esperando, como ostras, que o Sol desapareça e o mundo se acabe, ignorando a tecnologia avançada que somente uma população maior e uma maior exploração dos recursos da Terra tornam possível.

  

[1]No original, wastemaker.  Waste, no contexto ecológico, tem duplo sentido, significando tanto o desperdício de recursos na produção de mais unidades do mesmo produto do que seriam necessárias se fossem mais duráveis, quanto o lixo (poluição) que constitui o produto ao final de sua vida útil.  (N.T.)

[2]Packard, Vance.  Waste Makers, David McKay, 1960.  (N.A.)